Coisas que só acontecem ao Botafogo ? Antes fosse.


(Quinze dias depois. Pra ninguém dizer que é cabeça quente.)

Eu tinha prometido a mim mesmo que não ia perder tempo falando desse chatíssimo e insuportável Torneio Municipal do Rio de Janeiro, essa imensa procissão que se arrasta enquanto a temporada 2008 do futebol brasileiro não começa de verdade.

Mas o que aconteceu no dia 24 de fevereiro, no Maracanã, foi uma das páginas mais vergonhosas da história do futebol brasileiro – e olha que a concorrência é grande.

Botafogo e Petrobrás FC disputavam a final da Taça Tabajara, perdão, da Taça Guanabara, primeiro turno do campeonato carioca. Sim, leitores do mundo civilizado, acreditem: por estas bandas, existe uma taça em cada turno, e quem a ganha jura que é “campeão”. É uma espécie de socialismo no futebol: tem taça pra todo mundo, pra ajudar a esconder a mediocridade de times que passam até 20, 25 anos sem ganhar títulos de verdade.

A final da Taça Guanabara durou 62 minutos, foi um belo jogo, equilibrado, que o Botafogo venceu por 1×0. Pode-se dizer que, até aí, tinha sido um jogo normal – normal para os padrões do futebol carioca. Um penalti não marcado a favor do Botafogo, uma bola recuada não marcada contra o Petrobrás, enfim, essas coisas do dia-a-dia.

Mas aí, aos 17 minutos do segundo tempo, o soprador de apito Marcelo de Lima Henrique resolveu dar início à Taça Tabajara. Bola cruzada na área do Botafogo, e o cidadão marca penalti a favor do Petrobrás, por um pretenso puxão em Fábio Luciano. E daí que em todo jogo acontecem 20 puxões na área? E daí que, nesse mesmo jogo, já tinha tido uns cinco ou seis iguais, sem que ele marcasse? E daí que, NA MESMA JOGADA, um jogador do PFC tenha puxado um do Botafogo? E daí que o Petrobrás só estava na final porque ganhou ao Vasco com um lance onde o mesmo Fábio Luciano empurrou o jogador vascaíno antes de fazer seu gol?

Ele marcou e pronto. Fe-lo porque que-lo. Fe-lo porque é quem é, e jamais poderia ser mais que isso.

No mesmo lance, o capitão alvinegro, Lúcio Flávio, foi acalmar os companheiros, e levou um cartão amarelo inteiramente gratuito. Ou melhor, um cartão que PARECE gratuito a quem não entende seu objetivo.

O penalti é batido, e gol do Petrobrás. Depois, o goleiro Castillo pega a bola dentro do gol, e é agredido por Souza. Confusão generalizada. O projeto de juiz expulsa Souza e Zé Carlos, do Botafogo, que não entende nada. Ele não estava sequer no meio da confusão! Mais uma vez, é algo que apenas parece gratuito.

O jogo recomeça, e o Botafogo, valente, tenta buscar a vitória. Lúcio Flávio é derrubado na área. O juiz fecha o olho. Minutos depois, Jorge Henrique é derrubado na entrada da área. Mais uma vez, Marcelo de Lima Henrique ignora. Na sequencia, Lúcio Flávio faz uma falta por trás e leva um cartão amarelo, justo. Ops, que pena, é o segundo. Viram como o primeiro não era tão gratuito assim?

Aos 46 minutos, Diego Tardelli faz o gol do título. Petrobrás FC campeão da Taça Tabajara. Os jogadores correm para a torcida alvinegra, dançando o créu, créu, créu. A torcida rubro-negra acompanha. Créu, créu, créu.

E essa é a verdadeira imagem da Taça Tabajara.

Créu na justiça.

Créu na verdade.

Créu na honestidade.

Créu no jogo limpo.

Créu nos palhaços que assistiam o jogo, achando que poderia vencer quem ganhasse no campo, na bola.

Créu, créu, créu.

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“Homem de preto, o que é que você faz?
Eu faço coisas que assustam Satanás.

Homem de preto, qual é sua missão?
Invadir o Maraca, e ajudar urubu ladrão.”*

Os leitores do QsQ não devem ter se surpreendido muito com isso tudo, pois já conhecem um pouco sobre o Senhor Marcelo de Lima Henrique – o “homem de preto” dessa tarde, apesar de vestir amarelo, mas agir como se vestisse uniforme laranja. Alguns destaques da ficha do cidadão:

1) Apitou a final da Taça Tabajara 2006. O Madureira vencera o primeiro jogo por 2×0, e o Petrobrás FC precisava vencer por três gols de diferença pra levar o título. Venceu, por 4×1. No final do jogo, Marcelo saiu dando pulinhos de felicidade, comemorando alguma coisa que não quis dividir conosco.

2) Apitou Vasco x Petrobrás FC, no Brasileiro do ano passado, no início da campanha que tirou o rubro-negro da zona de rebaixamento. O jogo terminou 1×1, com três penaltis não marcados a favor do Vasco.

3) Apitou Bangu x Bonsucesso, pela segunda divisão carioca do ano passado. O Bangu, time do presidente da Federação Carioca, precisava da vitória para voltar à primeira divisão. Pois bem, o jogo sequer aconteceu: Marcelo deu WO no Bonsucesso, alegando que o enfermeiro não tinha carteira do Conselho de Enfermagem, apenas carteira de trabalho. (Coincidentemente, o próprio Marcelo, antes de virar árbitro, foi goleiro do Bangu.)

4) Marcelo de LIma Henrique foi indicado esse ano ao quadro da FIFA, juntamente com o paranaense Evandro Rogério Roman. Provavelmente, um prêmio pelas suas boas arbitragens.

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E ninguém pára
O urubu ladrão
Presidente rouba, torcedor assalta, juiz mete a mão.

E ninguém para
Essa roubalheira
Rouba o Botafogo, rouba o peruano, rouba o Madureira.”*

A entrevista de Cuca depois no jogo, publicada no Globo Esporte, é uma das coisas mais amargas e emocionantes que eu vi no futebol recentemente.

Os jogadores se desestabilizaram com o árbitro, que ficou provocando o nosso time o jogo todo. O Túlio estava chorando em campo, pedindo “me tira, me tira”. Eu não tirei e disse “fica, não vou te tirar”. Aqui, é fácil falar (que Túlio não tem condições emocionais de ser líder do time), mas acho que ele foi um herói por ter escutado tudo o que escutou e não ter sido expulso.

Espero que vocês da imprensa não fiquem dizendo por aí que aqui no Botafogo só tem choro, pois as imagens estão aí. Se eu estiver errado, retiro tudo o que estou dizendo. Não tem choradeira de perdedor aqui. Quando você entra no vestiário e vê homem velho chorando, presidente entregando o cargo, é porque alguma coisa tem.

No fim do jogo, eu perguntei ao árbitro se ele iria dormir. Ele sorriu, disse que ia dormir “muito bem”. Eu não vou dormir. (…) Se o Ibson tivesse perdido o pênalti, ele teria mandado voltar duas ou três vezes.

Túlio também foi claro:

Depois daquilo, não aguentava mais jogar. O futebol carioca vem tentando ganhar credibilidade, mas a arbitragem joga tudo por água abaixo. Só continuo a disputar o Campeonato Carioca porque tenho contrato. Sei o que vou falar pode prejudicar nossa renda, mas se fosse torcedor, não assistiria mais aos jogos dessa competição – diz ele, sob lágrimas, para logo depois ser levado para dentro do vestiário.

E eu entendo perfeitamente a dor de ambos. O que vem acontecendo no futebol do Rio de Janeiro é algo doentio, vergonhoso. É sempre a mesma coisa, é sempre o mesmo time a ser favorecido, sempre, sempre, sempre. Não importa o que os outros façam, não importa o quanto lutem, o quanto briguem, sempre acontece um “lance polêmico” que muda a história do jogo. Sempre, sempre, sempre.

Eu acho algo muito sintomático o Túlio ter tido essa reação quando o jogo estava EMPATADO. Ou seja, teoricamente, ainda em aberto, sem justificar esse desalento. Isso é uma prova cabal de que os jogadores, lá dentro, sentiam bem que o que estava acontecendo não era algo normal, um erro de jogo. Chamo a atenção pra duas frases do Cuca que resumem esse sentimento: “O árbitro ficou provocando o time o tempo todo” e “Se o Ibson tivesse perdido o penalti, ele ia mandar voltar duas ou três vezes”.

É essa sensação que mata. Você sabe que as coisas estão seguindo um script, que você pode estar ganhando o jogo, mas cedo ou tarde vai acontecer algo estranho. Como manter os nervos no lugar com uma situação dessas?

Dizem que se o Botafogo fizesse aquele gol aos 49 do segundo tempo, o jogo iria para os penaltis e poderia ser diferente. Poderia, claro. Mas aí o que faríamos com a “coincidência” do juiz ter expulsado exatamente Lúcio Flávio (batedor oficial de penaltis) e Zé Carlos (batedor número 2)?

Isso tudo é muito complicado. Não tem UM jogo em que não aconteça algo estranho, e sempre a favor dos mesmos. É muita coincidência.

“Tu és time de tradição, onde só tem ladrão…”*

E alguns dos torcedores desse time ainda tem a cara de pau de comemorar títulos assim. Eu já disse outras vezes, e mantenho: existe muito torcedor do Flamengo honesto, íntegro, que se envergonha disso tudo. Mas torcedor do Petrobrás que não sente vergonha, torcedor do Petrobrás que comemora esse tipo de vitórias, é cúmplice do que vem sendo feito. E não merece o meu respeito.

E, também repetindo algo que já disse aqui outras vezes, o que me dói mais é que isso não é “apenas” um jogo de futebol. É um retrato do país, um retrato no qual eu não me reconheço. É o retrato de um povo que quer ser funcionário público “pra não trabalhar”, quer ser político “pra também levar o seu”. Um povo que apóia um governo como esse porque “ele dá bolsa pra gente”.

É o povo de Gérson. Dane-se se é roubo, dane-se se é crime, dane-se se é trapaça. Se eu estou levando vantagem, vale tudo. Se é pro meu bem, dane-se o resto do mundo, dane-se a justiça, dane-se a honestidade.

E, enquanto essa mentalidade continuar, eles vão continuar ganhando. E brindando à falta de caráter de quem bate palmas, pagando a conta do cartão corporativo.

Quem são eles? Eles, não importa quais. Eles da Gávea, eles de Brasília, eles do tráfico, eles de qualquer lugar.

Créu. Créu, créu.

(* Nota: Os versos em itálico são paródias, respectivamente, do filme Tropa de Elite, e das músicas da torcida do Botafogo e do Flamengo, que correm pela internet, na repercussão da final da Taça GB.)

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2 Responses to Coisas que só acontecem ao Botafogo ? Antes fosse.

  1. O Ser Botafogo

    Agora que passaram algumas horas desde o apito final do juiz no jogo de ontem, estando de cabeça fria é possível fazer uma análise do que é o Botafogo e o Ser botafoguense. Não é dramatismo e muito menos fatalismo, mas apenas uma constatação …

  2. […] de 2008. Na final da Taça Guanabara, Botafogo e Flamengo se encontram de novo. O jogo. apitado por Marcelo Lima Henrique, é um […]

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