A indefensável das gentes


Quem tem mais de 20 anos, cresceu com os gritos de Galvão Bueno, “sai que é suuuuuua, Taffarel”.

Quem tem um pouco mais que isso, e é do Rio, sabe que a sina de gritos longos chamando goleiros vem de um pouco mais longe que isso. Uma das lembranças mais antigas que tenho é de meados dos anos 80, ouvindo futebol na Rádio Globo, com a narração de José Carlos Araújo, o “Garotinho”, e ele cantando o nome de dois grandes goleiros.

De um lado, o meu favorito, por muitos anos o melhor goleiro que conheci. “Acáááááááácio!!!!”, gritava o Garotinho, a cada defesa difícil. Principalmente penaltis, especialidade da casa. Penalti contra o Vasco, eu não temia o gol. Me preparava para ouvir o nome do meu goleiro, e vibrar junto com ele.

Mas, do lado de lá, tinha outro grande nome. Grande no tamanho, grande no talento, grande no número de vogais boas pra esticar. “Zééééééé Caaaaaaaaarlos!”

E como eu detestava o Zé! Em dias de Vasco x Flamengo, então, aquele maldito agarrava tudo!

E que jogos eram aqueles, meus amigos! De um lado, Donato, Mazinho, Dunga, Bismarck, William, Geovani, Mauricinho, Roberto Dinamite. Do outro, Aldair, Mozer, Jorginho, Leonardo, Andrade, Adílio, Zico, Zinho, Renato Gaúcho, Bebeto. E muitas vezes, acreditem, com esses craques todos, o jogo acabava com pelo menos um zero no placar. Por culpa dos dois monstros que vestiam as camisas 1.

No clássicos jogados na minha mesa de botão, o duelo continuava. “Acááááááácio”, gritava eu. “Zéééééé Caaaaaarlos”, respondia meu adversário.

Por ironia da vida, a minha grande lembrança do Zé dentro de campo não vem de uma grande defesa, de um jogo em que ele fechou o gol. Vem de uma final de carioca, onde ele levou um gol lindo de um moleque baixinho e atrevido que estreava pelo Vasco naquele ano, um tal de Romário.

Zé Carlos e Acácio estavam na Copa de 90, no auge das suas carreiras. Em 89, o Acácio era titular, o Zé reserva. E tinha um garoto, lá de Santa Rosa, chamado Claudio André Taffarel, que completava o grupo. Às vésperas da Copa, o Zé se machucou, o Acácio caiu em desgraça com o Lazaroni por um jogo ruim contra a Dinamarca, e o garoto foi para o gol da seleção, de onde não mais sairia, pela década seguinte. E nem Acácio nem Zé Carlos voltaram a ter chances reais depois disso.

O tempo passou, os dois se aposentaram, foram viver suas vidas. O Acácio jogou em Portugal, depois voltou para o Rio, foi ser treinador de goleiros. O Zé passou pelo América, quando seu amigo Jorginho foi treinador. E depois não ouvi mais falar de nenhum dos dois.

Tive notícias do Zé há umas três semanas atrás, por uma conhecida em comum, que me contou que ele estava mal, lutando contra um câncer agressivo. E foi então que soube algo que apenas suspeitava: que o Zé também era grande no caráter, no coração, no carinho que despertava naqueles que conviviam com ele. A torcida foi forte, eram vários Maracanãs torcendo para ele vencer mais esse adversário. Mas o outro lado era forte demais. Na última sexta feira, o Zé se foi. Tinha apenas 47 anos.

(E impossível nessas horas não pensar como a vida é breve, e como às vezes a gente perde tanto tempo com coisas pequenas, deixando de viver tudo que pode ser vivido.)

No domingo, ao final do jogo do Flamengo, o técnico interino Andrade, em lágrimas, dedicou a vitória rubro-negra ao Zé. Não vou mentir, e dizer que torci pelo Flamengo. Mas, ao menos por essa vez, eu não senti, numa vitória deles, uma derrota minha. Um lado meu ficou até feliz com o resultado. Eles ainda têm muitos jogos pra perder daqui pra frente – e lá estarei para torcer contra. Mas não lamento que tenham vencido esse. O Zé merecia isso. E o Andrade, outro sujeito do bem, merecia igualmente.

Vai com Deus, Zé Grandão.

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One Response to A indefensável das gentes

  1. Carol Linden disse:

    o senhor se incomoda em entrar em contato?

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