O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.
As armas e os barões assinalados, que da ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana, e entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram, e também as memórias gloriosas daqueles reis, que foram dilatando a Fé, o Império, e as terras viciosas de África e de Ásia andaram devastando, e aqueles, que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando, cantando espalharei por toda parte, se a tanto me ajudar o engenho e arte.
(…)
“E porque, como vistes, têm passados na viagem tão ásperos perigos, tantos climas e céus experimentados, tanto furor de ventos inimigos, que sejam, determino, agasalhados nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, tornarão a seguir sua longa rota.”
Estas palavras Júpiter dizia, quando os Deuses por ordem respondendo, na sentença um do outro diferia, razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia no que Júpiter disse, conhecendo que esquecerão seus feitos no Oriente, se lá passar a Lusitana gente. (…) Teme agora que seja sepultado seu tão célebre nome em negro vaso d’água do esquecimento, se lá chegam os fortes Portugueses, que navegam.
Sustentava contra ele Vênus bela, afeiçoada à gente Lusitana, por quantas qualidades via nela da antiga tão amada sua Romana - nos fortes corações, na grande estrela, que mostraram na terra Tingitana, e na língua, na qual quando imagina, com pouca corrupção crê que é a Latina.
Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura prisão (paixão) me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?
Mas chorar não se estima neste estado,
(a)onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.
(Assi a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima o pé que o sofre e sente!)
De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mi(m) tenho ausente
por quem a vida, e bens dela, aventuro.
Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.
XUTOS E PONTAPÉS Homem do Leme
Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.
E mais que uma onda, mais que uma maré…
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé…
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme…
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder…
No fundo do mar
jazem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.
E mais que uma onda, mais que uma maré…
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé…
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme…
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder…
No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais…
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder…
Sim, foi assim que a minha mão
surgiu de entre o silêncio obscuro
e com cuidado, guardou lugar
à flor da primavera e a tudo
Manhã de Abril
e um gesto puro
coincidiu com a multidão
que tudo esperava e descobriu
que a razão de um povo inteiro
leva tempo a construir
Ficamos nós
só a pensar
se o gesto fora bem seguro
Ficamos nós
a hesitar
por entre as brumas do futuro
A outra acção prudente
que termo dava
à solidão da gente
que desesperava
na calada e fria noite
de uma terra inconsolável
Adormeci
com a sensação
que tínhamos mudado o mundo
na madrugada
a multidão
gritava os sonhos mais profundos
Mas além disso
um outro breve início
deixou palavras de ordem
nos muros da cidade
quebrando as leis do medo
foi mostrando os caminhos
e a cada um a voz
que a voz de cada era
a sua voz
a sua voz
“Uma canção para ti” foi o nome de um programa, exibido pela televisão portuguesa no ano passado. A premissa era simples: um concurso musical, onde crianças/adolescentes de 9 a 15 anos, do país inteiro, puderam se inscrever. Uma peneira rigorosa selecionou os 12 melhores, que se apresentaram nas três edições do programa. A regra de ouro: só músicas portuguesas. A primeira fase eliminou três. A segunda, mais dois. E, na grande final, os sete sobreviventes disputaram o prêmio de 25 mil euros.
O nível foi elevadíssimo. Esqueçam Famas, Ídolos, ou semelhantes. Ali, eram doze grandes cantores em potencial. Alguns deles, mais que isso, grandes cantores já agora. Mas, mesmo assim, foi fácil saber quais os três que eram apenas “bons”, e ficaram de fora na primeira noite. aí pra frente, entre os outros nove, havia os “muito bons” e os “ótimos”.
O programa parecia despretensioso, apenas mais um daqueles programas de crianças engraçadinhas cantando. Mas quando a primeira candidata, Beatriz Costa, 11 anos, iniciou o seu número… Inacreditável. Como podia se encaixar tanta voz em uma corpo tão pequeno? Bem, deve ter sido só ela, escolheram a única boa para abrir e ganhar a audiência. Mas depois veio um João, veio um Miguel, uma Diana. E os espectadores deixaram de se surpreender. Beatriz continuava sendo a melhor (ou pelo menos uma das duas melhores), mas estava longe de ser a única boa candidata.
O décimo candidato foi um rapaz chamado Luís Caeiro. Alto, magro, vestido de preto, com um nariz chamativo. Uma figura. Quando abriu a voz para a entrevista, deu pena. Uma voz estranha, um sotaque interiorano carregado, típico do Alentejo, uma das regiões mais rurais de Portugal. O rapaz não teria a menor chance. Quando ele anunciou a música que ia cantar, tive ainda mais pena. O “Fado do 31“, popularizado por Rodrigo, um fadista com voz e cara de marinheiro, decididamente não era a melhor escolha para alguém com aquele timbre de voz. Coitado.
Quando ele começou a cantar, quem ficou mudo fui eu.
Era Winston Churchill, creio, quem dizia que a falta de pontualidade era um hábito vil. Churchill nunca conheceu o Brasil. No Brasil, não é a falta de pontualidade que é um hábito vil. É a própria pontualidade.
Aprendi a lição às minhas custas, depois de vexames sem fim: alguém me convidava para jantar lá em casa às 20h. Eu aparecia às 20h (com vinho, com flores). A anfitriã recebia-me à porta e, com cara de quem presenciara uma catástrofe, disparava: “Ué, você veio tão cedo?” E depois acrescentava que:
a) O jantar só era às 20h (sic);
b) A casa não estava arrumada;
c) O jantar não estava pronto;
d) Ela não estava pronta;
e) Os convidados ainda não tinham chegado.
Mas chegavam. Pelas 22h, 23, alguns à meia-noite, perguntando se não tinham chegado cedo demais. Por essas alturas, eu já dormia a um canto. De cansaço e de vergonha. Desconfio que, algures pela casa, alguém conspirava contra mim:
- Você sabe que eu disse ao português para ele chegar às 20h e ele chegou mesmo às 20h?
- Sério?
- Sério, rapaz. Ele deve ter um problema, ou algo assim.
Texto do sempre excelente João Pereira Coutinho, publicado na Folha de São Paulo de ontem. Leia o resto do artigo aqui.
O retrato é perfeito, é uma situação que já cansei de vivenciar. Sim, eu sou um dos idiotas que acredita que “20 horas é 20 horas”, e que nunca deixa de se surpreender ao ver que, mesmo forçando sua natureza e se atrasando meia hora de propósito, ainda assim é o primeiro a chegar em qualquer lugar. E essa é uma das manias brasileiras que mais me irrita.
Se o problema fosse apenas a má educação de um povo que não sabe respeitar um horário, menos mal. Só que é um pouco pior que isso: é a cultura da má educação, é a má educação como orgulho. Faz parte do “jeitinho”, da “maneira de ser” brasileira. Chegar na hora? É pra gringos chatos e quadrados, sem jogo de cintura. Brasileiro é esperto, é descolado, não é escravo do relógio. Sai de casa à meia noite, para uma festa que começava às dez, porque sabe que ela só vai bombar de madrugada. E se orgulha disso tudo, como se fosse muito bonito.
O carioca, então, leva isso ao extremo. É um povo que, incapaz de se corrigir, transforma os defeitos em “estilo”, e ainda faz pouco dos que não tem esses defeitos. Uma amiga paulista diz, entre divertida e horrorizada, que um paulista vai mais elegante na padaria de manhã de que um carioca numa festa chique. E é verdade. No Rio, o chique é não ser chique. É gastar duas horas pra deixar o cabelo despenteado, quatro para ficar cuidadosamente mal vestido, na última moda do despojamento. Eu tive um colega, há alguns anos, famoso entre as mulheres por sua barba “milimetricamente malfeita”. Vocês não imaginam o trabalho que ele tinha, toda manhã, pra criar aquele efeito e dar a impressão que não fazia a barba…
Hoje, 9 de outubro de 2007, se comemoram os 40 anos da morte do mercenário argentino Ernesto Guevara, mais conhecido como “El Che” ou “El Chancho”.
O romântico bandoleiro, autor da singela frase “o verdadeiro revolucionário deve ser uma máquina de matar, fria e sem sentimentos”, muito valente na hora de torturar inimigos desarmados e de matar camaradas que o desagradassem, foi capturado na Bolívia, em 9 de outubro de 1967. Suas últimas palavras, não tão valentes, foram uma súplica para que poupassem sua vida e tivessem com ele a misericórdia que ele não teve com suas vítimas.
Com o tempo, criou-se um mito em torno de Che, e ele acabou virando um símbolo de “romantismo idealista revolucionário”. Cabelos ao vento, olhar perdido no horizonte, Ernesto Guevara é o ídolo de todos os filhinhos de papai que querem mostrar “rebeldia” e manifestar seus mais profundos sentimentos antiburgueses.
Hoje, um pouco ao redor do mundo, jovens vestem as suas camisetas pop com o ídolo do “hay que endurecer, pero si perder la ternura”, políticos ao redor do mundo aproveitam a democracia em que vivem para lamentar que não estejam numa ditadura, e intelectuais celebram a memória do assassino portenho. Enquanto isso, na imprensa, há quase uma unanimidade na celebração do culto de São Guevara.
Todos? Não. Assim como nas histórias do Asterix, há sempre algumas aldeias de irredutíveis gauleses, tentando resistir a esse rolo compressor da “história dos vencedores”.
Na semana passada, a Veja publicou um especial sobre Che Guevara, desmontando um a um os mitos que envolvem a peça e os milagres que lhe atribuem. Enquanto isso, em Portugal, coube à Atlantico fazer o mesmo, com uma capa muito bem realizada.
Como era de se esperar, dos dois lados do Oceano, Veja e Atlântico estão sendo bombardeadas pelos suspeitos do costume. Nada que seja de se espantar. Tanto uma quanto a outra tem a “desagradável” mania de não seguir a carneirada, e falar as verdades chatas que os outros não falam. Enquanto elas continuarem a levar vaias de onde estão levando, está tudo bem. Só prova que fazem um bom trabalho.
Mário Soares, ex-primeiro ministro e ex-presidente de Portugal, em entrevista ao Diário Digital:
No plano internacional, o ex-Presidente da República fala também da Venezuela e Hugo Chávez, um presidente que, sublinha, «foi eleito democraticamente» e com quem é preciso dialogar, pois, «é a falar que as pessoas entendem».
Quanto ao encerramento de um canal de televisão incómoda para o presidente venezuelano, Mário Soares contrapõe que Chavez «não fechou um canal de televisão. Apenas, no final da concessão, não lhe renovou a licença.»
De resto, refere, «era um canal de uma imensa agressividade e impertinência para com o Presidente da República eleito. Vi em Caracas algumas emissões e sei o que era.».
Os iguais se reconhecem, ao que parece. Alguém mais mauzinho poderia dizer que é a idade, que não se pode mais levar a sério o que o homem diz. Mas não. Os 80 anos de Mário Soares não são desculpa. Ele já era assim desde sempre…