Mais enrolados que fio de telefone (1)


“Quando se discutiu a possibilidade de impeachment do Lula, não entrei na conversa. Politicamente havia uma situação inequívoca, pois ficou demonstrado que o publicitário dele (Duda Mendonça) recebeu dinheiro no exterior para fazer a campanha a presidente. Qualquer prefeito do interior que tivesse uma acusação dessas nas costas seria cassado! Mas preferi pensar no País. Como enfrentar o impeachment de um presidente operário, um migrante do Nordeste que pela primeira vez chega à Presidência? Que marcas isso iria deixar no Brasil?”

(Fernando Henrique Cardoso, O Estado de São Paulo)

“A abertura de um processo de impeachment traria um desgaste enorme ao país. Um processo de impeachment tem vários pés, é quase uma centopéia. É preciso motivo jurídico, que havia de sobra. Tem de ter crise de governabilidade, que não havia. Tem de ter desorganização de base parlamentar, que não havia. Precisa de clamor das ruas, que não havia. (…) Não faria bem para a economia brasileira, passaríamos ao mundo a imagem de um país instável, que derruba um presidente a cada treze anos.”

(Senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), Veja)

Os trechos acima são de duas entrevistas publicadas nesta última semana. E são um belo retrato do desserviço que a dita “oposição” causou ao Brasil. Por uma avaliação errada da situação, deixou à frente do Brasil um governante que não tem a menor condição de governar. E ainda dizem que “pensaram no país”, pois isso seria “ruim para a economia”.

Quando FHC diz que “havia uma situação política inequívoca” para um pedido de impeachment, e que “qualquer prefeito de interior seria cassado” com aquelas acusações, ele admite a gravidade da situação. E deixa claro que a lei não é igual para todos: um presidente, ainda mais se for “operário e migrante nordestino” pode cometer desvios de conduta “inequívocos”, e ainda assim escapar da justiça.

Ao dizer isso, FHC reforça o mito que Lula adora cultivar, ou seja, de que ele é “do povo”, e por isso tem uma imunidade ampla e irrestrita. Pode fazer qualquer coisa e ficar impune, e ainda acusar os adversários que apontem os seus erros de preconceituosos, por estarem atacando um “operário e migrante”, que eles não aceitam que tenha chegado ao “pudê”.

Que Lula tente se colar a essa imagem, faz parte do jogo. Ele está vendendo o peixe dele. Que FHC ajude a reforça-la é, no mínimo, uma bobagem. O que uma oposição séria deveria fazer seria destruir essa armadura, mostrar a nudez do rei. E, se achava que o fato político era “inequívoco”, pedir o impeachment do presidente. Afinal, se os fatos eram graves o suficiente para condenar um prefeitinho qualquer, o que dirá do chefe maior do país, aquele que mais deve ser controlado, por ter muito mais poder nas mãos?

Três dias depois, na Veja, o senador Arthur Virgílio seguiu pelo mesmo caminho, sendo ainda mais esclarecedor. Segundo ele, havia “motivo jurídico de sobra” para o impeachment, mas não havia “clamor popular”. Ou seja, está tudo bem se temos no governo alguém contra quem pesam “motivos jurídicos de sobra”, desde que ele não perca a popularidade? E que, enquanto “a economia for bem”, vale tudo, ainda que haja “motivos jurídicos de sobra” para se condenar o governante?

Ora, mais uma vez, a “oposição” faz o jogo de Lula. Isso é tudo que ele repete: o efeito teflon (nada pega nele, nada cria o “clamor popular”), o fato de que ele e os quadrilheiros do mensalão foram “absolvidos pelas urnas”, como se voto lavasse crime, e os números da economia como ponto a seu favor.

Eu gostaria de saber por onde andavam, em 1992, os senhores Fernando Henrique e Arthur Virgílio. Por onde eles andavam quando um presidente foi cassado, sem que houvesse “motivos jurídicos de sobra” ou “fatos políticos inequívocos”, apenas por contrariar interesses de muitos.

“Como enfrentar o impeachment de um presidente operário, um migrante do Nordeste que pela primeira vez chega à Presidência?”, pergunta FHC. Mas ele se perguntou como enfrentar o impeachment de um presidente eleito pelo voto popular, depois de 25 anos sem democracia? Ele se preocupou com o trauma causado ao país com a cassação do primeiro presidente civil, eleito pelo povo, depois de 25 anos com cinco generais e um coronel?

“Não faria bem para a economia brasileira, passaríamos ao mundo a imagem de um país instável, que derruba um presidente a cada treze anos”, completa Arthur Virgílio. E o que aconteceu em 92, fez bem à nossa economia? Passou uma bela imagem para o mundo? Um país que derruba um presidente a cada treze anos é “instável”. E um país que derruba o primeiro presidente que elege depois de 25 anos de “ditadura” é o que? Uma república de bananas? Golpe em 64, cinco generais se sucedem, um vice sem votos toma o lugar deles, até que, oba! democracia!, um presidente é eleito, e… golpe de novo. Muito estável, com certeza.

Ou seja, em 92, cassar um presidente era uma prova de “maturidade democrática”. Em 2005, já se tornava “um desgaste”, “um trauma”, que iria causar “instabilidade” e “comoção”. OK.

Os argumentos de FHC e Arthur Virgílio não se sustentam de pé. Em nome de “não mexer com o operário” ou de “não passar uma imagem instável do país”, eles preferem deixar no poder alguém contra quem pesam “fatos políticos inquestionáveis” e “motivos jurídicos de sobra”. Em nome disso, deixam clara a mensagem de que a lei não é para todos, só vale para alguns.

Não seria a minha escolha. Foi a deles. Então, que assumam as consequencias delas. E que não reclamem quando alguém diz que não considera o PSDB oposição.

Em 2002, falando do apagão, Lula disse que FHC era “o chefe de um governo que conduziu o país a uma fase de trevas”. Nunca estive tão de acordo com o nosso Rei-Nu. Afinal, foi Fernando Henrique Cardoso o maior responsável pela eleição de Lula. Então, a verdade é essa: mesmo FHC conduziu o país ao governo Lula, logo, às trevas em que vivemos. Cada vez mais sombrias.

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2 Responses to Mais enrolados que fio de telefone (1)

  1. L.S.D. disse:

    Essas declarações demonstram que PSDB e PT são farinha do mesmo saco. Repare que o FHC e o Virgílio admitem que um crime foi cometido, mas se recusam a aplicar a lei (que no caso deveria levar ao impeachment do criminoso). Quer dizer, então, que passar para o mundo a imagem de um país de derruba um presidente a cada treze anos, não pode. Em lugar disso, passamos para todos a imagem de um país onde impera a corrupção com impunidade! Francamente! $%@)#$#$#!!!!

  2. Lia de Souza disse:

    Nojento esse FHC, foi o maior cabo eleitoral de Lula, que foi eleito por revanche, raiva de quem foi roubado em anos de vida pela Reforma da Previdência, que depois foi copiadinhaaaa pelo Besta de Garanhuns.

    É um crápula, como senador, como presidente, como homem e marido, pois além de cornear a mulher com uma jornalista “não resisti, ela cheirava a uma cavala”, escondeu seu bastardo mandando mãe e filho pra Espanha,sustentados sabe lá por quem, dizem que a Globo.Então tá.

    O que causa mais indignação é como ainda tem gente tão lambe a bunda desse vagabundo que se aposentou sem trabalhar,que se apropriou dos avanços que pertencem a Itamar Franco que lhe deu carta branca para juntar os melhores economistas para elaborar o Plano Real.Ele só assinou, não tem nada dele ali, desde quando um sociólogo entende de Economia a ponto de elaborar um Plano Econômico?Pegou carona no taleno alheio.Pirata.
    Assim como o Mulla tem a imprensa cooptada há os jornalistas, que se dizem amantes da lógica,que se babam qdo falam de FHC, publicar comentário contra?Nem pensar.
    Só faltam escrever um texto dizendo que FHC não disse o que disse…
    Réu confesso, sabia que havia crime e não só se omitiu como agiu ativamente pra evitar o impeachment. Não passa de esquerdinha de merda,da esquerda rosadinha,rosée,subtom da vermelha petista.
    Tirando Ipojuca Pontes que não poupou o ‘príncipe’, o resto, os cabotinos do PSDB, os cabos eleitoriais do Serra, do Alkimim, como se estes soubessem de suas existências de eleitores merrecas, só babam baby pro FHC.
    Gente nefasta,se merecem.

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