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	<title>Quase sem Querer &#187; Repost</title>
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		<title>Quase sem Querer &#187; Repost</title>
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		<title>Passageiro para Frankfurt</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Apr 2008 01:11:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andre</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[literatura policial]]></category>

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		<description><![CDATA[Atendendo a pedidos, repost de um texto escrito há alguns anos atrás.
*   *   *   *   *   *   *   *   *   *
PASSAGEIRO PARA FRANKFURT
(Passenger to Frankfurt)
Autora: Agatha Christie
Ano: 1970
Classificação: * * * *
&#8220;A liderança, além de uma grande força criativa, pode ser diabólica.&#8221;
(Jan Smuts, primeiro-ministro da África do Sul no início do séxulo XX)
&#8220;Minha dor é [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=quasesemquerer.wordpress.com&blog=1079292&post=275&subd=quasesemquerer&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><em>Atendendo a pedidos, repost de um texto escrito há alguns anos atrás.</em></p>
<p><em>*   *   *   *   *   *   *   *   *   *</em></p>
<p><strong>PASSAGEIRO PARA FRANKFURT<br />
</strong>(Passenger to Frankfurt)<br />
Autora: Agatha Christie<br />
Ano: 1970<br />
Classificação: * * * *</p>
<p><em>&#8220;A liderança, além de uma grande força criativa, pode ser diabólica.&#8221;</em><br />
(Jan Smuts, primeiro-ministro da África do Sul no início do séxulo XX)</p>
<p style="text-align:justify;"><em>&#8220;Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda<br />
somos os mesmos e vivemos como nossos pais.&#8221;</em><br />
(Belchior)</p>
<p style="text-align:justify;"><em>&#8220;Será que ninguém vê o caos em que vivemos? Os jovens são tão jovens e fica tudo por isso mesmo&#8230; A juventude está sozinha, não há ninguém para ajudar a explicar por que é que o mundo é este desastre que aí está. Eu não sei&#8230; Eu não sei&#8230; E meus amigos parecem ter medo de quem fala o quem sentiu, de quem pensa diferente. Nos querem todos iguais: assim fica mais fácil nos controlar.&#8221;</em><br />
(Renato Russo)</p>
<p style="text-align:justify;">O diplomata inglês Sir Stafford Nye está voltando a Londres, depois de uma série de tediosas reuniões na Malaia. É um homem considerado por todos como alguém muito inteligente, mas que não é uma pessoa &#8220;séria&#8221;, preferindo o prazer de uma brincadeira a cumprir o seu dever. Essa fama o impede de atingir postos mais altos na diplomacia, embora isso não o incomode: ele está muito satisfeito com o que tem, e concorda com a avaliação que fazem dele.</p>
<p style="text-align:justify;">Por causa do mau tempo, o avião onde ele viaja é obrigado a fazer um pouso de emergência em Frankfurt, onde fica algumas horas. No aeroporto de Frankfurt, uma moça se aproxima de Sir Stafford. Ela não é  especialmente bela ou atraente, mas traz a Sir Stafford algo que ele não pode resistir: uma história misteriosa e com gosto de aventura.</p>
<p style="text-align:justify;"><span id="more-275"></span>A desconhecida  diz que está sendo caçada por espiões, e pede ajuda a Sir Stafford. Segundo ela, sua única chance de escapar é roubar o passaporte do inglês e a vistosa capa que ele traz vestido, assumindo a sua identidade. Para isso, ela lhe oferece uma cerveja, e avisa que a bebida está drogada, o que o fará dormir até que ela chegue segura em Londres.</p>
<p style="text-align:justify;">Sir Stafford, como sempre, não resiste ao dramatismo da situação, e aceita a proposta. Bebe a cerveja, e adormece profundamente. Acorda horas depois, cercado por médicos e pela polícia alemã. A garota desapareceu e, a essa hora, já desembarcou em Londres usando a capa e o passaporte de Sir Stafford.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele não sabe disso, mas acaba de desempenhar um papel muito importante em algo grande que está acontecendo ao redor do mundo: uma conspiração anarquista, que pretende mudar toda a ordem política mundial&#8230;<br />
________________________________________________________</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Passageiro para Frankfurt&#8221; é considerado pela maioria dos fãs de Agatha como o seu pior livro. É uma injustiça. É um livro difícil, fora das características tradicionais da autora, mas é um livro muito bom. Não, não é um livro policial. Tem humor, tem romance, tem suspense, mas em doses bem menores que outros livros mais conceituados. O que é &#8220;Passageiro para Frankfurt&#8221;? Porque ele foi escrito? Sem responder essas perguntas é impossível classificar este livro.</p>
<p>&#8220;Passageiro para Frankfurt&#8221; é de 1970, e isso é algo que deve ser lembrado a cada parágrafo. O contexto histórico ajuda muito a explicar o sentido dele.</p>
<p style="text-align:justify;">Primeiro, vamos comparar a vida de Agatha com essa data. É um dos últimos livros de sua vida (depois dele, há mais três, salvo erro). É uma Agatha com uma idade considerável, quase 80 anos, que sabe que não lhe resta muito tempo mais.</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Passageiro para Frankfurt&#8221; é o testamento de Agatha Christie. É a forma como ela vê um mundo que ela não entende, que não lhe agrada. Uma juventude que parece a ela ser algo preocupante. Os outros livros dessa época, em sua maioria, também falam deste tema, tendo como protagonistas jovens &#8220;modernos&#8221; desorientados. &#8220;A terceira moça&#8221; é o melhor exemplo.</p>
<p style="text-align:justify;">Historicamente, o final dos anos 60 assistiu a movimentos &#8220;rebeldes&#8221; da juventude, passando pelo movimento hippie, pelas passeatas contra o Vietnã, e culminando com os distúrbios de Paris, em 1968. Para Agatha, isso é uma baderna indesculpável. Quem leu a Autobiografia, e conhece um pouco da juventude da Agatha, não tem dificuldade de perceber que a geração de 68 representa tudo aquilo que ela mais despreza.</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Passageiro para Frankfurt&#8221; é uma resposta a isso. O enredo conta uma conspiração mundial, que se aproveita dos jovens, manipulando-os para conquistar o poder em todo o mundo. Para isso, recorrem à violência física e a uma orquestrada &#8220;revolução comportamental&#8221;, com sexo e drogas passando a ser sinônimos de &#8220;liberdade&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">O centro dessa conspiração é a Alemanha, e Agatha deixa bem claro que essa &#8220;revolução jovem&#8221; nada mais é que um nazismo encapotado, um nazismo que não ousa dizer seu nome. As características desses grupos pós-68 são semelhantes a algumas faces do nazismo: culto da violência, da perfeição física, intolerância com opiniões diferentes, o &#8220;novo perfeito&#8221; em oposição ao &#8220;velho ultrapassado&#8221;. Para tomar o poder, vale tudo: terrorismo, propaganda, &#8220;revolução cultural&#8221;. Alguns países são a vanguarda do mundo, onde os jovens estão mais ativos, no processo de desmonte dos governos. Entre eles, está um país da América do Sul, o Brasil. Pensem no que era o Brasil nessa época, na guerrilha, nas passeatas de agitação, na baderna, e não é difícil entender o porque dessa escolha&#8230;<br />
___________________________________________________________________________</p>
<p style="text-align:justify;">Sim, &#8220;Passageiro para Frankfurt&#8221; é um testamento. É um aviso. Agatha vê para onde o mundo caminha, sabe que não vai viver para ver esse resultado, mas deixa um aviso. E é impressionante perceber como ela está certa, como certas coisas evoluíram exatamente da maneira que ela prevê nesse livro.</p>
<p style="text-align:justify;">Alguns podem dizer que ela é uma exagerada, que o mundo não ficou tão ruim como se temia. Talvez as pessoas pensem assim porque já estão tão acostumadas a esse mundo, que não enxergam o que ele se tornou. Uma ideologia rebelde, contestatória, que levou o mundo a um estado de violência, de anarquia, de terror. Uma espiral que fica cada vez pior. Aqueles jovens de 68 estão no poder hoje, em diversos países. E não precisamos ir muito longe para ver isso&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">O livro é permeado por diversas citações literárias, filosóficas, mitológicas. Dois exemplos se destacam entre os outros. O primeiro é o mito da &#8220;caixa de Pandora&#8221;. Resumidamente, essa caixa continha todo o conhecimento do universo, mas nunca devia ser aberta por um mortal. Um dia, o homem não resistiu ao poder, e abriu a caixa de Pandora, espalhando todo o mal pelo mundo, o mal que estava dentro da caixa, junto com o conhecimento.</p>
<p style="text-align:justify;">A &#8220;revolução dos costumes&#8221; é uma caixa de Pandora. Por exemplo, dizem que trouxe &#8220;liberdade sexual&#8221;, mas, na verdade, jogou a juventude numa escravidão bem pior. No lugar da repressão da sociedade vitoriana, vem uma permissividade obrigatória, que discrimina o jovem que escolha ser mais&#8230; ahn&#8230; &#8220;pacato&#8221;. Casamento é &#8220;careta&#8221;, fidelidade é &#8220;reacionária&#8221;. Antes, se você quisesse pertencer ao grupo, devia ser &#8220;bem comportado&#8221;. Hoje, se você quiser pertencer, deve ser &#8220;contestador&#8221;. Se há diferença, é para pior.</p>
<p style="text-align:justify;">E a sociedade que veio depois da abertura da caixa de Pandora é sempre assim. Sob a capa de &#8220;liberdade&#8221;, escravizam a juventude num novo modelo, que obriga o conformismo com seus pares, travestido de &#8220;rebeldia contra os velhos&#8221;. Todos agem igual, achando que estão sendo &#8220;diferentes&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">E esse processo se repete até hoje: jovens, que se iludem, que acham que são &#8220;diferentes&#8221;, quando na verdade não se distinguem do grupo ao qual pertencem. &#8220;Minha dor é perceber que somos como nossos pais&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">Outra citação inesquecível é a do perturbador livro &#8220;Laranja Mecânica&#8221;. Essa obra, para quem não conhece, mostra a história de uma gang de delinquentes juvenis. O líder do bando é preso e, como teste, lhe fazem um tratamento que tira a sua agressividade, tirando junto toda a sua capacidade de sentir emoções.</p>
<p style="text-align:justify;">Em &#8220;Passageiro para Frankfurt&#8221; há alguns personagens que defendem um tratamento semelhante para lidar com a juventude. É o &#8220;Projeto Benvo&#8221;, abreviatura de &#8220;benevolência&#8221;, que promete deixar todas as pessoas se amando umas às outras, como irmãos que são. E, claro, o movimento dos &#8220;jovens&#8221; tenta se apoderar dessa fórmula.</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Laranja mecânica&#8221; não é citado diretamente em momento algum. Mas os pontos em comum entre uma história e outra são em número considerável. É interessante também notar que o filme de Stanley Kubrick, baseado no livro &#8220;Laranja Mecânica&#8221;, é também desse mesmo ano de 1970, o que só prova que o assunto estava na moda.<br />
_________________________________________________________</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Passageiro para Frankfurt&#8221; não é um livro para todos os gostos. E eu não pretendo tentar convencer ninguém de que este livro é excelente. É um livro difícil de ser compreendido, difícil de ser apreciado, e eu entendo perfeitamente bem aqueles que o consideram ruim.</p>
<p style="text-align:justify;">Como policial, ele pode não ser tão bom. Como um documento de época, como análise sociológica, como previsão do futuro, ele é maravilhoso. E inquietante, porque nos faz pensar no mundo que se formou a partir dessa &#8220;juventude dourada&#8221; e o mundo em que vivemos hoje. É uma obra que vale mais pelo que não está escrito, pelas reflexões múltiplas que sua leitura nos traz. Não é literatura de &#8220;entretenimento&#8221;, não é um livro descartável, daqueles que a gente lê e esquece em cinco minutos. Quem o lê nesse estado de espírito, quase certamente irá odiar. É um livro para se ler com esse embasamento histórico, com esse sentimento de que é um livro-testamento, um comentário sobre a sociedade que começava a nascer no final dos anos 60, analisado pelo ponto de vista de uma &#8220;velha ultrapassada&#8221;. Uma &#8220;velha&#8221; do século passado, que já tinha vivido muito, e que se sentia feliz de ir embora antes que essa geração assumisse o poder.</p>
<p style="text-align:justify;">Agatha Christie é uma &#8220;reacionária&#8221;, isso é inegável. E, se alguém a chamasse assim, não tenho dúvidas de que ela iria agradecer o elogio. &#8220;Passageiro para Frankfurt&#8221;, o testamento de Dame Agatha, é mais um motivo para nos fazer ver que ela não é &#8220;apenas&#8221; a melhor escritora policial de todos os tempos.</p>
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		<title>A Batalha dos Aflitos</title>
		<link>http://quasesemquerer.wordpress.com/2007/11/26/a-batalha-dos-aflitos/</link>
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		<pubDate>Tue, 27 Nov 2007 00:13:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Andre</dc:creator>
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		<description><![CDATA[(Texto escrito em 26/11/2005.)
O Gerador de Improbabilidade Infinita
ou
Eu Nunca Deixei de Acreditar
&#8220;- Mas&#8230; mas&#8230; Isso é impossível! &#8211; gritou ele, atônito.
- Não. É apenas muito, muitíssimo improvável.&#8221;
&#160;
&#160;
&#160;
Existem momentos que não se podem viver sem que eles nos fiquem pra sempre na memória. (E derrubar um trasgo montanhês de quatro metros de altura não é o [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=quasesemquerer.wordpress.com&blog=1079292&post=193&subd=quasesemquerer&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>(Texto escrito em 26/11/2005.)</p>
<p><strong>O Gerador de Improbabilidade Infinita<br />
</strong>ou<br />
<strong>Eu Nunca Deixei de Acreditar</strong></p>
<p><em>&#8220;- Mas&#8230; mas&#8230; Isso é impossível! &#8211; gritou ele, atônito.<br />
- Não. É apenas muito, muitíssimo improvável.&#8221;</em></p>
<p ALIGN="justify">&nbsp;</p>
<p ALIGN="justify">&nbsp;</p>
<p ALIGN="left">&nbsp;</p>
<p ALIGN="justify">Existem momentos que não se podem viver sem que eles nos fiquem pra sempre na memória. (E derrubar um trasgo montanhês de quatro metros de altura não é o único deles.) E há coisas nessa vida que são ainda mais improváveis do que<br />
um cachalote despencando no vácuo, sobre um planeta adormecido, junto com um vaso de flores que contém o segredo da vida, do universo e de tudo o mais.
</p>
<p ALIGN="justify">Existem momentos que geram uma quantidade inesgotável de combustível para um &#8220;Coração de Ouro&#8221; voar pelas galáxias.</p>
<p ALIGN="justify">Existem momentos. Existem mistérios. E existem os deuses. Sim, os deuses. Aqueles mesmos que eu canto, vez por outra, e em quem alguns de vocês se recusam a acreditar. Os deuses da bola, que sabem quando devem agir, e quando devem esperar.</p>
<p ALIGN="justify">Os mesmos deuses que têm sido tão atacados esse ano por aqui. O Brasil demorou mais de 100 anos pra ter um campeonato de verdade. Era a vergonha maior: o país do futebol passou um século vivendo apenas com &#8220;torneios&#8221; ou<br />
&#8220;taças&#8221;, e só em 2003 ganhou o direito de ter um campeonato. O sonho durou dois anos. No terceiro, resolveram dar um jeito de voltar à bagunça cotidiana. Jogos anulados, resultados manipulados, equipes com jogos a mais<br />
ou a menos, times jogando cinco vezes em oito dias. O feijão com arroz que nos acostumamos a achar &#8220;normal&#8221;.
</p>
<p ALIGN="justify">Os deuses a tudo assistiram, impávidos. Esperavam o seu momento para agir, castigar os responsáveis pelos sacrilégios cometidos. Para grandes males, grandes remédios. Eles foram dando sinais de que algo especial estava para acontecer. Os ateus se recusavam a percebe-los, mas eles eram visíveis, como nuvens escuras prenunciando a tempestade redentora.</p>
<p>E ela veio, como não poderia deixar de vir.</p>
<p><span id="more-193"></span></p>
<p>****************************************</p>
<p ALIGN="justify">Recife, Estádio dos Aflitos, 26 de novembro de 2005. Náutico e Grêmio decidem uma vaga na primeira divisão em 2006. O Náutico não pode mais disputar o título, mas precisa da vitória pra garantir o acesso à divisão superior. Já o Grêmio pode até ser campeão da segundona, basta vencer o jogo. Porém, entra em campo cauteloso, jogando com o regulamento, sabendo que o empate é suficiente para a subida. E como o Santa Cruz perde o outro jogo, contra a Portuguesa, esse empate é também o que basta para o título.</p>
<p ALIGN="justify">Por isso, uma retranca, uma estratégia de bloquear o jogo e não correr muitos riscos além do necessário. O Náutico, claro, tem que fazer o papel do gato, e parte para o ataque, embora sem muita qualidade. O tempo vai passando, o Náutico (&#8220;gato&#8221;) tem o domínio territorial do jogo, fica com a bola mais tempo, ataca mais, mas o Grêmio (o &#8220;rato&#8221;) vai levando a sua tática avante, conquistando o seu objetivo.</p>
<p ALIGN="justify">É quando o soprador de apito de plantão, senhor Djalma Beltrani, resolve começar a tentar desequilibrar o jogo, e ajudar o gato a fazer o que ele não consegue fazer sozinho. Um jogador do Náutico mergulha na área, e Djalma apita. Um penalti que se não é escandaloso é no mínimo muito duvidoso.</p>
<p ALIGN="justify">Bruno Carvalho bate, e a bola explode na trave. Os deuses deram o primeiro aviso. Hoje não!!!! Já basta tudo que fizeram durante o ano, vocês já se divertiram bastante inventando lances, anulando jogos, determinando resultados. Hoje não!</p>
<p ALIGN="justify">Mas o homem moderno não acredita em deuses. E não vai ser um aviso leve desses que vai fazer isso mudar. Os deuses balançam a cabeça. Homens de pouca fé. Vai ser preciso empregar uma dose maior.</p>
<p ALIGN="justify">O jogo continua na mesma toada. O gato corre a casa toda, sem objetividade, o rato dá algumas estocadas ocasionais, mas também não consegue levar o queijo à toca. O jogo caminha para um 0&#215;0, se algo não for feito para mudar<br />
o equilíbrio.
</p>
<p ALIGN="justify">Bem, se um penalti não deu certo, que tal tirar um jogador do Grêmio? E é assim que o lateral Escalona é expulso, num lance um tanto quanto inexplicável. Os jogadores gremistas reclamam, sem entender que neste momento já são apenas peças num jogo muito maior que eles.</p>
<p ALIGN="justify">O Grêmio, com um a menos, se fecha ainda mais, segurando heroicamente o empate, e deixando apenas Ânderson isolado, para tentar algum contra-golpe. E o gato continua a caçada. O jogo começa a ganhar um leve tom épico. Garantir a classificação, na casa do adversário, com uma arbitragem<br />
desfavorável, e com um jogador a menos, seria um grande feito.</p>
<p ALIGN="justify">É quando o temerário Djalma resolve desafiar de vez o poder dos deuses. Ah, incrédulo Djalma! Ah, tolo irreverente! Se tivesses percebido a mão divina, se tivesses visto os sinais, talvez as coisas ficassem por aí. Talvez os deuses se dessem por satisfeitos com o 0&#215;0, com a heróica defesa do castelo<br />
levada a cabo pelos tricolores. Mas não! Não, ó impenitente juiz! Tinhas que mostrar que os deuses não existem! Tinhas que mostrar que és tu que decides o resultado. Tinhas que inventar mais um penalti absurdo!
</p>
<p ALIGN="justify">E é o que ele faz. Os jogadores do Grêmio, compreensivelmente, se desesperam. É demais. Primeiro, o penalti. Depois, a expulsão. Agora, isso. O trabalho de um ano jogado no lixo em 90 minutos, por causa de uma arbitragem desastrosa. O tempo fecha. Os jogadores cercam Djalma. Três jogadores são expulsos. Mesmo que o penalti não entre, serão sete ratos cansados para tentar parar onze gatos famintos. Impossível. A torcida gremista, cabisbaixa, não quer acreditar no que vê.</p>
<p>Anoiteceu em Porto Alegre.</p>
<p>**********************************************</p>
<p ALIGN="justify">(Em algum lugar que não podemos revelar onde fica, os deuses sorriem.)</p>
<p>**********************************************<br />
Vinte e poucos minutos depois, o &#8220;Rapidão Cometa&#8221; parte da marca do penalti em sua interminável jornada rumo à rede adversária. Longos milésimos de segundo, que terminam nas mãos de Galactus, Gallato, o goleiro mediano com nome de chocolate que é alçado à categoria de devorador de mundos e<br />
candidato a herói.</p>
<p ALIGN="justify">A bola não entra. Plunct Plact Zum, o &#8220;Rapidão Cometa&#8221; não vai a lugar nenhum. O &#8220;Coração de Ouro&#8221; bate mais forte, com a dose extra de combustível que recebeu.</p>
<p ALIGN="justify">Agora são os jogadores do Náutico que parecem não acreditar no que aconteceu. Não percebem que não é nada pessoal. Eles apenas estão no lugar errado, na hora errada, destinados a fazer o papel secundário na ópera armada pelos deuses.</p>
<p ALIGN="justify">O que acontece no minuto e meio seguinte é simplesmente um dos momentos mais incríveis da história do futebol. Inesquecível. Um momento daqueles que torna privilegiados os que o assistem, e dignos de pena aqueles que não o<br />
viram. (Pra não falar daqueles que, tendo olhos, não viram, tendo ouvidos, não ouvem.)
</p>
<p ALIGN="justify">É um sonho, um momento paradoxal. Paradoxal, sim. Por um lado, basta fechar os olhos, e o filme está inteiro na memória, e ficará assim pra sempre, cada cena, cada segundo. Mas por outro lado&#8230; a cada vez que relembro, duvido um pouco dos detalhes, e chegará o dia em que mesmo nós, aqueles que vivemos, iremos duvidar da sua realidade.</p>
<p ALIGN="justify">Ânderson, rato atrevido, parte pela ponta, pra cima de Batata, o gato gordo. O gato, inebriado pela superioridade, dá uma patada no ratinho, e não sobra outra alternativa pra Djalma a não ser expulsa-lo. Dez contra sete. Ainda é muita diferença, mas nem tenho tempo pra pensar nisso. Ânderson levanta, e segue seu caminho, segue rumo ao seu destino programado.</p>
<p ALIGN="justify">Ele entra pela cozinha, no meio de dois gatos tontos com aquela audácia. Mas como aquele rato ainda não percebeu que ele está morto? E Ânderson vai, avança, rumo ao meio da área, driblando a oposição.</p>
<p ALIGN="justify">Se isso fosse um jogo de futebol, ele podia ser parado. Mas não era. Já tinha deixado de ser um jogo há muito tempo. Ali, ele não era mais Ânderson, o camisa 17 do Grêmio. Ele era Ânderson, o escolhido, o mensageiro dos deuses, aquele que tinha um recado a dar aos que não acreditam.</p>
<p ALIGN="justify">E foi assim, aos 61 (61!!!!!) minutos do segundo tempo, que a palavra se fez ouvir, através do seu profeta. A bola encosta mansamente no fundo da rede.</p>
<p>O Grêmio é campeão.</p>
<p><em>Eu nunca deixei de acreditar! Eu nunca deixei de acreditar!</em></p>
<p>O sol brilha, azul, no céu negro.</p>
<p>Amanheceu em Porto Alegre.</p>
<p>**************************************************************</p>
<p ALIGN="justify">Eu não vou ser doido de tentar descrever a minha reação depois disso. Eu não vou ser louco de tentar imaginar o que sentiu um gremista, em Porto Alegre, vendo esse jogo. Eu não vou ser maluco de tentar sequer sonhar com a sensação de viver um momento desses no estádio.</p>
<p ALIGN="justify">Só vou dizer que isso, senhores, isso é futebol. Não são 22 jogadores correndo atrás de uma bola. Não é uma mesa redonda discutindo sobre as vantagens do 4-3-3. Tudo isso faz parte, mas não <strong>*é*</strong>. Assim como futebol não é apenas um gol bonito, um drible bem dado. Isso é arte. E futebol pode ter traços de arte, mas não <strong>*é*</strong> arte. Futebol é algo além. Futebol é um título ganho aos 61 minutos do segundo tempo, com sete jogadores em campo, e um juiz trapalhão complicando tudo. Futebol é sangue, é suor, é lágrimas. É<br />
alma.
</p>
<p ALIGN="justify">Ou, como diria Bobby Robson, <em>&#8220;Futebol não é um caso de vida ou morte. É algo muito maior que isso.&#8221;</em></p>
<p ALIGN="justify">Caio de joelhos, agradecido aos deuses por, uma vez mais, mostrarem a sua força a nós, os que acreditamos sempre. Essa foi a prova de que mesmo com todos os &#8220;erros&#8221;, toda a manipulação, toda a politicagem, tudo isso que aconteceu esse ano, ainda existe algum espaço pra magia do futebol.</p>
<p ALIGN="justify">Sinto minha alma lavada, purificada de todos os Zveiters e Cia. Em qualquer época, esse jogo seria especial, fantástico, inesquecível. Mas nesse ano, ele foi ainda mais. Ele foi simbólico, em vários sentidos.</p>
<p ALIGN="justify"><em>&#8220;Eu vou contar isso pros meus netos, daqui a 50 anos, e eles vão me chamar de mentiroso&#8221;.</em> Marcelo Costa, meia do Grêmio.</p>
<p ALIGN="justify">É isso. E bem-aventurados os que viveram esse momento. Felizes os convidados para a ceia.</p>
<p>************************************************************************</p>
<p ALIGN="justify">Finalizando, não posso deixar de fazer um agradecimento e um cumprimento.</p>
<p ALIGN="justify">Primeiro, o meu muito obrigado ao senhor Djalma Beltrani. Sem ele, nada disso seria possível. Gallato e Ânderson podem dividir as honras de &#8220;herói do jogo&#8221;. Mas não vamos nunca esquecer que o sr. Beltrani é o principal responsável por termos vivido essas emoções. Sem ele, não haveria os penaltis, nem as expulsões. Sem ele, o título do Grêmio seria mais fácil, mas muito menos significativo. A torcida gremista devia entregar uma medalha a ele, a diretoria lhe dar o título de sócio honorário. Com suas lambanças, Djalma Beltrani fez pelo Grêmio algo muito maior do que a imensa maioria dos beneméritos do clube. Ajudou a criar uma lenda que irá acompanhar o Grêmio por décadas.</p>
<p>Muito, muito obrigado, senhor Beltrani. Do fundo do coração.</p>
<p ALIGN="justify">Por fim, os meus parabéns ao senhor Zveit&#8230; perdão&#8230; à máfia rus&#8230; quero dizer&#8230; ah, sim! os meus parabéns ao Corinthians pelo título da primeira divisão. Eu invejo aqueles que tem a cara-de-pau de comemorar um título ganho dessa forma. Eu queria ser assim, mas acho que não conseguiria.</p>
<p ALIGN="justify">E vejam só a sorte corintiana! Conseguiram que acontecesse algo pra fazer com que a lembrança desse título dure pouco. O Corinthians pode até levar a taça, mas o verdadeiro campeão de 2005 é o Grêmio. Eu sempre pensei que 2005 seria marcado como &#8220;aquele ano do Zveiter, e dos juízes que roubaram, e dos jogos anulados, em que o Corinthians ganhou o título por causa disso&#8221;, mas agora tenho certeza que 2005 será sempre &#8220;o ano daquele título do Grêmio&#8221;.</p>
<p>É ou não é uma sorte?</p>
<p>************************************************************</p>
<p>Err&#8230;</p>
<p ALIGN="justify">Eu sei, é verdade, o Corinthians ainda não é campeão, matematicamente falando. Ele ainda pode perder esse título. Mas, pra isso, é preciso que aconteça uma combinação impossível de resultados.</p>
<p>Hmm&#8230;</p>
<p>Impossível?</p>
<p>Talvez seja melhor dizer&#8230; muitíssimo improvável.</p>
<p ALIGN="justify"><em>*enquanto isso a &#8220;Coração de Ouro&#8221; continua voando galáxia afora&#8230;*</em></p>
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