Cronica de uma tragédia anunciada


Na terça-feira à noite, cheguei em casa um pouco mais cedo do que o costume, e sentei no computador. A idéia era acabar de escrever dois textos, que estavam pela metade, e que eu pretendia enviar a uma lista de discussão onde participo. Um era sobre a Copa América, o outro sobre o caos do sistema aéreo brasileiro.

Alguns minutos depois das 19 horas, ouvi a música do Plantão da Globo, na televisão da cozinha. A reação foi a mais humana possível: levantar e ir conferir o motivo. Um incêndio, que William Bonner descrevia como sendo “num hangar da Tam, no aeroporto de Congonhas”.

Meu primeiro impulso, confesso, foi o de cogitar a hipótese de uma sabotagem. Afinal, poucas horas antes, um curto-circuito havia causado um incêndio aqui no RJ, no Santos Dumont. Dois casos no mesmo dia? Mas logo comecei a gelar, percebendo que havia coisa muito maior ali.

Bonner continuava falando num “hangar”, e descrevendo as redondezas, dizendo que o prédio ficava “do outro lado da Avenida Washington Luiz”. Foi meu gelo número dois. Aquilo *não era* um hangar, em hipótese alguma. Hangares servem pra guardar aviões. Hangares ficam *dentro* de aeroportos. Hangares não ficam *do outro lado* de uma avenida movimentada. Como você levaria um avião para um hangar situado desse jeito? Com um flanelinha parando o trânsito e dizendo “pode ví, dotô?”.

Aquilo não era um hangar. Mas era visível o símbolo da Tam, ali no chão. Aquilo era uma loja. E veio o gelo número três, Eu e meu pai nos olhamos, porque ambos perceberam ao mesmo tempo. Aquilo vermelho era uma cauda de avião. Ou William Bonner não tinha percebido isso, ou tentava poupar os espectadores, permitir que eles fossem se acostumando aos poucos com a idéia.

Se aquilo pegando fogo não era um hangar, se aquilo no chão era uma cauda de avião… Então só havia uma explicação. Gelo numero quatro, um suspiro profundo, e um nó na garganta. Havia acontecido aquilo que muitos temiam.

“Aquilo é uma cauda de Airbus”.
“Sim. É.”
“E, pelo jeito, deve ser um 310.”
“Ou o 320. PQP…”

Quando finalmente Bonner admitiu que aquilo podia ser um avião, eu já estava andando pela casa, estarrecido. Ele dizia que “havia uma possibilidade de um avião estar dentro do hangar”, e uma informação não confirmada sobre ser uma “pequena aeronave”, que não se sabia “se tinha alguém dentro”. Agora, pensando retrospectivamente, e pelo que conheço dele, creio que foi proposital. Uma espécie de “o gato subiu no telhado”. Mas na hora me revoltei. “C***”, pensei, “ele não vê que aquela p* é um Airbus?! Tem 200 pessoas ali dentro. Fora as que estivessem na loja”.
Em nenhum momento me passou pela cabeça a hipótese de haver algum
sobrevivente. Bonner podia falar o que quisesse, e a essa hora eu já não o
ouvia, mas as imagens eram claras demais: não dava pra se iludir.

Já bastava a ilusão em que vínhamos vivendo nos últimos nove meses, fingindo que isso não era questão de tempo. Durante nove meses, assistimos a um filme de terror, onde todos sabíamos o que ia acontecer, só não sabíamos quando e com quem. Da maneira como estavam brincando com o caso, da maneira como a bomba-relógio vinha sendo armada, o resultado só podia ser um.

E finalmente aconteceu.

Eu fiquei muito abalado com isso. Muito mesmo. Claro, o fato de ser algo ligado a aviação explica isso em parte. É uma área que faz parte da minha vida. Mas nunca fiquei tão abalado com um “acidente”. E esse é o maior motivo: isso não foi um acidente.

Foi um assassinato.

Durante um ano, o governo tratou a situação do sistema aéreo brasileiro com uma irresponsabilidade flagrante. O preço foi esse. O Brasil inteiro viu ao vivo, na televisão, o resultado das ações do governo federal. O Brasil inteiro viu a agonia de 200 pessoas, 200 inocentes mortos por culpa dessa turma que comanda o país. Nunca antes neste país tantos morreram pela irresponsabilidade de alguns.

Eu disse um ano? Na verdade, um pouco mais que isso. Já tive oportunidade de escrever aqui sobre isso. A crise começou quando o PT, sempre atrás de novas maneiras de encaixar seus afilhados, tirou o controle aéreo das mãos do DAC, e criou a ANAC. A idéia, em si, até poderia não ser tão ruim. Mas se revelou desastrosa quando a ANAC virou um cabide de empregos de membros do partido, muitos deles sem a menor experiência no setor.

O setor aéreo se estruturava em três pilares: o DAC, comandando a parte técnica, o Ministério da Aeronáutica, como superior hierárquico e ligação com a presidência, e a Infraero, responsável pelos aeroportos. O que o PT fez com esses pilares? Destruiu o DAC, acabou com o Ministério da Aeronáutica e partidarizou a Infraero.

Na sua estratégia de enfraquecer os militares, Lula I acabou com os Ministérios das Forças Armadas, para coloca-los subordinados a um Ministério da Defesa, comandado por um civil. Mais uma vez, isso poderia não ser tão ruim, se as coisas fossem feitas de outra maneira. O governo do PT, sempre competente na sua tática de meias-verdades, faz alarde de que “no mundo inteiro é assim”. Talvez. Mas desde que a transição seja bem feita, que o Ministro da Defesa seja um civil respeitado, e haja um clima de “neutralidade” nesse comando.

O que foi feito aqui? Exatamente o contrário. Os militares foram humilhados, a introdução do Ministério da Defesa tratada como um “avanço democrático”, e o comando entregue a amadores. Primeiro, ao vice presidente José Alencar, pra tentar dar um “brinquedinho” pra ele, e ver se ele parava de se meter em outras coisas. Depois, Waldir Pires, uma figura que remete a 1964, e que temno currículo vários e vários problemas com os militares.

Na criação da ANAC, o padrão se repetiu. Agora sim, o Brasil está livre do “ranço militar” do DAC, e tem um “comando profissional”. Para presidir a ANAC, o sociólogo Milton Zuanazzi, protegido de Dilma Roussef, e sem nenhuma experiência de aviação. Na vice presidência, a advogada Denise Abreu, também sem nenhuma credencial aérea, mas com o apadrinhamento de José Dirceu.

E a Infraero? Antes, o companheiro Carlos Wilson, deputado do PT de Pernambuco. Agora, um brigadeiro, também ligado ao PT, e com pouquíssimo conhecimento de aviação civil.

Ou seja, de todos os lados, o mesmo padrão: incompetência, leviandade, amadorismo.

“Eu já dei 48 horas para a situação se resolver.” (Lula, em outubro de 2006)

“Não existe caos. O que existe é uma Lei de Murphy, onde tudo que pode dar errado está dando.” (Walfrido Mares Guia, à época ministro do turismo)

“Crise aérea? Isso não existe hoje. Existiu de 1995 a 2003. Hoje, as empresas aéreas não sentem a crise, pelo contrário, estão todas em franco crescimento.” (Milton Zuanazzi, diretor da ANAC)

“Relaxa e goza…” (Marta Suplicy, atual ministra do turismo)

“Os problemas aéreos são causados pelo crescimento do país, é um surto de prosperidade.” (Guido Mantega, ministro da economia)

Enquanto isso, o caos continuava. Depois de Guido Mantega dizer que o povo devia agradecer a Lula pelo caos, porque isso era causado pela prosperidade que ele trouxe ao país, fiquei com muita pena de todos esses países pobres, como a França, a Espanha, a Inglaterra, os EUA, o Canadá, todos esses países miseráveis que não conseguem sequer chegar a esse nível de prosperidade indispensável para obter um caos tão… caótico.

A última desculpa era a de que os atrasos estavam sendo causados pelas “condições meteorólogicas”. O nevoeiro em São Paulo é muito grande, e isso faz com que os aeroportos dessa cidade tenham que ser fechados frequentemente, o que causa um “efeito cascata” no resto do país..

Claro, essa é uma desculpa perfeitamente válida. Todos nós entendemos que o nevoeiro paulista é especial, e não é justo comparar São Paulo com cidades que não sabem o que é um nevoeiro desses, como Londres, Nova York ou Paris, onde o sol brilha 364 dias por ano. Os americanos então, realmente são uns chorões. Claro que o sistema deles funciona melhor que o nosso! Afinal, o que eles enfrentam de tão ruim? Só uma nevezinha de 10 cm de altura, vez por outra, um ou outro furacão. Ou seja, nada, quando comparado ao nevoeiro de São Paulo… Efeito cascata de verdade.

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Primeiro, passamos pelo desmantelamento comercial, com a crise da Varig. Depois, foi o acidente da Gol, e as tentativas desesperadas de jogar a culpa pra cima dos americanos. E depois, nove meses de espera, nove meses de suspense, até o acidente previsto por todos. E em Congonhas, claro, o símbolo maior de tudo que está errado no ar brasileiro.

Congonhas, como o Santos Dumont, é um aeroporto que não deveria existir, pelo menos não da maneira que existe. Congonhas é ainda pior, porque não é cercado pela Baía de Guanabara. A única justificativa aceitável para defender o funcionamento de Congonhas é o tráfego executivo. É economicamente inviável usar Guarulhos para fazer um “bate-e-volta” em S. Paulo, para ir a uma reunião, por exemplo. Então, é válido que Congonhas tenha vôos de Ponte Aérea e para um ou outro destino do interior de SP. E sempre com aviões de pequeno porte, adequados às suas dimensões e aos seus problemas de localização. Só. Nada além disso.

Mas Congonhas tem um diferencial comercial muito bom: ser no Centro de SP, e evitar que o passageiro tenha de percorrer os 40 km de Guarulhos até à Av. Paulista. Por isso, as companhias sempre quiseram voar mais para lá. Não vou contar a história inteira agora, como Congonhas inflou seus vôos a um número absurdo, mas é uma história que remonta ao governo FHC e piora muito, mas muito mesmo, nos últimos cinco anos.

O que importa é que, atualmente, Congonhas está hiper-saturado. Congonhas, aquele aeroporto que só devia ter vôos regionais, se transformou no maior hub da maior cidade da América do Sul! Há coisas absurdas acontecendo ali, escalas, conexões, que nunca poderiam existir. Os fatores foram se somando, se empilhando numa sequencia lógica para quem olhava com atenção. Um aeroporto no meio da cidade, com uma pista curtíssima. Cada vez mais aviões congestionando esse aeroporto. O controle aéreo, com todos os problemas que vínhamos observando desde o ano passado. E a reforma criminosa que foi feita nesse aeroporto.

Criminosa. A palavra é forte, mas não há outra. A pista de Congonhas (muito curta e sem área de escape, volto a lembrar) é um sabão. Milhões de reais foram gastos em “obras de infra-estrutura” no aeroporto. 90% desse dinheiro foi gasto em cosmética. O resto não deu pra fazer a obra da pista como devia ser. Ficou faltando o “grooving”, ranhuras na pista que ajudam a frear o avião, principalmente em pista molhada. Congonhas NÃO PODIA ser liberada para uso sem o “grooving”. É criminoso fazer isso numa pista que, pelas suas condições, já é complicada em dias de chuva. E é mais criminoso ainda colocar um A320, com 180 pessoas a bordo, para pousar em Congonhas com chuva e sem grooving. Ah, duzentos aviões iguais pousaram sem acontecer isso. É. Mas um dia a sorte acaba.

A pista não podia ser liberada. Isso só aconteceu por pressão das companhias, que nem queriam cogitar a hipótese de ficar sem Congonhas durante as férias de julho. A justificativa oficial da Infraero para a liberação é daquelas que seria cômica se não fosse trágica: a verba para o “grooving” só ficaria disponível em setembro, e até lá dá pra usar a pista assim, “porque estamos no inverno, e quase não chove nessa época”.

Sim. Relaxa, goza e reza pra São Pedro.

Por todos esses motivos, o meio da aviação estava esperando por uma tragédia, e acreditando que ela iria acontecer em Congonhas. Tivemos vários avisos. Só esse ano, foram nove aviões que derraparam e/ou bateram na pista, na hora do pouso. Um dia antes da tragédia de terça, um avião menor, da Pantanal, quase causou um acidente sério. Muitos pilotos falavam abertamente do medo que sentiam em pousar naquela pista. Entre os pilotos, corria o apelido de “holiday on ice”, quando falavam sobre o que era pousar em Congonhas com chuva. E dezenas e dezenas de sustos menores, de pousos abortados, de freadas no limite da pista.

Um dia isso ia acontecer. Foi preciso que morressem 200 pessoas para que todos soubessem, exatamente, como estão os ares do Brasil, e como está a situação de Congonhas.

Eu estou muito, muito revoltado com tudo isso. Já chorei diversas vezes, e ainda não consigo falar sobre o assunto sem a voz ficar embargada. Foram duzentas vidas interrompidas, de uma maneira cruel. Vidas que não precisavam ter terminado agora, não precisavam ter acabado dessa forma.

Eu não consegui dormir direito na primeira noite. E, francamente, me custa imaginar como podem dormir aqueles que carregam o peso dessas mortes na consciência – se é que eles sabem o que é isso.

PS: 3 dias. 72 horas. E o presidente não faz UMA declaração ao país. Até o Papa já se manifestou. Ele não.

PPS: 3 dias. 72 horas. Waldir Pires ainda é Ministro da Defesa. Milton Zuanazzi ainda é diretor-chefe da ANAC. José Carlos Pereira ainda é presidente da Infraero. Até quando? Que país é esse?!

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