Mais um ano de racismo nas universidades do Rio


O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro voltou atrás e suspendeu a liminar que havia concedido semana passada, acabando com o “sistema de cotas” aplicado pelas universidades do estado. A decisão do TJ, provocada por uma ação direta de inconstitucionalidade proposta pelo deputado Flávio Bolsonaro (PP), havia dado um alento aos que defendem a democracia e criticam o racismo implícito nesses sistemas ditos de “discriminação positiva”. Porém, as universidades fluminenses usaram a tese do “fato consumado”, e o TJ-RJ suspendeu a liminar, cedendo às ameaças de cancelamento do vestibular 2009.2. Agora, a hora é de prosseguir a luta e não deixar que o lobby cotista faça com que a decisão do tribunal seja engavetada.

É triste saber que no Brasil, no século XXI, ainda exista quem apóie esse tipo de lei racista, ainda haja quem pense ser correto a cor da pele de uma pessoa ser um critério válido para decidir alguma coisa. É revoltante ver na televisão “líderes do movimento negro” defendendo abertamente o direito ao “privilégio que a nossa raça conquistou”. É difícil compreender que pessoas esclarecidas achem normal (pior, “positivo”) carimbar na ficha de uma pessoa a sua raça, colocar junto ao seu nome uma estrela amarela, e a partir daí decidir se ela é digna de uma “discriminação positiva” ou não. É um desrespeito a todos aqueles, brancos, negros, indios, asiáticos, que lutaram pelo sonho da igualdade racial, que tanto fizeram para diminuir a discriminação, e que vêem agora essa mesma discriminação ser coroada como lei. Pior que isso, ser uma lei defendida até por  uma parte dos que tanto já s0freram antes com outros tipos de racismo.

Alguns negros (graças a Deus, pela minha experiência pessoal, são a minoria) defendem as cotas com uma justificativa “lei de Gérson”. Algo tipo “a gente já sofreu tanto, agora é hora de levar vantagem em alguma coisa”. Descontando a imoralidade do pensamento, descontando o fato de que dois erros não fazem um acerto, ainda sobra um detalhe importantíssimo. Eles não notam que as cotas, aparentemente um benefício para os negros, são na verdade mais um ato de racismo contra eles. O discurso implícito é “coitadinhos, eles são inferiores, não podem competir em igualdade de condições, nós temos que ajudar os pobrezinhos”. E quem se beneficia desse sistema aceita, pra levar vantagem, ficar nessa posição de coitadinho, de inferior. Eu não aceito que o negro seja inferior ao branco, ou vice versa, e por isso não posso aceitar como justo um sistema que pregue o contrário.

Eu fico pensando em todos aqueles, negros, índios, pobres, que lutaram, que se esforçaram, que conseguiram vencer sem precisar dessa ajuda paternalista, quanto eles não devem se revoltar ao ver isso. E o quanto não deve ser terrível para eles, depois de todo o sacrifício, terem que enfrentar agora um preconceito ainda maior, já que ninguém vai saber se eles foram ou não beneficiados pelas cotas.

O sistema de discriminação “positiva” aplicado pelas universidades do Rio de Janeiro separa 45% (quarenta e cinco por cento!!!!!) das vagas para as “minorias beneficiadas” – no caso do RJ, não são apenas negros que tem direito às vagas, mas também índios, portadores de deficiência, alunos de colégios estaduais e filhos de policiais mortos em serviço. Uma em cada duas vagas, arredondando, é destinada a integrantes desses grupos que não tenham nota suficiente para passar. Na prática, isso significa que, se você se enquadrar nas cotas, pode ser aprovado no vestibular fazendo metade dos pontos de alguém que não se enquadre. Dá pra aceitar algo assim?

Além de promover o racismo, esse sistema ainda contribui para um sucateamento do ensino público superior, ao fazer com que pessoas totalmente despreparadas cursem a universidade. O reitor da UERJ diz que as coisas não são bem assim, porque “há uma nota de corte exigida”. Ah, tá. Isso me tranquiliza. E que nota é essa? Diz o reitor: “para o cotista entrar, ele tem que tirar no mínimo 2 na prova e alguns não conseguem atingir essa marca”. Pois é. 2. Ficamos sabendo que, para o reitor, tirar DOIS numa prova é uma exigência extremamente rígida, capaz de filtrar quem pode ou não pode frequentar a UERJ. Fico pensando como os alunos da Uerj se sentem ao saber que estudam em um lugar onde DOIS é considerado uma nota suficiente para estar na média, onde o padrão de exigência do reitor define que só são aceitáveis alunos capazes de tirar DOIS. E como podemos confiar em um profissional que se formou em uma universidade onde, para entrar, é preciso superar essa barreira dificílima e tirar DOIS numa prova?

Aí os meus amigos que estudam na UERJ aparecem, revoltados. “Mas eu não entrei com dois! Eu não sou cotista!” Pois é, meu amigo. Mas quem me garante que você não é? Até segunda ordem, qualquer aluno da UERJ pode ser ou não cotista. Afinal, 45% deles o são. Aí, o meu amigo responde: “Não, eu não sou cotista. Não estou dentro dos grupos que tem direito a cota.”

O outro me conta que o filho dele tentou vestibular pra UERJ e não passou. Eu, que conheço essa história toda, comento, “que coisa, ele não conseguiu tirar dois na prova?”. E o colega me responde: “ah, não, isso é a nota dos outros, pro meu filho a nota de corte era maior, ele não tem direito a cota”. E ele sabe que o filho dele ficou fora da universidade, porque sua vaga foi parar nas mãos de alguém a quem foi exigido apenas uma nota dois.

E pensar que ainda tem gente que não vê nada de errado nisso, que aplaude esses absurdos, e que acha que racistas são os outros…

Mas, ainda citando o reitor da UERJ, o sistema de cotas é um sucesso. Mas… como assim? O que o senhor magnífico reitor entende por “sucesso”?

“- Os cursos de medicina, direito, odontologia e jornalismo, por exemplo, ficaram mais negros. Sem as cotas, a maioria dos alunos era branca.”

Claro. E o racista sou eu.

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