Pra inglês ver


A Copa do Mundo é nossa!
Com brasileiro, não há quem possa!

Grande festa para o escrete canarinho! Agora já sabemos que o heptacampeonato será conquistado em casa. Faltam pouco mais de seis anos para o capitão Robinho, maior jogador das galáxias, levantar o caneco.

Exagero? Talvez um pouco. Mas é essa a impressão que dá quando se olha para o ufanismo que, mais uma vez, domina o torcedor da seleção verdamarela.

Ai de quem fala alguma coisa contra o clima de festa! Se é brasileiro, é logo chamado de antipatriota pra baixo. Se é estrangeiro, a coisa mais educada que se diz é que é um “bando de invejosos”.

Como fazer uma Copa em um país de dimensões continentais que não tem a menor infra-estrutura de transportes? Cidades-sede a milhares de quilômetros umas das outras, sem ferrovias e rodovias decentes que as liguem, e com o caos aéreo que estamos vivenciando? E isso pra não falar da (in)segurança, da falta de hospitais que possam atender os visitantes, dos roubos que vão se fazer com o pretexto da Copa, e etc, etc, muitos etc.

O jornal inglês Financial Times, imune ao clima de oba-oba, falou aquilo que o mundo inteiro sabe: Copa no Brasil pode ser um caos. Na matéria, o jornal aponta vários fatores de risco, como a corrupção, a falta de segurança e os problemas de infra-estrutura. Isso é tão óbvio que só mesmo uma cegueira disfarçada de pseudo-patriotismo pode ignorar. Mas é só ver a caixa de comentários da página do Globo que reproduziu a notícia para ver as reações: os ingleses são chamados de recalcados, dizem que eles só tem capacidade para organizar uma copa gay, faz-se alusões à morte do brasileiro no metrô de Londres. Enfim. O “alto nível” que, infelizmente, costuma acompanhar o torcedor-padrão brasileiro.

(Diga-se de passagem, esse nível não é coisa só de torcedor. O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, respondeu de forma estúpida e grosseira a uma jornalista canadense que fizera uma pergunta sobre a violência no Brasil. Segundo o cartola, “há países supostamente seguros onde a polícia assassina inocentes”, numa referência à Inglaterra, “e outros onde crianças andam nas escolas com armas”. E Teixeira foi aplaudido pelas autoridades presentes, como se tivesse agido de forma heróica, defendendo a pátria contra os ataques alienígenas invejosos. Autoridades essas que, certamente, sabem que no Brasil a polícia não mata inocentes, e crianças nem sabem o que é uma arma. É o que eu digo: a crise maior do Brasil é moral.)

A FIFA teve que engolir esse sapo e escolher como sede da Copa um país sem a menor condição de realizar um evento como esse. E só pode culpar a ela mesma. Se o Brasil foi o único candidato, isso se deve à idéia imbecil de “rodízio” entre os continentes, uma armação feita pela turma do Sr. Blatter para conseguir votos nas eleições da entidade.

Com essa bobagem, a FIFA ficou presa a uma promessa de fazer uma Copa em cada continente. E como nenhum país sul-americano se interessou em entrar nessa roubada, sobrou para o Brasil-sil-sil. E ainda tem gente que comemora a “conquista”.

(Hmm… Eleições vencidas por um candidato único, com 100% dos votos? Deve ter gente que adorou isso, tão democrático…)

Pelo menos, uma utilidade essa indicação teve: a FIFA já anunciou que acabou essa palhaçada de rodízio. Daqui pra frente, a Copa volta a ser realizada como sempre foi, alternando uma edição na Europa e outra em um país de outro continente, mas que demonstre condições reais de sediar a competição, e não porque é o único que sobrou.

Mas ainda há alguma esperança de que a Copa de 2014 não seja um desastre completo. Existe uma forma de se evitar o caos. Basta a FIFA concluir que o candidato único não conseguiu cumprir os encargos a que se comprometeu, e escolher uma outra sede, em caráter emergencial. Até 2010 ela ainda pode fazer isso… 🙂

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A comitiva brasileira presente em Zurich ao anúncio oficial do Brasil como sede da Copa 2014 foi um retrato perfeito do que é esse país. Estiveram lá o presidente da República, vários ministros e 12 (DOZE!!!!) governadores. E mais uma penca de caronas, claro. Tudo pago às nossas custas.

Essa delegação já seria ridícula se houvesse uma disputa pela indicação. Mas se torna um absurdo completo quando lembramos que era uma eleição de candidato único. Ou seja, foram lá pra fazer festa e marketing pessoal. Imaginem só a reação de países civilizados ao ver que um anúncio desses mobiliza um presidente, seu staff e doze “dirigentes de províncias”.

Chega? Claro que não. Noço Guia (rumo ao inferno) ainda teve tempo de soltar duas patacoadas daquelas que só ele sabe produzir. Primeiro, fez piada com o ex-jogador francês Michel Platini, dizendo que ainda lembrava do gol de penalti que ele fez contra o Brasil, em 1986, e que causou nossa eliminação. É bom lembrar que a França venceu essa disputa por 4×3, e o único francês que perdeu o seu penalti foi… Platini.

Depois, num dos seus arroubos diplomáticos e de boa vizinhança, Luís LI, o Rei-Nu, não deixou por menos:

“O Brasil vai fazer uma Copa maravilhosa, pra argentino nenhum botar defeito!”

Um primor de educação, como de costume. Que vergonha, mon Dieu. Que vergonha.

Depois, Ricardo Teixeira explicou aos presentes como seu mandato (quarto? quinto? já perdi as contas), que terminaria em 2012, seria automaticamente prorrogado até à Copa, graças a uma mudança no estatuto da CBF, que previa essa hipótese. Lula deve ter olhado pra ele como uma criança para um doce, imaginando algo do tipo “ah, porque eu não pensei nisso antes”…

A cereja do bolo foi a exibição de um vídeo promocional do Brasil para os presentes à cerimônia. Isso não tem nada demais, podem dizer, todos os países fazem o mesmo. Verdade. A diferença é que países normais aproveitam a ocasião para exibir suas belezas naturais, as qualidades do seu povo, etc e tal. O Brasil não. O Brasil exibiu um vídeo de culto a Lula, exaltando as maravilhas do PAC. No final, slogans de glorificação a Lula. E, claro, aproveitou-se o gancho para elogiar Dilma Rousseff, a “responsável por tudo isso”.

Ce n’est pas un pays sérieux

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One Response to Pra inglês ver

  1. L.S.D. disse:

    Bom, esse teu texto me poupa o trabalho de escrever sobre mais esse absurdo. Carimbo tudo o que você disse. E parabéns pela coragem! Imagine que eu critiquei apenas o Panamericano e o mundo quase caiu na minha cabeça. Chegaram a alegar até que, se o dinheiro não tivesse sido gasto (e desviado) no Pan, ele apenas seria gasto (e desviado) em alguma outra besteira, portanto o Pan “foi uma boa…”. Então, eu fico imaginando a reação das pessoas quando você fala o óbvio sobre essa futura Copalhaçada no Brasil. Não adianta, o povo só quer saber de pão e circo…

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