Lágrimas e absurdos


Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem perfeitos

Campeonato de 2007. Depois de várias decisões polêmicas da arbitragem, o clímax vem aos 45 minutos do segundo tempo da decisão. Dodô faz o gol do título alvinegro, e o árbitro o anula, por pretenso impedimento. Além disso, expulsa Dodô. Nos penaltis, abalado psicologicamente e sem seu melhor batedor, o Botafogo é derrotado. Fica o gosto da injustiça. Isso é futebol, dizem, e essas coisas acontecem.

Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
(…)
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama

Campeonato de 2008. Na final da Taça Guanabara, Botafogo e Flamengo se encontram de novo. O jogo. apitado por Marcelo Lima Henrique, é um dos maiores escândalos da história do futebol carioca. No final do jogo, o técnico Cuca desabafa:

“Os jogadores se desestabilizaram com o árbitro, que ficou provocando o nosso time o jogo todo. O Túlio estava chorando em campo, pedindo “me tira, me tira”. Eu não tirei e disse “fica, não vou te tirar”. Aqui, é fácil falar (que Túlio não tem condições emocionais de ser líder do time), mas acho que ele foi um herói por ter escutado tudo o que escutou e não ter sido expulso.

Espero que vocês da imprensa não fiquem dizendo por aí que aqui no Botafogo só tem choro, pois as imagens estão aí. Se eu estiver errado, retiro tudo o que estou dizendo. Não tem choradeira de perdedor aqui. Quando você entra no vestiário e vê homem velho chorando, presidente entregando o cargo, é porque alguma coisa tem.

No fim do jogo, eu perguntei ao árbitro se ele iria dormir. Ele sorriu, disse que ia dormir “muito bem”. Eu não vou dormir. (…) Se o Ibson tivesse perdido o pênalti, ele teria mandado voltar duas ou três vezes.”

Depois do jogo, a FlaPress cria o termo “chororô”, debochando das lágrimas sentidas dos jogadores do Botafogo. No jogo seguinte do Flamengo, os jogadores comemoram um gol imitando choro, debochando do adversário. E no final, depois de ganhar o bi-campeonato, os jogadores do Flamengo cantam “Mamãe eu quero”, fazendo gestos de chupeta.

Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz

E chegamos a 2009. Dessa vez, Cuca está do outro lado. “Um homem não tem honra”. Mas, sem honra, alguns se morrem, se matam. Outros, se vendem. Se não pode vencer os bandidos, junte-se a eles. E Cuca diz, ao chegar no novo clube: “Estou cansado de perder, agora quero ganhar”.

Ganhar a qualquer custo. Ganhar a qualquer preço. Quanto vale a honra? Quanto vale a alma? Depois de perder dois anos sendo roubado, agora eu quero ganhar. De qualquer jeito, custe o que custar. E o mesmo Cuca daquela entrevista de 2008, esquece tudo que passou, esquece todas as lágrimas daqueles que confiaram no seu comandante. Tudo em troca de um carioquinha. Será que isso vale mais que 30 moedas?

Você pagou com traição a quem sempre te deu a mão…

Mais uma vez, a arbitragem decidiu o campeonato. Mais uma vez, os “erros” foram a favor dos mesmos. E dessa vez, dá pra dizer que os erros foram do início ao fim. Começaram no primeiro jogo, contra o Friburguense, e foram até à decisão contra o Botafogo. Mais uma vez, criaram um campeão. E o azarado Cuca dessa vez teve toda sorte. Ganhou diversos jogos com gols em impedimento, penaltis duvidosos. Que mudança! Tudo aquilo que acontecia contra ele, acgora aconteceu a favor. A mudança de ares lhe fez muito bem.

Não escrevi nada sobre a final do carioquinha em si. Pra que? Adianta alguma coisa?

É a vitória de um Juan, fingindo faltas (e arrumando assim três dos quatro gols que decidiram as finais), dando pontapés em adversários que cometeram o crime de lhe dar um drible, e ainda os ameaçando com dedo na nuca. É a vitória de um Airton, distribuindo cotoveladas e ficando impune. É a vitória de um Williams, jogando com violência, e ainda sendo tratado como “grande marcador”. É a vitória de um Fábio Luciano, tentando fazer gol de mão, e depois debochando das regras, ficando em campo durante a disputa de penaltis.

É a vitória de um time de tradição: trapaça, roubo e armação.

Foi uma vitória daqueles que forçaram na cabeça de todos o termo “chororô”, classificando assim qualquer tentativa de comentar os fatos. Qualquer coisa que não seja a favor do Flamengo é “chororô”. Ameaçar o Simon por, uma vez na vida, ter acertado, é uma “revolta justa da nação rubro-negra”. Criticar qualquer decisão polêmica a favor do Flamengo é “chororô”. Abrir a boca é “chororô”. Dizer que o outro time jogou melhor é “chororô”. Não ser Flamengo é “chororô”. E assim, muitos calam. Por medo de passarem por “chororôs”.

(Mas é melhor ter lágrimas e honra do que nenhuma das duas.)

E, claro, foi uma vitória de todos aqueles que apóiam esse tipo de comportamento. De todos aqueles que acham que ganhar um carioquinha vale mais do que a sua honra, do que o seu caráter. Trapacear quando pode. Desrespeitar as leis. Ser malandro, esperto, macho. Se precisar, gritar mais alto. Vale mais ganhar roubando do que ser vice sendo roubado. Compensa. Ser honesto é coisa de otário. O mundo é de quem ganha, não importa como.

Para todos aqueles que se sentem vitoriosos, que se identificam com isso tudo, meus sinceros parabéns. Vocês merecem. São vitoriosos. São tri-campeões. Comemorem, gritem, façam festa. Não se envergonhem daquilo que são. Vosso é o mundo de hoje.

Mas mais parabéns ainda para aqueles, honestos, que apesar de serem Flamengo, se recusam a comemorar essas vitórias derrotas. Para aqueles que se envergonham de ver o clube que eles amam sendo símbolo de trapaça, de armação. Para os que sentem vergonha de verem o caráter de certos jogadores que vestem a camisa que eles adoram. Para os que se envergonham a cada vez que ouvem um canto que coloca na mesma frase as palavras “Flamengo” e “ladrão”. Eles são minoria, mas existem. E a tristeza que sentem hoje, vendo o seu time ganhar de forma suspeita, vale mais do que a alegria que sentem aqueles que fecham os olhos para qualquer coisa, na festa do “vale tudo, desde que eu leve vantagem”.

Ao final, Cuca dá a última espetada, falando sobre os penaltis: “Venceu o time que está mais acostumado a ganhar”.

Do outro lado, seus ex-comandados engolem a alfinetada. Eles são perdedores, claro. Cuca sabe como eles perderam em 2007 e 2008. E sabe como eles perderam em 2009. Cuca, que dividiu aquelas lágrimas, agora está do outro lado, rindo da cara deles. Cuca se acha um vitorioso. E não percebe que é o mais derrotado dos perdedores.

Você pagou com traição a quem sempre te deu a mão…

(E o Túlio vai ter mais uma fábula para contar à sua filha…)

No dia seguinte, um jornal carioca estampa a manchete: “Chora, trivice!”. Eu fico emocionado com essas manifestações de respeito e esportividade. Uma aula de neutralidade e imparcialidade jornalística. E uma prova cabal de que a FlaPress não existe, e só malucos paranóicos como eu podem pensar um absurdo desses.

Um epílogo para essa história aconteceu essa semana. O Flamengo anunciou a contratação do atacante Wellington Paulista, ex-Botafogo, que estava em campo no jogo de 2008. A reação do jogador foi bem significativa:

“Quando acordei, vi a notícia na internet, todo mundo me ligava… Fiquei desesperado. Graças a Deus deu tudo certo. Não tinha nenhuma possibilidade de eu ir para o Flamengo.”

Para Wellington, jogar no Flamengo seria “um pesadelo”. Ele estava lá em 2008. Ele sabe o que é o Flamengo. Ele não esqueceu aquelas lágrimas.

E se Cuca ainda guardou algum pedaço da sua alma, deve ter chorado ao ver a reação de seu ex-comandado. Mas, claro, chorou escondido. Porque agora ele é um vencedor, não pode mais ficar de chororô por aí.

Anúncios

4 Responses to Lágrimas e absurdos

  1. Rodrigo disse:

    bicho, é complicado demais vc generalizar o caráter de um clube e ainda desmerecer as vitórias que ele tem, a torcida que ele tem, a tradição que ele tem, baseando-se em uma efifania a partir de episódios desconexos.

  2. Magnólia disse:

    Macandrew, uma boa dica de blog

    http://quecazzo.blogspot.com/

    É de uns professores que eu tive na graduação. Realmente bons professores e exímios pesquisadores (mesmo isso não sendo suficiente para admiti-los em ministérios do meu governo. São academicistas demais, se abstém em discussões importantes, seminais eu diria, daquelas que pedem defesa de bandeira – seja ela qual for – e eu, você sabe, não acredito na neutralidade científica, não nessa seara do conhecimento. Muito pelo contrário. Acho que esse discurso termina por ser, muitas vezes, “mitologicamente” perigoso. Mas isso é outra coisa.)

    Vale a leitura continuada.

  3. Elisa disse:

    So rindo mesmo. Esses filósofos de futebol me cansam… Perdeu, perdeu. Não é nem meus time envolvido, mas eu tenho vergonha por vocês…

  4. […] eu falei aqui há algum tempo atrás, Cuca e o Flamengo se merecem. Parece que, como muitos flamenguistas disseram na época, ele […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: