A negra noite da consciência


Hoje, dia 20 de novembro, o Rio de Janeiro e mais algumas cidades do Brasil comemoram o “Dia da Consciência Negra”. Quem me conhece há pelo menos um ano sabe a opinião que eu tenho sobre essa data. Costumo chama-la de “Dia de Glorificação do Racismo”, uma vez que me causa espécie saber que estou em um país que dedica um dia à comemoração de uma determinada “raça”. Já escrevi longamente sobre esse assunto em outros anos, e hoje não gostaria de voltar ao tema.

Hoje, prefiro falar dos 10 anos do texto de onde “roubei” o título desse post. Publicado em um jornal distribuído na PUC-RJ, em 19 de novembro de 1997, naquela que (salvo erro) foi a primeira vez em que se “comemorou” (sic) essa data, “A Negra Noite da Consciência” foi um texto marcante. Lembro de o ter lido na época, e concordado quase que inteiramente com ele. Lembro de ter ficado surpreso quando soube, alguns dias depois, que esse mesmo texto estava rendendo aos editores do jornal rótulos como “racistas”, “nazistas”, e outros do mesmo calibre. Lembro de ter visto na TV Globo uma reportagem lamentável, que pinçava trechos fora do contexto para “mostrar” o “racismo” de “estudantes da PUC”. Mas como, se era exatamente um texto CONTRA o racismo?

O grande racismo, nada sutil, mas que pouca gente percebe, está em eventos como esta Semana de Consciência Negra. Primeiro, porque ninguém acharia bonito se fizéssemos uma Semana da Consciência Branca. Promover uma raça, qualquer que seja, é racismo.

(…)

Donde se conclui o óbvio: uma Semana de Consciência Negra depõe contra a própria raça negra, como se esta fosse composta de pessoas que precisassem desesperadamente de auto-afirmação. Auto-afirmação, aliás, equivocada: nenhuma produção de cultura negra será boa ou relevante para a humanidade por ser negra, mas por ser cultura (não no sentido antropológico do termo).

(…)

Querer falar de uma consciência negra como se esta fosse essencialmente diferente de uma consciência branca, ou árabe, é realmente estúpido. Porque, sendo diferente, e havendo tamanho esforço para celebrá-la e estimulá-la, só se pode concluir que ela seja ou superior ou inferior às outras. Faz-se tanto pelo consciência negra para ajudar ao mais fraco; ou então celebra-se tanto a consciência negra poe ela ser superior, a base mesmo da nossa civilização. A primeira é um nazismo patético às avessas; a segunda é nazismo mesmo – e com nazista eu não converso.

Dez anos se passaram. E o texto continua perfeitamente atual.

Por causa desse texto, os editores daquele jornal carregaram todos esses rótulos aqui fora. Por causa de um outro texto, também memorável, que ironizava a cultura “pimba” (pseudo intelectuais metidos a besta e associados) que dominava(domina?) a universidade, eles foram agredidos, verbal e fisicamente, dentro da faculdade.

Nesta prática, os alunos organizam performances pela universidade, pintam faixas e perguntam às pessoas: “esquerda ou direita?” Se o coitado diz que é de direita, pregam-lhe atrás um adesivo dizendo “neonazifascista” se não sabe, chamam-no “alienado” aos berros histéricos, obrigando-o a engolir um monte de cultura ao molho pardo. Mas, se for de esquerda, então cambralhista e cambralhado prometem um lutar pelo aborto do outro na próxima encarnação, que o direito ao aborto é o mais inalienável dos direitos humanos.

O jornal sobreviveu. Foi parar na internet, virou site, virou blog, passou por várias fases, e continua no ar até hoje. Dez anos. Não é pouca coisa.

Pedro Sette, um dos editores originais do jornal, e autor de “A negra noite da consciência”, faz um balanço do período.

E, daqui deste canto, ficam os meus parabéns ao jornal/blog/site “O Indivíduo”, por esses dez primeiros anos.

Isto está fundamentado na nossa crença no indivíduo. Num tempo em que se fala muito em coletividades, nos “excluídos”, nos “sem-alguma coisa”(e todos somos sem alguma coisa…), no velho “proletariado”, nas “forças populares”, na “juventude”, na “geração cara-pintada”, nas “tribos” e tudo mais, nós queremos nos dirigir ao ser humano sozinho, de um para um. Porque é assim que as coisas são. Individuais.

Todas estas coletividades são apenas figuras que utilizamos para pensar com uma certa ordem e que não se traduzem completamente na figura de uma pessoa, que, se pode ter características atribuídas à coletividade, pode também – como acontece na maioria dos casos – transcendê-las.

Além do quê, não é, por exemplo, “a juventude” que pensa, mas cada jovem em separado. Se há semelhanças entre o pensamento de vários jovens, isto não é razão para crer que há uma elevação do coletivo sobre o individual, como se “a juventude” fosse um ente concreto e não apenas uma qualidade humana – aliás, a mais efêmera.

Por isso vemos que não faz sentido fazer um jornal para um “grupo”. Nós quatro queremos, antes de tudo, atingir os indivíduos pensantes, sejam negros, brancos, pardos, façam Física ou Letras, o que quer que seja.

(Trecho do editorial do número zero do jornal “O Indivíduo”, publicado em 19/11/1997)

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