O “Fora Lula” e a negação coletiva


Ainda não tive tempo para comentar as passeatas de protesto da semana passada, realizadas ao mesmo tempo em várias cidades do Brasil. É um fenômeno bem interessante de se acompanhar, tanto pelo lado político quanto pelo jornalístico, ou mesmo pelo sociológico. A grande imprensa tem feito de tudo para ridicularizar os protestos, reduzir os manifestantes a “meia dúzia de desocupados”, ridicularizando o quanto pode os cidadãos que se atrevem a protestar contra o atual estado de coisas do Brasil.

Na semana passada, a passeata mais organizada foi a de São Paulo, que conseguiu juntar 12 mil pessoas. Parece pouco? Sim, parece. Mas, para um movimento ainda no início, e composto por cidadãos comuns, sem apoio de partidos, movimentos sociais, etc e tal, é muita coisa. Muita coisa mesmo.

É interessante ver como o discurso de “democracia participativa” de algumas pessoas não passa de puro verniz. Na hora em que 12 mil pessoas saem às ruas, sem nenhum comando, sem nenhuma orientação política, sem nenhum grupo organiza(n)do, a reação da imprensa é ridicularizar o movimento. Por que esse escárnio, esse pouco caso, não aparecem quando se trata de uma manifestação orquestrada pela CUT, pelo MST, ou mesmo na invasão da reitoria pelos sindicatos da USP?

Será que é por que, nesses casos, a agenda das manifestações é a mesma da mídia, ao contrário do movimento contra Lula? Será que é por que a mídia só respeita manifestações que venham pelo formato “social” – ou seja, abraça a ideologia de que você não é você, você é a sua classe?

É tentador agitar apenas a primeira bandeira. É muito tentador apontar o fato da mídia sempre proteger o governo Lula, e por isso maltratar qualquer movimento de oposição a ele. Mas, por mais que eu tenha pena de abandonar esse argumento, acho que o buraco é mais embaixo.

O que assusta o governo é o fato de 12 mil pessoas estarem dispostas a marchar contra o governo, sem alarde, sem propaganda, sem organização. Eles sabem que isso significa que, com um pouquinho de força, é fácil, fácil esses 12 mil virarem 1 milhão. Basta um, apenas um veículo da grande mídia abandonar a defesa de Lula, e passar a divulgar o movimento. Não precisa nem apoiar, basta não esconder, divulgar imparcialmente.

Não dá mais para os defensores do governo reagirem como fizeram com o “Cansei”, em São Paulo, e reduzir tudo a uma “manifestação da zelite”. Doze mil pessoas sem comando, por mais que eles tentem justificar, é algo que já não pode ser reduzido a “meia dúzia de descontentes” ou tratado como “um protesto que veste Prada” – como se esse fato, mesmo que fosse verdadeiro, servisse automaticamente para desacreditar o movimento.

O que assusta a mídia, em parte, é a mesma coisa. Para a imensa parte do jornalismo que apóia o lulismo, é assustador pensar que pode estar nascendo um fenômeno que vai atrapalhar o “trabalho do Homem”. Mas para outros, mais jornalistas que políticos, a chance de acompanhar um movimento desses deveria ser vista com excitação profissional. Por que isso não acontece? Por que é tão mais fácil ridicularizar do que entender?

Na minha opinião, isso acontece principalmente por causa de anos e anos de doutrinação social. A idéia de 12 mil pessoas, 12 mil indivíduos, marcharem em conjunto, sem seguirem a uma “classe” é algo inconcebível para os nossos “intelectuais”. Eles não conseguem entender isso. Foram programados para julgar os fatos de acordo com as “classes”. Quando o PT grita “fora FHC” é luta de classes. Quando alunos e sindicatos protestam contra reitoria e governo, é luta de classes. Quando o MST invade uma fazenda, ou a polícia os expulsa de uma, é luta de classes.

12 mil indivíduos agindo pela sua cabeça, e fazendo isso de forma coletiva é algo que funde a cabeça deles. Isso não é possível! Ou você tem consciência coletiva, e se junta ao seu grupo, à sua classe, ou você é um individualista egoísta, que só pensa em você, e nesse caso tem que ficar em casa, contando o seu dinheiro e pensando em ganhar mais. Como assim, “indivíduo que protesta”, “indivíduo que luta pelo que pensa ser o bem comum”? Você está fugindo do script! Isso é impossivel. E cada um reage de uma maneira, nega o fato de um jeito distinto.

Uns partem para a negação freudiana pura e simples. Isso simplesmente não pode acontecer, logo isso não aconteceu. 12 mil pessoas? Que é isso, foram só 200! Sim, pelo menos o Terra e a Folha de São Paulo publicaram isso. É normal haver uma discrepância de números, mas de 200 pra 12 mil é demais. Depois, desmentidos pelas imagens, tiveram que se desculpar e corrigir o dado.

Outros aceitam o movimento, mas precisam ver nele a motivação de classe. Talvez não ajam assim por motivação política, mas ridicularizam aquilo que não são capazes de compreender. “Narciso acha feio o que não é espelho”. Não aceitam que o João está ali porque ele é “contra o Lula”, ou mesmo, mais abstratamente, “contra a roubalheira, contra a incompetência”. Não. Se o João está ali, é porque ele é branco, rico, corintiano, tem seis dedos na mão, enfim. Tem que ter alguma “afinidade classista” entre o João e o José, pra ambos estarem ali protestando juntos. Simplesmente não dá pra aceitar que sejam dois indivíduos independentes, unidos apenas por uma mesma opinião. Daí saíram matérias como aquela da Laura Capriglione ne Folha, já candidata a virar folclore, que dizia “não haver praticamente nenhum negro na passeata”. Na mesma matéria, se publicaram declarações pinçadas de entrevistados escolhidos a dedo para compor a “classe” que fazia (ao menos na visão da jornalista) parte do protesto.

Há ainda um terceiro grupo, composto pelos que também não conseguem aceitar os fatos, e reagem buscando uma explicação alternativa. Se os primeiros assumem o erro, e tentam aceitar, e os segundos tentam forçar os fatos a se encaixarem na teoria que eles têm, estes criam uma teoria, impossível de ser verificada, para explicar os fatos. OK, eu tenho que aceitar que havia 12 mil pessoas, OK, eu tenho que aceitar que eles, aparentemente, não faziam parte de nenhuma classe única. Então, a única explicação é dizer que eles estão sendo manipulados por alguém. É impossível que 12 mil pessoas se unam sem um comando. Então, tudo que temos a fazer é descobrir quem está por trás disso. Conclusão: é a direita “golpista e reacionária” que está comandando o movimento.

Maneiras diferentes para chegar a uma mesma conclusão: a impossibilidade de se levar a sério um movimento espontâneo, que coloca 12 mil pessoas saindo às ruas de São Paulo, por uma decisão individual, sem segurem nenhum imperativo classista. Isso não pode acontecer.

E, no entanto, aconteceu.

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One Response to O “Fora Lula” e a negação coletiva

  1. […] passeata na visão de quem estava lá No post anterior, falei sobre a passeata que aconteceu em São Paulo na semana passada. Mas a manifestação […]

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