Quando a bola é pequena e amarela


A frase da semana foi “a única coisa garantida é que a Lucy sempre vai tirar a bola”. Faz parte da sua natureza. Essa frase me ficou na cabeça o resto do fim de semana, por vários motivos. E no domingo, ela se fortaleceu ainda mais, porque ganhou um novo sentido. Oitavas de final de Roland Garros, Rafael Nadal enfrentava o sueco Robin Soderling. Jogo tranquilo para o espanhol, que jamais perdeu um jogo sequer no saibro, em torneios melhor de cinco sets. Por tudo isso, nem me esforcei em ver a partida inteira. Preferi me guardar para quando o carnaval, ou melhor, a final chegasse.

Estava no carro, quando ouvi no rádio a parcial: Soderling fechara o terceiro set e vencia por dois sets a um. Voltei pra casa, a tempo de pegar o segundo game do quarto set. O sueco, jogador apenas mediano, teve seu dia mágico, talvez impulsionado pela inimizade que tem com Nadal. Tudo deu certo para Soderling, e Nadal sentiu falta de um repertório mais variado. Eu até gosto do espanhol, aprecio sua raça, seu jogo de defesa, mas tecnicamente ele tem um defeito sério: só tem uma jogada. Geralmente, quase impossível de ser marcada. Mas, quando ela não entra, ele não varia, continua agindo como o touro. Marra, marra, marra, porque não sabe jogar de outra maneira.

Ontem foi o dia do toureiro. Final: Soderling 3×1 Nadal.

Se fico feliz com a derrota de Rafa? Não especialmente. Repito, não tenho nenhuma antipatia contra o espanhol. Ele é um bom jogador, uma força física e mental impressionante, um cara legal, non?, que não tem culpa dos fã-náticos que o colocam num estágio acima do que ele é. A diferença dele para o Federer é aquela que existe entre um ótimo jogador e um fora de série.

E acho engraçado quando alguns dos fãs dizem que Nadal “tem raça”, enquanto Federer “é frio”. Parece que, para muitos, a paixão só existe quando é demonstrada, exibida, exposta como um nervo. Só conta como paixão se a toalha fica manchada. Não entendem que, para um certo tipo de pessoas, um punho fechado que mexe dois milímetros é um gesto que significa muito. Parece que se você grita, balança, exibe, você tem raça, amor e paixão. Agora, se você é contido, discreto, reservado, é porque não sente. Mesmo que você quebre raquetes, chore, vibre calado com cada fibra do seu ser, sem para isso precisar chamar a atenção de todo mundo, gritando “vejam como eu sou emotivo, passional”.

Federer é assim, na personalidade e no estilo de jogo. O que Nadal tem de exagerado, Federer tem de preciso. Se o espanhol cativa pela maneira como se joga em bolas perdidas, defendendo algumas que parecem impossíveis, o suíço impressiona pela maneira como simplifica o difícil, fazendo jogadas lindas com um ar blasé, parecendo que jamais vai despentear um fio de cabelo. Nadal é cabelo rebelde, roupa colorida e faixa na cabeça. Federer é clássico, elegante. O que em Rafa é fogo, em Roger parece gelo – naquela fina camada superficial, a única que pessoas superficiais enxergam. Eu gosto dos dois, me identifico com os dois, sou capaz de vibrar com os dois. Mas prefiro, de longe, Federer. Como jogador e como pessoa. É o cara que diz que prefere ser lembrado para sempre como um jogador honesto, porque isso é mais importante do que ser um campeão. E ele é ambas as coisas. Um modelo de integridade, de discrição, de caráter. E o melhor tenista de sua geração.

Por isso, não, não festejo as derrotas do Nadal, como aconteceria em outros esportes. Eu fico feliz com as vitórias do Federer, isso sim. Ah, mas o Nadal perder, ainda mais em Roland Garros, não é bom para o Federer? Não facilita o seu caminho rumo ao career slam?

Pois é. E aí chegamos ao parágrafo que abre o post.

Roger Federer é o maior tenista da sua geração. Para muitos, o melhor de todos os tempos. Para este que escreve, no mínimo, o melhor que ele viu jogar. O saibro é seu ponto menos forte, Roland Garros a pedrinha no sapato. Federer vai a caminho de ser o maior vencedor de Grand Slams de sempre. São treze (cinco em Wimbledon, cinco US Open e três Australian Open), quase chegando no record de Pete Sampras (14). Assim como Sampras, Federer nunca venceu Roland Garros. É apenas isso que lhe falta para ser o sexto tenista na história a fazer o career slam, ou seja, ter em casa os troféus dos quatro grandes torneios de tênis.

Só falta ganhar um Roland Garros. Essa é a pedra de Federer. E, claro, essa pedrinha se confunde com outra. Não dá pra falar de RG sem falar de RN. Nadal venceu os últimos quatro RG, três deles sobre Federer. Por três vezes, Roger teve nas mãos a chance de vencer RG, e nas três vezes caiu perante Nadal.

Se não fosse Roland Garros, e a obssessão do suiço em conquista-lo, haveria uma rivalidade tão grande (e respeitosa, diga-se) entre Federer e Nadal? Não sei. Mas a verdade é que em 2006 e 2007, o que se viu no circuito foi um domínio total de Federer, que ganhava 99 jogos e perdia aquele único que lhe importava, a final de RG. Em 2008, Federer lutou bravamente contra uma mononucleose, jogou RG sem condições, e mesmo assim chegou à final, sendo mais uma vez batido por Nadal. Federer não sabia mais o que fazer para melhorar seu jogo no saibro. E em 2008, atormentado por contusões, viveu seu ano mais difícil. Não apenas não venceu no saibro, como também perdeu Wimbledon (logo Wimbledon, na grama!!!) para Nadal, em um jogo épico. Os fãs do espanhol deliraram – nos dois sentidos da palavra. Para eles, a vitória de Nadal, e sua consequente subida a número 1 do ranking, “provava” a superioridade do espanhol. O reino de Roger tinha terminado, viva o novo rei.

Mas Federer é guerreiro, e sua recuperação em 2009 vem sendo brilhante. Jogando no limite, entre lágrimas e raquetes quebradas, o suiço foi premiado com a vitória mês passado, derrotando Nadal no saibro de Madrid. E chegamos a Roland Garros. De novo, o torneio mais importante do ano. De novo, a chance de vencer RG, bater o record de slams, e ganhar o career slam, tudo de uma vez.

Mas, para isso, tinha uma pedra no meio do caminho. Uma pedra chamada Rafael Nadal. O touro miúra, o rei de Roland Garros, o imbatível Rafa, o super-homem do saibro. Enfim, o cara.

E o cara perdeu, nas oitavas, para um sueco meia-boca. Melhor: Djokovic, número 3 do ranking, também caiu nas oitavas. O caminho está aberto para um desfile triunfal de Roger Federer rumo ao seu trono. A fiel Paris aguarda seu imperador.

Ou, dizendo de outra forma, Lucy está segurando a bola e dizendo “é só você chutar, Charlie Brown”.

E Roland Garros 2009 virou um “do or die“.

No cenário 1, Roger Federer vencerá Roland Garros, ganhará o career slam, igualará o record de slams, talvez o bata em Wimbledon, e se tornará o maior tenista de todos os tempos nos números. Os fãs de Nadal vão chorar, dizendo que ele só ganhou porque não teve que passar pelo espanhol. Os fãs de Federer, secretamente, pensarão o mesmo, mas não vão admitir. Para a história, ficará o título, ficarão os records. E a torcida de que, em 2010, Federer ganhe o bi, em cima de Nadal. Como bônus, em agosto Federer volta a ser o número 1 do mundo, ampliando ainda mais o record que já é dele, de passar mais tempo como dono do posto.

No cenário 2, Roger Federer perderá Roland Garros. Ou tropeçará antes da final, ou vai ganhar mais um vice, perdendo o título, provavemente para Gonzalez. Em qualquer dos casos, por mais que seja um resultado normal de jogo, terá que conviver com o discurso do “amarelou”, do “vice de novo”. Rios de tinta serão gastos para explicar o bloqueio mental do suíço, e de como ele sentiu o peso da responsabilidade depois da eliminação de Nadal, etc, etc. E, por motivos que não vem ao caso agora, eu acho que uma derrota nessas condições será, verdadeiramente, o fim da era Federer.

Eu queria estar mais confiante. Queria dizer que “não vou perder essa final de Roland Garros por nada”. Mas não consigo. Tenho medo da Lucy. E vou torcer para o imperador, jogo após jogo, passo a passo.

PS: Você, caro leitor, lembrou do texto sobre a Copa do Brasil? Pois é, lembrou bem. Meça meu receio por uma derrota prematura do Federer por isso: até domingo de manhã, eu pretendia usar essa metáfora da Lucy na quinta feira, depois da (possível? provável?) eliminação do Vasco. Afinal, é Copa do Brasil, eu tenho medo de acreditar demais (mas acredito), conto com o pior (mas secretamente espero o melhor), etc, etc. Porém, apareceu algo que me dá um medo ainda maior de acreditar…

PS2: Responda rápido, blogueiro: se você tiver que escolher, prefere ganhar Roland Garros e perder a Copa do Brasil, ou ganhar a Copa do Brasil e perder Roland Garros? Melhor nem pensar nisso. Os deuses da bola, grande ou pequena, branca ou amarela, não vão me pregar essa peça. Ou vão? Pra que eu pergunto?

PS3: Roger Federer é conhecido lá fora como “The Emperor”, O Imperador. Primeiro e único. Dos outros usurpadores desse apelido, melhor nem falar. A torcida do Vasco faz isso melhor que eu, dizendo tudo que precisa ser dito, em apenas dois versos. 🙂

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