Onde estavas no 25 de abril?


AS BRUMAS DO FUTURO
(Pedro Ayres Magalhães)

Sim, foi assim que a minha mão
surgiu de entre o silêncio obscuro
e com cuidado, guardou lugar
à flor da primavera e a tudo

Manhã de Abril
e um gesto puro
coincidiu com a multidão
que tudo esperava e descobriu
que a razão de um povo inteiro
leva tempo a construir

Ficamos nós
só a pensar
se o gesto fora bem seguro

Ficamos nós
a hesitar
por entre as brumas do futuro

A outra acção prudente
que termo dava
à solidão da gente
que desesperava
na calada e fria noite
de uma terra inconsolável

Adormeci
com a sensação
que tínhamos mudado o mundo
na madrugada
a multidão
gritava os sonhos mais profundos

Mas além disso
um outro breve início
deixou palavras de ordem
nos muros da cidade
quebrando as leis do medo
foi mostrando os caminhos
e a cada um a voz
que a voz de cada era
a sua voz
a sua voz

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12 Responses to Onde estavas no 25 de abril?

  1. Magnólia (por ora) disse:

    E ainda há pessoas que não enxergam a poesia – e, por associação, a literatura – como um valioso instrumento político, fértil senão na promoção de imaginação.

    As obras de ficção, como são chamadas, costumam revelar mais eficazmente que as de não ficção as dimensões ocultas da realidade. Numa famosa carta, Engels escreveu que nas novelas de Balzac tinha aprendido mais sobre certos aspectos da economia, que em todos os livros dos economistas da sua época. Poucos estudos sociológicos nos ensina mais sobre a violência na Colômbia que o curto livro de García Márquez, Ninguém escreve ao coronel onde, se não me falha a memória, não soa nem um tiro, e Batismo de fogo , de Mario Vargas Llosa, faz a radiografia da violência no Peru mais a fundo que qualquer tratado sobre o tema. E só pra ficar nesses exemplos…

    Essa música, longe de promover sono, desperta fervores, dá-me, pelo menos, a sensação de alma mutliplicada, de inquietação. Ainda não sendo essa faceta a mais concebida pelo caríssmo autor deste blog.
    🙂

    • Andre disse:

      A poesia, ou melhor, a literatura pode ser, evidentemente, uma arma política. Mas naõ deve ser nunca seu maior objetivo. Senão, vira panfleto. Datado. E caímos na análise apenas de seu valor no contexto histórico. A literatura políticamente valiosa é aquela que não o demonstra ser. O exemplo de Balzac é bom por isso. No Brasil, o Lima Barreto poderia ser lembrado. Você não percebe que está tendo uam aula de economia. Muito menos que é uma aula filtrada pelo autor. Outro exemplo é o Vinhas da Ira, do Steinbeck – livro que eu abomino politicamente, não consigo entrar nele como literatura, mas respeito como (de)formador. E dezenas de outros poderiam entrar aqui. O contra-exemplo clássico, pra mim, é o Saramago, que se perde na necessidade de enfiar goela abaixo do leitor os seus pré-conceitos todos. O que ele faz n’O ano da morte de Ricardo Reis é deprimente. Podia ser um belo livro. E me dá raiva de ver uma idéia tão legal jogada fora por ter caído nas mãos do Zé Mago.

      Como você tem tanta certeza que eu não considerei essa faceta na escolha da canção? Ou de que esta não me provoca sensações semelhantes? 🙂

      • Magnólia disse:

        Não há pelejas quando as partes compartilham premissas, certo? Pois então, concordo que nas obras de arte é preciso que ocorra algo que não pode, de modo algum, ocorrer na realidade. Qual a função principal da poesia senão ser remédio contra a sufocação promovida pelo mundo tal qual é?

        Talvez, no entanto, eu tenha uma visão mais flexível sobre o que vc chama de literatura panfletária. Nâo acho que devamos julgar a utopia, os valores éticos criados pela fantasia, em função de seu grau de factabilidade, mas, bem ao contrário, em função do seu grau de negação de uma realidade odiosa e de sua capacidade de despertar confiança na “mutação do real”. É graça a esses valores que os grandes escritores insuflam num mundo vil a consciência de que ele pode ser converter em ordem ideal. E nesta chave, caríssimo, encontra-se José Saramago.

        Realmente, compartilhamos o lastro de sensibilidade. Perdão pelo rapidez no gatilho. Dê crédito a minha pouca idade 🙂

  2. Magnólia (por ora) disse:

    Sim sim, sobre Portugal… Os cravos vermelhos deveriam ser significados novamente.

    • Andre disse:

      Um dia ainda escrevo sobre minha opinião franca (sem trocadilhos) a respeito do salazarismo, do 25 de abril e, principalmente, do 25 de novembro…

      Abril é quando um homem quiser. Os cravos têm ainda o mesmo sentido, para quem os usa junto à pele. Mas que sentido é esse? Era o mesmo sentido para todos que estavam ali? E hoje, o que significam? Politicamente, como lembrança, como peça de marketing? Não tenho as respostas. Apenas, e mesmo assim talvez, as minhas.

      Rodrigo e Fabi, bem vindos. A discussão não é tão boa quanto eu gostaria, até por falta de uma presença mais constante. Mas a gente vai se esforçando como possível. 🙂

      • Magnólia disse:

        🙂 Vou esperar pela sua opinião.

        Poderia usar jargões jocosos (hohoho) pra te treplicar, mas acho que vc entendeu sim.
        É mesmo uma apropriação muito descuidada, por vezes desreipeitosa e alienada, a que algumas pessoas fazem dos cravos vermelhos.
        Mas isso pede hermenêuticas mais complexas, né não?
        Fico por aqui feliz da vida em ver algum sinal de calor nessa página de discussão.

      • Rodrigo disse:

        Acho que a grande mídia se apropriou do sentido que os cravos refletiam na revolução e os usa agora pra vender mercadoria.

        Gostei do blog. Vou ficar acompanhando, mesmo sendo flamenguista, hehehe.

        abraço

      • Andre disse:

        Ora, Rodrigo, fique à vontade.

        Flameguistas também são bem-vindos, e podem opinar. Afinal, o freguês tem sempre razão. 🙂

        Sobre a questão dos cravos, discordo em parte. Acho que o problema aí não é uma “guevarização” da imagem dos cravos. Quem se apropria mais deles não é “a mídia”, é mais uma ala política/intelectual que se considera dona e guardiã do espírito do 25 de abril, ignorando que a única coisa que unia os verdadeiros portadores dos cravos era o fato de não haver “donos”. Mas isso é um papo comprido, que fica pra outra hora…

  3. Fabíola disse:

    que música linda! adorei o blog também
    bjus!

  4. Rodrigo disse:

    Boa a discussão do blog…

    Concordo com a Magnólia, os cravos da revolução não servem ao mesmo sentido atribuídos a eles hoje em dia.

  5. Samael disse:

    Não lembro onde eu estava no dia 25, mas no 30 de abril eu estava vendo o goleiro Ari do Icasa CHUTAR uma bola para dentro do próprio gol! A pergunta que não quer calar é a seguinte: quando é que o Vasco vai anunciar a contratação desse goleiro? 😀

  6. Rodrigo disse:

    Te falo isso porque sou português e me chocou encontrar uma camisa básica com os cravos de estampa, numa loja do Rio de Janeiro, sendo vendida por R$140,00, por uma marca de origem americana.

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