O Capitão do Mato e os Boxeadores


O caso dos atletas cubanos que fugiram da ditadura de Castro, foram capturados pela polícia brasileira e mandados de volta para Cuba continua rendendo. E, a cada dia que passa, o enredo ganha contornos mais inverossímeis.

O governo brasileiro divulgou uma nota que agrava ainda mais o seu papel no caso. Já sabíamos, para vergonha nossa, que o nosso país havia agido como cão de caça da ditadura cubana, e que havia entregue dois inocentes à mercê dela. Agora sabemos que, além de covarde, o governo aposta na idiotice coletiva do povo brasileiro. Só isso explica a versão “oficial” apresentada pelas autoridades brasileiras, que não deixa nada a dever aos diálogos de um filme B da época da Guerra Fria.

De acordo com o Ministério da Justiça, os cubanos foram vítimas de dois empresários alemães. Os jovens teriam saído da Vila Olímpica para fazer compras, foram abordados pelos empresários, dopados, levados para a Região dos Lagos, de onde conseguiram escapar e pedir ajuda à Polícia, para voltar ao seu país.

Claro, claro. E, nesse trajeto, devem ter encontrado Papai Noel e dois duendes cor-de-rosa.

No depoimento à Polícia Federal, Guillermo Rigondeaux teria dito que “estou louco para voltar à minha terra”, ao que Erislandy Lara completou dizendo que “amo muito meu país e meus familiares”. Fala sério. Só faltou um “viva Fidel, viva la revolucion!”.

Não parece texto de filme de propaganda? Claro, já tem muita gente acreditando. Os comments de certos sites por aí estão cheio de “top tops” metafóricos. O tom é de “viram? afinal, os cubanos queriam mesmo voltar, e a direita golpista ficou aí criando caso”. Pegando um comentário de um leitor do Globo Online, sem mudar uma vírgula:

“O interessante neste episódi é que alguns deputados e a grande mídia tentaram reter os atletas aqui no Brasil, inclusive contra a vontade dos mesmos, que queriam retornar.”

Meu Deus. É muita cegueira, muita má-fé, ou uma mistura perigosamente explosiva de um pouco de ambas?

Ainda que, por um momento, alguém consiga acreditar nessa história da carochinha, será que não cabe ao menos alguma dúvida? Será que não dá pra pensar “se é assim, por que eles não falaram isso publicamente”? Por que os cubanos foram mantidos incomunicáveis, sob estrita vigilância policial? Por que eles não puderam ser assistidos por um advogado, como garante a lei? E mais: se o caso se passou dessa maneira, por que os empresários alemães não foram presos? Afinal, eles teriam cometido um delito, dopando e sequestrando os cubanos. Aliás, como se faz pra dopar e manter três dias numa pousada, contra a vontade, dois lutadores de boxe profissionais?

As contas não fecham. A história é tão, mas tão pueril, que é reveladora do deboche do governo em relação ao povo brasileiro. Eles sequer se preocupam em arranjar um enredo plausível. Qualquer coisa serve. Esses idiotas acreditam em tudo mesmo, já acreditaram em tantas mentiras, (re)elegeram um homem que “não sabia de nada”. Por que não ia funcionar mais uma vez?

O mais interessante é que a versão brasileira é tão capenga, mas tão capenga, que foi desmentida… pelos próprios cubanos!

De acordo com reportagem do Jornal O Globo:

“O pugilista cubano Guillermo Rigondeaux tem apresentado versões contraditórias sobre sua fuga durante os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Numa entrevista concedida ontem à agência Reuters, em Havana, Rigondeaux disse que abandonou os jogos porque seria desclassificado por excesso de peso. Cinco dias antes, em depoimento à Polícia Federal, no Rio, disse que deixou a Vila do Pan numa sucessão de acasos, a partir de um encontro com dois conhecidos identificados com Michel e Alex.


Por sua vez, Fidel Castro foi claro ao falar do assunto. Em artigo no jornal estatal Granma, Castro declarou que os atletas são “traidores” e que não irão mais ser liberados para disputar provas no exterior. Ué. Mas por que isso? Afinal, eles não foram vítimas dos empresários? Eles não eram bons filhos, doidos para voltar a seu país? Por que o castigo?


Diz Fidel:



“Para a imensa maioria do nosso povo, o essencial é determinar qual foi o comportamento moral dos atletas, que formamos e educamos com tanto sacrifício. (…) O atleta que abandona sua delegação é como o soldado que deserta seus companheiros em meio ao combate”.


Mas que regras eles desrespeitaram? Como assim, “abandonar a delegação”? Eles não foram sequestrados, de acordo com a versão oficial? E por que eles devem ser punidos, e impedidos de lutar boxe daqui pra frente, como Fidel diz adiante? Castigo para duas vítimas?


Basta pensar cinco segundos, e usar um pouco de lógica para ver que essa história não se sustenta.


O Senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM) apresentou no Senado um requerimento, cobrando explicações do Ministro da Justiça, Tarso Genro. De acordo com Virgílio,



“O Brasil rasgou a melhor tradição da sua democracia com essa deportação sumária ocorrida no último sábado. A deportação, todos sabemos, significaria pôr os dois atletas sob o risco de condenação à morte. O Brasil tem tradição em concessão de asilo. E a realidade deve ser encarada. Eles são fugitivos de uma ditadura. Assim merecem ser tratados e acolhidos pelo Brasil.”


É claro que os governistas vão dizer que isso é uma “exploração política do caso”, como fizeram perante as reações ao caos aéreo e ao acidente da TAM. Mas é bom deixar claro que não foi apenas o PSDB, o DEM, ou qualquer partido a criticar a ação brasileira. Não foram apenas políticos, e nem apenas cidadãos brasileiros. Essa vergonha está repercutindo no mundo todo, foi capa de jornais por esse planeta afora.


Como eu já tinha dito nas outras vezes em que toquei no assunto, o caso é um absurdo do ponto de vista humanitário, do político, e do jurídico. Mesmo dentro do governo, as reações apareceram. Para o Procurador da República Artur Gueiros,



“Se estão com visto regularizado (ainda que sem passaporte) e não praticaram ilícito, a prisão não se sustenta. Os casos de deportação só se aplicam quando o prazo do visto se expira ou são descobertas irregularidades no passaporte da pessoa. Não me parece que ocorreu alguma dessas situações com os cubanos.”


Não foi o único. Até para Antonio Carlos Biscaia, ex-deputado pelo PT, e atual secretário nacional de Justiça, a deportação dos cubanos foi um “equívoco”.



“Ele [o delegado da PF] colocou termo de deportação, mas na realidade a saída foi espontânea e, juridicamente, não se trata de uma deportação. A autoridade policial cometeu um equívoco. Eles não estavam em situação ilegal no país. Também não entraram no Brasil de maneira ilegal. A situação de fato deles é de repatriados.

Interessante notar que Biscaia, como advogado, percebeu o erro crasso cometido pelos seus patrões, mas dá um duplo mortal para trás para tentar explicar o caso e limpar a barra das autoridades. Como os atletas podem ter sido “deportados” se, pela versão oficial, eles foram “vítimas”? A “deportação” é o ato de mandar embora do país pessoas que estão aqui ilegalmente. Se eles foram dopados e sequestrados, nunca poderia haver uma deportação.

A verdade é que Tarso agiu como um verdadeiro “capitão do mato”, não economizando esforços pra localizar, prender e despachar pra senzala os dois “negrinhos fujões” reclamados pelo sinhozinho Castro. Toda a operação foi tão veloz que me arrisco a dizer que foi o único record de velocidade quebrado nesse Pan-Americano…

De tudo, uma coisa fica clara: o governo brasileiro agiu para defender os interesses da ditadura cubana. Não se incomodou nem um pouco em acabar com vida de dois inocentes, em nome da “amizade que une os dois países”, como dizem os discursos deles. A dúvida é saber se o Brasil fez isso apenas pelo desejo de bajular o ditador, ou se alguém por aqui agiu depois de receber um telefonema, perdão, um senhor telefonema!, de algum interessado.

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