Uma questão de fé


ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS DA 5ª TEMPORADA DE LOST. SÓ LEIA SE JÁ TIVER VISTO ATÉ O EPISÓDIO 5×06 – “316”.

“- Isso é ridículo!
– Pare de pensar no que é ridículo, e pense no que você acredita. É por isso que se chama um salto de fé.”

“- Todos nos convencemos mais cedo ou mais tarde, Jack.”

“- Ele está falando a verdade?
– Provavelmente não.”

Lost é uma série que transita em vários níveis. Há o nível do enredo, com as aventuras, as viagens no tempo, as teorias mirabolantes. Há o nível das referências, com o joguinho dos fãs procurando pistas, citações, números malditos escondidos na tela como o Corujito no desenho da She-Ra. E há o nível dos personagens, desde sempre o mais interessante para mim. As primeiras temporadas, com os flashbacks, foram muito ricas nesse aspecto. Depois, a história acabou seguindo outros rumos, e andamos mais presos a tentar entender o que está acontecendo, e principalmente quando isso está acontecendo. Mas, em episódios como “316”, voltamos a lembrar porque Lost é Lost. E porque ela é muito mais do que uma série sobre um grupo de sobreviventes perdido no espaço – e no tempo.

Eu sempre defendi a tese de que a teia que envolve os personagens de Lost se apóia em meia dúzia de taglines, a maior parte delas títulos de episódios. Assim como os números malditos, assim como as estações da Dharma, também essas frases montam um quebra-cabeça, um “jogo do curinga” que, reunido e colocado em ordem, ajuda a explicar muito do que está acontecendo.

A segunda temporada nos trouxe algumas das taglines mais importantes da série. Uma delas se tornou uma referência muito forte para mim, por envolver dois dos meus personagens favoritos, e por ser um belo resumo de toda a segunda temporada (e boa parte da terceira e quarta também). Falo da frase que serviu de título ao episódio 2×01: “Man of science, man of faith”.

Nesse episódio, o embate de John Locke e Jack Sheppard, que vinha crescendo desde a reta final da primeira temporada, chega ao ápice. Como diz Ana Lucia, alguns episódios depois, “Jack e Locke estão sempre muito ocupados se preocupando sobre Locke e Jack”. Jack e Locke, além do que são individualmente, representam também os arquétipos de que fala o título do episódio. Jack é o “homem da ciência”. Racional, correto, sempre colocando suas decisões por trás de uma capa de lógica e raciocínio. Tudo é possível, tudo tem uma explicação e uma solução. “I can fix it“, como ele diz mais que uma vez. Locke é o “homem da fé”. Ele simplesmente acredita, e segue no seu caminho, inabalável. Para Jack, a idéia de apertar um botão a cada 108 segundos é “ridícula”, pois não há um motivo lógico que explique isso. Para Locke, é parte do pacote. Quantas vezes vimos Locke encerrar um diálogo com alguma tirada como “a ilha quer”, ou “esta é a vontade da ilha”?

E os destinos de John e Jack, de alguma maneira, estão sempre entrelaçados. Quando Jack perde a cabeça pela primeira vez na série (episódio 1×20, “Do not harm”), é a frase que já vimos várias vezes na boca de Locke que ele grita: “Don’t tell me what I can’t do!“. O que para Locke significa superação, um desejo de controlar e de ter importância em algo, para Jack é uma pitada de desespero, por ver que está perdendo o controle sobre algo. Se Jack está sempre liderando os losties para fora da ilha, cabe a Locke fazer o mesmo movimento para dentro da ilha, em direção aos seus mistérios. Quando Jack descobre o submarino, é Locke quem o explode, com um simples e significante “Sorry, Jack“. E a lista poderia se prolongar por muitos outros encontros. Ciência, fé, fé, ciência.

Mas será que essa oposição é tão forte como parece? Não, nem tanto. Porque a verdade é que Jack também é um “homem de fé”. Ele não tem fé na ilha, mas tem fé na ciência, fé em si mesmo. “I can fix it“, ele repete, e fica doente quando encontra algo que ele NÃO pode consertar. Orgulho, Dr. Sheppard. Orgulho é o seu nome do meio. Na carreira, na vida. Uma paciente com quem ele fracasse, seu pai, seu casamento, a liderança dos losties. Jack Sheppard sempre se sente responsável por tudo, por todos. Porque só ele é capaz, só ele é responsável, só ele pode conseguir. Sempre que Jack não “pode consertar” algo, ele perde um pouco da fé. E isso o torna uma presa fácil para os demônios que o perseguem.

Na terceira temporada, Jack e Locke continuam desenvolvendo seu antagonismo, até o encontro final no episódio 3×22, “Through the looking glass”. Locke acredita na ilha, Jack continua em seu papel de Moisés, guiando os losties de volta à terra prometida. Jack vence, afinal. Mas quando vemos a última cena da terceira temporada, percebemos que algo aconteceu. Algo deu muito errado. Porque o Jack Sheppard do futuro é um farrapo humano. Degradado, desleixado, drogado. Um homem que perdeu a fé. (Aliás, aplausos para Matthew Fox, que está conseguindo passar muito bem essa reviravolta do personagem.)

E agora, em “316”, isso ficou totalmente claro. Aonde foi parar o Jack Sheppard líder, o Jack Sheppard forte, dominador? Em que ponto ele se perdeu? O que vemos hoje é um homem que é conduzido. De pastor, Sheppard virou uma ovelha. Consumido pelo fracasso, dominado pela culpa, Jack é pouco mais que um brinquedo na mão de Benjamin Linus. Logo ele, que talvez tenha sido aquele que, na ilha, menos foi enganado pelo líder dos Outros. No medo de perder a sua fé, Jack esqueceu da lição que deu a Kate lá na primeira temporada: conte até cinco e se controle.

Quando Ben mostra a Jack o quadro de Caravaggio, e discorre sobre a história de Tomé, Jack deveria prestar atenção. É óbvio que Ben está fazendo uma referência ao comportamento “São Tomé” de Jack na ilha. Ele precisou ver pra crer. E, como qualquer cético, ficou prostrado no primeiro golpe contra seu ceticismo. Ben diz que Tomé ficou famoso “pela dúvida e não pela bravura”. Jack pergunta se algum dia Tomé teve certeza, e Ben responde que “um dia todos temos”. O que Ben provavelmente está fazendo é induzir Jack a acreditar naquilo que ele, Ben, quer que Jack acredite. O que Jack deveria lembrar é que a fama de Tomé pode ter vindo da dúvida – mas, antes disso, a sua importância veio da bravura.

O bilhete de suicídio de Jeremy Bentham, perdão, John Locke é o golpe final nessa queda de Jack. O novo Jack tem medo. A culpa leva ao medo. E ele não quer saber qual a mensagem que Locke deixou para ele, sua última mensagem. Aquele Jack Sheppard de antigamente, que precisava saber de tudo, controlar tudo, opinar em tudo, ter tudo que acontecia dentro do seu raio de ação… aquele Jack não existe mais. O que temos hoje é um Jack que foge. Que joga fora a mensagem. Um Jack que tem medo do conhecimento.

Apenas uma frase, uma simples frase, que acaba de derrubar o doutor: “I wish you had believe me”. Acreditado em que? No que Locke dizia o tempo todo, ou em algo mais particular, que conversaram da última vez em que se encontraram? Saberemos isso no próximo episódio. Mas, até lá, parece que a mensagem de Locke é um recado vindo do passado de Jack: se você tivesse acreditado, tudo poderia ter sido diferente.

E é um Jack vencido que cumpre mecanicamente as ordens que recebe, colocando em John Locke os sapatos que foram de seu pai. Por que fazer isso? Locke responderia algo como “porque é assim que deve acontecer”. O novo Jack aceita isso. E é dessa forma que John Locke irá voltar para a ilha pisando nas pegadas de Christian Sheppard.

Man of science, man of faith. Quando uma falha, sobra a outra. Na ilha, hoje, temos Daniel Faraday, também ele um “man of science”. O que separa Jack de Faraday é exatamente a “abertura de mente” quanto ao que não conhece. Jack, cheio de verdades, desaba quando vê sua fé ser abalada. Faraday, por sua vez, admite que há mais coisas entre a ilha e a terra do que supõe a sua vã ciência, mas que uma coisa não faz com que a outra perca o valor. Há uma explicação para tudo, e um dia ele vai chegar a ela. Jack retorna à ilha abrindo os olhos, como fizera três anos antes. Dessa vez, ele abre os olhos como um novo homem, convertido. Dizer que “isso é ridículo”  é apenas um último protesto a que ele se obriga. Vamos ver como a ilha o receberá. Say hello to your father, Doc.

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One Response to Uma questão de fé

  1. Sam disse:

    Bah! Vocë deveria ajudar os roteiristas de Lost! Não deu para engolir o diálogo entre Locke e Jack no episódio 7. BTW, vc deve baixar e assistir “Stalker”, pois é justamente desse filme russo que os criadores de Lost tiraram essa parte de “home de fé, homem de ciência”. Vale uma conferida, eu agarantchio.

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