Antes tarde do que nunca


Há mais de uma década, desde os meus tempos de aluno ginasial, uma das minhas lutas de estimação é aquela travada contra a “lavagem cerebral” promovida por professores. No Brasil, 9 em 10 professores são de esquerda, principalmente na área de humanas. E desses, uma grande maioria está mais preocupada em doutrinar do que em ensinar.

Tanto no ginásio quanto no segundo grau, vivi esse padrão. Professores de História, Geografia, Português, sempre ensinando de acordo com o viés ideológico. Tive professores militantes do PT, do PDT, do PCdoB. Briguei muito com quase todos. Tive notas mais baixas por causa disso em vários. Fui amigo de alguns, apesar das divergências ideológicas. Por outros, só tinha (e tenho) desprezo.

Acho que esse foi um dos motivos que me fez, desde cedo, reagir tão fortemente contra qualquer tentativa de “doutrinação”. Anos mais tarde, numa lista de discussão, uma pessoa que queria fugir da conversa, me atirou um desafio na cara: “ao invés de continuarmos a conversa, apresente seus mentores, que eu apresento os meus”. A idéia de “apresentar mentores”, ao invés de defender aquilo em que acredito me deixou aterrado. Da mesma forma, acredito que ele deve ter sentido algo parecido, com a minha resposta de que prefiro pensar por conta própria do que “seguir mentores”.

Quem pensa por si mesmo é livre, e ser livre é coisa muito séria. E muito mais difícil do que apenas seguir os “mentores” e repetir os dogmas, sem parar pra pensar ou conhecer o outro lado.

Lutei contra isso na escola. Lutei contra isso na faculdade. Luto contra isso na vida. Às vezes canso. Mas não desisto de lutar. Porque sempre acreditei nisso: a luta que temos que travar não é uma luta política. Lutar contra o PT é algo tático. Mas não é o mais importante.

A verdadeira luta é travada nesse campo: o campo das idéias. Enquanto o domínio neste campo estiver nas mãos da esquerda, e pior que isso, de uma esquerda com viés totalitário, não adianta ficar pensando apenas em ganhar uma eleição. Vencemos nos votos, perdemos em campos bem mais importantes. E um dia, quando eles vencem nos votos, a luta se torna muito, muito mais difícil.

De que adianta uma luta apenas política, se temos que lidar com jovens que cresceram aprendendo em cartilhas que dizem “dois pés ruim, quatro patas bom”? De que adianta discutir valores, quando tudo que a “intelectualidade” valoriza é o comportamento marginal?

Essa digressão vem a propósito de um texto publicado pelo jornalista Ali Kamel no jornal O Globo, e reproduzido no dia seguinte, no Estado de São Paulo. Kamel fala sobre um livro de História. Não apenas “um” livro, mas um livro que é distribuído pelo MEC às escolas públicas brasileiras.

O pior é que muita gente não vai ver “nada de mais” nesse livro, e vai achar que as reclamações são apenas “barulho da direita reacionária”. É natural. Depois de décadas e décadas expostas a esse tipo de lixo, não é tão fácil reparar o absurdo que é usar uma coisa dessas para “ensinar” alunos da 8a série. Afinal, isso não é “tão diferente” de tudo que vemos nos jornais, na música, nas novelas, etc, etc.

Adoraria pensar no texto de Kamel como um “marco”, achar que agora sim, o povo ia começar a abrir os olhos para o filme de terror em que vivemos nas últimas décadas. Que nada. Não consigo mais ser tão otimista. A máquina gramsciana já está em ação, rotulando Kamel como um reacionário (afinal, ele é da Globo), representante das elites.

O saudoso Bruno Tolentino disse uma vez, numa entrevista inesquecível à Veja, que jamais educaria um filho seu no Brasil, com uma frase lapidar:

“Minha mulher [que é francesa] já havia se conformado com os sequestros e as balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se sequestrar o miolo de uma criança na sala de aula.”

Como Tolentino, essa é uma das poucas certezas que tenho: não desejo que um filho meu estude aqui, cresça aqui. Para isso, melhor não te-los. E não legar esta miséria a nenhuma criatura humana.

O texto de Ali Kamel segue logo abaixo.

O que ensinam às nossas crianças

Não vou importunar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia, nada disso. Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo. O psicanalista Francisco Daudt me fez chegar às mãos o livro didático “Nova História Crítica, 8ª série” distribuído gratuitamente pelo MEC a 750 mil alunos da rede pública. O que ele leu ali é de dar medo. Apenas uma tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Impossível contar tudo o que há no livro. Por isso, cito apenas alguns trechos.

Sobre o que é hoje o capitalismo: “Terras, minas e empresas são propriedade privada. As decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal. Para ampliar as vendas no mercado consumidor, há um esforço em fazer produtos modernos. Grandes diferenças sociais: a burguesia recebe muito mais do que o proletariado. O capitalismo funciona tanto com liberdades como em regimes autoritários.”

Sobre o ideal marxista: “Terras, minas e empresas pertencem à coletividade. As decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o (sic) bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à (sic) toda a população. Não há mais ricos, e as diferenças sociais são pequenas. Amplas liberdades democráticas para os trabalhadores.” Sobre Mao Tse-tung: “Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.”

Sobre a Revolução Cultural Chinesa: “Foi uma experiência socialista muito original. As novas propostas eram discutidas animadamente. Grandes cartazes murais, os dazibaos, abriam espaço para o povo manifestar seus pensamentos e suas críticas. Velhos administradores foram substituídos por rapazes cheios de idéias novas. Em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes. (…) No início, o presidente Mao Tse-tung foi o grande incentivador da mobilização da juventude a favor da Revolução Cultural. (…) Milhões de jovens formavam a Guarda Vermelha, militantes totalmente dedicados à luta pelas mudanças. (…) Seus militantes invadiam fábricas, prefeituras e sedes do PC para prender dirigentes “politicamente esclerosados”. (…) A Guarda Vermelha obrigou os burocratas a desfilar pelas ruas das cidades com cartazes pregados nas costas com dizeres do tipo: “Fui um burocrata mais preocupado com o meu cargo do que com o bem-estar do povo.” As pessoas riam, jogavam objetos e até cuspiam. A Revolução Cultural entusiasmava e assustava ao mesmo tempo.”

Sobre a Revolução Cubana e o paredão: “A reforma agrária, o confisco dos bens de empresas norte-americanas e o fuzilamento de torturadores do exército de Fulgêncio Batista tiveram inegável apoio popular.” Sobre as primeiras medidas de Fidel: “O governo decretou que os aluguéis deveriam ser reduzidos em 50%, os livros escolares e os remédios, em 25%.” Essas medidas eram justificadas assim: “Ninguém possui o direito de enriquecer com as necessidades vitais do povo de ter moradia, educação e saúde.”

Sobre o futuro de Cuba, após as dificuldades enfrentadas, segundo o livro, pela oposição implacável dos EUA e o fim da ajuda da URSS: “Uma parte significativa da população cubana guarda a esperança de que se Fidel Castro sair do governo e o país voltar a ser capitalista, haverá muitos investimentos dos EUA. (…) Mas existe (sic) também as possibilidades de Cuba voltar a ter favelas e crianças abandonadas, como no tempo de Fulgêncio Batista. Quem pode saber?”

Sobre os motivos da derrocada da URSS: “É claro que a população soviética não estava passando fome. O desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (…) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas… Para nós, do Terceiro Mundo, quase um sonho não é verdade? Acontecia que o povo da segunda potência mundial não queria só melhores bens de consumo. Principalmente a intelligentsia (os profissionais com curso superior) tinham (sic) inveja da classe média dos países desenvolvidos (…) Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias. (…) Karl Marx não pensava que o socialismo pudesse se desenvolver num único país, menos ainda numa nação atrasada e pobre como a Rússia tzarista. (…) Fica então uma velha pergunta: e se a revolução tivesse estourado num país desenvolvido como os EUA e a Alemanha? Teria fracassado também?”

Esses são apenas alguns poucos exemplos. Há muito mais. De que forma nossas crianças poderão saber que Mao foi um assassino frio de multidões? Que a Revolução Cultural foi uma das maiores insanidades que o mundo presenciou, levando à morte de milhões? Que Cuba é responsável pelos seus fracassos e que o paredão levou à morte, em julgamentos sumários, não torturadores, mas milhares de oponentes do novo regime? E que a URSS não desabou por sentimentos de inveja, mas porque o socialismo real, uma ditadura que esmaga o indivíduo, provou-se não um sonho, mas apenas um pesadelo?

Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos. É isso o que deseja o MEC? Se não for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém.

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4 Responses to Antes tarde do que nunca

  1. Marcos disse:

    Cara,
    Você tá lendo Reinaldo Azevedo demais. Se quer criticar a desinformação, como fez o Kamel, procure se informar melhor, como o Kamel deveria ter feito e não fez. Faça uma busca no Google e elia mais sobre esse artigo do Kamel e de todas as desinformações que ele propagou. Até o ex-ministro do PSDB Paulo Renato caiu na balela. Quando se revelou que esse livro havia sido adotado pelo mesmo Paulo Renato e que havia sido tirado da lista do MEC pelo PT, foi um festival de desculpas e explicações envergonhadas. Diga não à hipocrisia!

  2. L.S.D. disse:

    Para mim, nada mais faz sentido. Quando Lula chegou ao poder e o PT mostrou a sua cara corrupta, eu pensei que a maioria dos petistas daria o braço a torcer e abandonaria o partido, migrando em massa para o PSOL e coisas do tipo. Nada disso ocorreu, se limitaram a dizer que no Governo do FHC acontecia a mesma coisa (mas o PT não era para ser “o diferente”?). Agora, se Ali Kamel chama a atenção para um crime que vem sido cometido sistematicamente há anos, a culpa É DE ALI KAMEL! Se a Veja expõe as várias falcatruas nas quais Renan calheiros está metido, a culpa É DA IMPRENSA GOLPISTA! Imprensa golpista! Mas a troco de quê a imprensa atacaria gratuitamente o Governo de Luís LI? Logo esse governo que tem sido tão generoso com os banqueiros (repare na taxa de juros que temos por aqui). Logo esse governo que sempre publica algum anúncio de estatal em qualquer porcaria que o elogie? Quem seriam os “poderosos” que estariam por traz desse “golpe”?
    Agora, atacam quem os denuncia, e sequer são capazes de apresentar uma explicação plausível para as denúncias! Não faz nenhum sentido! Eu não sou tão altruísta quanto o autor deste blog, que pensa na integridade mental de seu futuro filho. EU, eu mesmo, é que não quero mais ficar por aqui nessa casa de loucos! Arrivederci!

  3. L.S.D. disse:

    Xi… Fiquei emocionado demais e esqueci de passar o texto por uma adequada revisão HORTOGRAPHICA. hehehe. Ainda bem que ninguém sabe quem é L.S.D., nada como ter uma identidade secreta! 🙂

  4. andrea disse:

    Meu deus, quanta imbecilidade!!! Chego mesmo a acreditar que a revista Veja esteja querendo vender os livros didáticos ao MEC no ano que vem. E me parece também que a educação brasileira está formando exércitos comunistas, estudantes que vão, sem razão, é claro, achar que o capitalismo é uma forma de governo desigual. Sem contar que, segundo Kamel, racismo não existe no Brasil, vejam vocês!!! É tudo coisa inventada pelo movimento negro e reforçada pela implantação do sistema de cotas nas universidades.
    É, realmente devemos reformular nossos livros didáticos, eles não podem proferir o santo nome do capitalismo em vão, nao é( e o colégio COC já entrou nessa!!). Vai que os jovens daqui a alguns anos comecem a perceber a força manipuladora da mídia, aí já viu, né!!!!!!!

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