Apenas mais um João


Sete de fevereiro de 2007. Uma notícia choca todo o país. Um menino de seis anos é morto, arrastado pelas ruas de um subúrbio do Rio de Janeiro, preso a um carro roubado. Testemunhas contam que os bandidos festejavam, enquanto torturavam a criança. Um deles dizia que “esse é o nosso boneco de judas”.

Rios de tinta são publicados. Lágrimas de sangue choradas. Passeatas, protestos, choro e ranger de dentes. Autoridades prometendo veementemente ações mais ou menos drásticas.

Sete de fevereiro de 2008. Um ano depois, alguém lembra? Para quantas pessoas o nome de João Hélio significa mais do que uma vaga recordação?

Uma missa marcou a data. Não houve discursos inflamados. Não houve passeatas de ONGs atrás de exposição gratuita. Não houve, sequer, um minuto de silêncio no jogo do Botafogo, time de coração de João. Não houve nada, além da dor da família. E da revolta daqueles que ainda se lembram.

Há um ano, o povo brasileiro cobrou das autoridades um endurecimento da legislação. Ninguém aguenta mais monstros como os assassinos de João andando soltos por aí. Ninguém aguenta mais bandidos de 16, 17 anos sendo julgados como “pobres crianças inocentes”.

A resposta dos defensores de bandidos era unânime: “não podemos tomar decisões no calor da tragédia”. Quando acontece um caso midiático, nada deve ser feito, pois todos estão com a cabeça quente. Um ano depois, o calor passou, o assunto esfriou. E tudo continua na mesma. A lei não mudou. E, principalmente, a mentalidade não mudou. Aqueles que decidem continuam arranjando pretextos para deixar tudo como está. E o povo dá razão a eles: deixou o assunto esfriar.

Tempos depois, um policial foi morto na mesma rua onde João Hélio foi levado pelos seus assassinos. Os assaltos naquela região continuam frequentes. Naquela e em outras. Por toda a cidade, o crime impera. Bandidos “dimenor” continuam matando, roubando, traficando, impunemente. Bandidos “dimaior” continuam sendo soltos depois de meia dúzia de dias, debochando das leis e voltando a praticar crimes logo a seguir.

Os assassinos estão livres, nós não estamos.

No ano passado, dias depois da morte de João Hélio, Botafogo e Flamengo jogaram no Maracanã. Houve um minuto de silêncio, as torcidas levaram faixas alusivas ao caso. Todos se emocionaram ao ver duas torcidas rivais unidas por uma mesma revolta.

Neste ano, nada. O silêncio não esteve no minuto. O silêncio esteve nas almas daqueles que, hoje, têm outras coisas mais importantes para lembrar. Afinal, estamos no meio do carnaval. Skindô, skindô.

No ano passado, o carnaval aconteceu mais ou menos duas semanas depois de matarem o João. Muita gente, acreditem, sugeriu que a festa devia ser cancelada, devido à comoção popular. A Sapucaí teve um minuto de silêncio. Por toda a cidade, surdos se calaram, repiques não ecoaram, cuícas silenciaram, pois todos os blocos queriam mostrar sua revolta.

Neste ano, sobraram apenas os surdos. Surdos ao eco dos gritos de uma criança que já virou estatística.

Há um ano, muita gente disse “agora chega”. Muita gente disse “basta”. Ouvi de muitos otimistas a tese de que o caso do menino João Hélio era “o fundo do poço”. Era um caso tão sério, mas tão sério, que faria algo acontecer. A partir dele, sonhavam, o povo iniciaria uma reação que ia trazer o resgate do Rio de Janeiro.

Infelizmente, nunca consegui ter essa ilusão. A dor do povo dura uma semana. A revolta, duas. Depois, vem um novo caso, um novo escândalo, ou um novo Big Brother, e tudo passa. A vida continua.

A gente não chegou no fundo do poço quando um repórter foi torturado e queimado vivo no alto de um morro. A gente não chegou no fundo do poço quando um ônibus foi incendiado por traficantes, com os passageiros dentro. A gente não chegaria no fundo do poço só porque um menino de seis anos foi destroçado, arrastado pelas ruas de Cascadura, preso a um carro em alta velocidade.

A gente não chegou no fundo do poço, porque esse poço não tem fundo.

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