As touradas da Banânia


Era uma vez, em algum canto de um continente distante, um país excêntrico chamado Banânia.

Um belo dia, alguns homens da corte deste país tiveram uma idéia: reunir as duas maiores empresas de um determinado ramo em uma só. Era um cartel, era um monopólio (juntas, elas possuiriam 65% do mercado), com sérios prejuízos à população desse país. Mas… e daí?

Interesses mais altos falaram, e a negociação começou a andar. Só que havia um probleminha: o negócio era contra a lei. Num país sério, isso bastaria. Mas não “neste país”. Se não gostamos da lei, se ela nos atrapalha, vamos muda-la. Afinal, é um negócio que envolve muita gente grande: políticos, banqueiros, donos de empreiteiras, financiadores de campanha, filhos do babalorixá da Banânia…

A lei que rege essa atividade diz que em caso de compra de uma empresa por outra, a compradora é obrigada a abrir mão dos setores ocupados pela comprada no mercado. Pois bem: o Babalorixá já deu a entender que vai mudar a lei, de forma casuística, para beneficiar a empresa interessada.

Ou, como bem resumiu um cronista do reino, em uma nota lapidar:

Qual a diferença entre um país decente e um indecente? No primeiro, os negócios são feitos de acordo com as leis; no segundo, as leis são feitas de acordo com os negócios.

Porém, a história “vazou” cedo demais, e a reação contrária impediu que a lei fosse mudada naquela hora. A compra da empresa B pela empresa A foi para a gaveta, até que a poeira baixasse, e o clima popular mudasse.

Dois meses se passaram. Alguns “jornalistas a serviço” venderam a idéia de que o monopólio era “bom para a Banânia”, pois ia criar uma “gigante mundial do setor, capaz de elevar o nome da Banânia lá fora”. As conversas entre as empresas A e B continuaram. E parece que elas estão prestes a chegar a um acordo.

Há uma outra empresa forte nesse mercado, a empresa C. A empresa C não é da Banânia, é de um outro país chamado Castela. Obviamente, a fusão das empresas A e B não interessa à empresa C. Esperava-se que a empresa C tentasse ir à justiça bananosa, para lutar contra a mudança da lei.

Por coincidência, na hora em que A e B chegavam a ponto de fechar o negócio, o governo da Banânia criou um incidente diplomático contra Castela, usando como pretexto uma questão ligada a imigrantes bananosos barrados em Castela. Uma situação que vem se repetindo há anos, sem que a Banânia fizesse nada. Uma situação que se repete em vários outros países, além de Castela, sem que a Banânia faça nada.

Mas, dessa vez, a Banânia agiu. Ajudada por boa parte da imprensa (os tais “jornalistas a serviços”), criou-se um sentimento anti-Castela entre o povo da Banânia. De repente, tudo que vem de Castela não presta. Qualquer bananoso que ouse defender a atitude de Castela é moralmente linchado.

E, finalmente, uma campanha de “boicote à empresa C”, para “defender a honra de Banânia” e “mandar os castelanos de volta pra casa”, foi sutilmente insuflada pela internet.

A situação dos bananosos em Castela continua, e continuará, na mesma. Mas eles já cumpriram sua missão.

Amanhã, quando a fusão entre A e B for anunciada, os bananosos vão comemorar. Afinal, que importa se 65% do mercado vai ficar concentrado na empresa AB? Que importa se os donos da empresa AB são amigos do Babalorixá? Que importa se o Babalorixá mudar as leis para ajudar seus amigos?

Nada disso importa.

O importante é que Banânia terá uma empresa “gigante” no setor, “capaz de ombrear com qualquer uma no mundo”. O importante é que “vamos dar uma lição nesses castelanos”. Olé!

E ai de quem tentar defender a justiça, e apontar as irregularidades dessa negociata. Vai ser logo chamado de “anti-patriota”, de “vendido aos imperialistas castelanos”.

E assim, eles conseguem novamente defender seus interesses, como “nunca antes neste pais”.

Ainda bem que isso é só uma fábula, sobre um país distante chamado Banânia. Essas coisas não acontecem em países reais. Pelo menos não naqueles que pretendem ser sérios.

Olé, olé, olé. E paratibum.

“A história do governo Lula é um mero reflexo da disputa comercial entre as operadoras de telefone.”
(Diogo Mainardi, 14/09/2005)
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2 Responses to As touradas da Banânia

  1. Carol disse:

    Complicado, né?

  2. bruno disse:

    bom + faltou fotos!!!

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