Under Pressure


Fluminense vs Vasco
08/02/2009

Existe algo de fundamentalmente diferente quando você vê um jogo nas cadeiras do Maracanã, e não nas arquibancadas. Pra começar, a visão é inteiramente diferente. Nas arquibancadas você vê o jogo de cima, naquilo que os especialistas chamariam de “perspectiva isométrica”. Nas cadeiras, você vê o jogo de frente, como se fosse uma televisão tridimensional. São duas experiências completamente distintas. De cima, você entende a tática, percebe o que técnicos e jornalistas querem dizer com aquelas “linhas de ônibus” (4-3-3, 4-4-2, 3-5-2), entende as mudanças do jogo. Da arquibancada, você vê um jogo de xadrez se desenrolando.

Isso, claro, quando você consegue ver alguma coisa. porque um dos efeitos colaterais de um jogo visto das arquibancadas, principalmente quando é um clássico, é aumentar muito o nervosismo de um torcedor. Durante aquelas duas horas, você é parte de um organismo, “A Torcida”. Você canta no mesmo ritmo, compartilha seus humores, e raramente consegue ver o jogo, a não ser com uma parte ínfima do seu ser, aquela parte que não está irremediavelmente perdida roendo unhas, agoniado, esperando a hora em que “A Torcida” vai pular gritando “gol” a uma só voz. Ou que vai soltar um gemido de decepção (ou, dependendo do dia, um resmungo de conformismo, tinha-mesmo-que-ser, até-que-estava-demorando), quando a bola entra na sua rede, ao invés da outra.

As cadeiras trazem uma experiência diferente. Você está na linha do campo. Só vê direito o lado mais perto de onde você está. Consegue ver a cara dos jogadores, e até acha que eles podem escutar os seus gritos. A torcida (que não parece “A Torcida” vista daqui) está acima de você, e não dentro. Para piorar, você só a ouve de forma difusa. Porque, sadicamente, tudo que você vê da arquibancada é a torcida rival, lá do outro lado. A sua torcida, ali em cima de você, separada por um bloco de concreto, fora do alcance da sua vista, não parece realmente sua. Você ouve ela cantar, mas se sente meio ridículo acompanhando. De uma certa maneira, você é um penetra naquela festa. Você não está lá no meio. Não tem direito a participar da comunhão.

Nas cadeiras, você até pensa que o futebol pode ser diferente. Ao seu lado, um torcedor do time rival. Ali na frente, um casal de namorados, cada um com a camisa de um time. Duas fileiras à frente, estão um pai, com uma determinada camisa, acompanhado de uma menininha linda, de quatro ou cinco anos, com a camisa do outro time em campo. Do seu outro lado, quatro australianas, visivelmente em seu primeiro jogo, fazem cara de “wonderful!, amazing!”, sem entender nada do que se passa. Os times entram em campo, e você aprecia aquela paz, aquela harmonia.

É quando aparece o outro time. Com a camisa 7 do rival, entra em campo aquele que até ontem era o craque do seu time. Você pensa nos seus filósofos favoritos, pensa que a vida muda, que um rio nunca é o mesmo rio, que um profissional é assim mesmo. Você compreende isso tudo durante dois segundos. Porque no terceiro está de pé nas cadeiras, gritando junto com “A Torcida”:

“Ô Leandro, vai se f… Quem tem Pimpão não precisa de você!!!”

Olho para as australianas. Gostaria de dizer que estava constrangido, mas seria mentira. Isso faz parte do espetáculo. Isso é parte do que o faz tão “amazing” para quem o vive, e tão sem graça para os outros. O futebol podia ser diferente, claro. Mas ainda bem que não é.

*   *   *   *   *

Claro, ainda sobra a parte do “nas cadeiras é mais calmo”. Você não se envolve tanto com a partida, não fica tão tenso. Duas horas depois, quando noto que detonei dois copos de isopor em pequenos quadradinhos durante a partida, vejo que talvez não seja bem assim. Ainda bem que eu não fumo.

Como fui parar nas cadeiras, em primeiro lugar? Porque cheguei tarde, porque estava sem ingresso, porque foi uma decisão de última hora. E entre ir para as cadeiras ou perder os primeiros quinze minutos do jogo, optei pela primeira alternativa. E também tinha um lado supersticioso. A última vez em que estive nas cadeiras foi exatamente em um jogo contra o Fluminense, em 2004, que vencemos por 4×0.

Ninguém que torça por outro time gosta de ver nas cadeiras um jogo, por exemplo, contra o Flamengo, exatamente por essa mistura de torcidas. Quando tem Flamengo no meio, a briga, o tumulto, a confusão, isso tudo é quase inevitável. Mas quando o jogo é contra qualquer outro time, tem um lado bonito. Mesmo com toda a rivalidade que Vasco e Fluminensne desenvolveram nos últimos tempos, por causa das atitudes da Unimed aliciando jogadores nossos, o clima entre as torcidas é de provocação amigável. Quando é assim, as cadeiras acabam sendo um território verdadeiramente neutro. Não tem a mesma graça da arquibancada, nunca terá. Mas você fica perto de torcedores dos outros times, vê as reações deles, e em nenhum momento se preocupa com segurança.

E tive o orgulho de ver a torcida do Vasco fazer exatamente o que eu queria que fizessem. Assim que os tricolores começaram a armar o inevitável corinho “ão, ão, ão, seg…”, os vascaínos, que estavam numa maioria de 3 pra 1, calaram o outro lado, com um ensudercedor “ão, ão, ão, TERCEIRA divisão”. Compreensivelmente, a torcida do Fluminense entendeu o ridículo da situação, e em nenhum outro momento do jogo ameaçou voltar com o coro. E nós, fidalgos como de costume, também respeitamos a vergonha alheia, e nos abstivemos de repetir a verdade. Sei que ainda vamos ouvir o maldito corinho muitas vezes durante esse ano. Mas deles não, ô pá!

Foi emocionante demais ver os jogadores com a faixa “o sentimento não pode parar”. E, mesmo lá embaixo, me arrepiei com os cantos da Guerreiros do Almirante. O “Meu Caldeirão” pegou de vez, mas o “De todos os amores que eu tive”, ao vivo, é algo indescritível.  A torcida, como sempre, foi maravilhosa, cantando o jogo todo, ao contrário de umas e outras, que só apóiam quando o time está ganhando. Duas das australianas mantiveram a cara de paisagem, mas as outras duas se empolgaram, e começaram gritando “Vasco!!!” a partir da metade do primeiro tempo. Quando uma delas mandou um “son of a b…” em alto e bom som para o árbitro, vi que ela realmente tinha entendido o jogo.

Durante o jogo, continuamos pegando no pé do Leandro Amaral, apagadíssimo. Foi um jogo movimentado, apesar do zero a zero, muitos lances interessantes, uma arbitragem complicada do William Nery, e o resultado possível jogando com dez. Um bom resultado, nas circunstâncias, que nos manteve na liderança do grupo e praticamente eliminou o Fluminense.

*   *   *   *   *

O segundo tempo foi muito complicado. Depois da expulsão de Alex Teixeira, logo aos quatro minutos, o time recuou e foi sufocado o tempo inteiro pelo Fluminense. Voltei a consultar os meus filósofos para tentar entender aquele jogo, enquanto continuava o processo de destruição do isopor.

E fui vendo o filme. O Vasco estava sendo sufocado, pressionado. A chuva caía com força, dando contornos ainda mais épicos à batalha. A equipe cruzmalitina raramente conseguia sair das cordas. A única vitória possível era conseguir segurar a pressão. Mais um pouco, mais um minuto, mais dez. Lutar para evitar o que parecia inevitável. Claro, a gente acreditava em um gol salvador, que caísse do céu para resolver o problema. Mas, racionalmente, qualquer um que nao estivesse envolvido como a gente estava, sentiria que essa probabilidade era remota. A vitória possível era adiar a derrota.

A pressão era cada vez mais forte. Em certos momentos, o bombardeio foi quase insuportável. Um pouco sem qualidade, é verdade, porque esse time do Fluminense não tem nem metade do futebol que acha que tem. Mas era uma senhora pressão.

Apenas com 46 do segundo tempo, a torcida do Vasco finalmente se sentiu segura pela primeira vez, e soltou o coro:

“Eliminado! Eliminado!!!!”

Acompanhei o coro, com todo o gosto. Mandar o Fluminense de volta pra casa era, sim, uma alegria que merecia ser comemorada. Mas deixei o estádio pensativo, e com um gosto meio amargo na boca. De alguma maneira, comemorar um empate me parecia um pouco fora da ordem. Claro que há atenuantes. Resistir a toda aquela pressão, conseguir passar tanto tempo sem ver sua meta derrubada, sair dali vivo, pode sim ser visto como uma vitória. Os fins justificam os meios. A gente aguenta toda a pressão, a gente espera por um gol que não vem, mas ainda assim continua lutando. Porque acredita que, se conseguir resistir à pressão, o resultado compensa. Mas de qualquer forma é estranho. E o gosto da “vitória” depois se mistura ao que se passa no durante, enquanto a chuva cai, mais mansa, sem o escarcéu de minutos antes.

“These are the days it never rains but it pours…”

Na rampa de descida, um vovô tricolor ainda tentava tirar onda: “pelo menos meu time não é de segunda”. Um vascaíno respondeu: “foi da terceira, pior ainda”. O tricolor rebateu: “foi, verdade, mas saiu de lá, vocês ainda tem que sair”. Não resisti. “Saiu graças ao presidente do meu clube. Se vocês estão na primeira, agradece ao Eurico. Bota ele de presidente honorário”. Compreensivelmente, isso matou a conversa.

Os teóricos da bola diriam que “não importa se o jogo foi ruim, o que vale são os três pontos”. No nosso caso, nem isso. Mas o pontinho valeu. Valeu a quase classificação antecipada, valeu a quase eliminação do Fluminense. E valeu algumas lições.

Update:

Quatro dias depois, uma decisão absurda do tribunal tira seis pontos do Vasco, e muda TODA a situação do grupo A. Se isso não for revertido, o Fluminense está perto da classificação, e o Vasco eliminado. Aquele discurso do “empate foi um bom resultado”, do “pontinho que valeu muito” vai para o ralo. Se soubéssemos o que ia acontecer depois, se soubéssemos que nos tirariam esses seis pontos, teríamos que ter arriscado mais, buscado a vitória contra o Fluminense, ao invés de apenas ir levando, aguentando a pressão, e pensando que um empate é uma coisa boa, no final das contas. Se soubéssemos. Mas a gente não sabe. E o meu lado filósofo fica pensando nisso tudo…

Agora, a Taça Tabajara vai ter mais uma rodada ridícula. Amanhã, os jogos definem, em parte, o Grupo A. Em parte, porque só na terça feira, com o julgamento do recurso vascaíno, vamos conhecer os classificados. Na quarta tem a primeira semifinal. E só na terça vamos saber se temos jogo ou se estamos em férias de carnaval. Aonde está o nariz de palhaço mesmo?

Isso é parte de ser Vasco. Contra tudo, contra todos. Sempre foi assim, porque mudaria agora?

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