Uma canção para ti: a alma alentejana


Uma canção para ti” foi o nome de um programa, exibido pela televisão portuguesa no ano passado. A premissa era simples: um concurso musical, onde crianças/adolescentes de 9 a 15 anos, do país inteiro, puderam se inscrever. Uma peneira rigorosa selecionou os 12 melhores, que se apresentaram nas três edições do programa. A regra de ouro: só músicas portuguesas. A primeira fase eliminou três. A segunda, mais dois. E, na grande final, os sete sobreviventes disputaram o prêmio de 25 mil euros.

O nível foi elevadíssimo. Esqueçam Famas, Ídolos, ou semelhantes. Ali, eram doze grandes cantores em potencial. Alguns deles, mais que isso, grandes cantores já agora. Mas, mesmo assim, foi fácil saber quais os três que eram apenas “bons”, e ficaram de fora na primeira noite. aí pra frente, entre os outros nove, havia os “muito bons” e os “ótimos”.

O programa parecia despretensioso, apenas mais um daqueles programas de crianças engraçadinhas cantando. Mas quando a primeira candidata, Beatriz Costa, 11 anos, iniciou o seu número… Inacreditável. Como podia se encaixar tanta voz em uma corpo tão pequeno? Bem, deve ter sido só ela, escolheram a única boa para abrir e ganhar a audiência. Mas depois veio um João, veio um Miguel, uma Diana. E os espectadores deixaram de se surpreender. Beatriz continuava sendo a melhor (ou pelo menos uma das duas melhores), mas estava longe de ser a única boa candidata.

O décimo candidato foi um rapaz chamado Luís Caeiro. Alto, magro, vestido de preto, com um nariz chamativo. Uma figura. Quando abriu a voz para a entrevista, deu pena. Uma voz estranha, um sotaque interiorano carregado, típico do Alentejo, uma das regiões mais rurais de Portugal. O rapaz não teria a menor chance. Quando ele anunciou a música que ia cantar, tive ainda mais pena. O “Fado do 31“, popularizado por Rodrigo, um fadista com voz e cara de marinheiro, decididamente não era a melhor escolha para alguém com aquele timbre de voz. Coitado.

Quando ele começou a cantar, quem ficou mudo fui eu.

A voz é outra. O “Fado do 31” parece feito para ele. O garoto meio estranho, meio tímido, dá lugar a um fadista completo, que modula a voz, manipula a música como quer, e ainda tem presença de palco para chamar o público. “Ah, fadista!”, diz o apresentador Manuel Luis Goucha ao final. E é isso. “Ah, fadista!”. Luis Caeiro canta o fado como gente grande. E, claro, está entre os nove classificados para o segundo programa.

Na segunda etapa, uma semana depois, uma novidade: os candidatos vão ser retirados da sua “zona de conforto”. Na primeira exibição, cada um pôde cantar uma música na qual se sentisse à vontade. Luís, Beatriz e outros escolheram fado, alguns partiram para o pop-rock, outros para a música mais ligeira dos anos 80. Agora, os papéis eram trocados. Na teoria, cada um dos nove deveria cantar algo a que não estivesse acostumado. Na prática, nem todos tiveram que se afastar tanto daquilo que sabem fazer melhor – mas não vamos ficar de chororô. 🙂

Luis teve que cantar “Jardins Proibidos“, uma belissima canção de Paulo Gonzo. Era visível o desconforto dele, principalmente no início. Não foi brilhante como da primeira vez, mas conseguiu se sair bem.

Na entrevista depois da atuação, a apresentadora Julia Pinheiro pergunta como ele se sentiu cantando algo tão diferente do fado. A cara do Luís é indescritível. Infelizmente não tenho a imagem. Mas é uma reação meio constrangida, meio blasé. Ele está desconfortável, mas não quer ser antipático. Um sorriso sem graça, um “bem…” esticado para ganhar tempo. Até que se resolve por um “foi uma experiência diferente”. Acho que nessa hora me decidi a torcer por ele.

O último programa teve um formato um pouco diferente. Cada um dos sete finalistas fez duas apresentações. Na primeira, cantando em dueto com alguém famoso. E na segunda, uma outra música, a solo.

O convidado que calhou a Luís Caeiro foi seu xará, Luís Represas, com a música “Da próxima vez“.

Mais uma “experiência divertida”, eu diria.

Mas a apoteose ainda estava por vir. Na última apresentação, os participantes puderam voltar aos “seus” mundos. E Luís Caeiro fez uma apresentação, por falta de palavra melhor, memorável. Visitando uma música cantada originalmente pelo fadista Max, e imortalizada pela cantora favorita do Luís, Amália Rodrigues, Luís deu um recital que arrepiou todos aqueles que o estavam a ouvir. Uma apresentação com raiva, uma vingança pelas “experiências divertidas” que o haviam feito passar. Depois de duas semanas sofrendo, tendo que cantar “essas coisas menores”, essas “musiquinhas pop”, agora chegara a sua hora. Adeus, experiências diferentes. Olá, música como eu sei cantar. “Silêncio, que se vai cantar o fado”, disse ele, sem dizer. Um domínio perfeito da voz, sentimento na dose certa, aquela manipulação de emoções que faz um grande artista. Uma energia concentrada, e liberada, toda, naqueles três minutos e meio que valiam uma vida. Ao final, o auditório inteiro aplaudiu, de pé. Ah, fadista!

Lindo. Perfeito. Irretocável. Inesquecível.

Sou suspeito para falar, pois adoro essa música. Mas me arrisco a dizer que essa versão não fica nada a dever àquelas gravadas por grandes mitos do fado.

Luís Caeiro não ganhou o programa. E talvez este tenha sido o único defeito de “Uma canção para ti”. Não o fato daquele que, na minha opinião, era o melhor não ter ganho. O vencedor (falaremos dele algum dia desses) também era muito bom, e o prêmio está bem entregue nas mãos dele. Mas a falha do programa foi ter uma votação que não era feita por especialistas, e sim em um sistema Big Brother, de “ligue e vote no seu preferido”. Ou seja, quem arrecadou mais ligações, e deu mais lucro à TV, levou vantagem. Com isso, o mais engraçadinho foi o vencedor, e a bonitinha e o bonitinho da turma foram mais longe do que deveriam.

Para Luís, sobrou um “prêmio de consolação”. Na noite deste 31 de janeiro, ele está no Teatro Politeama, em Lisboa, lançando o seu primeiro CD, “Alma Alentejana”. Ao Luís, os votos de um grande sucesso. Que ele continue assim, e terá aqui um fã por toda a vida.

NEM ÀS PAREDES CONFESSO
(Letra: Maximiano de Sousa / Música: Artur Ribeiro – Ferrer Trindade)

Não queiras gostar de mim
Sem que eu te peça,
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça
Vê se me deitas depois
Culpas no rosto
Eu sou sincero
Porque não quero
Dar-te um desgosto

[refrão:]
De quem eu gosto
nem às paredes confesso
E nem aposto
Que não gosto de ninguém
Podes rogar
Podes chorar
Podes sorrir também
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso.

Quem sabe se te esqueci
Ou se te quero
Quem sabe até se é por ti
que eu tanto espero.
Se gosto ou não afinal
Isso é comigo,
Mesmo que penses
Que me convences
Nada te digo.

De quem eu gosto…

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19 Responses to Uma canção para ti: a alma alentejana

  1. Bina disse:

    Apenas para corroborar as palavras do André. Foi realmente de arrepiar. No primeiro dia, minha admiração ainda ficou dividida entre o Luís e a Beatriz. Mas a partir do segundo, não dava para deixar de se encantar com a força e a emoção transmitidas pela voz do jovem fadista alentejano. A atuação (mais do que uma apresentação e uma interpretação) de “Nem às paredes confesso” me deixa arrepiada toda vez que a vejo. Espero um dia encontrar esse cd “Alma Alentejana” para conhecer ainda mais essa revelação do fado.
    P.S. o programa todo foi maravilhoso, um ambiente bom, gostoso, apresentadores agradáveis e inteligentes como há muito tempo eu não via. Espero que saia em DVD 🙂
    P.S.2 que alma consumista que eu tenho! 😛

  2. Carol disse:

    bom, de repente o “prêmio de consolação” pode se converter em uma carreira mais sólida do que a passagem meteórica em “Uma canção para ti” – nome que me faz pensar em programas da Rádio Nacional dos anos 40. 😛

  3. Maestro disse:

    Olha, o garoto é bom, mas eu tenho que confessar uma coisa: não entendi nada da letra do Fado 31, afinal, que língua é essa? 😀 – Ah! “Nem às paredes confesso” é a melhor!

  4. Manuela Caetano disse:

    Gosto do Luis mas desculpem-me prefiro de longe o Rafel Bailão esse sim era um grande artista.

    • Andre disse:

      Manuela, eu compreendo a simpatia pelo Bailão, mas não concordo. Um “grande artista” não se faz apenas com um ar malandro e um jeito engraçado. O Rafael tem, sim, uma grande presença de palco para alguém da idade dele, e isso ajuda bastante. Não nego que tenha uma boa voz para o fado, embora não a aprecie muito. Mas tens que ver que, em algumas coisas, ele está alguns furos abaixo de outros finalistas. No último programa, sobretudo, ele desapareceu. É um garoto que pode ter futuro, principalmente pela maneira como se desenrasca em palco, mas ainda tem muito que crescer antes de chegar a ser mesmo um “futuro grande artista”.

  5. João disse:

    Como é que me posso inscrever no programa? Respondam para o meu e-mail.

  6. francisco disse:

    a que horas posso ligar para o numero indicado em rodape na televisao? respondam se nao se importarem para o meu email obrigado.

  7. Confesso que adoro ouvir o Luís Caeiro. Tenho o cd dele e já o ouvi várias vezes. Sim senhor. Deixo aqui os meus parabéns e um abraço. Nãopodia ficar indiferente. Sucessos e quero mais cd’s desta alma nobre que cada vez mais se vai elevar.Para a frente amigo. Toda a força do mundo.A tua voz é tão bela que até me fez chorar…

  8. rodrigo disse:

    depois de ter lido os comentários deixados, fiquei triste, por ver que os portugueses que aqui e postaram, não entenderem nada da canção do seu pais. Qunado chegamos a Espanha, ou Argentina, todos os cidadãos sabem dizer e sem vergonha o que é e o que não é… Mas mais uma vez provamos não saber defender e valorizar aquilo que é so nosso… aquilo que é unico… o Fado! conheço o trabalho do Luis Caeiro de perto e posso-vos dizer que é sem duvida um bom interprete… agora fadista!!! quem sabe… ainda ha muita tinta por correr. se me disserem que é uma tentativa falhada de uma imitação da Srª Dª Amalia aì dou o meu avalo e aplaudo de pé. Já assisti a alguns espectaculos onde o Luis esteve presente e lamentavelmente posso-vos afirmar que é um miudo prepotente, e de nariz empinado, que se acha o supra-sumo do que ele acha que é Fado.Por certo a culpa é mais uma vez de todos os portugueses que não entendem o que é Fado.

  9. Ines Nunes disse:

    Eu adorei o Miguel silva.
    Ele tem e-mail eu adorava falar com ele.

    Olha eu queria participar numa Cançao para ti,como?

    Mandem a dizer para o meu e-,ail:

    inezita11@hotmail.com

  10. Inês disse:

    Adorei o Luís Caeiro e adorava saber se ele tem email para puder falar com ele

  11. Inês disse:

    e gostava de saber se ainda posso arranjar o cd do luis. respondam para o meu email

  12. tania disse:

    COMO E QUE SE INSICREVE-SE PARA UMA CAÇÃO PARA TI? RESPONDAM-ME POR FAVOR EU QUERO MUITO CANTAR EU AMO A MUSICA

  13. jessica disse:

    olhem eu nao sei o numero

  14. adriana disse:

    eu adoro u luis e eu conheço no otro dia vio
    aconselho a comprarem u cd

  15. SARA disse:

    TU CANTAS MUITO BEM LUIS TU FAZES-ME CHORAR PARABÉNS KONTINUA ASSIM

  16. rosana disse:

    Nossa.Eu adorei, adorei demais o Luís Caeiro. Meu Deus! Que voz. Sua interpretação na musica Nem ás paredes confesso. Foi algo magnífico. Sou musicista, Uma boa voz não pra todo mundo. Esse rapaz tem muito talento. Parabéns. Não posso deixar de admirar os ostros candidatos, como a menina Beatriz e miguel guerreiro e Rafael.

    • Andre disse:

      Rosana,

      Bem-vinda e obrigado pelo comentário. Eu tenho minhas ressalvas ao Rafael, como já respondi a outra leitora… mas entendo quem goste. O Guerreiro, sim, tem uma bela voz, mas ao contrário do Luís, ainda é muito infantil para se saber como será mais adiante. Ainda pretendo escrever sobre os outros candidatos, assim que tiver um tempo livre.

  17. SARA disse:

    eu gosto muito de te ouvir cantar eu choro a ouvir-te cantar desculpa-me

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