Os bandidos se divertem


(Disclaimer: a leitura deste post é desaconselhável para pessoas que confundam fatos e opiniões firmes com ofensas.)

Há horas em que a vergonha de ser brasileiro atinge níveis estratosféricos. O STJD (“Supremo” “Tribunal” de “Justiça” “Desportiva”, todas as aspas são poucas) cedeu à pressão da bandidagem, e deu o dito pelo não dito, beneficiando uma vez mais o time da Petrobrás.

Para quem não acompanhou o caso, um breve histórico. Os rapazes alegres da torcida negro-rubra, sempre elegantes e bem educados, crianças que só querem se divertir, atiraram objetos no campo, não em uma, mas em duas partidas seguidas. Da segunda vez, atingiram um dos membros da equipe de arbitragem, que relatou o fato na súmula.

A partir daí, as vergonhas se sucederam. Primeiro, o julgamento foi inexplicavelmente adiado, por um tempo infinito, para não atrapalhar o belíssimo trabalho que estavam fazendo tirando esse time da lama onde estava. Depois, ele conseguiu ser absolvido no julgamento do primeiro caso. No segundo, esgotadas as manobras, não havia como não punir. Deram a punição mais leve: um jogo com portões fechados.

E qual a reação da “nação”? Ora, vocês não acham que eles iam aceitar isso calados, né? Eles agiram mostrando todo o seu caráter: ameaçando, intimidando, jogando com o terror. Ou cancelam a punição ou então vamos “cercar o Maracanã na hora do jogo”. E vindo de quem vem, sabemos o que isso significaria. Deixaram bem claro as opções: impunidade ou barbárie. E foram apoiados nisso por uma parcela irresponsável da imprensa, que deu voz a esses marginais. Como disse um projeto de jornalista numa rádio carioca, “é bom a justiça ter noção de que vai ser responsável por muitas mortes se insistir nessa palhaçada de impedir a nação de exercer seu direito de apoiar o time”.

Covardemente, o STJD cedeu à chantagem, e anulou a punição. O time da Petrobrás vai ficar impune, mais uma vez. Os bandidos, claro, estão rindo à toa. Quem disse que o crime não compensa? No Brasil compensa, sim. Compensa tanto que o presidente do “Tribunal” de “Justiça” mandou um fax ao clube, dando os parabéns pela suspensão da sentença.

É isso mesmo. O presidente do Tribunal, aquele homem que representa a justiça (lembram o que é isso? é aquela paradinha da balança, imparcial, etc), a pessoa que decidiu suspender a pena, MANDA UM FAX para o réu, dando os parabéns pela decisão que ELE, juiz, tomou.

Só no Brasil. Só no Brasil.

E assim, o time da Petrobrás dá mais um passo na sua escalada. Depois do record batido no Campeonato Carioca deste ano, quando o juiz da decisão foi sequestrado no dia do jogo, e sua família mantida como refém até ao fim da partida, eles provaram que sempre podem ir mais longe. Agora, que conseguiram o novo record de anular uma decisão judicial com ameaças terroristas, qual será o próximo objetivo?

Na Itália, depois dos tumultos de domingo, a justiça (sem aspas) decidiu enquadrar os baderneiros como terroristas, pelas ameaças que trouxeram à segurança pública. Era o mínimo que a justiça brasileira poderia fazer, processando os líderes da torcida e os jornalistas que ajudaram a incitar a violência. Mas como aqui as únicas leis que valem são a de Gérson e a da selva…

Então, a “nação” pode ficar feliz. Agora, basta encher as latas de Nescau com areia e ir lá buscar seus ingressos.

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No domingo, mais uma vez, não vi o jogo do time da Petrobrás. Fiz o possível para não me aborrecer. Mas não adiantou. Não me aborreci com o jogo, me aborreci (talvez bem mais) depois dele, ao chegar em casa. É o que dizem os sábios gregos: quando algo tem que acontecer, acontece, por mais que você se esforce em evitar…

Nem vou contar as coisas que presenciei na rua, voltando pra casa, mais ou menos na hora do final do jogo. Dá medo. Mas isso é algo que todo carioca que se liga em futebol está cansado de saber: é muito perigoso sair de casa nos dias em que essa coisa joga.

No rádio, ainda deu pra ouvir a historinha da taça de isopor. Realmente, faz todo o sentido. Para um título que nunca existiu, uma taça de mentirinha. Para uma torcida que sequestra juízes e ameaça tribunais, o que tem demais em tentar ganhar um título no grito?

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Para quem tem problemas de interpretação, é claro que eu não quero dizer que TODOS os torcedores do Petrobrás FC são bandidos. E acho que nenhum leitor que torça para esse time deve vestir a carapuça. Muito pelo contrário. Existem torcedores honestos, óbvio, que não compactuam com essas atitudes, que não comemoram as vitórias suspeitas dos últimos tempos, e que se envergonham em ver um time que já foi grande um dia ter que vender a alma pra esses esquemas. Mesmo nesse time, existem torcedores que ainda acham que nem tudo se ganha no “jeitinho”, com a trapaça, com o “vale tudo”, “os fins justificam os meios”. Existem aqueles que ainda acreditam no esporte.

Estou sendo romântico? Bem, não sou o único. Vejam o que o jornalista André Kfouri escreveu no blog dele:

O título de 2005 sempre será discutido. Escândalo do apito, jogos repetidos, um dos mais claros pênaltis da história do Campeonato Brasileiro ignorado por Márcio Rezende de Freitas.

Já seriam motivos suficientes para uma conversa sem fim. Hoje sabemos que essa conversa também teria de tocar em outro assunto suspeito, a procedência do dinheiro usado para montar o time da MSI.

Não conheço um corinthiano que tenha comemorado aquele título brasileiro como fez nos outros três. Aliás, conheço vários, que estavam em Goiânia naquele 4 de dezembro e não conseguiram dar um sorriso.

O André, que até onde eu saiba é corintiano como o pai, visivelmente se inclui nesse grupo de corintianos envergonhados. Como vêem, é perfeitamente possível você ser torcedor, apaixonado, e sentir vergonha de certas vitórias. É perfeitamente possível preferir uma derrota honrosa a uma vitória suja. E é isso que eu espero dos bons flamenguistas: que sintam vergonha do que vem acontecendo nos últimos tempos com seu um dia glorioso clube. Que deixem bem claro que não comemoram essas vitórias “arranjadas”, e que expulsem de lá aqueles que compactuam com isso.

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E falando em expulsar, ontem os vascaínos fizeram um protesto em frente ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Há um ano, em 13 de novembro de 2006, a justiça decidiu anular as eleições do Vasco, por manifesta fraude. Há um ano, a diretoria interina vem protelando o cumprimento da sentença.

Infelizmente, banda pobre existe em qualquer clube. Mas pelo menos os sócios vascaínos estão fazendo o possível para mostrar de que lado estão. Derrubaram essa raça na urna, e agora estão lutando pelos seus direitos na justiça.

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Sim, esse foi um post um pouquinho “radical” e “extremado”. Sim, provavelmente eu não o escreveria de cabeça mais fria. Mas eu fiquei muito, mas muito revoltado ao ouvir essa história no rádio. É uma revolta que já vem de longe, claro. Este ano, as ajudas ao Petrobrás bateram todos os records. Como já disse aqui, parei de ver os jogos deles por causa disso, estava me fazendo um mal danado. Essa foi apenas a gota d’água. Não pela ajuda em si, essa foi apenas a cereja no bolo. Os “erros seletivos” dos árbitros ajudam bem mais do que jogar ou não jogar um jogo com a torcida presente. Mas principalmente pelo que isso significa, por tudo o que falei no último post sobre o assunto, pelo retrato cultural que isso representa. Pela impunidade, pela cultura brasileira do “levar vantagem a qualquer preço”, pelo triunfo da violência sobre a justiça. E por ser algo que eu já esperava, desde que ouvi ontem as ameaças da torcida e os incitamentos da imprensa. Nessas horas, a gente fica torcendo pra estar errado, porque é muito triste estar certo, e ver essas coisas acontecendo.

E eu lembro a regra de ouro dos blogs: todos eles têm direito a UM post catártico por ano. Mais que isso, vira bagunça. Estamos em novembro, ainda não tinha usado minha cota. No próximo texto, voltamos à programação normal.

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