O Filho Pródigo


Na primeira vez que tentei ler esse texto, não consegui ir até o fim. Parei, dei um tempo, voltei a tentar. Dessa vez, fui até o final. Com um bolo na garganta, mas tentando controlar. Afinal, tinha gente em volta.

Na terceira vez, eu estava sozinho. E não precisava me controlar. E senti o mesmo de novo.

Para alguém que ama futebol e textos bem escritos, é fácil entender o que ele tem de especial.

Em Recife, simpatizo com o Sport, confesso. Mas algumas coisas nos últimos anos tem me feito olhar com mais simpatia para o Náutico. E a sua participação nesse campeonato de 2007 é muito interessante. O Timbu não vai cair. Não pode. Seria injusto demais.

Roberto Vieira escreve no site Nautico.Net. A versão original desse texto pode ser lida aqui, embora eu o tenha visto pela primeira vez no blog do Juca Kfouri. E o jogo citado na crônica aconteceu mesmo, exatamente daquele jeito.

O FILHO PRÓDIGO
(Roberto Vieira)

“Eu amava a Alice’.

Eu estava ali sentado no hospital imaginando o que escrever sobre o Clássico dos Clássicos quando aquele senhor perdido em seus devaneios repetiu:

‘Eu amava a Alice’.

Antes que eu pudesse esboçar uma defesa ele prosseguiu. E eu não pude deixar de sorrir com o resto da história. História que eu transcrevo aqui pra vocês.

‘Eu amava Alice. E o pai de Alice era rubro negro. Diria mais, era um torcedor fundamentalista do Esporte.

Eu torcia pelo Náutico. Torcia é modo de dizer. Meu pai me levava a campo. Mas não compreendia bem aquela algazarra, aquela paixão.

Eu só amava Alice.

Quiseram me fazer de mascote, mas eu resisti à idéia. O que Alice ia dizer quando soubesse? Meu pai ficou triste. Porém era um raro exemplar de pai democrático naqueles tempos de palmatória. Desde esse dia não me forçou mais a ir a campo. Me dava um beijo e saía solitário para o estádio.

Eu ficava sonhando com Alice.

Naquele tempo namoro nem pensar. Era necessário um Concílio Vaticano pra pegar na mão da moça. Entretanto eu dava sorte, a mãe de Alice me dava aulas de reforço. E eu nunca melhorava muito na matéria senão eu deixava de ter aulas na casa de Alice.

Numa dessas aulas o pai de Alice puxou conversa sobre futebol e perguntou se eu torcia por algum time. Respondi de bate pronto: Esporte!

Ele exultou. Antes que eu pensasse duas vezes ele me chamou pro jogo contra o Náutico quando o Esporte, que ganhara o primeiro turno e liderava o segundo turno, iria jogar contra o alvirrubro.

Ainda lembro bem o dia. 20 de novembro de 1951. Era aniversário de papai.

Eu amava Alice.

‘Combinado!’

No dia do jogo eu menti pra papai. Teria prova no dia seguinte, ia estudar com os amigos. Saí de casa como um fugitivo da lei e encontrei-me sorrateiro com o pai de Alice nos Aflitos.

Quis o destino este senhor de mil faces que um rosto conhecido se cruzasse com o meu na multidão. Meu pai trocara o caminho, quem sabe pensativo em sua solidão, e passara defronte da torcida do Esporte.

Lá estava eu. Calabar.

Meu pai caminhou em minha direção e quando preparei o rosto pra primeira bofetada da minha vida ele me abraçou, deu um beijo em meu rosto e sussurrou baixinho em meu ouvido:

‘Não precisava mentir. Eu sempre vou te amar!’

E saiu para o seu lugar de sempre nas arquibancadas dos Aflitos.

Mudo. Envergonhado, fui conduzido pelos novos amigos rubro negros sob os gritos de Casá-Casá. Quando ergui meus olhos lá estava meu pai na torcida do Náutico. Eram poucos. Ninguém acreditava que naquela altura do campeonato algo fosse mudar a história.

Talvez apenas meu pai e os jogadores.

Quando o jogo começou, logo nos primeiros movimentos o atacante Tonho do Esporte marcou 1×0.

Meu pai olhava para o gramado hipnotizado. O que pensava eu não sei.

Os torcedores do Esporte deliravam e provocavam na distância os seus adversários: ‘A turma é da fuzarca!’

O pai de Alice me abraçava.

Um segundo depois o goleiro Vicente do Náutico sofre uma distensão. Não pode continuar jogando.

Não havia substituição naquela época. O grande zagueiro Lula veste a camisa de goleiro e vai pro gol.

Grande parte da torcida alvirrubra vai embora. O massacre era uma questão de tempo.

Rezo para que meu pai vá embora. Mas o seu olhar permanece distante. Como se nem mesmo percebesse o gol.

Desvencilhei-me dos meus novos amigos. Corri pela noite até o meu pai. Abracei-o em silêncio.

Iríamos enfrentar juntos ao dilúvio.

O Esporte parte para a goleada. Seu ataque perde duas chances claras de ampliar o marcador.

De repente Alcidésio avança e observando Manuelzinho adiantado dispara. Parecia impossível, a bola alcança as redes e o jogo está empatado: 1×1!

O que restou da torcida começa a gritar ‘Veteranos’. Era assim que se chamavam os jogadores do Náutico. Algo em todos nós avisa que o leão está nocauteado. Levou um direto no queixo.

Djalma como um raio dribla toda a defensiva adversária e marca o tento da virada 2×1.

O Esporte era o líder invicto do returno.

Lula prossegue defendendo tudo depois do intervalo.

Então Zeca aumenta para 3×1.

Hélio Mota faz 4×1.

O oportunista Fernandinho estabelece a goleada: 5×1!

Todos os atacantes do Náutico assinalaram um gol. Lula não sofreu nenhum.

O pai de Alice proibiu minhas aulas de reforço.

E daí?

Naquela noite voltamos eu e meu pai gritando N-Á-U-T-I-C-O pelas ruas da cidade.

Durante os anos que se seguiram assistimos muitas vitórias. Muitas derrotas também doeram em nosso coração.

Mas estávamos sempre juntos.

O Estádio dos Aflitos era o nosso país das maravilhas…’

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