“Quando eu dou um telefonema, modéstia à parte, é um senhor telefonema!”


A Playboy fez fama como uma revista de “erotismo soft”. Mas a sua edição de agosto está mais pornográfica que a Hustler. Raras vezes as páginas da Playboy viram algo tão explícito, tão atentador à moral e aos bons costumes. Uma p*t*ria que só vendo, algo assim no estilo “top top, créu créu”.

Estou falando, claro, da entrevista do ministro José Dirceu.

(O que? Você pensou que eram as fotos da Íris? Bem, aqui você deve encontrar alguma coisa. Boa sorte.)

Nessa entrevista, o todo-poderoso petista fala sobre passado, presente e futuro, e nos dá algumas pistas de suas atuais atividades depois de cassado. Agora, ele se apresenta como “consultor de empresas”. Quer dizer que Dirceu virou lobista?

“Não, claro que não. Se eu fizesse lobby, o presidente saberia”.

Ah, sim. Lula, aquele que não sabe de nada. Afinal, foi essa a desculpa que o presidente usou, quando confrontado com todos os mais de cem escândalos do seu governo, não foi? Quem não se lembra da metáfora usada nos debates do ano passado, “um pai não sabe o que se passa no quarto dos filhos, como um presidente pode saber de tudo que acontece no governo?”.

Pois é, Lula. Acontece que o Dirceu se empolgou, e acabou falando mais do que devia:

“O Lula não dá cheque em branco para ninguém. Ele delega, mas controla, cobra. Sabe de tudo que acontece. Quem acha o contrário o subestima.”

Lulistas empedernidos, notem: quem disse isso não foi um senador raivoso do DEM, nem um “branco da elite cansada paulistana”. Foi o Zé. E quem pode saber melhor do que se passa no governo Lula do que o Zé? Então, ficamos combinados: da próxima vez que você vir o Lula dizendo “eu não sei de nada”, lembre do Zé. Ele sabe. A tática do “eu não sei nada” não cola mais. Top, top, top, Lula.

(Afinal, como ficamos: Lula sabe-tudo ou Lula-Sócrates, só sei que nada sei?)

Outra declaração assombrosa de José Dirceu é quando ele fala sobre a sua, por assim dizer, nova profissão. Que, lembramos, não é a de lobista, e sim a de “consultor de empresas”.

“O que eu faço é isso: analiso a situação, aconselho. Porque, no governo, quando eu dou um telefonema, modéstia à parte, é um senhor telefonema! As empresas que trabalham comigo estão satisfeitas.”

Em certos homens, a vaidade é quase como uma segunda pele. José Dirceu é desses. Várias vezes essa vaidade já lhe trouxe problemas, já o fez falar sem pensar. E dessa vez, parece, não foi diferente. É uma frase emblemática e que, creio eu, ainda vai repercutir muito. O que ele quer dizer com “quando eu dou um telefonema, é um senhor telefonema!”? Com “modéstia à parte”, claro!


Dirceu já disse: não faz lobby. È apenas um “consultor”. Então para quem é esse telefonema que ele dá, esse “senhor telefonema”? Fica uma contradição aí. De um lado, digamos assim, o “Dirceuzinho Paz e Amor”, que não faz lobby, não tem nada a ver com o governo, é apenas um “consultor de empresas”, que “analisa e aconselha”. Mas do outro, o “Dirceuzão”, que não resiste a bravatear que ainda tem muito poder, quando dá um telefonema, é um senhor telefonema (modéstia à parte!), e que isso faz as empresas que o contratam ficarem satisfeitas.


Mais à frente, Dirceu dá outra declaração curiosa:

“Só o presidente pode revelar o que ele me solicita. Quando ele me pede alguma coisa, faço com prazer. A última vez que ele pediu, eu fiz.”


Fica por conta da imaginação de cada leitor tentar adivinhar que tipo de “favores” Dirceu faz ao presidente, e qual teria sido essa “última vez”. E qual é o Dirceu que faz esses favores? O amigo? O consultor? Aquele que consegue coisas dando um “senhor telefonema” pra pessoa certa?


A vaidade do ministro continua transparecendo em assuntos mais inocentes, como quando ele diz que anda armado desde que era estudante, e que nessa época era chamado de “Alain Delon dos pobres” e de “Ronnie Von das massas”.


Mas o grand finale é o ataque que Dirceu resolve fazer à Veja. Incrível como todos eles atacam a Veja, reconhecidamente nosso melhor veículo de imprensa nos últimos anos. Mas é compreensível, a Veja é uma pedra no sapato de gente, como Dirceu, que acha que a imprensa deve se limitar a dizer “sim, senhor” para quem lhes interessa.


Na declaração mais espirituosa da entrevista, Dirceu diz que “Diogo Mainardi é um pistoleiro que Roberto Civita contratou para assassinar a honra das pessoas“. É fácil imaginar o quanto Dirceu ficou satisfeito com a sua graça. Ele só não contava com a resposta de Diogo:

“Eu sou “um pistoleiro que Roberto Civita contratou para assassinar a honra das pessoas”. Quem declarou isso foi José Dirceu, na última Playboy. Na verdade, em tantos anos de VEJA, só falei uma vez com Roberto Civita, durante um encontro na Editora Abril, em 2004. O assunto foi etimologia. Por outro lado, falei repetidamente sobre José Dirceu com os investigadores do caso Celso Daniel. Quando se trata de Celso Daniel, a primeira imagem que me ocorre é a de pistoleiros contratados para assassiná-lo. Contratados por quem?”


Ai. Game, set and match. Aliás, o texto inteiro de Diogo é mais que recomendável.


A pá de cal foi a resposta do próprio Roberto Civita, em uma nota:

“Roberto Civita, presidente e diretor editorial do da Editora Abril, comenta que nunca falou com Diogo Mainardi sobre qualquer coluna dele e muito menos sobre qualquer pessoa com ou sem honra.”


Sutil e na mosca.


Finalizando, é bom destacar uma última resposta de Dirceu, pelo que ela diz, e principalmente pelo que ela não diz.

“O Lula jamais tentará um terceiro mandato como fez Hugo Chávez. É completamente inconstitucional.”


É a resposta padrão que todos os petistas vêm dando, inclusive o próprio presidente. Lula querer se candidatar a um terceiro mandato, imitando Hugo Chavez? Isso é uma idéia fantasiosa, uma ficção da direita ressentida, coisa da Veja, etc, etc, etc. Mas por que é uma idéia impossível? Porque o presidente é um democrata, e seria incapaz de uma atitude como esssa? Não. Apenas porque é “completamente inconstitucional”.


Conclusão lógica: se a Constituição mudar, deixa de ser inconstitucional. Se deixar de ser inconstitucional, é algo legítimo. Temos que ficar atentos. O preço da liberdade é a eterna vigilância, e não devemos jamais esquecer essas palavras.

Anúncios

2 Responses to “Quando eu dou um telefonema, modéstia à parte, é um senhor telefonema!”

  1. […] é possível ver o prefixo. Mas que avião é esse? Não é um avião qualquer, não. É um “senhor” avião. Diz Claudio Humberto que: “O jato prefixo YV-2053, que segundo o ministro Tarso […]

  2. […] Dirceu, entrevista publicada na Playboy de […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: