Um elogio à nação rubro-negra

3 Outubro 2009

Quando eles erram, eu sou o primeiro a bater. Então, quando fazem uma coisa legal, não custa nada elogiar. Quero, publicamente, dar os meus sinceros parabéns à torcida do Flamengo.  Numa semana de espírito olímpico em alta, temos que valorizar essa demonstração de alinhamento com os ideais de Coubertin (que, convém explicar aos leitores flamenguistas, é o patrono das Olimpíadas modernas).

Em 22 de agosto, o Vasco recebeu o Ipatinga, e colocou no Maracanã 79.635 torcedores. O maior público do ano no futebol brasileiro. A diretoria do Flamengo, revoltada e ofendida, atingida no seu mito de “maior do Brasil”, passou a semana seguinte inteira convocando a torcida para “bater o record e dar uma lição no Vasco”. No domingo, dia 30/08, desafiada, a torcida do Flamengo se encheu de brios e se esforçou ao máximo. E conseguiu um bom resultado para o seu tamanho: 13.531 pagantes. Mais ou menos… um sexto da torcida do Vasco.

Há duas semanas atrás, Vasco x Guarani. 52.904 presentes. O clima não estava muito bom no RJ nesse dia, outros fatores também contribuíram, e por isso tivemos esse público abaixo do nosso potencial. A diretoria do Flamengo, competente como de costume, percebeu a oportunidade. Era boa demais para se perder. E lançou nova convocação geral. Dessa vez não precisava “bater o record”. Mas, pelo menos, pelo menos!, bater os 52 mil da véspera. No dia seguinte, contra o Coritiba, a torcida do Flamengo fez um esforço sobrehumano, conseguiu levar pessoas que nem sabiam onde ficava o estádio. E atingiu impressionantes 50.552 mil espectadores.

Uma evolução fantástica, uma superação de limites que merece todos os nossos aplausos!

Nada mal para a segunda maior torcida do Rio. Parabéns, torcida rubro-negra. É bonito ver esse esforço para fazer o melhor possível, mesmo quando se sabe que é impossível vencer. Esse é o verdadeiro espírito esportivo: enfrentar quem é superior, e sair de cabeça erguida, mesmo na derrota. Não fiquem tristes, vocês conseguiram chegar o mais longe que podiam, com a torcida que tem, e merecem todos os incentivos pela tentativa. Agora eu entendo a verdade: o Flamengo é realmente uma nação. Assim como o são Andorra, San Marino, Liechtenstein…

E nessa semana o Flamengo voltou a me surpreender pela positiva. Para uma torcida que tem fama de arrogante e com um complexo de superioridade extremo, eu imagino como deve ter custado dar esse passo. Consciente de seu menor tamanho, consciente de que não dá para enfrentar sozinho a torcida do Vasco, o Flamengo resolveu chamar o irmão pra ajudar na briga. Numa tocante união, Flamengo e Fluminense saíram de mãozinhas dadas, e passaram a semana convocando suas torcidas para, juntas e misturadas, bater o record do Vasco.

Ei, bacalhau, agora sou eu e meu bróder. Vai encarar?

É tão bonito isso. Assim como o Lula, eu também me emociono com essas coisas. Será que a segunda e a quarta maiores torcidas do RJ, somadas, no “clássico mais importante do Brasil”, vão conseguir finalmente ter tantos torcedores no estádio quanto aqueles que o Vasco colocou, sozinho, num jogo meia-boca contra um time bizarro, pela segunda divisão?

Parece que eles ainda têm dúvidas. Pq, não satisfeitos em somar DUAS torcidas, ainda se uniram para fazer uma promoção, colocando os ingressos com até 50% de desconto!!!! Eu até ouvi dizer que, na semana passada, no dia de São Cosme e Damião, os saquinhos distribuídos às crianças dos morros cariocas tinham uma composição diferente da tradicional: um saquinho de pipoca doce, um pacotinho de cocô-de-rato, duas marias-mole, uma rapadura com validade vencida e um ingresso pro Fra-Fru. Mas não acredito, isso deve ser boato…


A indefensável das gentes

27 Julho 2009

Quem tem mais de 20 anos, cresceu com os gritos de Galvão Bueno, “sai que é suuuuuua, Taffarel”.

Quem tem um pouco mais que isso, e é do Rio, sabe que a sina de gritos longos chamando goleiros vem de um pouco mais longe que isso. Uma das lembranças mais antigas que tenho é de meados dos anos 80, ouvindo futebol na Rádio Globo, com a narração de José Carlos Araújo, o “Garotinho”, e ele cantando o nome de dois grandes goleiros.

De um lado, o meu favorito, por muitos anos o melhor goleiro que conheci. “Acáááááááácio!!!!”, gritava o Garotinho, a cada defesa difícil. Principalmente penaltis, especialidade da casa. Penalti contra o Vasco, eu não temia o gol. Me preparava para ouvir o nome do meu goleiro, e vibrar junto com ele.

Mas, do lado de lá, tinha outro grande nome. Grande no tamanho, grande no talento, grande no número de vogais boas pra esticar. “Zééééééé Caaaaaaaaarlos!”

E como eu detestava o Zé! Em dias de Vasco x Flamengo, então, aquele maldito agarrava tudo!

E que jogos eram aqueles, meus amigos! De um lado, Donato, Mazinho, Dunga, Bismarck, William, Geovani, Mauricinho, Roberto Dinamite. Do outro, Aldair, Mozer, Jorginho, Leonardo, Andrade, Adílio, Zico, Zinho, Renato Gaúcho, Bebeto. E muitas vezes, acreditem, com esses craques todos, o jogo acabava com pelo menos um zero no placar. Por culpa dos dois monstros que vestiam as camisas 1.

No clássicos jogados na minha mesa de botão, o duelo continuava. “Acááááááácio”, gritava eu. “Zéééééé Caaaaaarlos”, respondia meu adversário.

Por ironia da vida, a minha grande lembrança do Zé dentro de campo não vem de uma grande defesa, de um jogo em que ele fechou o gol. Vem de uma final de carioca, onde ele levou um gol lindo de um moleque baixinho e atrevido que estreava pelo Vasco naquele ano, um tal de Romário.

Zé Carlos e Acácio estavam na Copa de 90, no auge das suas carreiras. Em 89, o Acácio era titular, o Zé reserva. E tinha um garoto, lá de Santa Rosa, chamado Claudio André Taffarel, que completava o grupo. Às vésperas da Copa, o Zé se machucou, o Acácio caiu em desgraça com o Lazaroni por um jogo ruim contra a Dinamarca, e o garoto foi para o gol da seleção, de onde não mais sairia, pela década seguinte. E nem Acácio nem Zé Carlos voltaram a ter chances reais depois disso.

O tempo passou, os dois se aposentaram, foram viver suas vidas. O Acácio jogou em Portugal, depois voltou para o Rio, foi ser treinador de goleiros. O Zé passou pelo América, quando seu amigo Jorginho foi treinador. E depois não ouvi mais falar de nenhum dos dois.

Tive notícias do Zé há umas três semanas atrás, por uma conhecida em comum, que me contou que ele estava mal, lutando contra um câncer agressivo. E foi então que soube algo que apenas suspeitava: que o Zé também era grande no caráter, no coração, no carinho que despertava naqueles que conviviam com ele. A torcida foi forte, eram vários Maracanãs torcendo para ele vencer mais esse adversário. Mas o outro lado era forte demais. Na última sexta feira, o Zé se foi. Tinha apenas 47 anos.

(E impossível nessas horas não pensar como a vida é breve, e como às vezes a gente perde tanto tempo com coisas pequenas, deixando de viver tudo que pode ser vivido.)

No domingo, ao final do jogo do Flamengo, o técnico interino Andrade, em lágrimas, dedicou a vitória rubro-negra ao Zé. Não vou mentir, e dizer que torci pelo Flamengo. Mas, ao menos por essa vez, eu não senti, numa vitória deles, uma derrota minha. Um lado meu ficou até feliz com o resultado. Eles ainda têm muitos jogos pra perder daqui pra frente – e lá estarei para torcer contra. Mas não lamento que tenham vencido esse. O Zé merecia isso. E o Andrade, outro sujeito do bem, merecia igualmente.

Vai com Deus, Zé Grandão.


Uma semana Fenomenal

10 Julho 2009

Na segunda feira, em entrevista a Galvão Bueno, no programa “Bem Amigos”, do SportTV, Ronaldo deu uma declaração que causou alguma polêmica aqui no Rio. Disse o atacante:

“Eu sou flamenguista desde pequeno, sempre fui ao Maracanã. Só que agora estou no Corinthians, e o que eu aprendi no Corinthians é que essa pesquisa do Flamengo ter a maior torcida do Brasil não é certa. Eles pegam os torcedores dos outros Estados, que sempre falam que o Flamengo é o seu segundo time.”

Claro que isso repercutiu mal entre torcedores e dirigentes do Flamengo. Mas também é óbvio, para quem acompanha futebol, que é algo que não deixa de ser verdade. Ou pelo menos parte dela.

Leia o resto deste post »


Um copo pela metade

3 Julho 2009

Vasco 0 x 0 São Caetano

Guarani 0 x 0 Vasco

Vasco 0 x 0 Duque de Caxias

Figueirense 1 x 1 Vasco

Vasco 0 x 0 Bragantino

Cinco jogos, cinco empates. Quatro deles por 0 x 0. Um gol em 450 minutos. Esse foi o saldo do Vasco em junho.

São cinco jogos sem vencer. Marcamos apenas um gol em cinco jogos. Nosso ataque anda terrível.

São cinco jogos de invencibilidade. Levamos apenas um gol em cinco jogos. Nossa defesa anda segura.

O copo está pela metade. Se meio cheio ou meio vazio, depende do torcedor. Assim como outras coisas podem estar cheias, com tantos empates.

Leia o resto deste post »


Um boi (vermelho e) preto…

20 Junho 2009

Do GloboEsporte.com:

Após a coletiva de despedida no CT da Barra Funda, na manhã deste sábado, Muricy Ramalho revelou que o treinador do Flamengo, Cuca, ligou algumas vezes para o presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, se oferecendo para o cargo. O ex-técnico do clube paulista disse que Cuca foi antiético.

– O mais importante é você ser correto. Hoje, o futebol está difícil porque os técnicos não se respeitam. O Cuca liga para o Juvenal Juvêncio para saber como ele está, pergunta se ele poderia pedir demissão do Flamengo. Estamos em uma situação difícil e o Cuca liga para saber se pede demissão ou não. É demais, né? Ligar para o presidente do clube é um absurdo. É uma falta de ética do caramba. Um absurdo – disse à rádio “Bandeirantes”.

Como eu falei aqui há algum tempo atrás, Cuca e o Flamengo se merecem. Parece que, como muitos flamenguistas disseram na época, ele realmente “vestiu a pele rubro-negra”.

Não, flamenguistas, não reclamem (muito). Não creio que alguém mude tanto assim só porque mudou de time. Apenas, se sentindo num ambiente onde ética é artigo em falta, a pessoa que já tem essas tendências se sente livre para liberá-las.

E eu só lamento ter me deixado enganar tanto tempo por ele. Dou a mão à palmatória, admito meu tremendo erro de julgamento. Ainda bem que minha vontade nunca foi feita, ainda bem que ele nunca treinou o Vasco. E, se Deus quiser, isso não acontecerá.

Por mim, ele que fique muitos anos onde está. É o lugar certo para alguém assim.

(Para entender o título do post, clique aqui.)


O cara tá certo

19 Junho 2009

Disse Luís LI, o Rei-Nu:

Eu não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irã. Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas, sabe, uma coisa entre flamenguistas e vascaínos.

Aí, veio um pessoal e caiu de pau em cima do homem, dizendo que era um absurdo ele debochar desse jeito dos iranianos, falar uma coisa imbecil como essa, e reduzir tudo a um “Vasco e Flamengo”.

Caramba, vocês da zelite são um saco com essa perseguição ao homem! Tudo que ele fala é motivo pra criticar!

Vamos ver.

Você tem dois grupos. De um lado, está um partido que trapaceou nas eleições. Do outro, um grupo que foi roubado e teve sua vitória, ganha no campo, tomada pelas trapaças do outro.

Aí, o grupo que foi prejudicado pelas trapaças resolve reclamar. E o grupo dos trapaceiros manda a sua “torcida” para as ruas, pra atuar com violência, e ameaçar os rivais.

Não satisfeito, o presidente do clube X manda prender todos os dirigentes do outro clube. mas a torcida do clube Y, guerreira e corajosa, não aceita se dobrar à ditadura, e continua nas ruas, resistindo, lutando pela justiça.

Trapaça, violência, bandidagem de um lado. Resistência e luta contra as injustiças do outro.

Para Lula, é um Flamengo x Vasco.

É perfeito!!!!

É a primeira vez, em 60 anos, que o Lula acerta uma metáfora! Nunca antes neste país isso foi visto! Ele conseguiu fazer uma analogia lógica!!!

E ao invés de incentivar o esforço, vocês preferem criticar. Ô povinho medíocre, viu…

PS: Nos últimos dias, tenho sempre vestido alguma peça de roupa verde. Não é nada, não é nada, mas é o mínimo que dá pra se fazer nessa história.

PPS: Não, cabeças maldosas, o verde NÃO é uma homenagem ao Coritiba.

PPPS: Depois, Lula disse que “não podemos tratar José Sarney como um homem comum”. Nosso guia (de turismo) estava em viagem oficial ao Cazaquistão. Por favor, não deixem de fazer a piada óbvia.


O triunfo da vontade

15 Junho 2009

Quando o suíço Roger Federer e o sueco Robin Soderling subiram à quadra Philip Chatrier, a principal do complexo parisiense de Roland Garros, havia uma sensação algo indefinível no ar. A maioria dos que assistiam sabia que algo ia acontecer ali, algo importante, inesquecível. Uma página da história do tênis ia ser escrita. Mas qual página seria?

De um lado, Federer, o número dois do mundo. Ganhador de 13 grand slams, a um de igualar o record do americano Pete Sampras. Desses treze, nenhum foi em Roland Garros. Federer carregava, até domingo, três vices seguidos no torneio francês, todos eles sendo derrotado por Rafael Nadal. Este ano, Nadal perdeu nas oitavas, e o caminho parecia aberto para o triunfo de Federer. Uma vitória, além do título inédito, e do record de slams, lhe daria o “career slam”, se juntando a um seleto grupo onde estão apenas cinco outros tenistas, de todos os milhares que já jogaram algum torneio ATP. Além disso, Federer reduziria a diferença para Nadal no ranking ATP, e daria um passo enorme para recuperar o posto e número um do mundo, ainda esse ano.

De outro lado, Soderling. O semi-desconhecido gigante nórdico, de 1,92m, que nunca havia chegado a uma final de grand slam. Um franco-atirador, que prometera vencer Nadal e cumprira a promessa.

Federer chegava à final, depois de alguns sustos contra adversários teoricamente mais fracos. Soderling chegava a final, vencendo três jogadores mais fortes que ele. Federer estava prestes a completar sua jornada triunfal. Soderling estava pronto para fazer uma campanha como a do primeiro título de Guga no saibro parisiense, a zebra que acabou campeã.

Federer e Soderling já haviam se encontrado nove vezes, com nove vitórias do suíço.

Para que lado os deuses da bolinha se inclinariam? Para a consagração do melhor do mundo ou para a apoteose do herói desconhecido? Qual seria o arquétipo triunfante? Teríamos a vitória do guerreiro que enfrentou dragões, passou por todas as provas de evolução, e agora estava pronto para a taça? Ou a superação do herói romântico, que não conhece o caminho, luta contra perigos maiores que a vida, e sai triunfante da última batalha?

Leia o resto deste post »


Quando a bola é pequena e amarela

3 Junho 2009

A frase da semana foi “a única coisa garantida é que a Lucy sempre vai tirar a bola”. Faz parte da sua natureza. Essa frase me ficou na cabeça o resto do fim de semana, por vários motivos. E no domingo, ela se fortaleceu ainda mais, porque ganhou um novo sentido. Oitavas de final de Roland Garros, Rafael Nadal enfrentava o sueco Robin Soderling. Jogo tranquilo para o espanhol, que jamais perdeu um jogo sequer no saibro, em torneios melhor de cinco sets. Por tudo isso, nem me esforcei em ver a partida inteira. Preferi me guardar para quando o carnaval, ou melhor, a final chegasse.

Estava no carro, quando ouvi no rádio a parcial: Soderling fechara o terceiro set e vencia por dois sets a um. Voltei pra casa, a tempo de pegar o segundo game do quarto set. O sueco, jogador apenas mediano, teve seu dia mágico, talvez impulsionado pela inimizade que tem com Nadal. Tudo deu certo para Soderling, e Nadal sentiu falta de um repertório mais variado. Eu até gosto do espanhol, aprecio sua raça, seu jogo de defesa, mas tecnicamente ele tem um defeito sério: só tem uma jogada. Geralmente, quase impossível de ser marcada. Mas, quando ela não entra, ele não varia, continua agindo como o touro. Marra, marra, marra, porque não sabe jogar de outra maneira.

Ontem foi o dia do toureiro. Final: Soderling 3×1 Nadal.

Se fico feliz com a derrota de Rafa? Não especialmente. Repito, não tenho nenhuma antipatia contra o espanhol. Ele é um bom jogador, uma força física e mental impressionante, um cara legal, non?, que não tem culpa dos fã-náticos que o colocam num estágio acima do que ele é. A diferença dele para o Federer é aquela que existe entre um ótimo jogador e um fora de série.

E acho engraçado quando alguns dos fãs dizem que Nadal “tem raça”, enquanto Federer “é frio”. Parece que, para muitos, a paixão só existe quando é demonstrada, exibida, exposta como um nervo. Só conta como paixão se a toalha fica manchada. Não entendem que, para um certo tipo de pessoas, um punho fechado que mexe dois milímetros é um gesto que significa muito. Parece que se você grita, balança, exibe, você tem raça, amor e paixão. Agora, se você é contido, discreto, reservado, é porque não sente. Mesmo que você quebre raquetes, chore, vibre calado com cada fibra do seu ser, sem para isso precisar chamar a atenção de todo mundo, gritando “vejam como eu sou emotivo, passional”.

Federer é assim, na personalidade e no estilo de jogo. O que Nadal tem de exagerado, Federer tem de preciso. Se o espanhol cativa pela maneira como se joga em bolas perdidas, defendendo algumas que parecem impossíveis, o suíço impressiona pela maneira como simplifica o difícil, fazendo jogadas lindas com um ar blasé, parecendo que jamais vai despentear um fio de cabelo. Nadal é cabelo rebelde, roupa colorida e faixa na cabeça. Federer é clássico, elegante. O que em Rafa é fogo, em Roger parece gelo – naquela fina camada superficial, a única que pessoas superficiais enxergam. Eu gosto dos dois, me identifico com os dois, sou capaz de vibrar com os dois. Mas prefiro, de longe, Federer. Como jogador e como pessoa. É o cara que diz que prefere ser lembrado para sempre como um jogador honesto, porque isso é mais importante do que ser um campeão. E ele é ambas as coisas. Um modelo de integridade, de discrição, de caráter. E o melhor tenista de sua geração.

Por isso, não, não festejo as derrotas do Nadal, como aconteceria em outros esportes. Eu fico feliz com as vitórias do Federer, isso sim. Ah, mas o Nadal perder, ainda mais em Roland Garros, não é bom para o Federer? Não facilita o seu caminho rumo ao career slam?

Pois é. E aí chegamos ao parágrafo que abre o post.

Leia o resto deste post »


Toda saga tem seu começo

31 Maio 2009

Vasco 1×0 Brasiliense
09/05/2009

Saber racionalmente é uma coisa. Sentir é outra, bem diferente.

Há cinco meses nós estávamos nos preparando para esse dia. O choro da queda, a promessa de regresso, os ventos de mudança. As piadas, os coros dos adversários. A gente acha que o pior já passou.

Mas não, não passou.

Nada nos prepara de verdade para aquele momento em que você chega no estádio, e entende que vai começar o campeonato da segunda divisão, e você faz parte dele. Nada te prepara para aquela sensação de ver os jogos da primeira divisão de maneira tão distanciada como se vê o campeonato italiano ou o espanhol. Durante um ano, só o que importa para você é a segundona, a série B.

E não, ninguém está preparado para isso. Não até o apito incial do primeiro jogo. Só ali a ficha cai.

E o caminho só existe quando por ele você passa.

Leia o resto deste post »


Lágrimas e absurdos

17 Maio 2009

Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem perfeitos

Campeonato de 2007. Depois de várias decisões polêmicas da arbitragem, o clímax vem aos 45 minutos do segundo tempo da decisão. Dodô faz o gol do título alvinegro, e o árbitro o anula, por pretenso impedimento. Além disso, expulsa Dodô. Nos penaltis, abalado psicologicamente e sem seu melhor batedor, o Botafogo é derrotado. Fica o gosto da injustiça. Isso é futebol, dizem, e essas coisas acontecem.

Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
(…)
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama

Campeonato de 2008. Na final da Taça Guanabara, Botafogo e Flamengo se encontram de novo. O jogo. apitado por Marcelo Lima Henrique, é um dos maiores escândalos da história do futebol carioca. No final do jogo, o técnico Cuca desabafa:

Leia o resto deste post »


Alô, alô, Marciano

5 Maio 2009

Eu odeio a Copa do Brasil.

Eu vi Baraúnas e Cícero Ramalho. Eu vi Campo Bom. Eu vi Bacabal e Juca Baleia. Eu vi CSA. Eu vi o Gama e os quase mil gols.

Eu odeio a Copa do Brasil.

Invejo aqueles para quem o futebol é divertido. Invejo os que conseguem ver um jogo como passatempo. Invejo aqueles que vêem futebol porque gostam. Como lazer.

Eu, confesso, odeio a Copa do Brasil.

E ainda assim, sento para ver meu time jogar nela. Nós, vascaínos, que, hereges!!!, muitas vezes quase torcemos por uma derrota logo na primeira fase, porque sabemos que, cedo ou tarde, virá o desespero, a angústia. E não conseguimos suportar a idéia de aguentar essa angústia duas, três, quatro fases, esperando pela hora em que ela, inapelavelmente, há de vir.

E é assim que eu odeio a Copa do Brasil.

Ao final da fase anterior, eu soube que o Vasco iria enfrentar o vencedor de Icasa e Confiança. Confiança, de Sergipe. Ou Icasa, de Juazeiro do Norte, Ceará. E tremi de medo.

Já via as manchetes:

“Vasco eliminado por excesso de Confiança”

“Icasa de ferreiro, Vasco leva pau”

Ai meu padim Ciço, me socorrei.

Porque, nessas horas, eu odeio muito a Copa do Brasil.

E foi assim que me sentei, na quinta feira, para ver Vasco x Icasa. Íamos jogar contra um time desconhecido (problema número 1), com nome esquisito (perigo 2) e que acabou de ser rebaixado para a segunda divisão do campeonato cearense (ameaça bônus). Como estar otimista para um jogo desses?

Poderia o cenário ser pior?

Sim, poderia. Soube disso quando vi a escalação do Icasa. No meio campo, número 5, Panda.

O time deles têm um jogador chamado… Panda.

Tem como não odiar copiosamente a Copa do Brasil?

Comecei a ter pesadelos. O jogo seria 1×1. Já ouvia o locutor da rádio: “E o placar diz… Vasco da Gama 1, gol de Pimpão, Icasa 1, gol de Panda”.

Que ursada.

O jogo começa, o Vasco faz logo 1×0, num gol contra bizarro, e para, tocando a bola, esperando o tempo passar. É óbvio o que vai acontecer, é apenas questão de tempo.

As coisas pioram quando eu descubro que o Panda é o batedor de faltas do time do Icasa. Ou seja, a CADA falta que o juiz marca, o Panda pega a bola, e mira na direção no gol do Tiago. E eu me agarro ao Padim Ciço. Até lembrar que ele joga no time deles, e não no nosso.

A cada falta que o Panda bate, eu lembro como eu odeio a Copa do Brasil.

E quando o Panda faz uma falta no meio do campo, sua primeira no jogo, levanto ensandecido, gritando pro juiz: “Expulsa! Expulsa esse fdp!!!!!” Não adianta. O juiz nunca nos escuta.

O jogo vai caminhando para o final, e eu, ingênuo, começo a acreditar na vitória. Me permito pensar que “hoje não, hoje não”. É quando o Icasa anuncia uma substituição. Sai o número 9, e entra o camisa 18, Marciano.

Será que eu odiaria tanto uma Copa Interplanetária quanto odeio a Copa do Brasil?

Levanto e vou dar uma volta. Pra que enfrentar o destino? Minutos depois, Panda avança, toca pra Leozinho que cruza para Marciano empurrar para a rede e empatar o jogo. Como estava escrito que tinha que ser.

Pego o meu enorme bico e o despacho para Marte. Semana que vem tem o segundo jogo, lá em Juazeiro. Sim, eu estou psicologicamente preparado para a eliminação. Sim, eu estarei lá, sofrendo em frente à televisão, angustiado, esperando um gol deles. E, se não sair, e vencermos por 8×0, saberei que isso apenas adiou a angústia para a próxima rodada. Eu sei disso tudo. Mas nem por um momento penso em não assistir o jogo.

Porque a verdade, meus amigos, é que eu amo a Copa do Brasil.


Sábado de malhação

21 Abril 2009

Vasco vs Botafogo
11/04/2009

Olha, não dá sorte mexer com coisas que são tradicionais. O primeiro sinal veio na sexta-feira, que não é chamada de “santa” à toa. Eu sou super a favor de mudar tudo de errado que veio da era Eurico. mas esse é o ponto: mudar tudo errado não significa mudar tudo, só pra mostrar que mudou. As coisas certas devem ser mantidas, mesmo que sejam do antigo regime. (Sim, eu sei, pensar assim faz de mim um conservador reacionário, quase um inimigo do povo. Já estou acostumado com isso.) O Vasco, talvez por suas origens portuguesas, jamais trabalhou nesse dia. O clube ficava trancado, jogadores e funcionários de folga, tudo parado. Mas, como agora vivemos uma gestão moderna e profissional, tudo mudou, e fizemos um treino-apronto. Não se brinca com essas coisas.

O segundo sinal foi a mudança de data do jogo. Pela tabela original, o Fla x Flu seria no sábado, e o Vasco x Botafogo no domingo. A Globo quis inverter, o Vasco aceitou. Deus do céu, eles não conhecem nada da nossa história? Não sabem que a gente tem uma sorte imensa com o domingo de Páscoa? Não sabem que, de acordo com algum Instituto de Pesquisas obscuro, nós vencemos 97,6% dos jogos disputados nesse dia, incluindo aí chocolates homéricos como o 5×1 de 2000 em cima do Flamengo?! Eu sei, o jogo era contra a cachorrada de General Severiano, e a nossa escrita pra cima deles é tão monstruosa que, geralmente, basta botar 11 cones com a camisa do Vasco e a vitória é garantida. Mas pra que facilitar TANTO?

E pra que estrear um patrocinador novo logo nesse jogo, depois de 14 (QUATORZE, como nos cheques) jogos sem patrocinador, e sem derrota? Um patrocinador que é fabricante de combustível – e onde há gasolina, pode haver Fogo. Pra que, meu Deus, pra que?

Os céticos dirão que tudo isso são apenas superstições. Mas, diabos flamejantes, o jogo era contra o BOTAFOGO!!!!! Se existe UM dia no calendário em que superstições, presságios e gatos pretos devem ser levados a sério, é exatamente no dia em que se joga contra o Botafogo.

Só podia dar no que deu.

Vai um meio amargo aí, meu chapa?

Leia o resto deste post »


A resposta histórica

8 Abril 2009

“Sem o Vasco, o futebol brasileiro não teria conhecido Pelé.”

Esta frase está inscrita em um documento exibido na Sala dos Troféus do Vasco. Mas o que uma carta faz no meio dos troféus? Pode uma mensagem escrita valer tanto como um título? Pode a palavra de um homem, representando um clube, ter o direito de estar ao lado das taças, medalhas e honrarias conquistadas pelo Vasco?

Pode esta carta ser um título MAIOR do que muitos outros dos inúmeros que lá estão?

Pode. Tanto pode que é. Mas, para compreender essa história, e entender melhor porque o Vasco é aquilo que é hoje, é preciso voltar um pouco no tempo. Oitenta e cinco anos, para sermos exatos. Leia o resto deste post »


Índio quer apito

5 Abril 2009

E chega ao fim mais uma fase do… zzz… campeonato mais… zzz… charmoso do Brasil, a Taça Tabajara. O destaque do segundo turno vai para (mais uma) vitória do Vasco sobre o Flamengo, apesar de (mais uma) arbitragem complicada. Luís Antonio Santos, conhecido como “Indio”, estava suspenso há um ano. E apareceu, misteriosamente, querendo apito logo num jogo como esse. O Vasco terminou com o jogo com oito jogadores, teve jogador expulso por não escutar o apito do Índio (num estádio com 80 mil pessoas gritando), teve o goleiro do Flamengo dando voadora na cabeça de um adversário e o mandando para o hospital (e não sendo expulso por isso), teve de tudo. Mas, mesmo assim, a equipe cruzmaltina sobrou em campo, vencendo por 2×0.

Antes do jogo, a torcida rubro-negra levou para o Maracanã umas plaquinhas escrito “2″. Eu não entendi muito bem o que eles queriam dizer com aquilo. Mas, por via das dúvidas, o Vasco fez o que manda a tradicional hospitalidade lusitana e atendeu à vontade dos fregueses. Fez DOIS gols, e depois botou o Léo Lima em campo – ou seja, desistiu de fazer mais qualquer coisa. Espero que a mulambada tenha ficado satisfeita com mais essa prova de fidalguia. O freguês tem sempre razão. Leia o resto deste post »


Under Pressure

14 Fevereiro 2009

Fluminense vs Vasco
08/02/2009

Existe algo de fundamentalmente diferente quando você vê um jogo nas cadeiras do Maracanã, e não nas arquibancadas. Pra começar, a visão é inteiramente diferente. Nas arquibancadas você vê o jogo de cima, naquilo que os especialistas chamariam de “perspectiva isométrica”. Nas cadeiras, você vê o jogo de frente, como se fosse uma televisão tridimensional. São duas experiências completamente distintas. De cima, você entende a tática, percebe o que técnicos e jornalistas querem dizer com aquelas “linhas de ônibus” (4-3-3, 4-4-2, 3-5-2), entende as mudanças do jogo. Da arquibancada, você vê um jogo de xadrez se desenrolando.

Isso, claro, quando você consegue ver alguma coisa. porque um dos efeitos colaterais de um jogo visto das arquibancadas, principalmente quando é um clássico, é aumentar muito o nervosismo de um torcedor. Durante aquelas duas horas, você é parte de um organismo, “A Torcida”. Você canta no mesmo ritmo, compartilha seus humores, e raramente consegue ver o jogo, a não ser com uma parte ínfima do seu ser, aquela parte que não está irremediavelmente perdida roendo unhas, agoniado, esperando a hora em que “A Torcida” vai pular gritando “gol” a uma só voz. Ou que vai soltar um gemido de decepção (ou, dependendo do dia, um resmungo de conformismo, tinha-mesmo-que-ser, até-que-estava-demorando), quando a bola entra na sua rede, ao invés da outra.

As cadeiras trazem uma experiência diferente. Você está na linha do campo. Só vê direito o lado mais perto de onde você está. Consegue ver a cara dos jogadores, e até acha que eles podem escutar os seus gritos. A torcida (que não parece “A Torcida” vista daqui) está acima de você, e não dentro. Para piorar, você só a ouve de forma difusa. Porque, sadicamente, tudo que você vê da arquibancada é a torcida rival, lá do outro lado. A sua torcida, ali em cima de você, separada por um bloco de concreto, fora do alcance da sua vista, não parece realmente sua. Você ouve ela cantar, mas se sente meio ridículo acompanhando. De uma certa maneira, você é um penetra naquela festa. Você não está lá no meio. Não tem direito a participar da comunhão. Leia o resto deste post »