Ah, esse Edmundo…


De todos os amores que eu tive és o mais antigo…
Vasco minha vida, minha história, meu primeiro amigo…
Quem não te conhece me pergunta porque te segui…
Eu levo a cruz de malta no meu peito desde que nasci…
E eu não páro, não páro não…
A cruz de malta… Meu coração…
Vasco da Gama, minha paixão…
Vasco da Gama, religião…

Foi bonita a festa, pá. Cinco minutos de fogos, lindos e ensurdecedores, como há anos não se via em São Januário. Uma cena que arrepiou qualquer vascaíno – e provavelmente também muitos que não o são. Minutos que pareceram horas, e mostraram ao Sport que eles tinham pela frente mais do que um time mais ou menos. Iam enfrentar um caldeirão, uma família, que tinha muita fé na vitória.

Vitória que começou a vir no gol de Edmundo, mal anulado pelo fraco Alício Pena Júnior. Não tem problema. A gente continua tentando. O sentimento não pode parar.

A entrada de Madson no lugar de Morais incendiou o time. Durante dez minutos, o baixinho fez o jogo da sua vida. O Vasco começou a sufocar o Sport, os pernambucanos se acovardaram, várias chances se sucederam, e o gol era questão de tempo. E não muito tempo. Leandro Bomfim cruzou, Leandro Amaral cumprimentou. 1×0. E vinte minutos pela frente.

Naquela hora, nenhum vascaíno duvidava da vitória. Que penaltis que nada. A vitória seria no tempo normal. O Sport estava zonzo. Madson infernizava.

Até que Luisão foi expulso, numa falta boba, boba. Mas, mesmo com dez, ainda dava.

E o que faz Antonio Lopes, o nosso treinador-cabeça? Recompõe a defesa, colocando Rodrigo Antonio… no lugar do Madson. É dose.

Não é só o fato da mexida ser errada, futebolisticamente falando. Ela foi errada, principalmente, do ponto de vista psicológico. E futebol se ganha nisso, também. Naquele momento, o ascendente era do Vasco. A pressão da torcida, a garra do time, a correria imposta por Madson e Jean, o primeiro gol, faltando ainda vinte minutos para o final. Tudo isso fez o Sport se apequenar. O rubro-negro pernambucano estava nas cordas, esperando o golpe fatal.

Na hora em que perdemos um jogador, o que era preciso era motivar o time. Era um Felipão da vida, que chegasse e falasse: “olha, cada um de vocês vai ter que jogar por dois agora, p*!”. Que mexesse com os brios dos jogadores. Que transformasse aquilo numa epopéia heróica.

O que Lopes fez foi duvidar. Mostrou ao Sport, e principalmente aos jogadores do Vasco, que estava com medo de tomar um gol. E todo mundo percebeu isso. O Sport sentiu o cheiro do medo e voltou a atacar. O Vasco perdeu o rumo. A torcida diminuiu a pressão. E eu perdi a certeza da vitória. Esperava o segundo gol, sim, mas num lance vadio, e não com aquela certeza de minutos antes.

E ele veio, nos pés de um predestinado. Edmundo, sempre Edmundo. Um gol de raiva. Uma comemoração emocionada, emocionante. Esse é Edmundo: não um jogador, mas um representante da torcida dentro de campo. Naquele momento, ele era eu, ele era você, ele era todos os torcedores do Vasco. E ele era ele, tão torcedor quanto qualquer um de nós.

Ah… é Edmundo!!!! Ah… é Edmundo!!!!

E fomos para os penaltis. E o torcedor pega a bola. E toma distância. Seus olhos traem a emoção. Meus olhos se fecham. Deus, dessa vez não, de novo não, por favor, de novo não. Por mim, por ele, por nós todos, de novo não, dessa vez não. Abro os olhos no momento em que ele encosta o pé na bola e a manda para as nuvens. De novo.

Ah, Edmundo…

O torcedor sai chorando. O da arquibancada, o da cadeira social, o do sofá de casa. E o de dentro do campo.

O resto é história. Anticlímax. Nove penaltis seguidos convertidos, apenas para o escárnio dos deuses da bola ficar ainda mais claro. O Sport vence por 5×4, e está na final da Copa do Brasil, onde terá minha torcida. Edmundo é, de novo, o nome do jogo. Para o bem e para o mal.

*   *   *   *   *   *   *   *   *   *

O jogo acabou tendo um desenvolvimento sui generis no dia seguinte. Edmundo apareceu assim para o treino:

Quando um repórter perguntou o porquê do novo visual, Edmundo disparou:

– É porque eu estava com um pouco de raiva de mim mesmo.

Depois do treino, a surpresa: Edmundo anuncia a sua aposentadoria. Diz que vai falar com o presidente interino Eurico Miranda naquele momento, e comunicar sua decisão de parar.

– Não aguento mais tanta emoção.

Era, de novo, o desabafo do torcedor.

Para o bem e para o mal.

Apaixonado. Desequilibrado. Emotivo. Impulsivo. Cabeça quente. Coração idem. Ariano torto. Cruzmaltino sempre.

Eurico rebateu:

– Amanhã ele está aqui treinando.

E não deu outra.

Isto tudo existe. Isto tudo, às vezes, é triste. Isto tudo é Vasco. Para o bem e para o mal.

Quem não te conhece me pergunta porque te segui…
Eu levo a cruz de malta no meu peito desde que nasci…
E eu não páro, não páro não…

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3 Responses to Ah, esse Edmundo…

  1. L.S.D. disse:

    Esse texto demorou para sair, mas valeu a espera. Eu confesso que preferia ver o Vasco na final da Copa do Brasil do que o Fluminense na final da Libertadores. Não que algum desses dois represente algo especial para mim, mas comparando os dois cariocas que conheço que torcem por esses times, é inegável que o vascaíno é um torcedor tipo rei Artur, que sofre, mas permanece fiel ao seu time até o final, seja ele qual for. Já o tricolor é um legítimo Lancelot futebolístico, que na hora do sufoco, pega seu barco e escapole para a toca da raposa. Mas tudo bem, os deuses do futebol sabem o que estão fazendo…

  2. […] decidir fora? Será que o Sport aguenta o caldeirão de São Januário? Meu comentário você lê aqui. O resultado foi uma vitória do Vasco por 2×0 e a vitória do Leão nos penaltis, por […]

  3. […] isto existe, tudo isto (às vezes) é triste, tudo isto é Vasco. Eu escrevi isso há algum tempo, e repito. Uma letra de fado. E é Vasco ver Pedrinho chorando, ver Edmundo chorando. É Vasco ver […]

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