Abre aspas


Seguindo a corrente que começou , passou por ali, e chegou aqui, o QsQ também dá a sua contribuição.

E, parafraseando a Carol, eu também resolvi a dificuldade da escolha da poesia bem ao meu modo. Um poema que fala do ser poeta, e que é também uma música. Assim, mantenho o ritmo dos últimos dias (leia a letra, ouça a música, veja o vídeo). Além de tudo, é um poema lindo, mais lindo ainda na versão musicada. E aproveito para mostrar aos leitores um pouco mais de um grupo que adoro.

A poeta é Florbela Espanca. Nascida em Vila Viçosa, cidade interiorana do sul de Portugal, em 1894, Florbela teve uma vida polêmica, que acaba por vezes se refletindo na sua obra. Uma das primeiras mulheres a frequentar a escola secundária (equivalente ao nosso ginásio) da cidade de Évora, Florbela casou aos 19 anos, e entrou para a Faculdade de Direito de Lisboa. Depois, largou o curso, se divorciou, casou novamente, e se divorciou uma vez mais. Nessa altura, a  família a rejeitou, e Florbela foi viver para o Porto, onde casou pela terceira vez. Aos 36 anos, depois de uma depressão agravada pela morte do irmão, a poeta se suicidou, tomando duas caixas de barbitúricos.

Sua poesia, geralmente, é marcada pela melancolia e por um certo tom ultra-romântico. O poema escolhido aqui é um onde, superficialmente, esses traços podem não aparecer tanto. Mas estão lá, sim, toda a intensidade, as imagens fortes que caracterizam a poesia de Florbela. O verso onde ela define que ser poeta é como “ser mendigo e dar como quem seja rei do reino de aquém e de além dor” é uma das mais interessantes definições do ofício. Se o poeta é um fingidor, que chega a fingir que é dor a dor que sente, como diz Pessoa, é também essa entrega, esse tom algo desesperado de Florbela, mendigo que age como rei “de aquém e de além dor”. E a maneira como a alma do poeta é amarrada na última estrofe, onde depois de todos os superlativos e exageros visuais, conclui-se singelamente que “ser poeta (também) é amar-te assim, perdidamente, e dize-lo a toda a gente” faz um belo contraponto. Não deixa de queimar. Não deixa de ser uma imagem viva. O “astro que flameja” é paralelo àquele que “ama perdidamente”. Mas amarra o soneto de uma maneira inesperada, com outro ritmo, que a música pega bem.

Nos anos 80, João Gil, guitarrista da banda portuguesa “Trovante”, musicou este poema, que foi gravado pela primeira vez no disco “Terra Firme”, de 1987. Depois, em 1999, o grupo “Ala dos Namorados”, nova casa de João Gil, faz uma releitura do tema no disco ao vivo “Solta-se o beijo”. Essa versão é um belo dueto do vocalista do Ala, Nuno Guerreiro, com a cantora Sara Tavares.

PERDIDAMENTE
(Florbela Espanca/João Gil)

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É considerar o mundo num só grito!

E é amar-te assim, perdidamente…
E é seres alma, e sangue, e vida em mim…
E dize-lo cantando a toda a gente…

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3 Responses to Abre aspas

  1. Lunna disse:

    Que delícia. Hoje eu tive um encontro especial com Florbela. Vários blogs lembraram-se dela, foi um prazer singular. E agora, quase no fim de noite, aqui chego para novamente encontrar-me com ela. Grata pela sua participação. Abraços meus…

  2. […] – Hilda Hilst 65 – Minha Trama – Eucanãa Ferraz 66 – Caminhar – Carlos Drummond de Andrade 66 – Quase sem querer – Florbela Espanca 67 – Blogs Educativos – Eunice […]

  3. Carol disse:

    adorei a escolha. FE é maravilhosa. dia 07/11 é dia de cecília meirelles.

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