Nuvem de lágrimas II – Lágrimas que marcam


Enquanto uns fingem chorar de deboche, outros choram de verdade. São Januário viu, nos últimos dias, dois chorões que não se envergonham nem um pouco de o serem.

Primeiro, foi Jean. De volta ao Vasco, depois de um ano longe, Jean reestreou com dois gols contra o Boavista, e chorou muito depois do jogo. A identificação de Jean com a torcida do Vasco é muito grande, e creio que essa sua volta ainda vai dar muito o que falar. Apesar de ter começado a carreira lá no Império do Mal, Jean ganhou de vez a torcida vascaína com a sua entrega, a sua vontade. E, claro, ajudou muito o fato dele renegar completamente o seu “passado negro” (expressão dele, não minha).

O outro momento, ainda mais emocionante, aconteceu no segundo tempo da vitória do Vasco contra o Duque de Caxias. O veterano Viola, 37 anos, agora jogando no Caxias, foi substituído, e teve seu nome gritado em coro pela torcida do Vasco. Mais que isso, a torcida ressuscitou a música-tema que acompanhava o jogador durante sua passagem pelo Vasco. E Viola chorou.

No Vasco, é assim. Quem tem caráter, tem vaga cativa no coração da torcida, para sempre, mesmo que tenha jogado em outros clubes rivais. Foi assim com Jean, com Viola, como sempre foi com Edmundo, como é com Bebeto, como será quando Juninho Pernambucano voltar. É assim com todos que encarnam o espírito do Vasco. Quanto aos outros, podem ter títulos, podem ter aplausos, podem até ter estátua. Mas serão sempre “os outros”.

*   *   *   *   *   *   *   *   *   *

E Leandro Amaral jogou isso no lixo.

Eu estava em São Januário, ano passado, na vitória sobre o Paraná. Quem viu esse jogo, não esquece. Não esquece a atuação primorosa de Leandro, talvez uma das melhores das muitas boas atuações que ele teve em 2007. Mas não esquece, principalmente, o apelo da torcida durante boa parte do jogo.

“Ô, ô, ô, ô, ô… Fica Leandro!!!!!”

O jogo inteiro foi assim. No final da partida, jogadores deixando o campo, a torcida ficou mais cinco minutos com esse coro.

Arrepiou.

No campo, Leandro ouviu. No vestiário, provavelmente ele ainda ouvia. Mas não basta ter ouvidos para entender uma mensagem como essa.

Você, Leandro, foi a referência que o Vasco buscava desde a última saída de Edmundo. Você não era apenas um jogador bom. Você era um ídolo. Você estava acima do bem e do mal, podia passar cinco jogos sem jogar nada e ninguém criticava. Mas você nunca entendeu isso.

Você preferiu abrir mão. Seus motivos, só você sabe. Talvez eles te pareçam válidos. Mas creio que hoje você tenha uma noção maior do tamanho daquilo que jogou fora.

E agora, depois do tranco que levou na justiça, você faz cara de choro e diz que até pode voltar a jogar no Vasco, “pois a torcida vascaína sempre me tratou muito bem”.

É tarde, Leandro. Muito tarde. E eu lamento muito por isso, pois fui um daqueles que gritou “fica Leandro”, fui um daqueles que se iludiu pensando que um homem com sangue nas veias não poderia deixar de se emocionar com aquele espetáculo das arquibancadas.

O mundo dá muitas voltas, e você pode até voltar pro Vasco. Eu até posso te aplaudir, festejar os teus gols. Mas, meu caro Leandro, o máximo que você pode conseguir agora é ser um dos “outros”. E até pra isso vai ter que se esforçar muito.

De qualquer jeito, não concordo com alguns vascaínos rancorosos, que defendem que Leandro devia ser castigado e “emprestado para um time de terceira divisão”. Poxa, isso seria fazer a vontade dele, e devolve-lo ao Fluminense…

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One Response to Nuvem de lágrimas II – Lágrimas que marcam

  1. […] não havia outro resultado possível. O que penso sobre esse regresso já tinha sido comentado aqui. O maior prejudicado nisso tudo foi o jogador. E foi bem feito pra ele. Agora, resta ao Fluminense […]

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