Sábado de malhação


Vasco vs Botafogo
11/04/2009

Olha, não dá sorte mexer com coisas que são tradicionais. O primeiro sinal veio na sexta-feira, que não é chamada de “santa” à toa. Eu sou super a favor de mudar tudo de errado que veio da era Eurico. mas esse é o ponto: mudar tudo errado não significa mudar tudo, só pra mostrar que mudou. As coisas certas devem ser mantidas, mesmo que sejam do antigo regime. (Sim, eu sei, pensar assim faz de mim um conservador reacionário, quase um inimigo do povo. Já estou acostumado com isso.) O Vasco, talvez por suas origens portuguesas, jamais trabalhou nesse dia. O clube ficava trancado, jogadores e funcionários de folga, tudo parado. Mas, como agora vivemos uma gestão moderna e profissional, tudo mudou, e fizemos um treino-apronto. Não se brinca com essas coisas.

O segundo sinal foi a mudança de data do jogo. Pela tabela original, o Fla x Flu seria no sábado, e o Vasco x Botafogo no domingo. A Globo quis inverter, o Vasco aceitou. Deus do céu, eles não conhecem nada da nossa história? Não sabem que a gente tem uma sorte imensa com o domingo de Páscoa? Não sabem que, de acordo com algum Instituto de Pesquisas obscuro, nós vencemos 97,6% dos jogos disputados nesse dia, incluindo aí chocolates homéricos como o 5×1 de 2000 em cima do Flamengo?! Eu sei, o jogo era contra a cachorrada de General Severiano, e a nossa escrita pra cima deles é tão monstruosa que, geralmente, basta botar 11 cones com a camisa do Vasco e a vitória é garantida. Mas pra que facilitar TANTO?

E pra que estrear um patrocinador novo logo nesse jogo, depois de 14 (QUATORZE, como nos cheques) jogos sem patrocinador, e sem derrota? Um patrocinador que é fabricante de combustível – e onde há gasolina, pode haver Fogo. Pra que, meu Deus, pra que?

Os céticos dirão que tudo isso são apenas superstições. Mas, diabos flamejantes, o jogo era contra o BOTAFOGO!!!!! Se existe UM dia no calendário em que superstições, presságios e gatos pretos devem ser levados a sério, é exatamente no dia em que se joga contra o Botafogo.

Só podia dar no que deu.

Vai um meio amargo aí, meu chapa?

Parece que eu estava adivinhando. Ainda na semana anterior falei na campanha do Vasco na Taça Rio, e de como, no Brasil, não vence o melhor, e bastaria um jogo correr mal para ir tudo pelo ralo. Foi o que aconteceu. No primeiro tempo, tivemos uma exibição deprimente, onde tudo deu errado. Tudo, tudo, tudo. So se salvou o Pimpão, que pelo menos tentava fazer alguma coisa dar certo. Todos os outros dez jogadores, sem exceção, fizeram suas piores partidas pelo Vasco. O primeiro gol, um lance do Maicossuel, genial, é verdade, mas com a grande colaboração de Paulo Sérgio e Amaral. No segundo, um contra-ataque perfeito, aproveitando o buraco deixado elo Paulo Sérgio (de novo) e pelo Leonardo. Méritos do Botafogo também, claro, que não deixou o Vasco jogar. Mas tudo que deu errado para um lado, dava certo para o outro. Os deuses foram cruéis.

Eu rezava para o primeiro tempo acabar logo. Estava vendo se realizar o pesadelo que tinha me atormentado durante a semana. O melhor time do campeonato dava uma pane, no pior dia para isso acontecer, e jogava fora o trabalho de quinze jogos em 45 minutos. Quando terminou o primeiro tempo, só 2×0, respirei aliviado. Não tinha a menor dúvida de que o jogo estava ganho. O Dorival ia acertar as coisas no vestiário, a torcida ia empurrar, e a virada viria, naturalmente. O susto era apenas a preparação de um épico.

Começou o segundo tempo, e sorri satisfeito. Ia acontecer de novo, tão certo como dois e dois serem quatro (péssima analogia, desculpem). Os doze minutos que se seguiram foram um show do Vasco. Tomou conta do jogo, partiu pra cima, vibrante, a torcida cantava como sempre. O momento era nosso. Perdemos gols incríveis, o Carlos Alberto quase fez um de bicicleta, e a história estava se escrevendo. Questão de tempo.

Até que vem um contra-ataque, mais uma falha do Paulo Sérgio. O Leonardo sai na cobertura, dá um carrinho, total e visivelmente na bola, e é expulso. Expulso num lance que nem falta foi. Expulso quando tinha jogadores do Botafogo fazendo faltas bem mais duras sem serem advertidos.

E aí eu confesso que joguei a toalha. Não pela expulsão. Mesmo com um a menos, e dois gols atrás, era perfeitamente possível uma virada ainda mais histórica. Mas eu não acreditava mais, porque nesse momento entendi exatamente o que os deuses tinham preparado para me punir. Se eu reclamo dos injustos torneios do Brasil, e uso como argumento o fato de que um trabalho de um ano inteiro pode ser jogado no lixo por causa de um jogo ruim OU um erro de arbitragem, os deuses resolveram me mostrar que pode ser pior. Podem acontecer AS DUAS COISAS no mesmo jogo.

Enfrentar o Botafogo com um a menos era possível. Mas enfrentar os fados estava além da nossa capacidade, apenas humana.

* * * * *

O terceiro gol saiu naturalmente, num chute do Gabriel. Sim, foi daqueles tais que o cara vai tentar fazer igual duzentas vezes e nunca mais vai acertar. Mas o jogo foi todo assim, pra que reclamar disso? O Maicossuel ainda fez o quarto, para a vergonha ser completa. E assim, o melhor time do campeonato está fora. Porque perdeu um mísero jogo. Pra quem gosta de futebol, é um balde de água gelada. Agora, tem gente que não gosta de futebol, gosta de circo, e deve achar isso “emoção pura”.

É difícil para as pessoas do resto do mundo acreditarem que no Brasil isso é possível. É possível um time ganhar 40 jogos seguidos, perder 1, e não ser campeão, porque o título foi dado a outro que ganhou 20 e perdeu outros 20, mas ganhou aquele último. Só nessa terra. Dizem que há um campeonato da terceira divisão do Burkina Faso que também tem algo parecido no regulamento. Mas eu duvido. Os burkas não devem ser tão selvagens e atrasados assim.

(E um dia eu ainda vou escrever porque acho que a aversão do brasileiro aos pontos corridos e a polêmica em torno do título do Sport em 1987 tem muito a ver com o caráter e a identidade do povo brasileiro.)

Dói? Pra caramba. Não pela derrota, não pela eliminação. Isso é parte do jogo. Nem pela goleada. Acontece. Dói pela sensação da injustiça. Dói pelos seis pontos roubados no primeiro turno, dói pelo jogo atípico de agora. Dói porque fomos o melhor time do primeiro turno, e fomos tirados do campeonato no tapetão. Dói porque fomos o melhor time do segundo turno, e saímos graças a um jogo horrível e um erro de arbitragem.

E dói porque o Botafogo vai todo alegrinho, rumo a mais um vice. O Botafogo vai, de novo, representar o papel do cordeiro imolado. E, se reclamar do destino que lhe cabe, terá logo a FlaPress colando nele o rótulo de “chororô”.

(E semana que vem, quando deveria estar decidindo o Carioca, o Vasco pode estar… passeando em Recife. E jogando contra o Santa Cruz. Mundo estranho.)

* * * * *

A outra semifinal? Adianta mesmo comentar? Vamos ver… Você tinha o Flamengo em campo. Você tinha o Marcelo Lima Henrique apitando o jogo. O que mais poderia acontecer? Bingo. Aquilo que acontece em todos os jogos que esse senhor apita do seu time “mais querido”. Vitória do Flamengo. Pelo menos dessa vez, o Sr. Lima Henrique soube controlar melhor suas emoções, e não saiu saltitando pelo campo como um coelhinho da páscoa, comemorando o resultado, como fez em 2007… Agora é só esperar pela sua escalação no segundo jogo da decisão.

E vamos lá, rapaziada! O campeonato…. zzz… mais charmoso… zzz… do Brasil continua! Agora, são três jogos seguidos entre as mesmas equipes. É emoção pura, meu povo! Você não pode perder! Equilíbrio total, imparcialidade britânica. De um lado, o Mengão poderosão, o mais amado do país, rumo a mais um tri da sua história triunfal. Do outro, o time dos chorões, a caminho do tri-vice. Quem irá sair vitorioso?

Me acordem quando o futebol de verdade começar.

* * * * *

Voltando a sábado, duas coisas devem ser destacadas. A primeira foi a capacidade de luta da equipe vascaína. Jogou mal? Sim, muito mal, principalmente no primeiro tempo. Sentiu o baque da expulsão do Leonardo, e não conseguiu mais dar a volta ao resultado? Também é verdade. Mas uma coisa é inegável: o time não baixou os braços em hora nenhuma. Lutou até o fim, mesmo sabendo que o jogo estava decidido, correu o quanto pôde atrás do gol de honra. E o merecia. A torcida sabe que não tem onze pelés em campo. Mas já fica muito satisfeita se tiver um grupo que pelo menos tente, até onde sua capacidade e o dia lhe permitam fazer. E isso parece que temos – o que já é um avanço considerável em relação aos últimos anos.

E o outro destaque vai para essa torcida maravilhosa. Primeiro, porque lotou o Maracanã, e mostrou a todos qual é a maior torcida-torcida do Rio de Janeiro. No sábado, 67 mil pessoas em Vasco x Botafogo, sendo 80% vascaínos. No domingo, Maracanã dividido, Flamengo e Fluminense botaram lá 68 mil torcedores. Ou seja, praticamente sozinho, o Vasco teve quase tanta torcida quanto a dupla Fla-Flu.

E, além da quantidade, vale a qualidade. A torcida do Vasco, na maioria, sabia porque estava ali, e sabia que não era uma derrota que ia fazer o sentimento parar. Não vou falar em vitórias morais, não vou ser hipócrita a ponto de dizer que não é importante ganhar. Mas existem alguns torcedores para quem a vitória vale mais que qualquer coisa, não importa o que tenham que sacrificar pra chegar lá. Vale penalti garfado, trapaça no tribunal, o que for. O que importa é vencer. Para esses, o que vale é que daqui a alguns anos o nome do seu time vai estar lá na lista de vencedores.

Eles têm uma certa razão, claro. Daqui a 50 anos, vamos ver coisas como “o tri campeonato carioca” (se é que daqui a 50 anos alguém ainda vai dar valor a um torneiozinho municipal como esse), e ninguém que não estava aqui vai lembrar como ele foi conquistado. Para quem se contenta com isso, beleza. Mas eu não troco nenhum dos títulos deles por nenhum dos meus.

Do lado de cá, existe uma torcida muito orgulhosa com o que viu nesse torneio. “Mas não é você que diz que o Carioca não vale nada?”. E não vale. Mas para o Vasco, esse ano, valia muito. Valia o resgate da sua grandeza. Foram anos muito complicados, que culminaram no rebaixamento do ano passado. Chegamos no fundo do poço. E estamos procurando a mola.

As piadas foram fortes. O Vasco era “a quarta força”. Um coadjuvante no Carioca. Tinha que tomar cuidado pra não ser rebaixado aqui também. Não passar vergonha seria uma grande campanha. Não dá pra levar a sério um time que tem Pimpão. Perdemos o primeiro jogo, em casa, contra o Americano. No segundo jogo, tivemos que escutar a torcida do Tigres do Brasil (o famosíssimo e grandioso Tigres do Brasil!!!) gritando “segunda divisão”.

E levantamos. 4×1 no Tigres, e as vitórias que se sucederam daí pra frente. A liderança do campeonato, até à penúltima rodada e os seis pontos garfados. O Vasco foi à justiça, provou que estava certo, e aceitou não parar o campeonato, como era de seu direito fazer. Usou isso como moralização, e partiu para o segundo turno disposto a ganhar na bola o que nos tinham tirado na caneta. Foram oito jogos, oito vitórias. Nos clássicos, uma goleada sobre o Botafogo e uma vitória facílima contra o Flamengo, que só não foi outra goleada porque tivemos que terminar o jogo só com oito jogadores em campo.

O Vasco provou a sua grandeza. É claro que não é um timaço, um esquadrão, longe disso. Mas é um time que honrou a camisa, que mostrou ser melhor do que qualquer outro time do Rio. E que perdeu um jogo atípico.

E a torcida reconheceu isso. Mesmo perdendo de 4×0, continuaram lá, firmes. Cantando, apoiando, até o fim. Quando o jogo terminou, os vascaínos aplaudiram. Apluausos duplos. De reconhecimento pela superioridade do Botafogo, naquela tarde-noite. E de reconhecimento ao Vasco, aos jogadores que fizeram um belo campeonato, e só não são campeões porque dão o azar de jogarem no Brasil. A torcida gritou o nome de cada jogador, um por um.

E depois saiu, ordeiramente, cantando pela rampa da UERJ. Cantando como se fossemos campeões. Cantando como quem sabia que tinha ganho coisas muito mais importantes do que um carioquinha. Tem gente que se contenta em ganhar carioquinhas, e vende a alma para isso. E tem gente que sabe o valor da sua alma e não a troca por nada. Existem torcidas que ficam caladinhas na hora difícil, mas basta abrir uma bandeira na vitória, e já tem a imprensa para dizer como ela é linda, perfeita e maravilhosa. E existem Torcidas. Que não tem mídia, que naõ tem proteção. Mas que tem coração. Um coração em forma de cruz, que bate em milhões de peitos a um só ritmo.

Ali, pela rampa da UERJ, no caminho de volta, dá um baita orgulho de fazer parte disso. E é nessas horas que a gente entende realmente o que se quer dizer quando cantamos que o sentimento não pode parar.

* * * * *

Em tempo: hoje, 21 de abril, o Estádio de São Januário comemora 82 anos.

A história da construção de SãoJanu devia ser conhecida por todos, vascaínos ou não. Sem a ajuda de ninguém, apenas com a força da sua torcida, na épica “campanha dos dez mil”, o Vasco juntou dinheiro para construir não apenas um estádio, mas “apenas” o, na época, maior estádio da América do Sul.

Enquanto isso, até hoje, depois de 82 anos, como canta a GDA, “a mulambada toda chora, não tem estádio pra jogar“…

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One Response to Sábado de malhação

  1. Samael disse:

    Esse texto me lembrou daquele ditado: “Se a vida te oferecer um limão, faça uma caipirinha”. 🙂

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