A resposta histórica


“Sem o Vasco, o futebol brasileiro não teria conhecido Pelé.”

Esta frase está inscrita em um documento exibido na Sala dos Troféus do Vasco. Mas o que uma carta faz no meio dos troféus? Pode uma mensagem escrita valer tanto como um título? Pode a palavra de um homem, representando um clube, ter o direito de estar ao lado das taças, medalhas e honrarias conquistadas pelo Vasco?

Pode esta carta ser um título MAIOR do que muitos outros dos inúmeros que lá estão?

Pode. Tanto pode que é. Mas, para compreender essa história, e entender melhor porque o Vasco é aquilo que é hoje, é preciso voltar um pouco no tempo. Oitenta e cinco anos, para sermos exatos.

*   *   *   *   *

Oitenta e cinco anos nos levariam até abril de 1924. Mas, para entendermos o contexto, é bom voltarmos um pouco mais que isso.

O Vasco foi fundado em 21 de agosto de 1898, como “Club de Regatas Vasco da Gama”. Nessa época, dedicava-se apenas ao remo. Em 1906, os clubes cariocas iniciaram o seu campeonato de futebol. Em 1915, o Vasco da Gama se fundiu com o Lusitânia Futebol Clube, passando a ter um time de futebol. Começando na terceira divisão carioca, depois subindo à segunda, em 1923 chegou à primeira divisão.

O Vasco estreava como um pequeno coadjuvante. Um time de portugueses e operários não poderia jamais ameaçar a soberania dos “grandes” do Rio.  Em 17 campeonatos, o Fluminense vencera 7, o Flamengo 4, o América 3 e o Botafogo 2 (o campeonato de 1907 está sendo discutido na justiça até hoje). Em 1922, o América tinha sido campeão, o Flamengo vice (o quarto vice de uma looooonga tradição que dura até hoje), o Fluminense ficara em terceiro e o Botafogo em quarto. Fácil perceber que o campeonato carioca era apenas uma brincadeira entre os quatro.

Só que esqueceram de avisar o Vasco. E o escândalo começou a aparecer. O time suburbano foi batendo os seus rivais da burguesia, e chegou a um famoso jogo contra o Flamengo, nas Laranjeiras, onde se jogava a última chance de tirar o título do Vasco. Nesse dia, contam as crônicas, o estádio do Fluminense encheu de torcedores dos quatro grandes, todos unidos contra o Vasco. Daí nasceu a expressão “torcida do arco-íris”, em referência às cores misturadas dos outros clubes.

Em um jogo duro, o Flamengo vencia por 3×2 até aos 44 do segundo tempo, quando Paschoal empatou a partida, resultado que virtualmente daria o título ao Vasco. O gol, legal, foi anulado pelo árbitro Carlito Rocha – o mesmo Carlito Rocha que, dois anos depois, seria eleito presidente do Botafogo. Como conta a Revista Placar, “ao término da partida, as torcidas adversárias promoveram um verdadeiro carnaval fora de época pelas ruas da zona sul da cidade, festejando a vitória dos “filhos de boas famílias” sobre o time dos ‘caixeiros, negros e analfabetos'”. Ainda como parte das comemorações, no dia seguinte, “a estátua de Pedro Álvares Cabral amanheceu com réstias de cebola e plantaram tamancos de 2m de altura na frente da sede do Vasco”.

A injustiça só deu mais forças ao Vasco. Quatro vitórias nos quatro jogos seguintes confirmaram o título. No total, foram 11 vitórias, 2 empates e apenas uma derrota, aquela derrota. O time dos suburbanos saltara da segunda divisão para um título moralmente invicto. O vice campeonato ficou (mais uma vez) com o Flamengo, iniciando uma outra tradição que dura até hoje.

A revolta da elite não tardou a se fazer sentir. Em 1924, Flamengo, Fluminense, Botafogo e América abandonaram a Liga e fundaram a AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Atléticos). O estatuto da AMEA definia quem podia ou não ser jogador de futebol, visando manter a “pureza” do esporte. A hipocrisia dos grandes clubes não os deixava dizer abertamente que a presença de pobres e negros era proibida, mas tentou afasta-los por outros caminhos. Um dos artigos exigia que o jogador de futebol não podia ser analfabeto. O Vasco reagiu a isso contratando professores que ensinaram os seus jogadores mais humildes a escrever, e passar no teste da AMEA. Com esse obstáculo superado, foi preciso inventar uma outra maneira de afastar o Vasco da Associação, ou pelo menos quebrar a sua força. Foi então que a história que contamos hoje foi escrita.

Se os clubes grandes não queriam permitir a presença de pobres e negros, se a recusa aos analfabetos não era suficiente, se eles não queriam ser abertamente racistas, o que fazer? A resposta chegou através de uma decisão da AMEA proibindo “trabalhadores subalternos” de serem inscritos pelos clubes. Só eram permitidos estudantes, operários (para permitir a entrada do Bangu, clube formado por trabalhdores de uma fábrica da zona oeste e que nunca dera trabalho aos grandes) e “trabalhadores de boa estirpe”. Foi enviada ao Vasco uma relação de profissões que “não eram condizentes com a nobreza do futebol”.

O ultimato era bem direto: para estar junto aos grandes, o Vasco precisava afastar os jogadores que tinham “profissões duvidosas”. Doze jogadores entravam nessa lista. Entre eles, por exemplo, o goleiro e motorista de táxi Nélson, o zagueiro e estivador Nicolino, o meia Bolão, artilheiro do campeonato de 23 e caminhoneiro, e o atacante Ceci, pintor de paredes. Todos os quatro negros, por “coincidência”. Os outros oito também eram negros, nordestinos ou, como diriam Caetano e Gil, “quase brancos quase pretos de tão pobres”.

Revoltado, o presidente do Vasco, José Augusto Prestes, enviou uma resposta bem clara à AMEA, no dia 7 de abril de 1924.

Esta é a carta que está em exposição na Sala de Troféus do Estádio de São Januário

“Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.

Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923.

São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias.

Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.”

A honra não se vende. Se o preço a pagar para fazer parte da elite era esse, desculpem, senhores, era um preço muito caro. No que nos diz respeito, a AMEA podia muito bem ir para o inferno sem nós.

Assim, em 1924, tivemos dois campeonatos. O Fluminense foi campeão da AMEA, tendo como vice… o Flamengo, quem mais poderia ser?, conquistando seu primeiro “tri-vice”. Outros viriam. Já no campeonato carioca, o Vasco foi bi-campeão, com 16 jogos e 16 vitórias. Em 1925, houve a paz. O Vasco se juntou à AMEA, mantendo os seus jogadores. Os brancos, os negros, os cariocas, os portugueses, os nordestinos. Todos.

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Por isso, caro leitor, quando você escutar que o time X é “o time do povo”, saiba da verdade. Saiba que lá na zona norte, em São Cristóvão, hoje Bairro Vasco da Gama, bate o coração de um clube que teve coragem de enfrentar a elite racista da zona sul e permitir que negros e pobres fossem tratados com igualdade e respeito. Saiba que, ainda antes dessa polêmica, o Vasco já tinha quebrado todas as regras do preconceito, elegendo em 1904 um negro, Candido José de Araújo, como seu presidente. Quando você for ao estádio e ouvir uma música da Guerreiros do Almirante, que diz “eu já lutei por negros e operários, saiba, eu sou vascaíno, muito prazer, jamais terás a cruz, esse é meu batismo, eu tive que lutar contra o teu racismo”, entenda de onde ela surgiu, e se emocione junto conosco.

E quando você escutar um vascaíno dizendo que luta “contra tudo e contra todos”, que está acostumado a ser prejudicado dentro e fora do campo, a ter que correr o dobro para ganhar alguma coisa, entenda. Quando vir um vascaíno aceitando a derrota como o início da próxima vitória, dizendo que “o sentimento não pode parar”, e buscando nas quedas a força necessária para se levantar, compreenda. Quando vir um vascaíno lutando contra uma injustiça, enfrentando os poderosos, falando em “família”, em “união”, não se surpreenda. Isso tudo está no nosso DNA.

Porque “isso aqui é Vasco, p*”. È a cruz que a gente carrega. Para o bem e para o mal.

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2 Responses to A resposta histórica

  1. Samael disse:

    Atenção! Obras-primas minhas estão retidas na caixa de Spam do Mitatório! Favor dar uma olhada!

  2. Gustavo Cardoso disse:

    F O D A!!!

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