Esses bois pretos…


O governo Lula pode ser acusado de muitas coisas. Mas se tem algo que não se pode dizer é que ele é “incoerente”. A coerência dos cumpanhero é algo admirável. Nesta semana, tivemos mais uma prova disso, com a vergonhosa concessão de “asilo político” ao assassino italiano Cesare Battisti.

Mas quem é Cesare Battisti, e porque seu caso é tão emblemático? Vamos a um pouco de história.

Battisti nasceu em Sermoneta, uma vila próxima a Roma. Com 17 anos, foi preso pela primeira vez, por assalto.  Solto, continuou na sua carreira, até ser novamente preso, já maior de idade, e condenado a seis anos de cadeia. Dois anos depois, Battisti sai da prisão, e se junta a um grupo cujos membros conhecera enquanto preso: os “Proletários Armados pelo Comunismo” (PAC). A partir daí, o ladrão-de-galinhas parte para vôos mais altos no mundo do crime. Entre 1976 e 1979, mata quatro pessoas (entre eles um policial, um político e um joalheiro) e ajuda na execução de outras “atividades”. Preso em 1979, Battisti consegue fugir dois anos depois, num episódio onde dois policiais foram mortos, e passa a fronteira, se escondendo primeiro na França, depois no México, e novamente na França. O governo italiano pede sua extradição. É preso pela justiça francesa, mas solto depois de protestos da extrema-esquerda gaulesa. Depois de solto, foge mais uma vez, agora para o Brasil, país onde tinha alguns amigos em boas posições. Apesar disso, é preso em 2007, quando a Itália novamente solicita sua extradição.

O processo de extradição percorre todas as instâncias necessárias. Enquanto isso, os amigos de Battisti tentam conseguir para ele o status de “refugiado político”. Para os defensores de Battisti, é válido matar um político, só porque ele é de outro partido. É compreensível matar policiais, porque eles são “agentes da repressão”. É louvável matar um joalheiro, durante uma “ação revolucionária”. Esses são os fatos que, segundo os amigos do signore Battisti, o fazem merecedor do status de “refugiado político”, por ser um assassino nobre e respeitável. Alegam que Battisti não teve “direito de defesa”, sendo condenado por “perseguição política”. E no que consiste a “limitação do direito de defesa” de Battisti? Ele foi julgado pelo  Tribunal do Júri de Milão. Condenado. Depois, pela Corte de Apelação de Roma. Condenado. A Corte Superior de Milão, condenado. No Supremo Tribunal de Justiça da Itália. Condenado. “Ah, mas a justiça italiana estava decidida a perseguir este herói da liberdade!”. Fugindo para Paris, ele foi julgado pelo governo francês, quando sua extradição foi pedida. Condenado. Apelação ao Conselho de Estado da França. Condenado. Apelação ao Conselho de Direitos Humanos da União Européia. Improcedente. Todos esses órgãos, claro, são apenas lacaios a serviço da impiedosa direita italiana. Fuga para o Brasil. Agora, nova apelação à justiça, dessa vez ao Itamaraty.

O Itamaraty nega o pedido. A extradição está resolvida. É quando, nesta semana, o ministro da, por assim dizer, justiça, Tarso Genro, dá a canetada, passa por cima do Itamaraty e do Conare, e concede o status de refugiado político ao assassino italiano, invializando assim a sua extradição. Depois de tantas perseguições contra um homem inocente, finalmente ele caiu nas mãos de almas iluminadas como Lula e Tarso Genro, que enxergaram a verdade, e libertaram o pobre homem da perseguição que ele sofreu da direita malvada.

A Itália protesta, chama o embaixador brasileiro em Roma para prestar explicações. As famílias das vítimas de Battisti, atônitas, não entendem como o governo brasileiro concedeu um habeas corpus ao assassino dos seus pais, dos seus filhos, dos seus irmãos. Se conhecessem o histórico da, por assim dizer, justiça achada na rua, compreenderiam tudo mais facilmente. Saberiam porque o advogado de Battisti é Luís Eduardo Greenhalg, saberiam quem é o Dr. Greenhalg, quem são seus clientes e quais as conexões importantes que ele possui. Conheceriam a relação dos atuais donos do Brasil com alguns colegas de profissão de Battisti. Conheceriam a história do “padre” Oliverio Medina. E saberiam que, para um governo como esse, ser criminoso não é caso de extradição. Para o Brasil, extradição é algo reservado a gente como os boxeadores cubanos que tentaram fugir da ditadura do seu país. Esses não eram refugiados políticos, não eram amigos do rei.

Saberiam que o Brasil é o país onde um agente do serviço secreto cubano é “eminência parda” do governo e uma assaltante de bancos é considerada candidata viável à presidência da República. É o país onde “lutar contra a ditadura” virou água benta, que absolve todos os crimes cometidos. É o país onde terroristas são tratados como heróis. Aqui, Battisti está entre os seus. Citando a imortal frase de Clodovil Hernandez, “boi preto conhece boi preto”.

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2 Responses to Esses bois pretos…

  1. Carol disse:

    Vc esqueceu de mencionar a pesada propaganda feita para tentar eleger um ex-sequestrador (sem trema!) para prefeito da 2a principal cidade do país…

    Ontem, no Jornal Nacional, anunciaram a possibilidade de reeleição eterna do Chavez. Eu disse pra minha mãe “daqui a pouco vão falar do Lula na Venezuela, ele precisa ir lá pegar umas dicas com o companheiro”. Começa a notícia do Lula com o Evo aqui perto de Corumbá. Eu digo “viu? ainda veio pegar o colega para descolarem group discount”. No final da notícia, vem o anúncio de que Lula vai a Venezuela. Minha mãe pergunta “você é adivinha?” e eu respondo “não, apenas estudei na Escola de Comunicação da UFRJ”.
    😉

    • Andre disse:

      Acredite, a propaganda contra ele foi muito mais pesada. Dava um belo estudo de caso.

      O pior foi que eu não apenas votei no tal ex-sequestrador, como fiz campanha declarada por ele. Só ainda não decidi se isso significa que a) eu mudei, b) ele mudou, c) o RJ está tão na m* que um ex-sequestrador drogado consegue ser a melhor opção disponível, ou d) todas as alternativas acima.

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