Se Lula vai ao povo, o povo vaia Lula


Depois de 72 horas, finalmente Lula se dirigiu aos seus súditos. E fez um pronunciamento vazio, inexpressivo, muito aquém daquilo que se esperava. É difícil entender como o presidente se expôs a esse desgaste. Em qualquer lugar do mundo, uma tragédia com as dimensões da que aconteceu em São Paulo exige a presença imediata das autoridades. O sumiço de Lula foi um sinal de fraqueza, que ele não poderia ter se permitido.

Muito se fala sobre as “deficiências intelectuais” de Lula. Mas burro não é ele, burros são aqueles que confundem falta de cultura com falta de habilidade política. Lula é um “burro”, no sentido intelectual, não sabe falar direito, não lê e se orgulha disso, etc, etc, etc. Mas é extremamente inteligente, no sentido político. Se não fosse, não teria jamais passado de São Bernardo do Campo. Se não fosse, não teria sobrevivido a quatro derrotas eleitorais, mantendo intacto o capital de “salvador da pátria”. Pensar que Lula é burro a ponto de não entender as implicações políticas de seu sumiço é subestima-lo demais.

Se Lula tomou essa atitude, foi por uma combinação de dois motivos. O primeiro é a sua personalidade centralizadora e imperial, que ignora totalmente qualquer fator que não lhe interesse e despreza a opinião dos “súditos”. Para Lula e seus acólitos, a opinião pública é algo que pode ser mudada à sua vontade, basta pra isso gastar o dinheiro certo no lugar certo. E não podemos negar que os episódios dos últimos anos lhe dão alguma razão nesse pensamento. Além disso, Lula perde pela impulsividade. Em situações não controladas, sob pressão, ele perde a cabeça, faz (e fala) o que não deve.

O segundo motivo é que Lula achou que essa era a opção que menos prejuízo lhe traria. E para entender os motivos que o levaram a isso, é preciso recuar uma semana. É preciso recuar até à simbólica sexta feira 13, e às vaias do Maracanã.

O que aconteceu naquela sexta-feira? Como a presença de um presidente que, a se acreditar nas pesquisas, tem um apoio superior a 70% pode causar uma reação daquelas? Mais que isso, como isso pode acontecer no estado em que Lula teve 89% dos votos no segundo turno das eleições? Qual o significado das vaias? Como elas surgiram?

A oposição se animou, vendo nisso o início de uma reação popular contra Lula, disparada pelo escândalo do Senado. O Planalto, por sua vez, joga para a galera a teoria conspiratória de que tudo não passou de uma “armação” do prefeito César Maia. Mas, racionalmente, tanto governo quanto oposição, e também os analistas, trabalham com quatro teorias principais:

a) A vaia foi totalmente espontânea, e significa um ponto de virada no governo Lula. Pela primeira vez, o povo manifestou o seu repúdio, e isso é algo que só tende a crescer daqui pra frente.

b) A vaia foi totalmente espontânea, mas não é algo que possa se expandir. Foi uma reação causada pelo recorte demográfico dos espectadores do Maracanã, a classe média que sempre representou a maior oposição ao governo – a “zelite” dos lulistas.

c) A vaia foi totalmente espontânea, mas não teve nada a ver com política. Foi uma manifestação da irreverência carioca que, diz-se, “vaia até minuto de silêncio”. Qualquer autoridade ali seria vaiada da mesma forma.

d) A vaia foi uma armação do prefeito César Maia e de grupos reacionários e golpistas que quiseram causar um constrangimento a um presidente amado pelo povo, e com aprovação quase unânime em todo o Brasil.

O governo tenta vender a opção “d” para os mais radicais, e a “c”, com os moderados. A “c” poderia ser uma opção bem razoável, se não fosse o detalhe dos aplausos a César Maia. Mas, como o povo brasileiro não é exatamente craque em lógica, ela pode pegar.

Pessoalmente, eu acredito na opção “b”. Mas como ter certeza que a “a” não é real?

Acredito que, de uma maneira ou de outra, pensamentos semelhantes passaram pela cabeça de Lula na sexta feira. Se não pela dele, com certeza pela dos seus assessores. E a verdade é que o presidente teve a pior reação possível, e a mais previsível, se analisarmos o seu caráter. Primeiro, se esquentou; depois, se acovardou.

Na hora em que a melhor reação seria a frieza, Lula se esquentou. Quando precisava de força, se omitiu. Não teve, por exemplo, o brio de Getúlio Vargas, que ao ser vaiado em situação semelhante, agradeceu as vaias e continuou o discurso. Por medo de uma vaia na hora mais importante da cerimônia, e da repercussão que isso poderia trazer, quebrou o protocolo e não fez a declaração que lhe cabia. Por medo da imagem da vaia, aceitou a imagem de ter fugido dela. É assim o ego de Lula: com medo de não ser unanimidade, aceita posar como covarde.

Depois disso, quando a melhor reação seria a de minimizar o episódio, dizendo algo banal como “isso faz parte da democracia”, Lula não resistiu a uma bravata, dizendo que era tão magnânimo que “iria continuar tratando o Rio da mesma forma que antes, não ia deixar isso influir em nada”. Foi pior a emenda que o soneto, pois mostrou que ele confunde o papel de um presidente da república com o de um tiranete qualquer, que decide quem deve receber as oferendas reais baseado nos agrados que os súditos fazem (ou não) ao monarca.

A verdade é que Lula se assustou. Acostumado a afagos, elogios, rapapés, essa foi a primeira vez em que Lula se viu exposto a uma situação desagradável. A criancinha gritando “o rei está nu” assustou Lula, que passou a temer ter o mesmo destino do monarca da fábula.

Uma segunda vaia seria demolidora. Enquanto ela não vier, a máquina de propaganda de Lula pode tentar vender as opções “c” e “d”. Mas uma segunda vaia, em condições semelhantes, ia dificultar muito esse trabalho. Por isso, Lula se entocou, evitando aparecer em público, enquanto seus propagandistas planejavam um evento de desagravo, onde Lula seria aplaudido e incensado, numa demonstração de força que apagaria o peso das vaias.

Usando um termo do futebol, como ele tanto gosta de fazer, digamos que a tragédia de terça feira o apanhou no contrapé e causou um torpor no governo. O plano imediato para recuperar a popularidade teria que ser abortado. E, pior, era uma situação daquelas em que NADA que Lula pudesse fazer o ajudaria a ganhar. O máximo a se conseguir, em termos estratégicos, seria reduzir as perdas.

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Na segunda feira, num encontro com empresários, Lula cunhou uma frase lapidar, uma daquelas sentenças de improviso que são típicas dele:

“Em certos cargos, a gente nunca diz aquilo que pensa. A gente faz as coisas quando pode, e quando não pode, a gente deixa como está pra ver como é que fica”.

Oficialmente, ele falava sobre Guido Mantega, e a função do Ministro da Fazenda. Provavelmente, ele tentou fazer um paralelo com a presidência, e talvez até com a questão das vaias, sugerindo que o melhor era não tocar no assunto, “deixar como está pra ver como fica”. Mas, na prática, ele fez um resumo perfeito do seu governo.

“Quando não pode, a gente deixa como está pra ver como é que fica”.

A pergunta é obrigatória. Foi isso que Lula fez, durante os cinco anos na presidência? Quando algo não se dobrava à sua vontade, quando havia algo que ele não podia resolver, quando alguma coisa o aborrecia… ele deixou como está pra ver como é que fica?

Quando a crise aérea cresceu nesses últimos dez meses, e se exigia uma ação do governo… ele deixou como está pra ver como é que fica?

Esse foi o vendaval que se abateu na cabeça de Lula na terça à noite, com a queda do Airbus da Tam. As vaias de sexta se somaram à frase infeliz da segunda, e se reforçavam agora com um fato novo, devastador. Na mesma noite, um “gabinete de crise” se reuniu no Planalto. Da boca pra fora, a reunião era para tratar do acidente. Na prática, serviu para tratar da imagem do governo.

E eles falharam nisso, falharam miseravelmente. Falharam por insensibilidade. Falharam por serem maquiavélicos de jardim de infância. Falharam por, mais uma vez, acreditar na idiotice do povo. A opção do “gabinete de crise” foi esconder o presidente, e deflagrar uma “operação abafa”, usar a máquina de propaganda para difundir uma versão que isentava o governo de qualquer responsabilidade. E, depois disso, Lula apareceria, triunfal, como o “pai” que traria consolo e segurança. Os trabalhos começaram logo. De um lado, a brigada política, dando declarações como a do ministro Mares Guia, que disse que “o presidente não tinha culpa, se alguém tem culpa, era quem pilotava o avião”. Por outro lado, a brigada da imprensa, espalhando desinformação e tentando isentar o governo a qualquer custo. Leiam, por exemplo, a coluna de Paulo Henrique Amorim nos dias 18 e 19, e vocês terão uma idéia do trabalho dessa turma. Adianto: é um texto muito, mas muito mais revoltante que qualquer “top top” ou “créu” que veio depois.

Com essas ações, e com o auxílio da imprensa, sempre simpática ao lulo-petismo, eles esperavam que o plano desse certo. Só que, pra isso, era preciso esconder Lula, para evitar alguma manifestação popular que não pudesse ser ocultada. No dia seguinte, sua agenda marcava um evento exatamente em Porto Alegre, no estado mais atingido pela tragédia. E Lula tremeu, mais uma vez. Cancelou o compromisso, por medo de outra vaia, ou de uma reação ainda mais agressiva. Dá pra imaginar o estrago de imagem causado por uma multidão recebendo o presidente aos gritos de “assassino”. Por isso, Lula se omitiu, uma vez mais. E deixou sua situação ainda mais ridícula. Já era suficientemente ruim ele não ir a São Paulo, manifestar seu pesar e acompanhar os trabalhos de resgate, e era pior ainda o fato dele sequer dar uma declaração oficial, se contentar com uma nota mínima e insípida, lida por um porta-voz idem. Mas a sua pusilanimidade, de cancelar um compromisso oficial em Porto Alegre, ao invés de aproveitar essa ocasião para ter a atitude esperada de um presidente… isso pegou muito mal.

Lula ainda fugiria uma vez mais. É inadmissível que ele não tenha ido ao enterro de Antônio Carlos Magalhães. Mas, também nessa hora, ele t(r)emeu. Apesar da sua popularidade no nordeste, ir a Salvador, enfrentar um povo revoltado com o acidente, e abalado com a morte de ACM, seria muito perigoso. Era melhor continuar em casa, “deixando como está pra ver como é que fica”.

Quando saiu a notícia do defeito no reverso do Airbus, assistimos àquela reação grotesca de Marco Aurélio Garcia. Era uma reação de festa, uma reação abjeta, nojenta, pelas circunstâncias em que acontecia. Mas, como ele cinicamente admitiu, era uma reação “privada”, de “satisfação” por ter vencido, ou ao menos achar isso. MAG apostou que, como o povo não sabe o que é um reverso, todos iam acreditar que era isso que tinha causado o acidente, logo o governo era inocente. O caminho estava pronto para um discurso de Lula, culpando a TAM, o piloto, o destino, dizendo alguma frase que ele (não) leu num livro, e ameaçando punir os responsáveis.

Só que quis o destino que uma câmera registrasse a festinha privada de MAG e seu companheiro. E o povo brasileiro assistiu, em horário nobre, ao nível baixo em que essa gente pode chegar. O clima “triunfal” para o pronunciamento de Lula foi para o espaço. Só ficou o clima de revolta, revolta com o acidente, revolta com os erros que levaram a ele, revolta com o desrespeito de MAG. E revolta, acima de tudo, contra o sumiço de Lula, que levou três dias pra sair da toca. “O que ele vai dizer agora?” era a pergunta a ser respondida.

E a montanha pariu um rato.

O pronunciamento de Lula foi um flop total. Um amontoado de clichês, de banalidades, de medidas corretas mas atrasadas com outras inteiramente inócuas. E nenhuma palavra sobre as responsabilidades pelo acidente. Nenhuma palavra sobre a sua responsabilidade pessoal, nem sequer sobre as responsabilidades de seus comandados. Nada, nada, nada.

Nem sequer uma metáfora, uma frase bonitinha. Lula nem parecia Lula.

E nem vou falar pelo que ele (não) disse para mim. Eu sou um opositor, um golpista, um dos tais “golpistas reacionários”. Não sou elite, mas sou “zelite”. Eu não voto em Lula. Não é a mim que ele tem que dar satisfações. De mim, e de outros como eu, ele não teria a menor simpatia, não importa o que dissesse agora. Não era para nós que Lula falava. Ele devia falar para os neutros, para aqueles que ainda esperavam alguma explicação, aqueles que queriam acreditar, bastando para isso que ouvissem algo onde pudessem se apoiar. E ele também falava para os seus. Ele falava para a sua base eleitoral, que acreditava nele, que ainda esperava a palavra do seu “messias”.

E, mais uma vez, ele falhou. Quanto maior o mito, maior a decepção. Lula falhou, sumindo por três dias, e falhou não ressuscitando ao final deles. Ainda é cedo para mensurar o tamanho dessa falha, mas que ela aconteceu, isso é indubitável.

A maneira de tentar corrigir isso será providenciando eventos controlados, em que Lula possa ser aplaudido, idolatrado, carregado ao colo. Mas, a partir de agora, sempre haverá o medo. A qualquer momento, uma vaia pode surgir. Em qualquer hora, em qualquer lugar.

(Em tempo: Claudio Humberto publica uma nota que pode explicar alguns dos motivos pelos quais Lula pareceu tão “embaçado”. Segundo um informante, Lula teria preparado um discurso onde atacava duramente a oposição e a “mídia conservadora”, que estariam tentando politizar em cima do acidente. E foi José Sarney quem, na última hora, convenceu o presidente a suavizar o tom. Ou seja, Lula teria ensaiado um personagem, indignado e incendiário, para na hora da apresentação, encarnar outro, compungido e controlado.)

PS: 9 dias. Waldir Pires só hoje deixou de ser Ministro da Defesa. Milton Zuanazzi ainda é diretor da ANAC. José Carlos Pires ainda é presidente da Infraero. Até quando?

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