Onde estiveres, eu estarei lá


“Por que caímos, Bruce?”, pergunta Alfred ao jovem Bruce Wayne. “Para aprendermos a nos levantar”, completa o velho mordomo. É essa a lição que Bruce aprende. Há um tempo para chorar a dor da queda. Há um tempo para compreender o que é necessário para que nunca mais tenhamos que passar por isso. Apenas entendendo porque caímos é possível nos fortalecermos, e recuperar o equilíbrio.

“Por que caímos, Bruce?”. E sem entender que caímos para aprendermos a nos levantar, jamais nos levantaremos de verdade. Ou, se nos levantarmos, será apenas para voltarmos a cair, de novo, de novo, e de novo. Até aprendermos.

“Por que caímos, Bruce?”. Caímos graças a diretorias incompetentes (para dizer o mínimo), jogadores fracos (idem) e árbitros azarados (ibidem). Mas foi só isso? Não. Foi também por isso. Caímos porque era a hora disso acontecer. Caímos porque tinha que ser assim. Caímos porque, para crescermos nessa nova fase, precisamos aprender a nos levantar.

Numa hora como essas, muitas hienas riem da nossa queda. Paciência. Faz parte da vida. Pelo menos, o Vasco caiu de pé, caiu com honra, e assim vai voltar. Não sequestrou juízes, não manipulou papeletas amarelas, não estourou champanhe, não ouviu miados durante a noite. Não vendeu a honra para evitar o tombo. As hienas não podem dizer o mesmo.

Um homem de moral não fica no chão. Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

*    *    *    *    *     *     *    *    *    *

Algumas pessoas me perguntaram onde eu estava no dia 7 de dezembro. A resposta é simples. Eu estava onde sempre estive.

Eu estava com a camisa 10, vendo a vida passar diante dos meus olhos, sabendo que, ainda que me arraste em outros campos, estava jogando o último jogo da minha carreira. Talvez o mais importante de todos. Dramático. Melodramático. Fadista. Sabia que, para mim, não adiantava a lição do Alfred. Eu estava na queda. E não estarei, pelo menos dentro de campo, na hora de levantar. (Será mesmo que não?)

Eu estava no banco, sentado, impotente. Eu via meu time, não apenas meu emprego, mas meu time, aquele pelo qual sempre torci, numa situação daquelas, e eu sem poder ajudar. Graças a um churrasqueiro que tem as suas panelas, e não dá chance a quem não pertence a elas, por mais talentoso e dedicado que o jogador seja. Eu vi o filme passando, voltei a ver o menino que, com sete, oito anos, começou a jogar futebol de salão no Vasco. E chorei. Chorei por mim, por nós, por tudo.

Eu estava nas arquibancadas, eu estava nas cadeiras de São Januário. Éramos 30 mil sofrendo, esperando por um milagre. Eu estava ouvindo no radinho de pilha. Éramos milhões, atentos aos outros jogos que decidiam nosso futuro. Eu estava em casa, no sofá, tenso em frente à TV. Éramos dois, em silêncio, em gritos.

Eu estava com o meu time, onde quer que estivesse. E éramos um.

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Tudo isto existe, tudo isto (às vezes) é triste, tudo isto é Vasco. Eu escrevi isso há algum tempo, e repito. Uma letra de fado. E é Vasco ver Pedrinho chorando, ver Edmundo chorando. É Vasco ver a arquibancada, na hora mais triste da nossa história, gritando… o que gritavam? Xingamentos? Ofensas? Ameaças? Não. Gritando “Ah, é Edmundo!”, enquanto o próprio saía, chorando. Dizer que ele teve parte das culpas no rebaixamento é verdade. Dizer que, de novo, ele está prestes a fazer besteira e ir jogar em outro time, é verdade. Mas essa relação é algo que só um vascaíno pode entender por completo. São mistérios do fado. E é o fado que nos faz aquilo que somos.

Os meus parabéns ao Churrasqueiro. Ele fez de tudo pra rebaixar o Florminense esse ano. Depois de muito brincar no campeonato, os tricolores acordaram a tempo e se livraram da mala. Mas ele queria porque queria conquistar mais essa meta. E teve um clube otário para lhe dar essa chance. Detalhe: quando estava no Flunimed brincando, Renato ajudou times como Náutico e Santos a ganharem pontos que ajudariam esses times a ficar na frente do Vasco. Parabéns, Renato, de rebaixamento você entende: rebaixado como jogador, e agora como técnico. Vamos ver quem serão os próximos torcedores, coitados, que vão cair no papo do “eu ganho, nos empatamos, eles perdem”…

Os grandes reforços para o Vasco-2009 com certeza não são os que chegarem, mas os que saíram. Conseguimos nos livrar do Churrasqueiro, do Rodrigo Antonio (o polivalente: consegue não jogar nada em várias posições), do Jorge Luís (carinhosamente conhecido como “jegue luiz”, que entregou sozinho dez pontos e ajudou a entregar outros vinte), do chinelinho Wagner Diniz e do traíra Leandro Amaral (ambos agora em times ideais para quem, como eles, não sabe ser homem).

O Vasco não morreu. Foi ao inferno, e logo logo está de volta. “Por que tu caiu, Bacalhau?”. Simples, meu amigo: caimos para irmos buscar o único título que nos falta, um troféu que carioca nenhum tem. O sentimento não pode parar.

Duque de Caxias, Campinas, Caxias do Sul, Brasília, Ipatinga. São Januário. Não importa. Onde estiveres, eu estarei lá. Sempre ao teu lado, do lado de cá.

Incondicional.

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2 Responses to Onde estiveres, eu estarei lá

  1. Carol disse:

    Bom, será que pelo menos assim eu terei a honra de uma visita sua aqui?
    Continuo sem nunca ter assistido a um jogo de futebol. Será que Vasco x Brasiliense vai quebrar isso? 😉
    Tem um convite pra vc lá no blog. Sim, é um meme. Sim, eu sei, vc não gosta dessas coisas… de repente recebendo de mim vc aceita. Ou não. 🙂
    Bjs.

    • Andre disse:

      Vamos esperar a tabela, e ver as datas. Pode ser Vasco x Brasiliense, ou Brasiliense x Vasco, ou algum outro qualquer, depois que vc já estiver aqui de novo. 😉

      Eu vi, e responderei. Um dia. Quando conseguir pensar em seis coisas que encaixem no enunciado…

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