Letra e Música – Como uma onda no mar

11 Julho 2009

As ondas são anjos que dormem no mar, que tremem, palpitam, banhados de luz… São anjos que dormem, a rir e sonhar e em leito d’escuma revolvem-se nus!

E quando, de noite, vem pálida a lua seus raios incertos tremer, pratear… E a trança luzente da nuvem flutua… As ondas são anjos que dormem no mar!

Ai! quando tu sentes dos mares na flor os ventos e vagas gemer, palpitar… Por que não consentes, num beijo de amor, que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?



Amor e medo

6 Julho 2009

Há uns tempos atrás, na outra encarnação deste blog, havia uma seção fixa chamada “versos de segunda”. Ah, os trocadilhos infelizes da mocidade. Na época, parecia um nome ideal para a poesia que era publicada todas as segundas-feiras. Enfim.

Não vou retomar a tradição. Mas, por coincidência, hoje é segunda feira. E, por coincidência, hoje me passou nos olhos um poema que não lia há tempos, do qual gosto muito, e que foi um dos publicados naquela época.

Nunca entendi porque Casimiro de Abreu não tem o mesmo status que Castro Alves, Álvares de Azevedo, só para ficar nos seus contemporâneos de romantismo. Talvez aos olhos de hoje ele pareça meio bobo, sem o lado dark de Azevedo ou o épico de Castro Alves e seu céu do condor. Ou a modinha do momento, Augusto dos Anjos, escarra na boca que te beija, etc, etc. Tudo isso está bem mais de acordo com a modernidade do que o eu-lírico de Casimiro, sempre (aparentemente) tímido, respeitador da coisa amada.

Casimiro faz “poesia”, no sentido pejorativo moderno. Ele é lírico, ele é doce (agridoce, por vezes, mas…), ele, pecado dos pecados, faz até algumas rimas. Escolhe as palavras. Burila o verso. Sonoriza o poema. Tudo isso é tão demodé

Casimiro de Abreu tem um poema clássico, daqueles que todos conhecem pelo menos o primeiro verso. “Oh, que saudades que eu tenho da minha infância querida”, digo. E muitos dos leitores já completam, “da aurora da minha vida que os anos não trazem mais”.

É lindo. Verdade. Mas está longe de ser o único.

Pessoalmente, eu adoro “Amor e Medo”. Pelo tema, pela poesia quase prosa, que conta uma história em poucas estrofes. Pela construção, pela escolha de palavras. E pelo ritmo. Casimiro é para ser declamado, lido em voz alta. Saboreado pelos olhos e pelos ouvidos. E pelos outros sentidos também.

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Letra e Música – Gondola e Barcos

27 Junho 2009

Só, quando a terra dorme solitária e ergue-se à meia-noite, branca, a lua, e a brisa geme cantos de tristeza na rama do pinheiro, que flutua; e quando o orvalho pende do arvoredo que se debruça p’ra beijar o rio, e as estrelas no céu cintilam lânguidas — Pérolas soltas de um colar sem fio; então eu vou sentar-me sobre a relva, eu vou sonhar meus sonhos ao relento, e só conto o segredo de minh’alma das horas mortas ao tristonho vento.

Meu segredo? É o canto de poesia que suspirou saudoso o gondoleiro, que vai morrer gemente sobre as praias. Da despedida pranto derradeiro — mais aéreo que as vozes da sereia — alta noite — sentada sobre a areia.

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Letra e música – O dia do padroeiro

24 Junho 2009

O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.


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Letra e Música – O Pai e a Pátria

10 Junho 2009

As armas e os barões assinalados, que da ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana, e entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram, e também as memórias gloriosas daqueles reis, que foram dilatando a Fé, o Império, e as terras viciosas de África e de Ásia andaram devastando, e aqueles, que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando, cantando espalharei por toda parte, se a tanto me ajudar o engenho e arte.

(…)

“E porque, como vistes, têm passados na viagem tão ásperos perigos, tantos climas e céus experimentados, tanto furor de ventos inimigos, que sejam, determino, agasalhados nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, tornarão a seguir sua longa rota.”

Estas palavras Júpiter dizia, quando os Deuses por ordem respondendo, na sentença um do outro diferia, razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia no que Júpiter disse, conhecendo que esquecerão seus feitos no Oriente, se lá passar a Lusitana gente. (…) Teme agora que seja sepultado seu tão célebre nome em negro vaso d’água do esquecimento, se lá chegam os fortes Portugueses, que navegam.

Sustentava contra ele Vênus bela, afeiçoada à gente Lusitana, por quantas qualidades via nela da antiga tão amada sua Romana - nos fortes corações, na grande estrela, que mostraram na terra Tingitana, e na língua, na qual quando imagina, com pouca corrupção crê que é a Latina.

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura prisão (paixão) me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
(a)onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

(Assi a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima o pé que o sofre e sente!)

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mi(m) tenho ausente
por quem a vida, e bens dela, aventuro.


Letra e musica – Rompendo o mar salgado

22 Maio 2009

Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.


XUTOS E PONTAPÉS
Homem do Leme

Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.

E mais que uma onda, mais que uma maré…
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé…
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme…

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder…

No fundo do mar
jazem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.

E mais que uma onda, mais que uma maré…
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé…
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme…

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder…

No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais…

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder…


“Nada chega ao fim, Adrian. Nada”

31 Março 2009

Não, não vou falar de cinema. Não, não vou falar o que achei de Watchmen. Ainda não, pelo menos. Não nesse post. E por isso precisam ser dois textos sobre o filme, para que o “oficial” possa ser escrito livre do que me faz escrever este.

Adianto: Watchmen é um filmaço, independente de qualquer outra coisa. Para os fãs dos quadrinhos, é melhor ainda. E para mim, além de ser um grande filme, foi um encontro marcado com o passado.

Meus bons amigos, onde estão? Notícias de todos, quero saber. Lendo um diário, navegando em um cargueiro, eu recuei dez anos. Voltei ao tempo em que li Watchmen pela primeira vez.

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Ouvindo o silêncio

16 Março 2009

THE SOUND OF SILENCE
(Simon & Garfunkel)

Hello darkness, my old friend,
I’ve come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone,
‘Neath the halo of a street lamp,
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence.

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more.
People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence.

“Fools” said I, “You do not know
Silence like a cancer grows.
Hear my words that I might teach you,
Take my arms that I might reach you.”
But my words like silent raindrops fell,
And echoed
In the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made.
And the sign flashed out its warning,
In the words that it was forming.
And the sign said, “The words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls.”
And whisper’d in the sounds of silence.


Lua adversa

7 Novembro 2008

LUA ADVERSA
(Cecília Meireles)

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…


Abre aspas

27 Outubro 2008

Seguindo a corrente que começou , passou por ali, e chegou aqui, o QsQ também dá a sua contribuição.

E, parafraseando a Carol, eu também resolvi a dificuldade da escolha da poesia bem ao meu modo. Um poema que fala do ser poeta, e que é também uma música. Assim, mantenho o ritmo dos últimos dias (leia a letra, ouça a música, veja o vídeo). Além de tudo, é um poema lindo, mais lindo ainda na versão musicada. E aproveito para mostrar aos leitores um pouco mais de um grupo que adoro.

A poeta é Florbela Espanca. Nascida em Vila Viçosa, cidade interiorana do sul de Portugal, em 1894, Florbela teve uma vida polêmica, que acaba por vezes se refletindo na sua obra. Uma das primeiras mulheres a frequentar a escola secundária (equivalente ao nosso ginásio) da cidade de Évora, Florbela casou aos 19 anos, e entrou para a Faculdade de Direito de Lisboa. Depois, largou o curso, se divorciou, casou novamente, e se divorciou uma vez mais. Nessa altura, a  família a rejeitou, e Florbela foi viver para o Porto, onde casou pela terceira vez. Aos 36 anos, depois de uma depressão agravada pela morte do irmão, a poeta se suicidou, tomando duas caixas de barbitúricos.

Sua poesia, geralmente, é marcada pela melancolia e por um certo tom ultra-romântico. O poema escolhido aqui é um onde, superficialmente, esses traços podem não aparecer tanto. Mas estão lá, sim, toda a intensidade, as imagens fortes que caracterizam a poesia de Florbela. O verso onde ela define que ser poeta é como “ser mendigo e dar como quem seja rei do reino de aquém e de além dor” é uma das mais interessantes definições do ofício. Se o poeta é um fingidor, que chega a fingir que é dor a dor que sente, como diz Pessoa, é também essa entrega, esse tom algo desesperado de Florbela, mendigo que age como rei “de aquém e de além dor”. E a maneira como a alma do poeta é amarrada na última estrofe, onde depois de todos os superlativos e exageros visuais, conclui-se singelamente que “ser poeta (também) é amar-te assim, perdidamente, e dize-lo a toda a gente” faz um belo contraponto. Não deixa de queimar. Não deixa de ser uma imagem viva. O “astro que flameja” é paralelo àquele que “ama perdidamente”. Mas amarra o soneto de uma maneira inesperada, com outro ritmo, que a música pega bem.

Nos anos 80, João Gil, guitarrista da banda portuguesa “Trovante”, musicou este poema, que foi gravado pela primeira vez no disco “Terra Firme”, de 1987. Depois, em 1999, o grupo “Ala dos Namorados”, nova casa de João Gil, faz uma releitura do tema no disco ao vivo “Solta-se o beijo”. Essa versão é um belo dueto do vocalista do Ala, Nuno Guerreiro, com a cantora Sara Tavares.

PERDIDAMENTE
(Florbela Espanca/João Gil)

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É considerar o mundo num só grito!

E é amar-te assim, perdidamente…
E é seres alma, e sangue, e vida em mim…
E dize-lo cantando a toda a gente…


Passageiro para Frankfurt

19 Abril 2008

Atendendo a pedidos, repost de um texto escrito há alguns anos atrás.

*   *   *   *   *   *   *   *   *   *

PASSAGEIRO PARA FRANKFURT
(Passenger to Frankfurt)
Autora: Agatha Christie
Ano: 1970
Classificação: * * * *

“A liderança, além de uma grande força criativa, pode ser diabólica.”
(Jan Smuts, primeiro-ministro da África do Sul no início do séxulo XX)

“Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda
somos os mesmos e vivemos como nossos pais.”

(Belchior)

“Será que ninguém vê o caos em que vivemos? Os jovens são tão jovens e fica tudo por isso mesmo… A juventude está sozinha, não há ninguém para ajudar a explicar por que é que o mundo é este desastre que aí está. Eu não sei… Eu não sei… E meus amigos parecem ter medo de quem fala o quem sentiu, de quem pensa diferente. Nos querem todos iguais: assim fica mais fácil nos controlar.”
(Renato Russo)

O diplomata inglês Sir Stafford Nye está voltando a Londres, depois de uma série de tediosas reuniões na Malaia. É um homem considerado por todos como alguém muito inteligente, mas que não é uma pessoa “séria”, preferindo o prazer de uma brincadeira a cumprir o seu dever. Essa fama o impede de atingir postos mais altos na diplomacia, embora isso não o incomode: ele está muito satisfeito com o que tem, e concorda com a avaliação que fazem dele.

Por causa do mau tempo, o avião onde ele viaja é obrigado a fazer um pouso de emergência em Frankfurt, onde fica algumas horas. No aeroporto de Frankfurt, uma moça se aproxima de Sir Stafford. Ela não é especialmente bela ou atraente, mas traz a Sir Stafford algo que ele não pode resistir: uma história misteriosa e com gosto de aventura.

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Os amigos do Sig

12 Abril 2008

O cartunista Ziraldo, criador do “Menino Maluquinho”, é o mais novo investidor de sucesso no mercado brasileiro. Algumas de suas “ações” renderam dividendos recentemente. E quem paga a conta, pra variar, somos nós, os otários que respeitam as leis.

Ziraldo e seu “sócio”, o também humorista Jaguar, vão arrecadar, cada um, a bagatela de 1 milhão de reais, por terem sido “perseguidos” durante o governo militar. Não, eles não foram mortos, torturados, mutilados, ou algo assim. Eles apenas eram “contra o regime”, e por isso alegam ter sofrido “prejuízos pessoais e profissionais”.

Estou me lixando [para quem critica a concessão da bolsa-ditadura]. O Brasil me deve isso.“, diz Ziraldo em entrevista.

E como estamos no Brasil-Pasárgada, e eles são amigos do Rei-Nu, também ganharam o direito à boquinha da Bolsa-Ditadura. Assim, se juntam a ilustres companheiros como Carlos Heitor Cony e o próprio Lula, que também tiveram esse “lucro” às custas do povo.

Um milhão de reais de “indenização”. E mais uma bolsa de 4500 reais mensais, até morrerem.

Quando você vir crianças morrendo por falta de hospitais, lembre que Ziraldo recebeu 1 milhão de reais por ser “de esquerda”. Quando alguém reclamar que um filho está sem escola, lembre de Jaguar e seu milhão. Quando um professor ou um médico falar dos problemas que enfrenta, ganhando um salário de 600, 700 reais, lembre que TODO MÊS Jaguar, Cony, Ziraldo e Lula, entre dezenas de outros “companheiros”, recebem cheques de 4500 reais para afogar as mágoas de não terem conseguido levar o Brasil a uma ditadura.

E quando, não importa o tema, o governo reclamar que “falta verba”, nunca esqueça que o Brasil gasta, por mês, 28 milhões de reais (!!!) pagando essa bolsa-ditadura aos companheiros. E que, em indenizações como as que Ziraldo e Jaguar receberam agora, já foram gastos TRÊS BILHÕES DE REAIS.

Pelo menos agora nós podemos desconfiar que o Sig não era o único rato a frequentar a redação do Pasquim.

Bem, ao menos uma parte do milhão de reais embolsado pelo Ziraldo já tem destino certo. A Folha de São Paulo noticiou que o cartunista foi condenado a pagar 40 mil reais de indenização à produtora cultural Lulu Librandi, por danos morais.

O caso é o seguinte: Ziraldo e Lulu se conheceram no governo José Sarney, quando Ziraldo foi dirigente da Funarte. (É, isso mesmo, Ziraldo foi dirigente de um órgão público, no governo Sarney. Ele deve contar isso na lista de “prejuízos pessoais e profissionais” que teve por ser contra o regime.) Ziraldo e Lulu brigaram, e o cartunista chamou a produtora de “filha da p***”, numa entrevista, e disse que ela “matou o seu papagaio”, uma vez que a ave “morre quando alguém lhe deseja mal”.

Em sua defesa, Ziraldo argumentou que “filha da p***” não é xingamento, mas o juiz não levou isso em conta.

De qualquer jeito, uma coisa boa fica desse caso: agora que sabemos que Ziraldo acha que “filha da p***” não é xingamento, podemos nos sentir livres pra lhe dizer exatamente o que pensamos sobre ele, não é verdade?


Diogo, o terrível

17 Fevereiro 2008

Lula –o meu Lula– é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.
(Diogo Mainardi)

Quando dois bons escritores se encontram, o resultado costuma ser, no mínimo, algo interessante de se ler. O português João Pereira Coutinho entrevistou o brasileiro Diogo Mainardi, e o resultado foi publicado na Folha de São Paulo, em uma coluna de JPC que levou o mesmo nome deste post. Só a introdução já abre o apetite:

É um dos meus desportos favoritos: chegar ao Brasil e falar, em tom blasé, de Diogo Mainardi. “Você leu a coluna dele na Veja? Muito boa”, digo eu. O meu interlocutor cai num silêncio sepulcral. As veias do pescoço vão inchando como em certos filmes de vampirismo. O sangue concentra-se todo na cabeça. Os olhos, vermelhos e irados, saem das órbitas. A boca espuma. Os queixos tremem. Alguns levam a mão ao braço esquerdo e pedem uma ambulância. Deus do céu, eu já perdi a conta dos infartos, ou das ameaças de infarto, que a minha perversidade provocou em São Paulo e no Rio. Diogo Mainardi não é um colunista. É uma assombração.

Curioso. Irônico. Paradoxal. As mesmas pessoas que desmaiam na minha frente com o nome de Mainardi não desmaiam com uma elite política corrupta que usa dinheiro público tradução: dinheiro dos brasileiros para suas negociatas. O mal não está em quem rouba. Está naqueles que denunciam o roubo. Em condições normais, um país estaria grato aos jornalistas que vigiam e criticam o poder. Mas o Brasil não é um país normal. Aliás, Portugal também não é e pressinto aqui uma cultura histórica comum: quando um colunista abre a boca para criticar o governo, ele não critica o governo. Ele é um demente, um invejoso, um fracassado. E, em caso de discórdia, os leitores, para não falar dos colegas de ofício, não estão dispostos a contra-argumentar. Mas a censurar. O ideal não é discutir. É silenciar. Na impossibilidade de fuzilar. Curiosas mentalidades.

Às vezes pergunto se vale a pena continuar. Como Diogo Mainardi pergunta em seu último livro, “Lula é Minha Anta” (Record, 240 págs.), relato da sua odisséia anti-lulista. No livro, conta Mainardi que dedicou cerca de 5 mil horas a Lula (antes do mensalão começar). Cinco mil. Uma vida. Uma barbaridade. E quando o colunista acredita que finalmente se libertou do presidente, o mensalão estoura e Lula, como nos filmes de Coppola, volta a arrastá-lo para a velha dança. Mais 5 mil horas. Mais dez. Mais quinze.

Eu não me perdoaria. Sério. Nas milhares de horas que Mainardi perdeu com Lula, teria sido possível ler todo o Balzac, todo o Flaubert. Mas também teria sido possível viajar. Dormir. Namorar. Vadiar. Milhares horas com Lula e o PT não inspiram indignação. Inspiram compaixão.

É sempre um privilégio poder ler JPC. E, nessa entrevista, ainda temos o bônus das respostas afiadas de Mainardi. Alguns trechos:

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Alguém tem 23 milhões pra me emprestar?

15 Janeiro 2008

Da Folha:


Casa onde Peter Pan nasceu está à venda

A casa de Londres onde o escritor escocês J. M. Barrie concebeu e escreveu “Peter Pan” está à venda por 6,75 milhões de libras (US$ 13,5 milhões, cerca de R$ 23,6 milhões).

“Esta é uma residência única e mágica, onde J.M. Barrie viveu e criou o conto ‘Peter Pan’”, afirma a agência imobiliária que colocou à venda a propriedade, situada na Gloucester Road, oeste de Londres.

A residência vitoriana conta com seis dormitórios e um jardim encantador, segundo o anúncio.

“Mas é sua história que acrescenta uma dimensão especial à casa”, afirma a imobiliária.

A propriedade é situada de frente para os jardins de Kensington, onde Barrie conheceu os meninos Llewelyn-Davis, que inspiraram as histórias dos Meninos Perdidos liderados por Peter Pan.

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O fim de Tim Timão

3 Dezembro 2007

Brasileirão City: o fim de Tim Timão
(José Roberto Torero)

O crepúsculo manchava de vermelho as ruas de Brasileirão City. O crepúsculo e o sangue.
Foi o último dia de duelos. Duelos decisivos. Duelos mortais.

Jack Tricolor, o campeão, o vencedor, o glorioso, foi derrotado por Harry Hurricane, no Arena Saloon. Mas e daí? Isso não mudou nada. Durante o ano, ele foi o melhor com folga e mereceu receber sua quinta estrela de xerife.

Billy Santos levou quatro tiros de Louis Laranjeira. Seu uniforme branco ficou manchado de vermelho. Mas e daí? Ele acabou em segundo lugar e isso era o máximo que poderia conseguir.

Black Red, o caubói que anda sempre com um Urubu em seu ombro, caiu frente a James Capibaribe. Mas e daí? Black Red, que há alguns meses parecia destinado a ir passar um ano em Série B Village, recuperou-se e acabou como o terceiro melhor de Brasileirão City. Foi uma recuperação e tanto, como aqueles mocinhos que levam uma flechada no ombro mas, usando apenas com a mão esquerda, conseguem matar toda a tribo inimiga.

Will Uai, o caubói que só se veste de azul, teve a missão mais fácil do domingo: matar o já morto Paul T. Guar (e dentro de seu próprio saloon, o Big Boy from Minas). Em 25 minutos Will já tinha acertado dois tiros no rubro inimigo. Depois ficou fazendo malabarismos com seus revólveres. Como prêmio por sua campanha, irá participar do grande rodeio Los Libertadores.

O curioso é que Will Uai contou com a ajuda de seu maior inimigo, Rob Gallo, que venceu, e bem, a Big Green. Green foi, durante todo o ano, um caubói surpreendente. Ganhava duelos que pareciam perdidos, perdia os que pareciam ganhos. Se não perder a cabeça e jogar as boas armas fora, poderá ter um bom 2008.

Seth Fire e Phil Gueira fizeram um duelo equilibrado. Phil precisa vencer para ir para Sul-Americana, uma competição para a qual todos querem ir, depois todo mundo quer abandonar. Mas só o que Phil Gueira conseguiu foi empatar o duelo no finalzinho. Seu consolo é que no ano que vem estará mais uma vez trocando balas em Brasileirão City.

Joaquim Wayne, o caubói de largos bigodes e que sempre anda com o cinto de balas atravessado no peito, venceu o simpático Blue Reed. Blue lutou mal, perdendo a cabeça, e uma de suas armas, logo aos sete minutos. Mas resistiu por um bom tempo. Só na segunda metade do duelo é que Joaquim Wayne acertou o primeiro tiro em Blue. Depois disso, o cavaleiro das araucárias desanimou e levou mais dois balaços. Assim ficou em penúltimo lugar e terá que passar um tempo em Série B Village. O curioso é que Blue Reed teve o melhor revólver de Brasileirão, o Colt Josiel, que acertou os inimigos nada menos do que vinte vezes.

Cliff Reciff precisava vencer o já rebaixado Young Boy participar da Sul-americana. Para sua sorte, Young estava sem nenhum interesse no duelo, tanto que, durante o duelo, escondeu-se atrás de um barril e começou a limpar seu revólver. Porém, sua arma disparou acidentalmente e dois tiros alvejaram Cliff, que acabou ficando fora da Sul-americana. O bang-bang é uma caixinha de surpresas.

Mais desinteressado que Young Boy estava James Colorado. O caubói internacional enfrentou John Esmeraldine, mas tinha pouca gana de vencer. Tanto que no intervalo do duelo trocou seus dois revólveres dourados (Gil & Fernandão) por duas garruchas. Já Esmeraldine queria derrotar seu oponente, mas o bandoleiro do cerrado tem tão má pontaria que teve que dar três tiros à queima roupa para acertar a bala fatal. Escapou de ir para Série B Village, mas, se não melhorar, e muito, logo estará por aquelas bandas.

E por fim chegamos ao mais visto, lamentado e comemorado duelo de Brasileirão City: Tim Timão x Sancho Pampa.

Tim Timão precisava vencer, mas mal começou o duelo e Sancho, que tem experiência em duelos dramáticos, acertou-lhe um tirázio logo de cara. Tim não esmoreceu e, aos trancos e arrancos, conseguiu empatar as coisas colocando, sem muita classe, é verdade, uma bala no corpo de Sancho. No entanto, precisava acertar mais uma. E isso não estava fácil para Tim Timão, que anda com pontaria de vesgo. Até o fim do duelo ele tentou de tudo. Mas não conseguiu nada. E vai para Série B Village. Depois do duelo, os fãs de Tim ajoelhavam-se, enrolavam-se em bandeiras, lamentavam. Se bem que alguns já entoavam gritos de guerra.

O problema de Tim Timão é que seu antigo fornecedor de armas, Dudu A. Lib, deixou-o apenas com alguns revólveres de espoleta e uns rifles enferrujados. E, sem boas armas, ninguém vai muito longe em Brasileirão City.

Os admiradores de Tim Timão derramaram tantas lágrimas pelas ruas de terra de Brasileirão City que formaram um mar de lama. Aliás, mar de lama parece ser o problema de Tim Timão.