Farsa em três atos


– Houve uma coroa que lhe foi oferecida, e quando oferecida, ele empurrou-a com as costas da mão, assim, e então o povo aclamou-o.

– E a segunda aclamação, por quê?

– Ora, pela mesma razão.

– O povo aclamou três vezes. Por que a terceira?

– Ora, pela mesma razão.

– A coroa lhe foi oferecida três vezes?

– Sim, senhor. E três vezes ele recusou, cada vez mais devagar.

– Quem lhe ofereceu a coroa?

– Ora, quem. Antônio!

– Diga como foi, amável Casca.

– Comédia pura. Vi Marco Antônio oferecer a coroa e, como disse, ele afastou-a com a mão. Na minha opinião, ele gostaria bem de ficar com ela. Então, Marco Antônio ofereceu-a de novo. Ele de novo rejeitou-a. Na minha opinião, custou muito a tirar os dedos dela. Então, Marco Antônio ofereceu-a pela terceira vez.

Primeiro ato

O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva, sempre que pode, diz ser contra a reeleição. Afirma estar preparado para passar a faixa verde-amarela para outra pessoa em 2011. Mas, dentro da Câmara, cresce um movimento para tentar garantir a Lula mais quatro anos no Palácio do Planalto. Na defesa de três mandatos consecutivos ao presidente, governadores e prefeitos, os deputados federais Carlos Willian (PTC-MG) e Devanir Ribeiro (PT-SP) planejam colocar em breve a discussão na pauta de votações do Congresso. “Alguém vai apresentar (a proposta). Isso vai acontecer”, garante Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

(…)

Há cerca de duas semanas, Devanir Ribeiro almoçou com colegas. Colocou o assunto na mesa e os parlamentares discutiram a conveniência de tornar público o debate. Mais que permitir 12 anos de mandato a prefeitos e governadores, a proposta garante um terceiro mandato a Lula. Um petista conta que ninguém conseguiu, durante o almoço, precisar o momento adequado para levantar a discussão. Criar polêmica, neste momento, pode atrapalhar a votação da CPMF e da Emenda 29, que garante aumento de arrecadação e verbas para a saúde, respectivamente.

Amigo de Lula desde os tempos de sindicato dos metalúrgicos na década de 1970, o deputado Devanir Ribeiro defende não apenas a reeleição como um plebiscito para saber se a população é a favor de duas reeleições. “Um projeto de fôlego não vinga em quatro ou oito anos”, avalia o petista. Ele revela que o projeto para a consulta popular está pronto, à espera do melhor momento para ser tirado da gaveta.

Ribeiro sugere casar o plebiscito com as eleições do próximo ano, quando os eleitores irão às urnas escolher prefeitos e vereadores. “Se o povo disser que sim, ótimo. Vamos ter a possibilidade de três mandatos”, afirma. O deputado federal defende que, se acatada pelos e leitores no ano que vem, a nova regra valha para 2010.

(…)

O assunto, antes adormecido no Congresso, começa a ganhar força. Relator na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) sobre os projetos que tratam de reeleição, Eduardo Cunha diz estar preparado para receber a PEC dos três mandatos consecutivos.

(Correio Braziliense, 26/10/07)

Segundo ato

Sem alarde, o presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), mandou desarquivar em abril deste ano uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que permite a reeleição sem limites para cargos majoritários, abrindo caminho para a aprovação de um terceiro mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O pedido partiu do deputado Fernando Ferro (PT-PE). Ele solicitou, em fevereiro, o desarquivamento de propostas sobre a reeleição e acabou colocando novamente em discussão a emenda que permitiria a perpetuação no poder, já que todas estavam apensadas.

O movimento dos petistas foi feito de forma silenciosa e pode acelerar a discussão levantada pelos deputados Devanir Ribeiro (PT-SP) e Carlos Willian (PTC-MG), que defendem a possibilidade de terceiro mandato para Lula, uma vez que a emenda já foi aprovada pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara em junho de 2000.

(…)

De autoria do ex-deputado Inaldo Leitão (PR-PB), a proposição permite ao presidente da República, prefeitos e governadores concorrerem a infinitas reeleições, desde que se licenciem do cargo seis meses antes da disputa.

(…)

Assim como o deputado Devanir Ribeiro, Ferro também é próximo do presidente Lula. Devanir já disse que irá apresentar uma emenda constitucional no próximo mês sugerindo um referendo para que a população decida sobre o terceiro mandato, que seria realizado juntamente com as eleições municipais.

(Folha de São Paulo, 01/01/07)

Terceiro ato

Indiretamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta segunda-feira o colega venezuelano, Hugo Chávez, que conseguiu aprovar a reeleição presidencial ilimitada. Sem querer opinar diretamente sobre a iniciativa tomada na Venezuela, Lula lembrou que a ex-primeira ministra Margaret Thatcher (Reino Unido) e o ex-chanceler Helmut Kohl (Alemanha) ocuparam seus cargos por longo tempo e não houve comentários a respeito.

“O Chávez está fazendo aquilo que entende que deve fazer. Penso que cada um tem de tomar conta daquilo que é seu. Cada um tem de dar palpite naquilo que é seu”, afirmou o presidente.

Lula se referiu ainda aos fatos de Thatcher ter sido primeira-ministra de 1979 a 1990 pelo Partido Conservador britânico e Kohl, eleito chanceler da Alemanha, no período de 1982 a 1998 , pelo Partido Democrata Cristão.

“É engraçado porque já a Margareth Thatcher foi tantas vezes reeleita primeira-ministra e eu vi o Helmut Kohl ficar tanto tempo [no poder]. [Mas] nunca vi ninguém perguntar se vários mandatos sucessivos era [algo] ruim”, reagiu o presidente, depois de uma cerimônia sobre desenvolvimento econômico e social, no Palácio do Planalto.

Em seguida, Lula criticou as articulações para aprovar a possibilidade de um terceiro mandato que poderia beneficiá-lo, mantendo-o no poder por 12 anos, caso fosse reeleito pela segunda vez. “Eu só posso falar pelo Brasil. Eu penso que o Brasil não pode brincar com uma coisa chamada democracia”, disse ele.

(Folha de São Paulo, 05/11/07)


(via Pérolas Políticas)

Síntese

Fui oposição muito tempo. Agora sou governo e gosto muito. Não pretendo mais deixar de ser. Desejo longa vida à oposição… na oposição.

(Deputado Fernando Ferro, PT-PE, na Folha de São Paulo, 04/11/07)

“- Brutus, tu dormes. Desperta e vê! Tais indagações têm sido postas onde eu as possa encontrar. Terá Roma de viver sob o jugo de um homem? Então, Roma? Meuas ancestrais expulsaram Tarquínio das ruas de Roma, quando ele quis ser rei. Fala, age, corrige. Assim me suplicam que eu fale e que eu aja? Ó Roma, eu te prometo: se for preciso corrigir, receberás da mão de Brutus o deferimento desta petição.”

Brutus, tu dormes. Desperta e vê. Fala, age, corrige.

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One Response to Farsa em três atos

  1. Carol Linden disse:

    Você imagina o que seja euzinha, moi même, mais desinteressada em política o possível, vivendo no meio disso tudo? Me sinto como no fabuloso livro que lemos na faculdade, cujo esquecimento do nome me impede a releitura, que tratava sobre ser estrangeiro no proóprio país ou no próprio idioma.
    Soy yo.
    Bom te ver na área de novo.
    Saudades.
    Bjs!

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