A resposta histórica

8 Abril 2009

“Sem o Vasco, o futebol brasileiro não teria conhecido Pelé.”

Esta frase está inscrita em um documento exibido na Sala dos Troféus do Vasco. Mas o que uma carta faz no meio dos troféus? Pode uma mensagem escrita valer tanto como um título? Pode a palavra de um homem, representando um clube, ter o direito de estar ao lado das taças, medalhas e honrarias conquistadas pelo Vasco?

Pode esta carta ser um título MAIOR do que muitos outros dos inúmeros que lá estão?

Pode. Tanto pode que é. Mas, para compreender essa história, e entender melhor porque o Vasco é aquilo que é hoje, é preciso voltar um pouco no tempo. Oitenta e cinco anos, para sermos exatos. Leia o resto deste post »


Uma questão de fé

24 Fevereiro 2009

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS DA 5ª TEMPORADA DE LOST. SÓ LEIA SE JÁ TIVER VISTO ATÉ O EPISÓDIO 5×06 – “316″.

“- Isso é ridículo!
- Pare de pensar no que é ridículo, e pense no que você acredita. É por isso que se chama um salto de fé.”

“- Todos nos convencemos mais cedo ou mais tarde, Jack.”

“- Ele está falando a verdade?
- Provavelmente não.”

Lost é uma série que transita em vários níveis. Há o nível do enredo, com as aventuras, as viagens no tempo, as teorias mirabolantes. Há o nível das referências, com o joguinho dos fãs procurando pistas, citações, números malditos escondidos na tela como o Corujito no desenho da She-Ra. E há o nível dos personagens, desde sempre o mais interessante para mim. As primeiras temporadas, com os flashbacks, foram muito ricas nesse aspecto. Depois, a história acabou seguindo outros rumos, e andamos mais presos a tentar entender o que está acontecendo, e principalmente quando isso está acontecendo. Mas, em episódios como “316″, voltamos a lembrar porque Lost é Lost. E porque ela é muito mais do que uma série sobre um grupo de sobreviventes perdido no espaço – e no tempo.

Eu sempre defendi a tese de que a teia que envolve os personagens de Lost se apóia em meia dúzia de taglines, a maior parte delas títulos de episódios. Assim como os números malditos, assim como as estações da Dharma, também essas frases montam um quebra-cabeça, um “jogo do curinga” que, reunido e colocado em ordem, ajuda a explicar muito do que está acontecendo.

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Under Pressure

14 Fevereiro 2009

Fluminense vs Vasco
08/02/2009

Existe algo de fundamentalmente diferente quando você vê um jogo nas cadeiras do Maracanã, e não nas arquibancadas. Pra começar, a visão é inteiramente diferente. Nas arquibancadas você vê o jogo de cima, naquilo que os especialistas chamariam de “perspectiva isométrica”. Nas cadeiras, você vê o jogo de frente, como se fosse uma televisão tridimensional. São duas experiências completamente distintas. De cima, você entende a tática, percebe o que técnicos e jornalistas querem dizer com aquelas “linhas de ônibus” (4-3-3, 4-4-2, 3-5-2), entende as mudanças do jogo. Da arquibancada, você vê um jogo de xadrez se desenrolando.

Isso, claro, quando você consegue ver alguma coisa. porque um dos efeitos colaterais de um jogo visto das arquibancadas, principalmente quando é um clássico, é aumentar muito o nervosismo de um torcedor. Durante aquelas duas horas, você é parte de um organismo, “A Torcida”. Você canta no mesmo ritmo, compartilha seus humores, e raramente consegue ver o jogo, a não ser com uma parte ínfima do seu ser, aquela parte que não está irremediavelmente perdida roendo unhas, agoniado, esperando a hora em que “A Torcida” vai pular gritando “gol” a uma só voz. Ou que vai soltar um gemido de decepção (ou, dependendo do dia, um resmungo de conformismo, tinha-mesmo-que-ser, até-que-estava-demorando), quando a bola entra na sua rede, ao invés da outra.

As cadeiras trazem uma experiência diferente. Você está na linha do campo. Só vê direito o lado mais perto de onde você está. Consegue ver a cara dos jogadores, e até acha que eles podem escutar os seus gritos. A torcida (que não parece “A Torcida” vista daqui) está acima de você, e não dentro. Para piorar, você só a ouve de forma difusa. Porque, sadicamente, tudo que você vê da arquibancada é a torcida rival, lá do outro lado. A sua torcida, ali em cima de você, separada por um bloco de concreto, fora do alcance da sua vista, não parece realmente sua. Você ouve ela cantar, mas se sente meio ridículo acompanhando. De uma certa maneira, você é um penetra naquela festa. Você não está lá no meio. Não tem direito a participar da comunhão. Leia o resto deste post »


Onde estiveres, eu estarei lá

13 Janeiro 2009

“Por que caímos, Bruce?”, pergunta Alfred ao jovem Bruce Wayne. “Para aprendermos a nos levantar”, completa o velho mordomo. É essa a lição que Bruce aprende. Há um tempo para chorar a dor da queda. Há um tempo para compreender o que é necessário para que nunca mais tenhamos que passar por isso. Apenas entendendo porque caímos é possível nos fortalecermos, e recuperar o equilíbrio.

“Por que caímos, Bruce?”. E sem entender que caímos para aprendermos a nos levantar, jamais nos levantaremos de verdade. Ou, se nos levantarmos, será apenas para voltarmos a cair, de novo, de novo, e de novo. Até aprendermos.

“Por que caímos, Bruce?”. Caímos graças a diretorias incompetentes (para dizer o mínimo), jogadores fracos (idem) e árbitros azarados (ibidem). Mas foi só isso? Não. Foi também por isso. Caímos porque era a hora disso acontecer. Caímos porque tinha que ser assim. Caímos porque, para crescermos nessa nova fase, precisamos aprender a nos levantar.

Numa hora como essas, muitas hienas riem da nossa queda. Paciência. Faz parte da vida. Pelo menos, o Vasco caiu de pé, caiu com honra, e assim vai voltar. Não sequestrou juízes, não manipulou papeletas amarelas, não estourou champanhe, não ouviu miados durante a noite. Não vendeu a honra para evitar o tombo. As hienas não podem dizer o mesmo.

Um homem de moral não fica no chão. Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

*    *    *    *    *     *     *    *    *    *

Algumas pessoas me perguntaram onde eu estava no dia 7 de dezembro. A resposta é simples. Eu estava onde sempre estive.

Eu estava com a camisa 10, vendo a vida passar diante dos meus olhos, sabendo que, ainda que me arraste em outros campos, estava jogando o último jogo da minha carreira. Talvez o mais importante de todos. Dramático. Melodramático. Fadista. Sabia que, para mim, não adiantava a lição do Alfred. Eu estava na queda. E não estarei, pelo menos dentro de campo, na hora de levantar. (Será mesmo que não?)

Eu estava no banco, sentado, impotente. Eu via meu time, não apenas meu emprego, mas meu time, aquele pelo qual sempre torci, numa situação daquelas, e eu sem poder ajudar. Graças a um churrasqueiro que tem as suas panelas, e não dá chance a quem não pertence a elas, por mais talentoso e dedicado que o jogador seja. Eu vi o filme passando, voltei a ver o menino que, com sete, oito anos, começou a jogar futebol de salão no Vasco. E chorei. Chorei por mim, por nós, por tudo.

Eu estava nas arquibancadas, eu estava nas cadeiras de São Januário. Éramos 30 mil sofrendo, esperando por um milagre. Eu estava ouvindo no radinho de pilha. Éramos milhões, atentos aos outros jogos que decidiam nosso futuro. Eu estava em casa, no sofá, tenso em frente à TV. Éramos dois, em silêncio, em gritos.

Eu estava com o meu time, onde quer que estivesse. E éramos um.

*    *    *    *    *     *     *    *    *    *

Tudo isto existe, tudo isto (às vezes) é triste, tudo isto é Vasco. Eu escrevi isso há algum tempo, e repito. Uma letra de fado. E é Vasco ver Pedrinho chorando, ver Edmundo chorando. É Vasco ver a arquibancada, na hora mais triste da nossa história, gritando… o que gritavam? Xingamentos? Ofensas? Ameaças? Não. Gritando “Ah, é Edmundo!”, enquanto o próprio saía, chorando. Dizer que ele teve parte das culpas no rebaixamento é verdade. Dizer que, de novo, ele está prestes a fazer besteira e ir jogar em outro time, é verdade. Mas essa relação é algo que só um vascaíno pode entender por completo. São mistérios do fado. E é o fado que nos faz aquilo que somos.

Os meus parabéns ao Churrasqueiro. Ele fez de tudo pra rebaixar o Florminense esse ano. Depois de muito brincar no campeonato, os tricolores acordaram a tempo e se livraram da mala. Mas ele queria porque queria conquistar mais essa meta. E teve um clube otário para lhe dar essa chance. Detalhe: quando estava no Flunimed brincando, Renato ajudou times como Náutico e Santos a ganharem pontos que ajudariam esses times a ficar na frente do Vasco. Parabéns, Renato, de rebaixamento você entende: rebaixado como jogador, e agora como técnico. Vamos ver quem serão os próximos torcedores, coitados, que vão cair no papo do “eu ganho, nos empatamos, eles perdem”…

Os grandes reforços para o Vasco-2009 com certeza não são os que chegarem, mas os que saíram. Conseguimos nos livrar do Churrasqueiro, do Rodrigo Antonio (o polivalente: consegue não jogar nada em várias posições), do Jorge Luís (carinhosamente conhecido como ”jegue luiz”, que entregou sozinho dez pontos e ajudou a entregar outros vinte), do chinelinho Wagner Diniz e do traíra Leandro Amaral (ambos agora em times ideais para quem, como eles, não sabe ser homem).

O Vasco não morreu. Foi ao inferno, e logo logo está de volta. “Por que tu caiu, Bacalhau?”. Simples, meu amigo: caimos para irmos buscar o único título que nos falta, um troféu que carioca nenhum tem. O sentimento não pode parar.

Duque de Caxias, Campinas, Caxias do Sul, Brasília, Ipatinga. São Januário. Não importa. Onde estiveres, eu estarei lá. Sempre ao teu lado, do lado de cá.

Incondicional.


Em Pernambuco tem Leão

18 Junho 2008

“Eu nunca duvidei dos poderes desta Ilha…”

Ao contrário de anos anteriores, desta vez a Copa do Brasil não foi conquistada pelo time pequeno. Na final entre um time grande, da primeira divisão, e um desafiante da segundona, deu a lógica: o Sport Clube do Recife é campeão da Copa do Brasil, vinte e um anos depois de ser campeão brasileiro. Com este título, o Sport passa a ser o maior vencedor do futebol nordestino moderno, superando o Bahia, que tem “apenas” um brasileiro.

E, provocações à parte, foi talvez o título mais justo da história recente da Copa do Brasil. Depois de vários anos em que o campeão só pegava time grande na final, graças ao regulamento esdrúxulo do torneio brasileiro, dessa vez o Sport chegou ao título jogando como gente grande. E sempre usando o fator casa a seu favor.

 

“Ei, minha juba é natural! Quem pinta o cabelo é outro Leão…”

Primeiro, o Imperatriz (MA). Empate fora, vitória por 4×1 em casa. Veio o Brasiliense (DF). Duas vitórias, 2×1 em Brasília e um novo 4×1 na Ilha do Retiro. Nas oitavas, o Palmeiras (SP). Empate de 0×0 em São Paulo. E na Ilha? Que pergunta… 4×1, claro! Nas quartas-de-final, em Porto Alegre, o Sport perdeu a invencibilidade: 1×0 para o Internacional (RS). Na Ilha, a valentia rubro-negra reapareceu e o Leão sapecou 3×1 no Colorado.

Vieram as semi-finais, e o Vasco (RJ). O sorteio, pela primeira vez, inverteu a ordem dos jogos. A primeira partida foi na Ilha. O Sport “só” conseguiu fazer 2×0. A pergunta agora era: será que eles vão conseguir decidir fora? Será que o Sport aguenta o caldeirão de São Januário? Meu comentário você lê aqui. O resultado foi uma vitória do Vasco por 2×0 e a vitória do Leão nos penaltis, por 5×4.

“Ah, o Edmundo…”

Na final, o Sport enfrentou o Corinthians e toda a pressão da mídia, doida para contar a “história triunfal do gigante alvinegro e seus loucos torcedores”. O Sport estava ali apenas como coadjuvante. A festa tinha que ser do Timão. Afinal, havia uma lenda a caminho: “o Timão renasce das cinzas, e ganha um título nacional no ano em que caiu para a segunda divisão”. A redenção. Ano que vem, o Corinthians seria garantia de audiência televisiva nos jogos da Libertadores. Sport? Ah, sim, o vice tá bom pra você, não tá?

No primeiro jogo, o Corinthians abriu um, dois, três a zero. Parecia liquidar a fatura. No finalzinho, Enílton descontou. 3×1. E Carlinhos Bala profetizou: era o gol do título.

Difícil? Sim. Mas no Recife tem Leão. E se o Corinthians tem uma camisa roxa, o Sport tinha o resto.

“Meu amigo, eu estou acostumado a encarar urso polar… Gambá pra mim é tira-gosto!”

E a Ilha funcionou mais uma vez. Dois gols em três minutos decretaram a vitória e o título do Sport Clube do Recife. O resto é história.

Parabéns ao Sport, o único rubro-negro do mundo que merece a minha torcida. Sport e Vasco são clubes irmãos, e mesmo com algumas pilhas exageradas nessa semi-final, esse fato não mudou. Vocês só precisam aprender a cantar direito a música que copiaram da gente! É “casaca”, e não “cazá”! :-)

E parabéns também ao Corinthians. Afinal, apesar da choradeira do Mano e dus mano, não ouvi ninguém sugerindo tentar roubar o título do Leão no grito ou no tapetão. Já é mais do que o que aquele outro clube vem tentando fazer há 21 anos…

“Chora, Rede Globo, o sonho acabou. Libertadores, sou eu que vou!”


Ah, esse Edmundo…

3 Junho 2008

De todos os amores que eu tive és o mais antigo…
Vasco minha vida, minha história, meu primeiro amigo…
Quem não te conhece me pergunta porque te segui…
Eu levo a cruz de malta no meu peito desde que nasci…
E eu não páro, não páro não…
A cruz de malta… Meu coração…
Vasco da Gama, minha paixão…
Vasco da Gama, religião…

Foi bonita a festa, pá. Cinco minutos de fogos, lindos e ensurdecedores, como há anos não se via em São Januário. Uma cena que arrepiou qualquer vascaíno – e provavelmente também muitos que não o são. Minutos que pareceram horas, e mostraram ao Sport que eles tinham pela frente mais do que um time mais ou menos. Iam enfrentar um caldeirão, uma família, que tinha muita fé na vitória.

Vitória que começou a vir no gol de Edmundo, mal anulado pelo fraco Alício Pena Júnior. Não tem problema. A gente continua tentando. O sentimento não pode parar.

A entrada de Madson no lugar de Morais incendiou o time. Durante dez minutos, o baixinho fez o jogo da sua vida. O Vasco começou a sufocar o Sport, os pernambucanos se acovardaram, várias chances se sucederam, e o gol era questão de tempo. E não muito tempo. Leandro Bomfim cruzou, Leandro Amaral cumprimentou. 1×0. E vinte minutos pela frente.

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Passageiro para Frankfurt

19 Abril 2008

Atendendo a pedidos, repost de um texto escrito há alguns anos atrás.

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PASSAGEIRO PARA FRANKFURT
(Passenger to Frankfurt)
Autora: Agatha Christie
Ano: 1970
Classificação: * * * *

“A liderança, além de uma grande força criativa, pode ser diabólica.”
(Jan Smuts, primeiro-ministro da África do Sul no início do séxulo XX)

“Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda
somos os mesmos e vivemos como nossos pais.”

(Belchior)

“Será que ninguém vê o caos em que vivemos? Os jovens são tão jovens e fica tudo por isso mesmo… A juventude está sozinha, não há ninguém para ajudar a explicar por que é que o mundo é este desastre que aí está. Eu não sei… Eu não sei… E meus amigos parecem ter medo de quem fala o quem sentiu, de quem pensa diferente. Nos querem todos iguais: assim fica mais fácil nos controlar.”
(Renato Russo)

O diplomata inglês Sir Stafford Nye está voltando a Londres, depois de uma série de tediosas reuniões na Malaia. É um homem considerado por todos como alguém muito inteligente, mas que não é uma pessoa “séria”, preferindo o prazer de uma brincadeira a cumprir o seu dever. Essa fama o impede de atingir postos mais altos na diplomacia, embora isso não o incomode: ele está muito satisfeito com o que tem, e concorda com a avaliação que fazem dele.

Por causa do mau tempo, o avião onde ele viaja é obrigado a fazer um pouso de emergência em Frankfurt, onde fica algumas horas. No aeroporto de Frankfurt, uma moça se aproxima de Sir Stafford. Ela não é especialmente bela ou atraente, mas traz a Sir Stafford algo que ele não pode resistir: uma história misteriosa e com gosto de aventura.

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Os amigos do Sig

12 Abril 2008

O cartunista Ziraldo, criador do “Menino Maluquinho”, é o mais novo investidor de sucesso no mercado brasileiro. Algumas de suas “ações” renderam dividendos recentemente. E quem paga a conta, pra variar, somos nós, os otários que respeitam as leis.

Ziraldo e seu “sócio”, o também humorista Jaguar, vão arrecadar, cada um, a bagatela de 1 milhão de reais, por terem sido “perseguidos” durante o governo militar. Não, eles não foram mortos, torturados, mutilados, ou algo assim. Eles apenas eram “contra o regime”, e por isso alegam ter sofrido “prejuízos pessoais e profissionais”.

Estou me lixando [para quem critica a concessão da bolsa-ditadura]. O Brasil me deve isso.“, diz Ziraldo em entrevista.

E como estamos no Brasil-Pasárgada, e eles são amigos do Rei-Nu, também ganharam o direito à boquinha da Bolsa-Ditadura. Assim, se juntam a ilustres companheiros como Carlos Heitor Cony e o próprio Lula, que também tiveram esse “lucro” às custas do povo.

Um milhão de reais de “indenização”. E mais uma bolsa de 4500 reais mensais, até morrerem.

Quando você vir crianças morrendo por falta de hospitais, lembre que Ziraldo recebeu 1 milhão de reais por ser “de esquerda”. Quando alguém reclamar que um filho está sem escola, lembre de Jaguar e seu milhão. Quando um professor ou um médico falar dos problemas que enfrenta, ganhando um salário de 600, 700 reais, lembre que TODO MÊS Jaguar, Cony, Ziraldo e Lula, entre dezenas de outros “companheiros”, recebem cheques de 4500 reais para afogar as mágoas de não terem conseguido levar o Brasil a uma ditadura.

E quando, não importa o tema, o governo reclamar que “falta verba”, nunca esqueça que o Brasil gasta, por mês, 28 milhões de reais (!!!) pagando essa bolsa-ditadura aos companheiros. E que, em indenizações como as que Ziraldo e Jaguar receberam agora, já foram gastos TRÊS BILHÕES DE REAIS.

Pelo menos agora nós podemos desconfiar que o Sig não era o único rato a frequentar a redação do Pasquim.

Bem, ao menos uma parte do milhão de reais embolsado pelo Ziraldo já tem destino certo. A Folha de São Paulo noticiou que o cartunista foi condenado a pagar 40 mil reais de indenização à produtora cultural Lulu Librandi, por danos morais.

O caso é o seguinte: Ziraldo e Lulu se conheceram no governo José Sarney, quando Ziraldo foi dirigente da Funarte. (É, isso mesmo, Ziraldo foi dirigente de um órgão público, no governo Sarney. Ele deve contar isso na lista de “prejuízos pessoais e profissionais” que teve por ser contra o regime.) Ziraldo e Lulu brigaram, e o cartunista chamou a produtora de “filha da p***”, numa entrevista, e disse que ela “matou o seu papagaio”, uma vez que a ave “morre quando alguém lhe deseja mal”.

Em sua defesa, Ziraldo argumentou que “filha da p***” não é xingamento, mas o juiz não levou isso em conta.

De qualquer jeito, uma coisa boa fica desse caso: agora que sabemos que Ziraldo acha que “filha da p***” não é xingamento, podemos nos sentir livres pra lhe dizer exatamente o que pensamos sobre ele, não é verdade?


As touradas da Banânia

27 Março 2008

Era uma vez, em algum canto de um continente distante, um país excêntrico chamado Banânia.

Um belo dia, alguns homens da corte deste país tiveram uma idéia: reunir as duas maiores empresas de um determinado ramo em uma só. Era um cartel, era um monopólio (juntas, elas possuiriam 65% do mercado), com sérios prejuízos à população desse país. Mas… e daí?

Interesses mais altos falaram, e a negociação começou a andar. Só que havia um probleminha: o negócio era contra a lei. Num país sério, isso bastaria. Mas não “neste país”. Se não gostamos da lei, se ela nos atrapalha, vamos muda-la. Afinal, é um negócio que envolve muita gente grande: políticos, banqueiros, donos de empreiteiras, financiadores de campanha, filhos do babalorixá da Banânia…

A lei que rege essa atividade diz que em caso de compra de uma empresa por outra, a compradora é obrigada a abrir mão dos setores ocupados pela comprada no mercado. Pois bem: o Babalorixá já deu a entender que vai mudar a lei, de forma casuística, para beneficiar a empresa interessada.

Ou, como bem resumiu um cronista do reino, em uma nota lapidar:

Qual a diferença entre um país decente e um indecente? No primeiro, os negócios são feitos de acordo com as leis; no segundo, as leis são feitas de acordo com os negócios.

Porém, a história “vazou” cedo demais, e a reação contrária impediu que a lei fosse mudada naquela hora. A compra da empresa B pela empresa A foi para a gaveta, até que a poeira baixasse, e o clima popular mudasse.

Dois meses se passaram. Alguns “jornalistas a serviço” venderam a idéia de que o monopólio era “bom para a Banânia”, pois ia criar uma “gigante mundial do setor, capaz de elevar o nome da Banânia lá fora”. As conversas entre as empresas A e B continuaram. E parece que elas estão prestes a chegar a um acordo.

Há uma outra empresa forte nesse mercado, a empresa C. A empresa C não é da Banânia, é de um outro país chamado Castela. Obviamente, a fusão das empresas A e B não interessa à empresa C. Esperava-se que a empresa C tentasse ir à justiça bananosa, para lutar contra a mudança da lei.

Por coincidência, na hora em que A e B chegavam a ponto de fechar o negócio, o governo da Banânia criou um incidente diplomático contra Castela, usando como pretexto uma questão ligada a imigrantes bananosos barrados em Castela. Uma situação que vem se repetindo há anos, sem que a Banânia fizesse nada. Uma situação que se repete em vários outros países, além de Castela, sem que a Banânia faça nada.

Mas, dessa vez, a Banânia agiu. Ajudada por boa parte da imprensa (os tais “jornalistas a serviços”), criou-se um sentimento anti-Castela entre o povo da Banânia. De repente, tudo que vem de Castela não presta. Qualquer bananoso que ouse defender a atitude de Castela é moralmente linchado.

E, finalmente, uma campanha de “boicote à empresa C”, para “defender a honra de Banânia” e “mandar os castelanos de volta pra casa”, foi sutilmente insuflada pela internet.

A situação dos bananosos em Castela continua, e continuará, na mesma. Mas eles já cumpriram sua missão.

Amanhã, quando a fusão entre A e B for anunciada, os bananosos vão comemorar. Afinal, que importa se 65% do mercado vai ficar concentrado na empresa AB? Que importa se os donos da empresa AB são amigos do Babalorixá? Que importa se o Babalorixá mudar as leis para ajudar seus amigos?

Nada disso importa.

O importante é que Banânia terá uma empresa “gigante” no setor, “capaz de ombrear com qualquer uma no mundo”. O importante é que “vamos dar uma lição nesses castelanos”. Olé!

E ai de quem tentar defender a justiça, e apontar as irregularidades dessa negociata. Vai ser logo chamado de “anti-patriota”, de “vendido aos imperialistas castelanos”.

E assim, eles conseguem novamente defender seus interesses, como “nunca antes neste pais”.

Ainda bem que isso é só uma fábula, sobre um país distante chamado Banânia. Essas coisas não acontecem em países reais. Pelo menos não naqueles que pretendem ser sérios.

Olé, olé, olé. E paratibum.

“A história do governo Lula é um mero reflexo da disputa comercial entre as operadoras de telefone.”
(Diogo Mainardi, 14/09/2005)

Apenas mais um João

8 Fevereiro 2008

Sete de fevereiro de 2007. Uma notícia choca todo o país. Um menino de seis anos é morto, arrastado pelas ruas de um subúrbio do Rio de Janeiro, preso a um carro roubado. Testemunhas contam que os bandidos festejavam, enquanto torturavam a criança. Um deles dizia que “esse é o nosso boneco de judas”.

Rios de tinta são publicados. Lágrimas de sangue choradas. Passeatas, protestos, choro e ranger de dentes. Autoridades prometendo veementemente ações mais ou menos drásticas.

Sete de fevereiro de 2008. Um ano depois, alguém lembra? Para quantas pessoas o nome de João Hélio significa mais do que uma vaga recordação?

Uma missa marcou a data. Não houve discursos inflamados. Não houve passeatas de ONGs atrás de exposição gratuita. Não houve, sequer, um minuto de silêncio no jogo do Botafogo, time de coração de João. Não houve nada, além da dor da família. E da revolta daqueles que ainda se lembram.

Há um ano, o povo brasileiro cobrou das autoridades um endurecimento da legislação. Ninguém aguenta mais monstros como os assassinos de João andando soltos por aí. Ninguém aguenta mais bandidos de 16, 17 anos sendo julgados como “pobres crianças inocentes”.

A resposta dos defensores de bandidos era unânime: “não podemos tomar decisões no calor da tragédia”. Quando acontece um caso midiático, nada deve ser feito, pois todos estão com a cabeça quente. Um ano depois, o calor passou, o assunto esfriou. E tudo continua na mesma. A lei não mudou. E, principalmente, a mentalidade não mudou. Aqueles que decidem continuam arranjando pretextos para deixar tudo como está. E o povo dá razão a eles: deixou o assunto esfriar.

Tempos depois, um policial foi morto na mesma rua onde João Hélio foi levado pelos seus assassinos. Os assaltos naquela região continuam frequentes. Naquela e em outras. Por toda a cidade, o crime impera. Bandidos “dimenor” continuam matando, roubando, traficando, impunemente. Bandidos “dimaior” continuam sendo soltos depois de meia dúzia de dias, debochando das leis e voltando a praticar crimes logo a seguir.

Os assassinos estão livres, nós não estamos.

No ano passado, dias depois da morte de João Hélio, Botafogo e Flamengo jogaram no Maracanã. Houve um minuto de silêncio, as torcidas levaram faixas alusivas ao caso. Todos se emocionaram ao ver duas torcidas rivais unidas por uma mesma revolta.

Neste ano, nada. O silêncio não esteve no minuto. O silêncio esteve nas almas daqueles que, hoje, têm outras coisas mais importantes para lembrar. Afinal, estamos no meio do carnaval. Skindô, skindô.

No ano passado, o carnaval aconteceu mais ou menos duas semanas depois de matarem o João. Muita gente, acreditem, sugeriu que a festa devia ser cancelada, devido à comoção popular. A Sapucaí teve um minuto de silêncio. Por toda a cidade, surdos se calaram, repiques não ecoaram, cuícas silenciaram, pois todos os blocos queriam mostrar sua revolta.

Neste ano, sobraram apenas os surdos. Surdos ao eco dos gritos de uma criança que já virou estatística.

Há um ano, muita gente disse “agora chega”. Muita gente disse “basta”. Ouvi de muitos otimistas a tese de que o caso do menino João Hélio era “o fundo do poço”. Era um caso tão sério, mas tão sério, que faria algo acontecer. A partir dele, sonhavam, o povo iniciaria uma reação que ia trazer o resgate do Rio de Janeiro.

Infelizmente, nunca consegui ter essa ilusão. A dor do povo dura uma semana. A revolta, duas. Depois, vem um novo caso, um novo escândalo, ou um novo Big Brother, e tudo passa. A vida continua.

A gente não chegou no fundo do poço quando um repórter foi torturado e queimado vivo no alto de um morro. A gente não chegou no fundo do poço quando um ônibus foi incendiado por traficantes, com os passageiros dentro. A gente não chegaria no fundo do poço só porque um menino de seis anos foi destroçado, arrastado pelas ruas de Cascadura, preso a um carro em alta velocidade.

A gente não chegou no fundo do poço, porque esse poço não tem fundo.


Aquae Unger

18 Janeiro 2008

Roberto Mangabeira Unger, o filósofo titular da SEALOPRA (Secretaria de Ações de Longo Prazo), é o responsável, no governo Lula, por “planejar o futuro estratégico do país”. Quando vemos as idéias geniais de Mangabeira, podemos ficar tranquilos e esperançosos como o nosso futuro. Não, não estou sendo irônico – tranquilos e esperançosos por sabermos que nenhum desses planos têm a menor chance de acontecer…

Por esses dias, o Mangabeira juntou uma comitiva de 38 pessoas e viajou até ao Pará, onde se saiu com o seu plano revolucionário para acabar com a seca no Brasil: construir um aqueduto ligando a Amazônia ao Nordeste.

(pausa para risos)

Segundo o filósofo da SEALOPRA,

“Numa região, sobra água, inutilmente. Na outra região, falta água, calamitosamente”.

Por isso, a solução é simples: criar um aqueduto que leve as águas abundantes dos rios da Amazônia até às populações sertanejas do Nordeste.

Qual o tamanho desse aqueduto? Ele não sabe. Como ele seria construído? Ele não sabe. Quanto tempo levaria a construção? Ele não sabe. Quanto isso custaria? Ele não sabe.

Que gente chata, querendo que o homem saiba de tudo! Ele é um gênio. Gênios têm idéias. De longo prazo. E, convenhamos, uma idéia dessas está plenamente no espírito da SEALOPRA. Agora, pensar nesses detalhes concretos, bem, isso ele deixa para as mentes inferiores.

Sabendo que os filisteus vão se opor a projeto tão revolucionário, Mangabeira foi compreensivo:

“Para o ministro, a juventude do Sudeste, “a classe média ilustrada” e a “grande mídia” querem uma versão mais light de projeto para a Amazônia. E certamente vai considerar sua proposta para a floresta “heavy” (pesada).”

E completou, com o desprezo por aqueles que não entendem algo tão genial, vindo de um incompreendido chefe da SEALOPRA:

- O Brasil precisa deixar de ter medo de idéias.

Exatamente, Dr. Mangabeira Unger! A inguinoranssa é que astravanca os pogresso, como já dizia o outro.

Eu fico emocionado com essa proposta do visionário Professor Mangabeira. E sabem por que? Porque, meus caros leitores, eu compartilho esse sonho! Ainda me lembro, como se fosse hoje, de uma redação que escrevi na primeira série primária. A professora pediu uma idéia que pudesse melhorar a vida do povo brasileiro, e eu sugeri algo bem parecido com isso!

Ah, a reação dela, elogiando o texto, elogiando a boa intenção, e comentando como eu era fantasioso, e como essa idéia seria boa, se não fosse totalmente doida…

Dr. Mangabeira, eu estou muito feliz com o senhor. O senhor está provando que, quando um homem tem a mente aberta, sempre pode evoluir. O senhor é um exemplo.

Afinal, com essa idéia, o senhor conseguiu igualar uma idéia de um garoto de sete anos. Se continuar evoluindo nesse ritmo, em breve vai estar andando de bicicleta sem rodinhas. Continue assim – ou, como o senhor prefere, keep up the good work!

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Em tempo 1: Quando o caro leitor ouvir alguém reclamando da queda de arrecadação com o fim da CPMF, lembre que o governo ainda tem dinheiro sobrando para mandar uma comitiva de 40 pessoas para a Amazônia, para fazer esse tipo de papel. E para manter a SEALOPRA a pleno vapor, com toda a estrutura, DAS, ajudas de custo, e muitos etc a que ela tem direito.

Em tempo 2: Se, por acaso, o caro leitor faz parte do grupo que acha a idéia “genial”, e o autor destas linhas uma pessoa incapaz de aceitar algo novo, etc, etc, etc, uma informação a mais. Apesar de toda a “abundância aqüifera” da região Norte, metade dos habitantes de Manaus não tem água encanada em casa. De Manaus. Imagine das outras cidades. Ou seja, ainda que a idéia fosse minimamente factível, continuaria sendo infeliz. Se não temos um aqueduto de alguns quilômetros ligando o Rio Amazonas às casas de Manaus, como pensar em um aqueduto do tamanho da muralha da China pra levar água até o nordeste?


Mais enrolados que fio de telefone (1)

15 Janeiro 2008
“Quando se discutiu a possibilidade de impeachment do Lula, não entrei na conversa. Politicamente havia uma situação inequívoca, pois ficou demonstrado que o publicitário dele (Duda Mendonça) recebeu dinheiro no exterior para fazer a campanha a presidente. Qualquer prefeito do interior que tivesse uma acusação dessas nas costas seria cassado! Mas preferi pensar no País. Como enfrentar o impeachment de um presidente operário, um migrante do Nordeste que pela primeira vez chega à Presidência? Que marcas isso iria deixar no Brasil?”

(Fernando Henrique Cardoso, O Estado de São Paulo)

“A abertura de um processo de impeachment traria um desgaste enorme ao país. Um processo de impeachment tem vários pés, é quase uma centopéia. É preciso motivo jurídico, que havia de sobra. Tem de ter crise de governabilidade, que não havia. Tem de ter desorganização de base parlamentar, que não havia. Precisa de clamor das ruas, que não havia. (…) Não faria bem para a economia brasileira, passaríamos ao mundo a imagem de um país instável, que derruba um presidente a cada treze anos.”

(Senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), Veja)

Os trechos acima são de duas entrevistas publicadas nesta última semana. E são um belo retrato do desserviço que a dita “oposição” causou ao Brasil. Por uma avaliação errada da situação, deixou à frente do Brasil um governante que não tem a menor condição de governar. E ainda dizem que “pensaram no país”, pois isso seria “ruim para a economia”.

Quando FHC diz que “havia uma situação política inequívoca” para um pedido de impeachment, e que “qualquer prefeito de interior seria cassado” com aquelas acusações, ele admite a gravidade da situação. E deixa claro que a lei não é igual para todos: um presidente, ainda mais se for “operário e migrante nordestino” pode cometer desvios de conduta “inequívocos”, e ainda assim escapar da justiça.

Ao dizer isso, FHC reforça o mito que Lula adora cultivar, ou seja, de que ele é “do povo”, e por isso tem uma imunidade ampla e irrestrita. Pode fazer qualquer coisa e ficar impune, e ainda acusar os adversários que apontem os seus erros de preconceituosos, por estarem atacando um “operário e migrante”, que eles não aceitam que tenha chegado ao “pudê”.

Que Lula tente se colar a essa imagem, faz parte do jogo. Ele está vendendo o peixe dele. Que FHC ajude a reforça-la é, no mínimo, uma bobagem. O que uma oposição séria deveria fazer seria destruir essa armadura, mostrar a nudez do rei. E, se achava que o fato político era “inequívoco”, pedir o impeachment do presidente. Afinal, se os fatos eram graves o suficiente para condenar um prefeitinho qualquer, o que dirá do chefe maior do país, aquele que mais deve ser controlado, por ter muito mais poder nas mãos?

Três dias depois, na Veja, o senador Arthur Virgílio seguiu pelo mesmo caminho, sendo ainda mais esclarecedor. Segundo ele, havia “motivo jurídico de sobra” para o impeachment, mas não havia “clamor popular”. Ou seja, está tudo bem se temos no governo alguém contra quem pesam “motivos jurídicos de sobra”, desde que ele não perca a popularidade? E que, enquanto “a economia for bem”, vale tudo, ainda que haja “motivos jurídicos de sobra” para se condenar o governante?

Ora, mais uma vez, a “oposição” faz o jogo de Lula. Isso é tudo que ele repete: o efeito teflon (nada pega nele, nada cria o “clamor popular”), o fato de que ele e os quadrilheiros do mensalão foram “absolvidos pelas urnas”, como se voto lavasse crime, e os números da economia como ponto a seu favor.

Eu gostaria de saber por onde andavam, em 1992, os senhores Fernando Henrique e Arthur Virgílio. Por onde eles andavam quando um presidente foi cassado, sem que houvesse “motivos jurídicos de sobra” ou “fatos políticos inequívocos”, apenas por contrariar interesses de muitos.

“Como enfrentar o impeachment de um presidente operário, um migrante do Nordeste que pela primeira vez chega à Presidência?”, pergunta FHC. Mas ele se perguntou como enfrentar o impeachment de um presidente eleito pelo voto popular, depois de 25 anos sem democracia? Ele se preocupou com o trauma causado ao país com a cassação do primeiro presidente civil, eleito pelo povo, depois de 25 anos com cinco generais e um coronel?

“Não faria bem para a economia brasileira, passaríamos ao mundo a imagem de um país instável, que derruba um presidente a cada treze anos”, completa Arthur Virgílio. E o que aconteceu em 92, fez bem à nossa economia? Passou uma bela imagem para o mundo? Um país que derruba um presidente a cada treze anos é “instável”. E um país que derruba o primeiro presidente que elege depois de 25 anos de “ditadura” é o que? Uma república de bananas? Golpe em 64, cinco generais se sucedem, um vice sem votos toma o lugar deles, até que, oba! democracia!, um presidente é eleito, e… golpe de novo. Muito estável, com certeza.

Ou seja, em 92, cassar um presidente era uma prova de “maturidade democrática”. Em 2005, já se tornava “um desgaste”, “um trauma”, que iria causar “instabilidade” e “comoção”. OK.

Os argumentos de FHC e Arthur Virgílio não se sustentam de pé. Em nome de “não mexer com o operário” ou de “não passar uma imagem instável do país”, eles preferem deixar no poder alguém contra quem pesam “fatos políticos inquestionáveis” e “motivos jurídicos de sobra”. Em nome disso, deixam clara a mensagem de que a lei não é para todos, só vale para alguns.

Não seria a minha escolha. Foi a deles. Então, que assumam as consequencias delas. E que não reclamem quando alguém diz que não considera o PSDB oposição.

Em 2002, falando do apagão, Lula disse que FHC era “o chefe de um governo que conduziu o país a uma fase de trevas”. Nunca estive tão de acordo com o nosso Rei-Nu. Afinal, foi Fernando Henrique Cardoso o maior responsável pela eleição de Lula. Então, a verdade é essa: mesmo FHC conduziu o país ao governo Lula, logo, às trevas em que vivemos. Cada vez mais sombrias.


A Batalha dos Aflitos

26 Novembro 2007

(Texto escrito em 26/11/2005.)

O Gerador de Improbabilidade Infinita
ou
Eu Nunca Deixei de Acreditar

“- Mas… mas… Isso é impossível! – gritou ele, atônito.
- Não. É apenas muito, muitíssimo improvável.”

 

 

 

Existem momentos que não se podem viver sem que eles nos fiquem pra sempre na memória. (E derrubar um trasgo montanhês de quatro metros de altura não é o único deles.) E há coisas nessa vida que são ainda mais improváveis do que
um cachalote despencando no vácuo, sobre um planeta adormecido, junto com um vaso de flores que contém o segredo da vida, do universo e de tudo o mais.

Existem momentos que geram uma quantidade inesgotável de combustível para um “Coração de Ouro” voar pelas galáxias.

Existem momentos. Existem mistérios. E existem os deuses. Sim, os deuses. Aqueles mesmos que eu canto, vez por outra, e em quem alguns de vocês se recusam a acreditar. Os deuses da bola, que sabem quando devem agir, e quando devem esperar.

Os mesmos deuses que têm sido tão atacados esse ano por aqui. O Brasil demorou mais de 100 anos pra ter um campeonato de verdade. Era a vergonha maior: o país do futebol passou um século vivendo apenas com “torneios” ou
“taças”, e só em 2003 ganhou o direito de ter um campeonato. O sonho durou dois anos. No terceiro, resolveram dar um jeito de voltar à bagunça cotidiana. Jogos anulados, resultados manipulados, equipes com jogos a mais
ou a menos, times jogando cinco vezes em oito dias. O feijão com arroz que nos acostumamos a achar “normal”.

Os deuses a tudo assistiram, impávidos. Esperavam o seu momento para agir, castigar os responsáveis pelos sacrilégios cometidos. Para grandes males, grandes remédios. Eles foram dando sinais de que algo especial estava para acontecer. Os ateus se recusavam a percebe-los, mas eles eram visíveis, como nuvens escuras prenunciando a tempestade redentora.

E ela veio, como não poderia deixar de vir.

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Por que não se calam

20 Novembro 2007

A essa altura, creio que todos já conhecem o caso. O “por que no te callas?” do rei Juan Carlos de Espanha, dirigido ao ditador venezuelano Hugo Chávez, caiu na boca de todos e rodou o mundo. Já ganhou versões rock, funk, ringtone de celular, etc, etc.

Há duas maneiras de se ver esse fato. A primeira é o efeito “lavou a alma”. Juan Carlos fez aquilo que todos os democratas anseiam por fazer. Alguns não fazem por medo, outros por amarras diplomáticas, mas a verdade é que o Rei deu voz a todos aqueles que são obrigados a aguentar as fanfarronadas do coronel. Por um momento, todos fomos espanhóis. Por um momento, todos tivemos vontade de que o Brasil tivesse um governante capaz de, com uma resposta dessas, colocar o ditador no seu lugar.

Mas o episódio traz também um contexto mais profundo. Na verdade, o que aconteceu ali foi um choque entre duas visões de mundo. Um choque muito representativo da guerra que travamos hoje em dia. Em raras vezes isso ficou tão claro. No encontro de Juan Carlos de Bourbon e Hugo Chávez, vimos os dois lados do confronto. E já passou da hora de cada um de nós começar a escolher de que lado está.

Se alguém ainda não viu a cena, o vídeo está aqui:

Para quem não acompanhou desde o início, vamos fazer uma recapitulação do que aconteceu naquela hora, o que levou o Rei a ter aquela reação. Durante a reunião da Cúpula Ibero-Americana, no Chile, o caudilho venezuelano resolveu aprontar mais uma das suas bravatas. Aproveitando a presença da delegação espanhola, Chavez fez um duro discurso contra a Espanha e principalmente contra o ex-primeiro-ministro espanhol, José Maria Aznar. Entre outras coisas, chamou Aznar de “fascista”, criticou a Espanha por algumas medidas comerciais e acusou o governo espanhol de “apoiar o golpe de 2002 em Caracas”.

O atual primeiro-ministro da Espanha, José Luis Zapatero, respondeu a Chavez. Ou melhor, tentou responder. Chavez não o deixava falar, interrompia a cada segundo. E Juan Carlos fechava cada vez mais a cara. Até a hora em que o Rei não aguentou, virou para o bufão venezuelano, e disparou o agora famoso “por que no te callas?!”.

Porque eu digo que isso é muito representativo de duas visões de mundo diferentes?

1) Hugo Chávez não se incomoda nem um pouco com a “moral burguesa e hipócrita”. Fala o que quer, na hora que quer. Finge não enxergar as diferenças entre o seu castelo e uma cúpula internacional. O que ele pretende é fazer com que o mundo seja uma extensão do seu quintal. Acostumado a ser obedecido, acostumado a que todos escutem calados e concordem com ele, Chavez acha que pode fazer o mesmo em qualquer lugar. E por isso não vê nada demais em chegar a uma reunião diplomática e ofender um ex-governante de outro país.

2) Zapatero, acostumado a jogar de acordo com as regras, pede a palavra e parte para uma resposta diplomática. “Pode-se estar de lados opostos em posições ideológicas, e não serei eu a estar perto das idéias de Aznar, mas eu fui eleito pelos espanhóis e exijo respeito”. Embora, da mesma maneira, não seja eu a estar perto das idéias de Zapatero na maioria das coisas, não me incomodo de dizer que ele deu uma aula ao venezuelano. A vontade dele podia ser responder “ô gorilão, fascista é tu madre!”. Seria uma resposta mais ao nível de Hugo Chávez. Mas não é a resposta adequada para uma cúpula diplomática. E Zapatero fez o que devia ter feito. Em democracia, há alternância. E uma ofensa a Aznar, por mais que ele seja seu rival, é uma ofensa à Espanha. Ontem, Aznar era a Espanha. Amanhã, outro será. Mas hoje, Zapatero é a Espanha. E é seu dever defender o país de um ataque gratuito como esse.

3) Melhor seria dizer que Zapatero tentou fazer o certo. Apenas tentou, porque Chavez não deixa. A cada vez que Zapatero abre a boca, ele interrompe. Zapatero pediu a palavra para falar. Chavez corta, sem pedir autorização a ninguém. Repito, não é apenas falta de educação. É uma questão de caráter, de ideologia. Seguir as regras? Mas as regras são feitas por burgueses, para burgueses. O povo não deve se sujeitar a elas. Zapatero, democraticamente, suspende a fala a cada aparte de Chavez, e depois retoma do mesmo ponto. E Chavez insiste. Ele não ouve. Ele não sabe o que é oposição. Ele não entende o conceito de “alternância”. A idéia dele sair de cena enquanto alguém fala, alguém que diz que ele está errado, é algo absurdo na sua visão de mundo.

4) E é quando o Rei Juan Carlos, poder moderador, se manifesta. “Por que no te callas?” É uma declaração de limites. Um “basta”. Um copo cheio d’água, que se revolta com o que está vendo. E é uma linguagem que Chavez entende. Ele fica visivelmente constrangido por alguns segundos. Depois, claro, parte para o contra-ataque. Mas, por um momento, ele sentiu o golpe. A dignidade de Juan Carlos atingiu o homem que está acostumado a enfrentar a força bruta dos seus iguais ou a tolerância democrática e cordial dos seus opostos. Ele não conhece essa dignidade ultrajada e franca.

Chavez representa a maior ameaça ao mundo em que vivemos. Não Chavez, pessoa física, claro. Mas aquilo que ele personifica. É o neo-totalitarismo que se alastra pela América Latina, é o terrorismo que ataca ao redor do mundo, é aquele outro tipo de terrorismo que corrói a Europa por dentro. São as pessoas que gritam, que querem que ouçam a sua voz, que se escoram nos seus ”direitos” e no discurso pobrista. Fomos humilhados durante anos, agora queremos o que temos direito, e ninguém pode ser contra. Não respeitam a alternância, não respeitam a divergência. Acham que estão cumprindo um “destino divino” e não toleram qualquer oposição, qualquer idéia de limite.

Por outro lado, Zapatero é a reação ocidental-democrática a tudo isso. Jogar de acordo com as regras. Fazer o que é certo. Democracia, tolerância, respeito. O senhor diz que Aznar é fascista? Eu vou responder, claro, mas aceita um chazinho enquanto isso? Ah, o senhor quer me interromper e gritar mais alto? Eu sou muito nobre para essas coisas, quando o senhor parar de falar eu prossigo.

(Claro que eu acho que, num mundo ideal, Zapatero está mais que certo. E por isso o aplaudo, acho que ele deu uma aula a Chavez. Mas isso serve para quem percebe isso tudo. Para o público-alvo de Chávez, acreditem, a idéia que passa é a de que o venezuelano “tem peito”, “encarou os ricos” e “defende o seu povo”.)

E Juan Carlos? O seu “por que no te callas” significa o soco na mesa. Aquela hora em que, para defender a liberdade, é preciso abdicar dos punhos de renda e das fórmulas educadas, e falar a verdade, nua e crua. A coragem de fazer o necessário, mesmo que não seja o mais “bonitinho”. Não é “gritar mais alto”, porque se for por esse caminho, Chavez sabe jogar melhor. Mas também não é ser menino de coro, usando palavras bonitas para se falar com bandidos, e dando a impressão de que somos todos iguais, é apenas uma divergência ideológica que nos separa. O que Juan Carlos mostrou é essa mistura de autoridade, firmeza e dignidade que se exije em certos momentos críticos. “Por que no te callas?”

Claro que Chavez não se calou. Pelo contrário, no dia seguinte, respondeu com um novo discurso anti-espanhol, tentando capitalizar a história a seu favor, dizendo que é típico dos países imperialistas quererem que o povo se cale, etc, etc, etc. jogou pra sua galera. Mas, por um momento, a fábula se inverteu. Foi o Rei a mostrar ao povo que o bobo estava nu.

E com isso, Juan Carlos animou todos aqueles que, ao redor do mundo, resistem contra ditadores ou candidatos a.

Por que no te callas, Chavez? Por que no te callas, Evo? Por que no te callas, Lula? Eles não se calam porque são iguais. Eles não se calam porque não concebem a idéia de que outras vozes possam se fazer ouvir. Eles não podem se calar, porque têm certeza de que “nunca antes nestes países” houve alguém como eles, e nunca mais haverá. Eles não se calam porque têm medo de que outros falem e façam o povo perceber a sua nudez.


A negra noite da consciência

20 Novembro 2007

Hoje, dia 20 de novembro, o Rio de Janeiro e mais algumas cidades do Brasil comemoram o “Dia da Consciência Negra”. Quem me conhece há pelo menos um ano sabe a opinião que eu tenho sobre essa data. Costumo chama-la de “Dia de Glorificação do Racismo”, uma vez que me causa espécie saber que estou em um país que dedica um dia à comemoração de uma determinada “raça”. Já escrevi longamente sobre esse assunto em outros anos, e hoje não gostaria de voltar ao tema.

Hoje, prefiro falar dos 10 anos do texto de onde “roubei” o título desse post. Publicado em um jornal distribuído na PUC-RJ, em 19 de novembro de 1997, naquela que (salvo erro) foi a primeira vez em que se “comemorou” (sic) essa data, “A Negra Noite da Consciência” foi um texto marcante. Leia o resto deste post »