Por que não se calam


A essa altura, creio que todos já conhecem o caso. O “por que no te callas?” do rei Juan Carlos de Espanha, dirigido ao ditador venezuelano Hugo Chávez, caiu na boca de todos e rodou o mundo. Já ganhou versões rock, funk, ringtone de celular, etc, etc.

Há duas maneiras de se ver esse fato. A primeira é o efeito “lavou a alma”. Juan Carlos fez aquilo que todos os democratas anseiam por fazer. Alguns não fazem por medo, outros por amarras diplomáticas, mas a verdade é que o Rei deu voz a todos aqueles que são obrigados a aguentar as fanfarronadas do coronel. Por um momento, todos fomos espanhóis. Por um momento, todos tivemos vontade de que o Brasil tivesse um governante capaz de, com uma resposta dessas, colocar o ditador no seu lugar.

Mas o episódio traz também um contexto mais profundo. Na verdade, o que aconteceu ali foi um choque entre duas visões de mundo. Um choque muito representativo da guerra que travamos hoje em dia. Em raras vezes isso ficou tão claro. No encontro de Juan Carlos de Bourbon e Hugo Chávez, vimos os dois lados do confronto. E já passou da hora de cada um de nós começar a escolher de que lado está.

Se alguém ainda não viu a cena, o vídeo está aqui:

Para quem não acompanhou desde o início, vamos fazer uma recapitulação do que aconteceu naquela hora, o que levou o Rei a ter aquela reação. Durante a reunião da Cúpula Ibero-Americana, no Chile, o caudilho venezuelano resolveu aprontar mais uma das suas bravatas. Aproveitando a presença da delegação espanhola, Chavez fez um duro discurso contra a Espanha e principalmente contra o ex-primeiro-ministro espanhol, José Maria Aznar. Entre outras coisas, chamou Aznar de “fascista”, criticou a Espanha por algumas medidas comerciais e acusou o governo espanhol de “apoiar o golpe de 2002 em Caracas”.

O atual primeiro-ministro da Espanha, José Luis Zapatero, respondeu a Chavez. Ou melhor, tentou responder. Chavez não o deixava falar, interrompia a cada segundo. E Juan Carlos fechava cada vez mais a cara. Até a hora em que o Rei não aguentou, virou para o bufão venezuelano, e disparou o agora famoso “por que no te callas?!”.

Porque eu digo que isso é muito representativo de duas visões de mundo diferentes?

1) Hugo Chávez não se incomoda nem um pouco com a “moral burguesa e hipócrita”. Fala o que quer, na hora que quer. Finge não enxergar as diferenças entre o seu castelo e uma cúpula internacional. O que ele pretende é fazer com que o mundo seja uma extensão do seu quintal. Acostumado a ser obedecido, acostumado a que todos escutem calados e concordem com ele, Chavez acha que pode fazer o mesmo em qualquer lugar. E por isso não vê nada demais em chegar a uma reunião diplomática e ofender um ex-governante de outro país.

2) Zapatero, acostumado a jogar de acordo com as regras, pede a palavra e parte para uma resposta diplomática. “Pode-se estar de lados opostos em posições ideológicas, e não serei eu a estar perto das idéias de Aznar, mas eu fui eleito pelos espanhóis e exijo respeito”. Embora, da mesma maneira, não seja eu a estar perto das idéias de Zapatero na maioria das coisas, não me incomodo de dizer que ele deu uma aula ao venezuelano. A vontade dele podia ser responder “ô gorilão, fascista é tu madre!”. Seria uma resposta mais ao nível de Hugo Chávez. Mas não é a resposta adequada para uma cúpula diplomática. E Zapatero fez o que devia ter feito. Em democracia, há alternância. E uma ofensa a Aznar, por mais que ele seja seu rival, é uma ofensa à Espanha. Ontem, Aznar era a Espanha. Amanhã, outro será. Mas hoje, Zapatero é a Espanha. E é seu dever defender o país de um ataque gratuito como esse.

3) Melhor seria dizer que Zapatero tentou fazer o certo. Apenas tentou, porque Chavez não deixa. A cada vez que Zapatero abre a boca, ele interrompe. Zapatero pediu a palavra para falar. Chavez corta, sem pedir autorização a ninguém. Repito, não é apenas falta de educação. É uma questão de caráter, de ideologia. Seguir as regras? Mas as regras são feitas por burgueses, para burgueses. O povo não deve se sujeitar a elas. Zapatero, democraticamente, suspende a fala a cada aparte de Chavez, e depois retoma do mesmo ponto. E Chavez insiste. Ele não ouve. Ele não sabe o que é oposição. Ele não entende o conceito de “alternância”. A idéia dele sair de cena enquanto alguém fala, alguém que diz que ele está errado, é algo absurdo na sua visão de mundo.

4) E é quando o Rei Juan Carlos, poder moderador, se manifesta. “Por que no te callas?” É uma declaração de limites. Um “basta”. Um copo cheio d’água, que se revolta com o que está vendo. E é uma linguagem que Chavez entende. Ele fica visivelmente constrangido por alguns segundos. Depois, claro, parte para o contra-ataque. Mas, por um momento, ele sentiu o golpe. A dignidade de Juan Carlos atingiu o homem que está acostumado a enfrentar a força bruta dos seus iguais ou a tolerância democrática e cordial dos seus opostos. Ele não conhece essa dignidade ultrajada e franca.

Chavez representa a maior ameaça ao mundo em que vivemos. Não Chavez, pessoa física, claro. Mas aquilo que ele personifica. É o neo-totalitarismo que se alastra pela América Latina, é o terrorismo que ataca ao redor do mundo, é aquele outro tipo de terrorismo que corrói a Europa por dentro. São as pessoas que gritam, que querem que ouçam a sua voz, que se escoram nos seus “direitos” e no discurso pobrista. Fomos humilhados durante anos, agora queremos o que temos direito, e ninguém pode ser contra. Não respeitam a alternância, não respeitam a divergência. Acham que estão cumprindo um “destino divino” e não toleram qualquer oposição, qualquer idéia de limite.

Por outro lado, Zapatero é a reação ocidental-democrática a tudo isso. Jogar de acordo com as regras. Fazer o que é certo. Democracia, tolerância, respeito. O senhor diz que Aznar é fascista? Eu vou responder, claro, mas aceita um chazinho enquanto isso? Ah, o senhor quer me interromper e gritar mais alto? Eu sou muito nobre para essas coisas, quando o senhor parar de falar eu prossigo.

(Claro que eu acho que, num mundo ideal, Zapatero está mais que certo. E por isso o aplaudo, acho que ele deu uma aula a Chavez. Mas isso serve para quem percebe isso tudo. Para o público-alvo de Chávez, acreditem, a idéia que passa é a de que o venezuelano “tem peito”, “encarou os ricos” e “defende o seu povo”.)

E Juan Carlos? O seu “por que no te callas” significa o soco na mesa. Aquela hora em que, para defender a liberdade, é preciso abdicar dos punhos de renda e das fórmulas educadas, e falar a verdade, nua e crua. A coragem de fazer o necessário, mesmo que não seja o mais “bonitinho”. Não é “gritar mais alto”, porque se for por esse caminho, Chavez sabe jogar melhor. Mas também não é ser menino de coro, usando palavras bonitas para se falar com bandidos, e dando a impressão de que somos todos iguais, é apenas uma divergência ideológica que nos separa. O que Juan Carlos mostrou é essa mistura de autoridade, firmeza e dignidade que se exije em certos momentos críticos. “Por que no te callas?”

Claro que Chavez não se calou. Pelo contrário, no dia seguinte, respondeu com um novo discurso anti-espanhol, tentando capitalizar a história a seu favor, dizendo que é típico dos países imperialistas quererem que o povo se cale, etc, etc, etc. jogou pra sua galera. Mas, por um momento, a fábula se inverteu. Foi o Rei a mostrar ao povo que o bobo estava nu.

E com isso, Juan Carlos animou todos aqueles que, ao redor do mundo, resistem contra ditadores ou candidatos a.

Por que no te callas, Chavez? Por que no te callas, Evo? Por que no te callas, Lula? Eles não se calam porque são iguais. Eles não se calam porque não concebem a idéia de que outras vozes possam se fazer ouvir. Eles não podem se calar, porque têm certeza de que “nunca antes nestes países” houve alguém como eles, e nunca mais haverá. Eles não se calam porque têm medo de que outros falem e façam o povo perceber a sua nudez.

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