Boas notícias, pra variar


No ano passado, postei alguns textos sobre o caso dos dois boxeadores cubanos que conseguiram escapar durante os Jogos Panamericanos, e depois foram perseguidos pela polícia brasileira, que os entregou de volta aos seus carcereiros.

Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, os dois campeões cubanos, foram levados de volta à ilha-prisão, e mantidos sob vigilância estreita dos homens de Fidel. Mas agora nos chega uma notícia excelente: Erislandy Lara conseguiu fugir de Havana, escondido em um barco que o levou até o México. Dessa vez, não veio para o Brasil, ou algum outro país amigo de ditaduras. Lara foi direto para Hamburgo, na Alemanha, e apenas lá, já em segurança, divulgou sua história.

O jornal Estado de São Paulo publica uma entrevista com Lara. Muitos trechos são interessantes, mas a resposta do pugilista a uma pergunta em particular é um uppercut no queixo de muita gente. Uma resposta singela, simples, mas que diz muito sobre o que é Cuba, sobre o inferno em que vive o povo cubano. E nos enche de vergonha por saber que não apenas o governo brasileiro é aliado dessa gente, como também uma boa parte do nosso povo apóia o que acontece na ilha e considera Cuba um “paraíso” e Fidel Castro “um exemplo”.

Como você avalia a situação política de Cuba e a falta da democracia plena?”
“Democracia? Como assim?”

Essa resposta é sintomática. É a resposta de alguém que não reconhece um conceito, alguém para quem aquela palavra nada diz, não faz parte da sua cultura. Erislandy Lara tem 25 anos. Quando nasceu, em 1983, Fidel Castro já era tirano de Cuba há quase 30 anos. Em 25 anos, Lara não conheceu outra vida. Apenas Papai Fidel.

O controle da informação em Cuba cria esse tipo de situações. Lara não sabe o que é democracia. Lara só consegue entender uma vida em que há um único governante, que tudo controla, e onde não há vida fora do Partido. Lara não sabe o que é liberdade. Pensa que a vida é uma gaiola, cercada de água por todos os lados, e onde devemos agradecer àquela mão bondosa que nos dá um pingo de alpiste. Democracia? Como assim? Que bicho é esse? Ele morde?

Não, meus amigos. Erislandy Lara não é um autista. Erislandy Lara é um cubano. E como a imensa maioria dos cubanos com menos de 50 anos, não faz idéia do que seja uma vida sem Fidel. E se surpreende quando sabe que em outros países não há uma figura como Fidel. Não há cartões de racionamento. Não há polícias políticas. Não há paredón para quem critica o governo.

Lara tem 25 anos. Ainda tem tempo para aprender o que é a democracia. Outros já viveram e morreram em Cuba sem conhece-la. Aos milhares mortos pela ditadura castrista, temos que somar ainda as duas gerações de cubanos que tiveram a vida castrada (trocadilho incluído) por essa tirania de Fidel e seus amigos. E nunca, nunca esquecer que alguns desses amigos estão aqui no Brasil. Que alguns deles, ainda hoje, defendem que Cuba é “um modelo a ser seguido”. Se dependesse apenas da vontade deles, daqui a 25 anos, seria um Lara brasileiro a perguntar “Democracia? Como assim?”.

A entrevista completa de Lara, publicada no Estadão pode ser lida aqui. Abaixo, destaco alguns trechos mais interessantes:

Como foi que conseguiu escapar?
Eu mesmo fiquei surpreendido. A empresa (Box Arena) me chamou e disse que tinha organizado tudo com uns cubanos. Fui de madrugada a uma praia nas proximidades de Havana. Não quero revelar o nome desse local porque sei que há outros cubanos que querem escapar por essa região e não seria bom que o governo soubesse. Temos de ajudar nossos irmãos. Temos de proteger esses cubanos. Uma lancha me buscou e viajamos por 12 horas até Cancún, no México. O tempo estava muito ruim e a viagem foi difícil, com tormentas enormes. Mas estava confiante de que conseguiria sair. Corremos um grande risco.

Como você avalia a situação política de Cuba e da falta de democracia plena?
Democracia? Como assim?

Se existe ou não um regime democrático e se existe a possibilidade de o povo ter voz e voto nas decisões do país.
Ah, isso? Claro que não existe essa possibilidade. É o governo quem dita todas as regras. Tudo passa pelo governo. Não há liberdade. Eles são os que dizem o que podemos e o que não se pode fazer.

Você pensa um dia voltar para Cuba?
Não. Não volto mais.

O Estado de São Paulo publica também uma reportagem especial que serve de contraponto à notícia da liberdade de Lara. Como está a vida de Guillermo Rigondeaux, o outro boxeador que tentou fugir durante o Pan e foi mandado de volta pela polícia brasileira? Por onde anda o lutador que foi bi-campeão mundial de boxe e ganhou duas medalhas de ouro, nas Olimpíadas de Sidney e Atenas?

Bem, aqui está ele. Óculos escuros, boné enterrado na cabeça, assustado, mal vestido, olhando para os lados para ver se foi seguido. É difícil acreditar que estou diante de um dos maiores esportistas de todo o globo. Entre Guillermo Rigondeaux e uma vida de milionário – que seria a recompensa por seu talento – estão duzentos quilômetros de água salgada. Se estivesse fora de Cuba, poderia ganhar milhões de dólares. Seria disputado pelos patrocinadores, seria adulado, teria uma vida de luxo, Ferraris, publicidade, tudo que o dinheiro pode comprar. Uma celebritie, e no entanto vai receber 120 dólares para me dar uma entrevista.

Apenas um pobre rapaz.

Outros trechos da matéria:

“Claro que em nossa entrevista é impossível Rigondeaux dizer a verdade. De fato, ele é um prisioneiro domiciliar. Limita-se a repetir o que saiu publicado no Granma, o ridículo jornaleco oficial do regime. Fico ouvindo. Enquanto fala, olho para ele e sinto pena. Uma história completamente sem pé nem cabeça, onde o tamanho do seu desprezo pelo dinheiro só é igualado pelo seu patriotismo. E as propostas que recebeu de um empresário? “Mentira da imprensa. Sempre existem propostas e nunca aceitei nenhuma. Eu já estive em muitos países e poderia ter fugido antes.'”

“Entre muitas de suas recordações está uma foto com o comandante, os dois muito jovens, ele pronto para entrar no ringue, magnífica figura. Bons tempos. No táxi eu disse a Félix que ele estava magro demais, e sua resposta foi que se mantinha em forma, que ainda treinava. Bastou ele descer, que o motorista disse com ironia: ‘Que treino que nada… Ele está é passando fome.'”

“Caminhamos por uma rua mais discreta e eu aproveito para pagar Rigondeaux. Então ele chega ao fundo do poço: Me pergunta se não gostaria de “chicas”. Essa não. O maior pugilista do mundo está me oferecendo prostitutas. O que mais posso dizer?”

Enquanto isso, Erislandy Lara está na Alemanha. E, com o tempo, vai aprender o que é democracia. Com todas as suas qualidades, e também com todos os seus problemas. Sim, claro que a democracia tem defeitos. “Paraísos na terra” não existem, a não ser na cabeça de tiranos e seus seguidores. Mas há vidas melhores que outras. Há problemas melhores que outros.

O que mais podemos dizer?

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Vocês já sabiam. Agora a Folha confirmou.

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3 Responses to Boas notícias, pra variar

  1. Carol disse:

    o que é democracia mesmo?
    🙂
    sexta tem show do skank. e domingo é a prova do supremo… saco.
    bjs!

  2. Carol disse:

    Zé Vicente, da ECO, apareceu no meu msn ontem.
    Aparece nem que seja no email pra eu te atualizar as fofocas!

  3. Carol disse:

    Caramba, cadê vc?????????

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