Piloto


“When the Lord closes a door, somewhere He opens a window.”
(Maria von Trapp)

Os leitores mais antigos do QsQ talvez lembrem da “Teoria Geral dos Seriados”, descrita em alguns posts por aqui e por ali – e desenvolvida em muitas conversas in real life. Basicamente, falávamos sobre como a nossa vida é sempre um seriado. Um protagonista ao redor de quem tudo se desenrola. Co-protagonistas, coadjuvantes, figurantes. Atores que são fixos, outros que entram para ficar. Alguns que ficam por tanto tempo que parecem ser fixos, às vezes saem, às vezes voltam, outros que ficam uma temporada, um episódio, dizem suas falas, fazem seu papel, e depois se vão, deixando ou não boas recordações. Às vezes comédia, às vezes drama, às vezes aventura, às vezes romance. Cada temporada tem um tom, cada episódio tem um tema. E sempre, sempre, sempre, uma trilha sonora adequada. O DJ geralmente sabe o que fazer nessas horas.

A TGS normalmente me vêm à cabeça em momentos-chave. Às vezes, novas temporadas começam com rupturas, quando acontece algo que, obrigatoriamente, vai fazer com que muita coisa mude ao seu redor. Às vezes não, começam apenas porque já era hora de começarem. E aí, seja aos poucos, seja de uma vez, você sente o início da nova temporada. Ainda que não saiba qual vai ser exatamente o estilo dela. Você está, por assim dizer, no “episódio piloto”. Com novos cenários, novos atores. E com um protagonista que não decorou o seu texto, e vive num eterno improviso.

*   *   *   *   *

Uma das minhas histórias favoritas do mestre Keno Don Rosa se chama “Sete cavaleiros (menos quatro) e um destino”. É uma sequência de um filme clássico da Disney, “The three caballeros”, de 1944. No filme, feito para popularizar as histórias Disney na América Latina, Donald visita o continente, onde encontra um mexicano (Panchito) e um brasileiro (José Carioca, em sua segunda aparição – a primeira havia sido dois anos antes, em “Alô amigos”, onde também passeava com Donald pelo Brasil), que mostram a ele as belezas dos seus países. A parte brasileira, “Você já foi à Bahia?”, com participação da cantora Aurora Miranda (irmã de Carmen), é ainda hoje um marco da visão do Brasil no exterior.

Don Rosa, 60 anos depois, parte de uma crise do Donald, em uma época da vida dele em que tudo parece dar errado e ele se sente incapaz de mudar as coisas. É quando seus sobrinhos descobrem o que poderia ser uma solução para o seu problema: uma viagem ao Rio de Janeiro, onde armam um encontro do tio com Zé Carioca e Panchito. Durante a história, Zé e Panchito mostram a Donald que ele não é nada daquilo que teme ter se tornado, e ainda é o mesmo pato de antigamente, cheio de qualidades. Só aí Donald consegue recuperar “aquilo que tinha perdido nos últimos anos”.

Lembrei muito dessa história nas últimas semanas. E qual não foi a minha surpresa ao receber uma mensagem de um amigo (quer dizer, ao menos eu o considero assim), tão fã do Don Rosa quanto eu, dizendo torcer para que eu “agora não perca mais aquilo que passou um tempo desaparecido”. A mesma referência, a mesma história. Isso sem termos falado sobre o assunto. E, como foi dito em um outro diálogo, espero mesmo que continue “tudo azul” na minha frente. Ou, como diz o ditado português, que fique ainda melhor, que o que vejo à minha frente seja tudo “dourado sobre azul”.

*   *   *   *   *

O Piloto se encerrou nessa semana. O cenário está criado, alguns personagens estão apresentados. Quase tudo foi muito bom, com uma exceção. Um tom de drama que apareceu para balancear um pouco o clima leve do resto do episódio. Mas the show must go on. O episódio acaba como tinha que acabar, com um gancho teatral, e “cenas dos próximos capítulos”. Sobe a música de fundo, e vamos ver o que vem por aí.

Uma nova temporada pede uma nova trilha sonora. Sempre é assim, dessa vez não seria diferente. E já tem temas suficentes para montar um cd. MPB, rock, sertanejo. Tem até pagode, veja só. E bossa nova em ritmo de pagode, veja só parte II.

Mas, para escolher apenas uma música para trilha do Piloto, será essa. Além de ser simbólica por si só, também tem a ver com um momento central desse episódio. Talvez da temporada. Quem sabe de toda a série. Com direito a berrante e tudo.



TOCANDO EM FRENTE
(Almir Sater/Renato Teixeira)

Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei,
Ou nada sei.

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso chuva para florir…

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente,
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou.
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora,
Um dia a gente chega, e no outro vai embora.
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz,
E ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

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4 Responses to Piloto

  1. Carol disse:

    Eu não sei se devia, mas gostei. 🙂
    Acho que a nova temporada tem tudo pra ser um sucesso.
    Acredita que no domingo uma menina com quem estudo aqui me disse que às vezes se sente como se vivesse em Malhação? É, caríssimo, essas coisas que a gente diz quando não tem nem 25 anos. E eu pensando… “tolinha”. Apenas respondi que não temos mais idade pra Malhação, mas que Barrados no Baile pode ser. E ela faz cara de quem pensou “nossa, que troço velho”. Coisas da vida.
    Só não gostei da trilha. Acho que nosso amigo DJ arruma coisas melhores.
    Bjs.

  2. Summers disse:

    Boa sorte. 🙂

  3. Samael disse:

    Como assim azul e dourado??? Meça tuas palavras, ó infiel! Caso contrário, blá, blá, blá…

  4. Andre disse:

    Carol e Miss S: obrigado.

    Carol, o DJ nunca erra. Pode parecer às vezes, mas ele sempre sabe o que faz. E continuamos com nossa diferença básica em relação aos seriados. Sitcoms x personagem central. Mas a “garota” se rever em Malhação é dose. A propósito, vc seria o que? Uma mistura de Brenda com Kelly? 🙂

    Samael, apenas uma questão de heráldica… e um ditado popular. 🙂

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