Torcer faz bem. Pra quem?


A imagem acima é o retrato perfeito do que foi esse ano para o futebol brasileiro. Uma vergonha completa, onde a única coisa a ser comemorada é o inédito penta-cameponato do São Paulo.

Na imagem acima, torcedores do Petrobrás FC mostram toda a sua educação, todo o seu civismo, todo o seu caráter, jogando fora um produto alimentar que deveria ser doado a crianças necessitadas. Acredito que eles devem ter se divertido muito com isso. Afinal, o que há de mais em jogar no lixo algo que, teoricamente, serviria para matar a fome de meia dúzia de crianças? Nada, claro. Ainda mais para a mesma raça que tem o costume de colocar areia nessas mesmas latas e entrega-las como se fosse farinha láctea…

Essa “festa do Neston” aconteceu no Rio de Janeiro, durante essa semana. Depois das ameaças terroristas que fizeram o tribunal recuar na punição imposta ao Petrobrás, a Nestlé fez a sua parte, ajudando a torcida movida a pó a bater mais um pseudo-record de público. As cenas policiais foram se sucedendo. Tiroteios nas filas, supermercados assaltados, bilheteiros ameaçados. Dois supermercados na zona norte do Rio foram saqueados, atrás de latas do produto. Cambistas chegavam a trocar 80 latas por ingressos, mesmo o limite sendo duas por pessoa. O gran finale foi essa cena aí em cima. Acho que nenhuma palavra pode ser tão forte quanto a imagem.

Hoje é um dia de festa para algumas pessoas. Hoje, chegou ao final a operação de salvamento, que tirou o Petrobrás FC do rebaixamento, para leva-lo no colo até o mais acima possível, contruindo, no meio do processo, o mito dos “records de público”.

Ficam aqui os meus sinceros parabéns a todos os que conspiraram para que isso acontecesse. Parabéns à Rede Globo, que consegue garantir audiência para o ano que vem. Parabéns à CBF, sempre pronta para remarcar jogos segundo os interesses de quem manda. Parabéns aos tribunais, por terem cedido a todas as pressões e colocado a justiça em segundo plano. Parabéns à Nestlé, e principalmente ao seu genial departamento de marketing, por patrocinar isso tudo, e associar sua imagem a cenas de vandalismo e a suspeitas de trapaça e manipulação de resultados. Parabéns ao departamento médico do Petrobrás FC, eles sabem por que. Parabéns aos árbitros, por mostrarem tão claramente que, além dos Lulas, também são “dezenas de Edílsons apitando neste país” – e que ainda hoje deram mais uma prova disso.

E, claro, um parabéns todo especial para a nação rubro-negra, essa torcida maravilhosa que apoiou o time sempre, de todas as maneiras possíveis, seja sequestrando o juiz no dia da decisão do campeonato, seja ameaçando os tribunais para garantir a impunidade do clube, seja fazendo todas essas sujeiras com as latas da Nestlé.

Dá vergonha de ser brasileiro. Dá nojo de continuar vestindo o nariz de palhaço e acompanhando esse futebol, com resultados planejados de antemão. Mas reclamar de que? Isso é um retrato do país. Corrupção, trapaça, lei da selva, “levar vantagem em tudo”. Gente que não reclama, porque meu partido/time foi beneficiado, e afinal de contas “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Gente que justifica roubos com “todo mundo faz, né?”. Eu estou falando de futebol? De política? De cultura? De povo? De tudo. De tudo.

Os torcedores honestos do Petrobrás FC, aqueles que têm caráter, a uma hora dessas devem compartilhar esse sentimento. Devem sentir vergonha, talvez até maior do que a minha. Porque devem sentir desprezo, revolta, por verem a que ponto o seu clube desceu, com que tipo de coisas ele se envolve. Esse é o Petrobrás FC, e não o clube que eles aprenderam a amar. Os rubro-negros de caráter sabem que esse é um ano para se esquecer.

Agora, os outros, a uma hora dessas, devem estar fazendo a festa. E tem todos os motivos para isso. Eles são maioria. O mundo é deles. Hoje a noite será longa, com Neston jogado pra tudo que é lado. E haja pó.

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