O fim de Jacarepaguá


Carlos Arthur Nuzman anunciou ontem no Rio aquilo que todos os cariocas ligados em automobilismo esperavam há tempos: o fim do Autódromo Nélson Piquet, em Jacarepaguá. É o desfecho previsível para um processo que já vinha se desenrolando há tempos, e que tinha se tornado inevitável depois do que foi feito no Pan.

Usando como fachada um “projeto olímpico”, que só serve para iludir incautos (entre outras “utilidades”…) o Autódromo irá sucumbir para dar lugar a um “centro olímpico”. E, claro, essa “estrutura” terá que ser construída exatamente ali, e em nenhum outro lugar. E, provavelmente, por lá ficará até às Olimpíadas no Rio de Janeiro, que devem acontecer por volta de 2234…

Quanto já foi gasto nesse programa, que já foi “Rio 2004”, “Rio 2012”, e agora é “Rio 2016”? Fala-se que, só para essa nova denominação, já foram destinados 74 milhões. Setenta e quatro milhões de reais, voando dos cofres públicos. Setenta e quatro milhões de reais que saem do meu bolso, do seu bolso, para irem abastecer uma operação no mínimo duvidosa.

O Fábio Seixas publicou hoje um excelente texto sobre o assunto, que peço licença para reproduzir aqui. Faço minhas as palavras dele, da primeira à última.

O FIM DE JACAREPAGUÁ
(Fábio Seixas)

Jacarepaguá morreu.

Hoje, no Rio, Nuzman anunciou oficialmente o que já era óbvio após a destruição empreendida para o Pan-Americano: a (pequena) área que havia restado para o automobilismo será aniquilada para a construção de um centro olímpico, parte do plano do Rio para pleitear a Olimpíada de 2016.

Algumas considerações…

A primeira: qualquer pessoa que circule pelo bairro de Jacarepaguá logo entende o absurdo de tudo isso, imediatamente percebe a imensidão de terrenos desocupados que há por ali. O autódromo é vizinho de uma pista de pouso e de uma favela. Depois de um e de outro, o que existe é matagal, charco, áreas livres, enfim. Mais para a frente, até o Riocentro, mais mato, mais charco, mais áreas livres.

O centro olímpico poderia ser construído facilmente em quaisquer dessas áreas. Há espaço para dez centros olímpicos. Mas não. O COB fez questão de destruir o autódromo.

E por quê? Talvez pelo fato de o automobilismo não ser esporte olímpico, não estar sob o imenso guarda-chuva de verbas e favores devidos pelas confederações ao COB, pelo fato de rivalizar na disputa por patrocínios com o basquete, o judô, o vôlei, o badminton. É o que me parece.

A segunda: o Rio não será sede da Olimpíada de 2016. Esquece. Se havia uma chance mínima, foi pros confins do espaço com a “escolha” do Brasil para receber a Copa de 2014.

Ah, mas pode esperar: a “candidatura olímpica”, assim mesmo, com aspas, será usada como justificativa para gigantescas fogueiras com dinheiro público. Com o seu dinheiro. O COB já fala em R$ 74 milhões só para a candidatura. Repito: R$ 74 milhões só para a candidatura.

E está só começando – como vimos no Pan, a diferença entre orçamento e realidade é escandalosa.

A terceira: diz o COB que já há estudos para construção de um novo autódromo no Rio. Duas áreas estariam sendo analisadas. Por que essas áreas não poderiam receber o centro olímpico? Porque destruir algo que já estava (muito bem) construído para erguer outro, sei lá como, sei lá onde, mas em outro lugar da cidade? As empreiteiras, sempre elas, agradecem.

A quarta: autódromo novo? Esquece, também. Não sei o que é mais difícil: o Rio sediar a Olimpíada, um autódromo novo ser construído ou o Sato vencer o Mundial.

Se a prefeitura foi conivente com a destruição de Jacarepaguá, é porque considera um autódromo equipamento público desnecessário. Empregar recursos na construção de um novo circuito seria, no mínimo, improbidade administrativa.

A quinta: é difícil encontrar superlativos para definir a incompetência da CBA. Que Nuzman trabalhe contra o automobilismo é lamentável, mas compreensível. Que a CBA deixe as coisas acontecerem como vêm acontecendo nos últimos anos é lamentável e chocante.

O Brasil não tem uma categoria de monopostos para pilotos recém-saídos do kart. Agora, perde também um de seus melhores autódromos. De onde surgirão os próximos brasileiros candidatos a vagas na F-1, na GP2, na IRL, na ChampCar? Importaremos da Alemanha?

A gestão de Paulo Scaglione à frente da CBA é um exemplo. Exemplo de como não fazer as coisas.

Triste. Mais do que revoltante, tudo isso é muito triste.

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