Diogo, o terrível


Lula –o meu Lula– é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.
(Diogo Mainardi)

Quando dois bons escritores se encontram, o resultado costuma ser, no mínimo, algo interessante de se ler. O português João Pereira Coutinho entrevistou o brasileiro Diogo Mainardi, e o resultado foi publicado na Folha de São Paulo, em uma coluna de JPC que levou o mesmo nome deste post. Só a introdução já abre o apetite:

É um dos meus desportos favoritos: chegar ao Brasil e falar, em tom blasé, de Diogo Mainardi. “Você leu a coluna dele na Veja? Muito boa”, digo eu. O meu interlocutor cai num silêncio sepulcral. As veias do pescoço vão inchando como em certos filmes de vampirismo. O sangue concentra-se todo na cabeça. Os olhos, vermelhos e irados, saem das órbitas. A boca espuma. Os queixos tremem. Alguns levam a mão ao braço esquerdo e pedem uma ambulância. Deus do céu, eu já perdi a conta dos infartos, ou das ameaças de infarto, que a minha perversidade provocou em São Paulo e no Rio. Diogo Mainardi não é um colunista. É uma assombração.

Curioso. Irônico. Paradoxal. As mesmas pessoas que desmaiam na minha frente com o nome de Mainardi não desmaiam com uma elite política corrupta que usa dinheiro público tradução: dinheiro dos brasileiros para suas negociatas. O mal não está em quem rouba. Está naqueles que denunciam o roubo. Em condições normais, um país estaria grato aos jornalistas que vigiam e criticam o poder. Mas o Brasil não é um país normal. Aliás, Portugal também não é e pressinto aqui uma cultura histórica comum: quando um colunista abre a boca para criticar o governo, ele não critica o governo. Ele é um demente, um invejoso, um fracassado. E, em caso de discórdia, os leitores, para não falar dos colegas de ofício, não estão dispostos a contra-argumentar. Mas a censurar. O ideal não é discutir. É silenciar. Na impossibilidade de fuzilar. Curiosas mentalidades.

Às vezes pergunto se vale a pena continuar. Como Diogo Mainardi pergunta em seu último livro, “Lula é Minha Anta” (Record, 240 págs.), relato da sua odisséia anti-lulista. No livro, conta Mainardi que dedicou cerca de 5 mil horas a Lula (antes do mensalão começar). Cinco mil. Uma vida. Uma barbaridade. E quando o colunista acredita que finalmente se libertou do presidente, o mensalão estoura e Lula, como nos filmes de Coppola, volta a arrastá-lo para a velha dança. Mais 5 mil horas. Mais dez. Mais quinze.

Eu não me perdoaria. Sério. Nas milhares de horas que Mainardi perdeu com Lula, teria sido possível ler todo o Balzac, todo o Flaubert. Mas também teria sido possível viajar. Dormir. Namorar. Vadiar. Milhares horas com Lula e o PT não inspiram indignação. Inspiram compaixão.

É sempre um privilégio poder ler JPC. E, nessa entrevista, ainda temos o bônus das respostas afiadas de Mainardi. Alguns trechos:

JPC: Antes de qualquer pergunta sobre o seu livro, gostei de ver nele as fotos dos seus filhos brincando com um pelúcia do Lula. Em São Paulo, um amigo mostrou-me o mesmo boneco e disse-me que tinha sido criado por um artista plástico. Ainda tentei comprar um, mas não consegui. Você sabe onde eu posso encontrar esse boneco?

DM: Vou ver se arrumo um boneco extra.

JPC: Obrigado. Você não acha que o boneco tem uma graciosidade que falta ao presidente?

DM: Pouco tempo atrás, acordei no meio da noite e flagrei o boneco roubando minha carteira e tentando matar o peixe no aquário.

JPC: E o que você fez? Não me diga que pediu impeachment…

DM: Tranquei o boneco no armário da cozinha.

(…)

JPC: Você não acha que a corrupção, para os brasileiros, não é tão grave como seria para os europeus?

DM: Corrupção é fruto de falta de democracia. Quanto mais avançada é uma democracia, menor o risco de corrupção. Uma imprensa independente ajuda a vigiar a classe política. Um judiciário independente também. Até a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial. Tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular.

JPC: Então o problema central talvez não seja Lula, mas o Brasil.

DM: Exatamente. Lula –o meu Lula– é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.

JPC: Eu estive no Brasil em dois momentos marcantes dos últimos anos: quando o mensalão estava no auge e nas últimas eleições. E fiquei pasmo com pessoas educadas, fluentes e letradas que diziam que votariam em Lula, não em Alckmin?

DM: Pessoas educadas, fluentes e letradas que votam em Lula? Não conheço. Acho que você está freqüentando demais os jornalistas da Folha de S.Paulo.

JPC: Qual a responsabilidade da oposição nesse clima favorável a Lula? Você acha que o “impeachment pelas urnas”, que chegou a ser defendido por Fernando Henrique Cardoso, foi ingenuidade ou estupidez?

DM: Fernando Henrique Cardoso não é ingênuo nem estúpido. Acho que os oposicionistas queriam tomar o lugar do Lula sem mexer nos esquemas de corrupção que os beneficiaram no passado e que podem beneficiá-los no futuro.

JPC: Ou seja, a oposição é tão corrupta como o presidente?

DM: O lulismo é muito mais perverso: transformou a corrupção em plataforma de governo.

(…)

JPC: Um de seus melhores textos, “Minha Vida de Coiote”, é o retrato de como perseguir Lula se transforma sempre num desastre para o perseguidor como na história do Coiote e do Papa-Léguas. Com todos os processos, ameaças e xingamentos, você nunca pensou simplesmente: “que se dane tudo”?

DM: Como o Papa-Léguas, eu sempre acho que meu próximo plano vai dar certo.

(…)

JPC: Por que motivo os petistas nunca acertam com o seu nome? É sempre “Diego”, “Diego”.

DM: O petismo tem um problema com a língua portuguesa, Juan.

(…)

JPC: Abrindo um pouco mais a conversa: como você observa a política da América Latina –Chávez, Morales e tutti quanti?

DM: Jura que você quer falar sobre essa gente?

JPC: Claro. O grotesco diverte-me.

DM: Em excesso, o grotesco enjoa.

JPC: Apesar de tudo, seria improvável que Lula seguisse os passos da “revolução bolivariana” de Chávez, não?

DM: Eu sempre reconheci uma qualidade em Lula: ele é maricas demais para se meter numa fria dessas.

(…)

JPC: Você é regularmente identificado com a “escola Paulo Francis”. Você concorda com essa linhagem?

DM: Fui um aluno relapso, mas é claro que estudei nessa escola.

JPC: E o que aprendeu com ela?

DM: Como todo aluno relapso, não consegui aprender nada. Mas o professor era ótimo.

A entrevista completa, para ler e salvar no HD, pode ser encontrada aqui.

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6 Responses to Diogo, o terrível

  1. Carol Linden disse:

    Eu adoro o Mainardi. 🙂

  2. Luciana disse:

    “O petismo tem um problema com a língua portuguesa, Juan.”
    Hahahaha. Dá pra imaginar até o tom de voz dele 😛
    Eu adoro o Mainardi. [2]

  3. L.S.D. disse:

    “…Acho que os oposicionistas queriam tomar o lugar do Lula sem mexer nos esquemas de corrupção que os beneficiaram no passado e que podem beneficiá-los no futuro.”
    Sad but true! Grande Mainardi!

  4. You-Know-Who disse:

    O Mainardi é óbvio: um cara que escreve coluna pra criticar a massa humana ao redor da Cláudia Leite está no nível de qualquer teenage rocker.

  5. lucio disse:

    diogo ja me cansou de falar mal do lula de qem qer q seja, ele é um cfilho da classizinha media brasileira , só + um reacionário atoa q ñ vai mudar nada! ñ estoudo lado do lulismo como vcs gostam de chamar só acho q elel é de exxxxxxxtrema direita, quase n……………!

  6. Eu amo o Diogo. É, indubitavelmente, uma das coisas que mais sinto falta do Brasil.

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