A indefensável das gentes

27 Julho 2009

Quem tem mais de 20 anos, cresceu com os gritos de Galvão Bueno, “sai que é suuuuuua, Taffarel”.

Quem tem um pouco mais que isso, e é do Rio, sabe que a sina de gritos longos chamando goleiros vem de um pouco mais longe que isso. Uma das lembranças mais antigas que tenho é de meados dos anos 80, ouvindo futebol na Rádio Globo, com a narração de José Carlos Araújo, o “Garotinho”, e ele cantando o nome de dois grandes goleiros.

De um lado, o meu favorito, por muitos anos o melhor goleiro que conheci. “Acáááááááácio!!!!”, gritava o Garotinho, a cada defesa difícil. Principalmente penaltis, especialidade da casa. Penalti contra o Vasco, eu não temia o gol. Me preparava para ouvir o nome do meu goleiro, e vibrar junto com ele.

Mas, do lado de lá, tinha outro grande nome. Grande no tamanho, grande no talento, grande no número de vogais boas pra esticar. “Zééééééé Caaaaaaaaarlos!”

E como eu detestava o Zé! Em dias de Vasco x Flamengo, então, aquele maldito agarrava tudo!

E que jogos eram aqueles, meus amigos! De um lado, Donato, Mazinho, Dunga, Bismarck, William, Geovani, Mauricinho, Roberto Dinamite. Do outro, Aldair, Mozer, Jorginho, Leonardo, Andrade, Adílio, Zico, Zinho, Renato Gaúcho, Bebeto. E muitas vezes, acreditem, com esses craques todos, o jogo acabava com pelo menos um zero no placar. Por culpa dos dois monstros que vestiam as camisas 1.

No clássicos jogados na minha mesa de botão, o duelo continuava. “Acááááááácio”, gritava eu. “Zéééééé Caaaaaarlos”, respondia meu adversário.

Por ironia da vida, a minha grande lembrança do Zé dentro de campo não vem de uma grande defesa, de um jogo em que ele fechou o gol. Vem de uma final de carioca, onde ele levou um gol lindo de um moleque baixinho e atrevido que estreava pelo Vasco naquele ano, um tal de Romário.

Zé Carlos e Acácio estavam na Copa de 90, no auge das suas carreiras. Em 89, o Acácio era titular, o Zé reserva. E tinha um garoto, lá de Santa Rosa, chamado Claudio André Taffarel, que completava o grupo. Às vésperas da Copa, o Zé se machucou, o Acácio caiu em desgraça com o Lazaroni por um jogo ruim contra a Dinamarca, e o garoto foi para o gol da seleção, de onde não mais sairia, pela década seguinte. E nem Acácio nem Zé Carlos voltaram a ter chances reais depois disso.

O tempo passou, os dois se aposentaram, foram viver suas vidas. O Acácio jogou em Portugal, depois voltou para o Rio, foi ser treinador de goleiros. O Zé passou pelo América, quando seu amigo Jorginho foi treinador. E depois não ouvi mais falar de nenhum dos dois.

Tive notícias do Zé há umas três semanas atrás, por uma conhecida em comum, que me contou que ele estava mal, lutando contra um câncer agressivo. E foi então que soube algo que apenas suspeitava: que o Zé também era grande no caráter, no coração, no carinho que despertava naqueles que conviviam com ele. A torcida foi forte, eram vários Maracanãs torcendo para ele vencer mais esse adversário. Mas o outro lado era forte demais. Na última sexta feira, o Zé se foi. Tinha apenas 47 anos.

(E impossível nessas horas não pensar como a vida é breve, e como às vezes a gente perde tanto tempo com coisas pequenas, deixando de viver tudo que pode ser vivido.)

No domingo, ao final do jogo do Flamengo, o técnico interino Andrade, em lágrimas, dedicou a vitória rubro-negra ao Zé. Não vou mentir, e dizer que torci pelo Flamengo. Mas, ao menos por essa vez, eu não senti, numa vitória deles, uma derrota minha. Um lado meu ficou até feliz com o resultado. Eles ainda têm muitos jogos pra perder daqui pra frente – e lá estarei para torcer contra. Mas não lamento que tenham vencido esse. O Zé merecia isso. E o Andrade, outro sujeito do bem, merecia igualmente.

Vai com Deus, Zé Grandão.


Letra e Música – Como uma onda no mar

11 Julho 2009

As ondas são anjos que dormem no mar, que tremem, palpitam, banhados de luz… São anjos que dormem, a rir e sonhar e em leito d’escuma revolvem-se nus!

E quando, de noite, vem pálida a lua seus raios incertos tremer, pratear… E a trança luzente da nuvem flutua… As ondas são anjos que dormem no mar!

Ai! quando tu sentes dos mares na flor os ventos e vagas gemer, palpitar… Por que não consentes, num beijo de amor, que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?



Uma semana Fenomenal

10 Julho 2009

Na segunda feira, em entrevista a Galvão Bueno, no programa “Bem Amigos”, do SportTV, Ronaldo deu uma declaração que causou alguma polêmica aqui no Rio. Disse o atacante:

“Eu sou flamenguista desde pequeno, sempre fui ao Maracanã. Só que agora estou no Corinthians, e o que eu aprendi no Corinthians é que essa pesquisa do Flamengo ter a maior torcida do Brasil não é certa. Eles pegam os torcedores dos outros Estados, que sempre falam que o Flamengo é o seu segundo time.”

Claro que isso repercutiu mal entre torcedores e dirigentes do Flamengo. Mas também é óbvio, para quem acompanha futebol, que é algo que não deixa de ser verdade. Ou pelo menos parte dela.

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Amor e medo

6 Julho 2009

Há uns tempos atrás, na outra encarnação deste blog, havia uma seção fixa chamada “versos de segunda”. Ah, os trocadilhos infelizes da mocidade. Na época, parecia um nome ideal para a poesia que era publicada todas as segundas-feiras. Enfim.

Não vou retomar a tradição. Mas, por coincidência, hoje é segunda feira. E, por coincidência, hoje me passou nos olhos um poema que não lia há tempos, do qual gosto muito, e que foi um dos publicados naquela época.

Nunca entendi porque Casimiro de Abreu não tem o mesmo status que Castro Alves, Álvares de Azevedo, só para ficar nos seus contemporâneos de romantismo. Talvez aos olhos de hoje ele pareça meio bobo, sem o lado dark de Azevedo ou o épico de Castro Alves e seu céu do condor. Ou a modinha do momento, Augusto dos Anjos, escarra na boca que te beija, etc, etc. Tudo isso está bem mais de acordo com a modernidade do que o eu-lírico de Casimiro, sempre (aparentemente) tímido, respeitador da coisa amada.

Casimiro faz “poesia”, no sentido pejorativo moderno. Ele é lírico, ele é doce (agridoce, por vezes, mas…), ele, pecado dos pecados, faz até algumas rimas. Escolhe as palavras. Burila o verso. Sonoriza o poema. Tudo isso é tão demodé

Casimiro de Abreu tem um poema clássico, daqueles que todos conhecem pelo menos o primeiro verso. “Oh, que saudades que eu tenho da minha infância querida”, digo. E muitos dos leitores já completam, “da aurora da minha vida que os anos não trazem mais”.

É lindo. Verdade. Mas está longe de ser o único.

Pessoalmente, eu adoro “Amor e Medo”. Pelo tema, pela poesia quase prosa, que conta uma história em poucas estrofes. Pela construção, pela escolha de palavras. E pelo ritmo. Casimiro é para ser declamado, lido em voz alta. Saboreado pelos olhos e pelos ouvidos. E pelos outros sentidos também.

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Um copo pela metade

3 Julho 2009

Vasco 0 x 0 São Caetano

Guarani 0 x 0 Vasco

Vasco 0 x 0 Duque de Caxias

Figueirense 1 x 1 Vasco

Vasco 0 x 0 Bragantino

Cinco jogos, cinco empates. Quatro deles por 0 x 0. Um gol em 450 minutos. Esse foi o saldo do Vasco em junho.

São cinco jogos sem vencer. Marcamos apenas um gol em cinco jogos. Nosso ataque anda terrível.

São cinco jogos de invencibilidade. Levamos apenas um gol em cinco jogos. Nossa defesa anda segura.

O copo está pela metade. Se meio cheio ou meio vazio, depende do torcedor. Assim como outras coisas podem estar cheias, com tantos empates.

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