Nuvem de lágrimas I – Lágrimas de crocodilo


Nem vale muito a pena falar do deboche de Souza no jogo com o Cienciano. Túlio já disse o que precisava ser dito: o que esperar de alguém como Souza? Caráter? Nunca terá. O destaque do episódio não são as lágrimas de Souza. É a reação popular. É o fato de ainda ter gente que aplauda uma atitude dessas.

É coisa de Brasil. A vítima, no caso o Botafogo, ainda é tratada como um otário. Enquanto isso, aqueles que se beneficiaram da situação, debocham dos “otários”, enquanto o povão aplaude, se divertindo com o caso. Tudo acabando em pizza. E bota no cartão, que os otários pagam.

A atitude mais decente que poderia ter sido tomada por Vasco, Botafogo e Fluminense seria a de abandonar o campeonato. Vão fazer isso? Não vão. Até porque são todos cúmplices. Quando se planejou o regulamento, quando se tirou dos clubes pequenos o direito de jogar em casa, todos eles concordaram. Então os pequenos são as vítimas? Que nada. Venderam a decência por uma cota extra, e agora choram o prejuízo. São todos iguais. E por isso ninguém reclama.

Mais uma vez, é a cultura do brasileiro, o triunfo da malandragem. O malandro não quer justiça, o malandro quer mostrar que é mais esperto. Não interessa acabar com a malandragem. Deus me livre, já pensou, se todos fossem honestos, que graça teria? O importante é ser o malandro da vez. Hoje foi ele que me deu uma rasteira, mas amanhã eu dou o troco.

Apenas futebol? Não, como eu sempre repito, é muito mais que isso.

O Brasil é assim. Incentiva a malandragem, não a justiça. Desde crianças, somos acostumados assim: o malandro é cool, o certinho é desprezado. Quem passa a perna no outro é esperto, quem é trapaceado é otário. E a única maneira de recuperar o respeito é passando a perna no outro também. Reclamar, pedir justiça? Deus me livre, isso é garantir o ódio eterno da sociedade. É virar o chorão, o dedo-duro, o fraco que não sabe se virar sozinho. O loser. A atitude correta é aceitar a derrota, engolir as lágrimas e planejar o troco. E nunca, em hipótese alguma, apelar para a justiça. Autoridade? Que horror, isso nunca. “A gente lava isso em casa”. Lei do silêncio. Máfia dos malandros.

Da escola, a gente vai pra vida, e continua cumprindo esse código. Levar vantagem, sempre, a qualquer custo. “Se eu não fizer, os outros fazem”. E nunca reclamar da malandragem alheia, sob pena de ficar marcado como chato e intolerante.

E assim é na política. É feio acusar o governo, é feio cobrar explicações. O governo comete crimes, mas não podemos querer puni-los, pois ele foi “absolvido pelas urnas”. Fazer oposição? Isso é revanchismo, é preconceito, “deixa o homem trabalhar”. Afinal, todo mundo rouba, né? E você só reclama porque não arrumou a sua teta. Quando arrumar, para de chorar rapidinho. Como disse Ricardo Teixeira outro dia, é “impossível” evitar corupção na Copa 2014, porque no Brasil essas coisas são “incontroláveis”.

As lágrimas de crocodilo de Souza são apenas o retrato disso tudo.

*  *  *  *  *  *  *  *  *  *

O problema da derrota do Flamengo para o Nacional não foi o resultado. Foi o despreparo demonstrado por seus jogadores. Toró agredindo uma criança de 13 anos, Léo Moura dando golpe de caratê, Fábio Luciano chutando a cara de um jogador caído, Ibson reclamando acintosamente por tudo e por nada

Piadas à parte, por que isso acontece?

Na minha opinião, dois motivos principais. O primeiro é essa cultura de proteção ao Flamengo existente no Brasil, e principalmente no Rio. Quando perde essa “rede de proteção”, o time se abala. É diferente você jogar sabendo que pode ser beneficiado a qualquer momento. E quando sai desse ambiente agradável, se perde, e fraqueja na primeira dificuldade.

Foi o que aconteceu em Montevideo. Enquanto estava 0x0, o jogo esteve equilibrado. Assim que o Nacional fez o gol, começou o descontrole.

A segunda explicação é o clima de guerra que os brasileiros gostam de criar quando jogam contra equipes sul-americanas. Todo jogo é encarado como uma batalha épica. Argentinos são assim, uruguaios são assado, e pra ganhar deles o brasileiro tem que ser muito macho.

Com isso, o jogador brasileiro entra em campo ultra-pilhado, e acaba tendo esse tipo de reações. Nos últimos confrontos entre brasileiros e argentinos/uruguaios, tanto em clubes como seleções, estamos vendo isso se repetir com alguma frequencia. O brasileiro entra com o pé no terceiro andar, porque já espera que o argentino venha com o dele no segundo. E, claro, isso não tem como acabar bem.

O Flamengo ainda é favorito para se classificar, porque o grupo é muito fraco. Mas agora começam a fazer falta os dois pontos perdidos em Tacna. Na época, Joel comemorou o empate contra o Bolognesi como “um ótimo resultado”, e muitos rubro-negros foram na onda. Eu fui um dos que disse que era um resultado ruim, porque o Bolognesi é o time mais fraco do grupo. Agora, isso se confirma.

Resta saber qual vai ser a atitude do Flamengo agora, no desespero de ver a vaga nas oitavas ameaçada. Dizem que, depois das seguidas derrotas no Uruguai, o clube já enviou um protesto à Conmebol, pedindo que não sejam mais realizados jogos em Montevidéu. Afinal, a cidade fica 50 centímetros acima do nível do mar, e é desumano jogar nessa altitude…

Já outra corrente defende que os três jogos que faltam na primeira fase da Libertadores sejam adiados para outubro. Afinal, até lá o time se acerta, contrata jogadores novos, e joga já sabendo dos outros resultados. Como, caro leitor? Isso é um absurdo? É, eu também acho. Infelizmente, a CBF já abriu um precedente pra isso no ano passado…

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