Homenagem atrasada


“Morte de malandro a gente comemora assim, conta uma história sobre ele e toma uma gelada para lembrar de tudo de bom que ele fez.”
(Zeca Pagodinho)

Sem tristezas. Morreu o José Bispo. O Jamelão não morre nunca.

Mangueirense, vascaíno, e o maior intérprete de samba-enredo que o Brasil teve. Intérprete. Nunca puxador. “Puxador é quem puxa carro, é quem puxa droga. Eu canto samba.”

Não sou exatamente um apaixonado por samba, muito menos na época de carnaval. Mas ouvir a voz de Jamelão era sempre algo diferente. OK, cabeças maldosas, façam a piada fácil: não tinha como não se emocionar quando a Mangueira entrava, com a voz de Jamelão dando o tom.

Nos últimos anos em que participou no desfile, com a voz fraca, o mestre se poupava. Na hora do disco, e dos ensaios, os outros cantavam o samba. E na hora da Apoteose (trocadilho incluído) era ele que estava lá, dando outra vida à letra.

Em pelo menos dois anos eu fui enganado. Ouvia o tema da Mangueira no disco, na rádio, e dizia “que porcaria de samba”. E na hora da avenida, não dava outra: na voz de Jamelão, aquele samba chocho virava o melhor do ano. Impressionante.

Mas Jamelão era mais que intérprete, mais que sambista, mais que um decano do carnaval. Era uma voz completa. E, apesar de toda a Mangueira, a minha maior lembrança de Jamelão vem de uma gravação que ele fez há 40, 50 anos atrás, lá no tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça e os pintos ficavam felizes com qualquer lixo.

Poetas, seresteiros, namorados, se aproximai. Jamelão, o mal-humorado, o resmungão da verde-e-rosa, um dia foi popular e recordista de vendas de compactos e LPs, cantando as músicas agridoces de outro mestre, Lupicínio Rodrigues.

E foi uma dessas músicas que me acompanhou por algum tempo, e será sempre parte da trilha sonora do seriado. Não na versão linda do Jamelão, infelizmente. Essa me fez chorar na primeira vez que ouvi, de tão linda era aquela voz, e ainda me emociona sempre que a ouço. Mas a versão que ficou famosa foi o assassinato dessa música, cometido pelo coral e trio de cordas (enroladas) “Um monte de bossa”, grupo de reconhecido insucesso que se arrastava pelos corredores de uma certa universidade carioca.

E, para me despedir do José Bispo, trago para cá o espírito da frase do Zeca Pagodinho, ergo meu copo, limpo a garganta e começo a cantar, inteiramente desafinado. Vai com Deus, Jamelão.

ELA DISSE-ME ASSIM
(Lupicínio Rodrigues)

Ela disse-me assim, tenha pena de mim, vá embora
Vais me prejudicar, ele pode chegar, está na hora
E eu não tinha motivo nenhum para me recusar
Mas aos beijos caí em seus braços e pedi pra ficar

Sabe o que se passou, ele nos encontrou e agora
Ela sofre somente porque foi fazer o que eu quis
E o remorso está me torturando
Por ter feito a loucura que fiz

Por um simples prazer
Fui fazer meu amor infeliz

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2 Responses to Homenagem atrasada

  1. Carol disse:

    Ouvi um especial de uma hora na rádio câmara no domingo com músicas gravadas por Jamelão. A minha favorita fica sendo outra do Lupicínio – Exemplo.
    Bacci.

  2. L.S.D. disse:

    Grande Jamelão! Aposto que, numa altura dessas, o homem já está cantando no lugar de honra de uma roda de samba celestial e a única reclamação que esse notório ranzinza tem no seu pós-vida é sobre o Mussum, que saiu há mais de uma hora e ainda não voltou trazendo o Mé…

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