O triunfo da vontade


Quando o suíço Roger Federer e o sueco Robin Soderling subiram à quadra Philip Chatrier, a principal do complexo parisiense de Roland Garros, havia uma sensação algo indefinível no ar. A maioria dos que assistiam sabia que algo ia acontecer ali, algo importante, inesquecível. Uma página da história do tênis ia ser escrita. Mas qual página seria?

De um lado, Federer, o número dois do mundo. Ganhador de 13 grand slams, a um de igualar o record do americano Pete Sampras. Desses treze, nenhum foi em Roland Garros. Federer carregava, até domingo, três vices seguidos no torneio francês, todos eles sendo derrotado por Rafael Nadal. Este ano, Nadal perdeu nas oitavas, e o caminho parecia aberto para o triunfo de Federer. Uma vitória, além do título inédito, e do record de slams, lhe daria o “career slam”, se juntando a um seleto grupo onde estão apenas cinco outros tenistas, de todos os milhares que já jogaram algum torneio ATP. Além disso, Federer reduziria a diferença para Nadal no ranking ATP, e daria um passo enorme para recuperar o posto e número um do mundo, ainda esse ano.

De outro lado, Soderling. O semi-desconhecido gigante nórdico, de 1,92m, que nunca havia chegado a uma final de grand slam. Um franco-atirador, que prometera vencer Nadal e cumprira a promessa.

Federer chegava à final, depois de alguns sustos contra adversários teoricamente mais fracos. Soderling chegava a final, vencendo três jogadores mais fortes que ele. Federer estava prestes a completar sua jornada triunfal. Soderling estava pronto para fazer uma campanha como a do primeiro título de Guga no saibro parisiense, a zebra que acabou campeã.

Federer e Soderling já haviam se encontrado nove vezes, com nove vitórias do suíço.

Para que lado os deuses da bolinha se inclinariam? Para a consagração do melhor do mundo ou para a apoteose do herói desconhecido? Qual seria o arquétipo triunfante? Teríamos a vitória do guerreiro que enfrentou dragões, passou por todas as provas de evolução, e agora estava pronto para a taça? Ou a superação do herói romântico, que não conhece o caminho, luta contra perigos maiores que a vida, e sai triunfante da última batalha?

O primeiro game foi nervoso. Soderling sacando, Federer devolvendo, os pontos se alternando, até Federer quebrar o serviço do adversário. O clima era totalmente de final de grand slam. Equilibradíssimo, tenso, com poucos primeiros serviços entrando. Seria esse o tom do jogo inteiro? Cinco horas de quebras trocadas e pontos disputados?

Federer sacou no segundo game. 15, 30, 40, game.

Soderling voltou a sacar, e tivemos mais um game equilibrado. E mais uma quebra de Federer.

Federer sacou de novo. Um, dois, três, quatro. 4-0.

Se o jogo fosse de futebol, de basquete, estaria mais que ganho. Se fosse uma corrida de F1, o suíço estaria perto de dar uma volta no segundo colocado. Mas é tênis, amigos. E mesmo uma bicicleta (que não veio, o set terminou 6-1) valeria apenas um set, nada mais que isso.

A piada é óbvia, mas obrigatória. Se, no primeiro set, dava pra dizer que Federer “só faltava fazer chover”, no segundo nem isso faltou. A chuva deu as caras em Roland Garros, porque até ela queria assistir aquele jogo. O set começou nervoso, com um imbecil invadindo a quadra. Federer nitidamente perdeu a concentração a partir dali, começou a errar muito, e deixou Soderling entrar no jogo. Os games foram se alternando, até um empate em 6-6 e o tie break.

Lembrei de novo do que pensara no final do primeiro set. Tênis é assim. Federer dominou o jogo até ali. Um banho no primeiro set, e no segundo, apesar de não quebrar vez nenhuma o saque do sueco, tinha feito quase o dobro dos pontos do adversário. E daí? Se Soderling vencesse o tie break, o jogo ficaria empatado 1-1 e de nada valeria toda a superioridade do suíço.

Mas o tie break serviu para mostrar porque Federer é Federer. O suíço foi simplesmente monstruoso. Quatro saques, quatro aces. Simplesmente inacreditável. Somando a isso três quebras de saque, Federer fechou em 7-1, vencendo o segundo set.

O jogo acabou ali. O terceiro set foi apenas pra cumprir tabela. Era questão de tempo, e a emoção começava a tomar conta. De Roger, de Mirka, e de todos os fãs que passaram anos aguardando aquele momento. Federer se soltava, usando e abusando dos slices e drop shots. Soderling, conformado, ia dando a luta que conseguia dar.

E a hora ia chegando. A hora da consagração. A hora de Roland Garros. A hora do record. A hora do career slam.

A hora da estrela.

Match point.

O saque. A devolução. Federer de joelhos. Chorando. E nós, aqui desse lado, reagindo cada um a seu jeito, cada um com sua maneira de viver aquele momento, tão aguardado e que jamais será repetido. Posso falar por mim: eu não cabia aqui dentro. Pulava, andava, gritava, não dizia nada coerente. Quase chorava quase rindo, a voz embargada e o grito não saindo do fundo da garganta.

Foram minutos inesquecíveis.

Teria sido tão gostoso se essa vitória viesse fácil, em 2006? Não, não seria. O sofrimento desses três anos fez o triunfo de agora valer muito mais. Roger enfrentou todos os dragões para ganhar o direito à mão dessa francesinha caprichosa. E nós enfrentamos isso tudo junto com ele, do lado de cá. Também temos direito a um pouquinho dessa festa de agora.

Na hora da premiação, tivemos um Soderling extremamente simpático e conformado. Ele sabe que entrou para a história. “Eu perdi dez, mas não vou perder onze” e “eu sei que perdi para o melhor de todos os tempos” foram duas das frases que ficaram. Federer não conseguiu dizer nada coerente. O que não é de se estranhar. Se eu não conseguia, quanto mais ele… E ter Andre Agassi entregando o troféu foi algo maravilhoso também. Agassi, o último tenista a fazer o career slam, Agassi, que também sofreu para vencer Roland Garros, e ali conquistou seu career slam, há exatos dez anos. Uma verdadeira passagem de bastão.

Nós, fãs do tênis que vivemos esse dia, somos uns privilegiados. Daqui a anos, a gente pode dizer que estava ali, que viu esse momento acontecendo. De alguma maneira, fizemos parte disso tudo. E eu, particularmente, adoro estar incluído nisso.

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