Letra e Música – Gondola e Barcos

27 Junho 2009

Só, quando a terra dorme solitária e ergue-se à meia-noite, branca, a lua, e a brisa geme cantos de tristeza na rama do pinheiro, que flutua; e quando o orvalho pende do arvoredo que se debruça p’ra beijar o rio, e as estrelas no céu cintilam lânguidas — Pérolas soltas de um colar sem fio; então eu vou sentar-me sobre a relva, eu vou sonhar meus sonhos ao relento, e só conto o segredo de minh’alma das horas mortas ao tristonho vento.

Meu segredo? É o canto de poesia que suspirou saudoso o gondoleiro, que vai morrer gemente sobre as praias. Da despedida pranto derradeiro — mais aéreo que as vozes da sereia — alta noite — sentada sobre a areia.

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Letra e música – O dia do padroeiro

24 Junho 2009

O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.


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Um boi (vermelho e) preto…

20 Junho 2009

Do GloboEsporte.com:

Após a coletiva de despedida no CT da Barra Funda, na manhã deste sábado, Muricy Ramalho revelou que o treinador do Flamengo, Cuca, ligou algumas vezes para o presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, se oferecendo para o cargo. O ex-técnico do clube paulista disse que Cuca foi antiético.

– O mais importante é você ser correto. Hoje, o futebol está difícil porque os técnicos não se respeitam. O Cuca liga para o Juvenal Juvêncio para saber como ele está, pergunta se ele poderia pedir demissão do Flamengo. Estamos em uma situação difícil e o Cuca liga para saber se pede demissão ou não. É demais, né? Ligar para o presidente do clube é um absurdo. É uma falta de ética do caramba. Um absurdo – disse à rádio “Bandeirantes”.

Como eu falei aqui há algum tempo atrás, Cuca e o Flamengo se merecem. Parece que, como muitos flamenguistas disseram na época, ele realmente “vestiu a pele rubro-negra”.

Não, flamenguistas, não reclamem (muito). Não creio que alguém mude tanto assim só porque mudou de time. Apenas, se sentindo num ambiente onde ética é artigo em falta, a pessoa que já tem essas tendências se sente livre para liberá-las.

E eu só lamento ter me deixado enganar tanto tempo por ele. Dou a mão à palmatória, admito meu tremendo erro de julgamento. Ainda bem que minha vontade nunca foi feita, ainda bem que ele nunca treinou o Vasco. E, se Deus quiser, isso não acontecerá.

Por mim, ele que fique muitos anos onde está. É o lugar certo para alguém assim.

(Para entender o título do post, clique aqui.)


O cara tá certo

19 Junho 2009

Disse Luís LI, o Rei-Nu:

Eu não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irã. Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas, sabe, uma coisa entre flamenguistas e vascaínos.

Aí, veio um pessoal e caiu de pau em cima do homem, dizendo que era um absurdo ele debochar desse jeito dos iranianos, falar uma coisa imbecil como essa, e reduzir tudo a um “Vasco e Flamengo”.

Caramba, vocês da zelite são um saco com essa perseguição ao homem! Tudo que ele fala é motivo pra criticar!

Vamos ver.

Você tem dois grupos. De um lado, está um partido que trapaceou nas eleições. Do outro, um grupo que foi roubado e teve sua vitória, ganha no campo, tomada pelas trapaças do outro.

Aí, o grupo que foi prejudicado pelas trapaças resolve reclamar. E o grupo dos trapaceiros manda a sua “torcida” para as ruas, pra atuar com violência, e ameaçar os rivais.

Não satisfeito, o presidente do clube X manda prender todos os dirigentes do outro clube. mas a torcida do clube Y, guerreira e corajosa, não aceita se dobrar à ditadura, e continua nas ruas, resistindo, lutando pela justiça.

Trapaça, violência, bandidagem de um lado. Resistência e luta contra as injustiças do outro.

Para Lula, é um Flamengo x Vasco.

É perfeito!!!!

É a primeira vez, em 60 anos, que o Lula acerta uma metáfora! Nunca antes neste país isso foi visto! Ele conseguiu fazer uma analogia lógica!!!

E ao invés de incentivar o esforço, vocês preferem criticar. Ô povinho medíocre, viu…

PS: Nos últimos dias, tenho sempre vestido alguma peça de roupa verde. Não é nada, não é nada, mas é o mínimo que dá pra se fazer nessa história.

PPS: Não, cabeças maldosas, o verde NÃO é uma homenagem ao Coritiba.

PPPS: Depois, Lula disse que “não podemos tratar José Sarney como um homem comum”. Nosso guia (de turismo) estava em viagem oficial ao Cazaquistão. Por favor, não deixem de fazer a piada óbvia.


O triunfo da vontade

15 Junho 2009

Quando o suíço Roger Federer e o sueco Robin Soderling subiram à quadra Philip Chatrier, a principal do complexo parisiense de Roland Garros, havia uma sensação algo indefinível no ar. A maioria dos que assistiam sabia que algo ia acontecer ali, algo importante, inesquecível. Uma página da história do tênis ia ser escrita. Mas qual página seria?

De um lado, Federer, o número dois do mundo. Ganhador de 13 grand slams, a um de igualar o record do americano Pete Sampras. Desses treze, nenhum foi em Roland Garros. Federer carregava, até domingo, três vices seguidos no torneio francês, todos eles sendo derrotado por Rafael Nadal. Este ano, Nadal perdeu nas oitavas, e o caminho parecia aberto para o triunfo de Federer. Uma vitória, além do título inédito, e do record de slams, lhe daria o “career slam”, se juntando a um seleto grupo onde estão apenas cinco outros tenistas, de todos os milhares que já jogaram algum torneio ATP. Além disso, Federer reduziria a diferença para Nadal no ranking ATP, e daria um passo enorme para recuperar o posto e número um do mundo, ainda esse ano.

De outro lado, Soderling. O semi-desconhecido gigante nórdico, de 1,92m, que nunca havia chegado a uma final de grand slam. Um franco-atirador, que prometera vencer Nadal e cumprira a promessa.

Federer chegava à final, depois de alguns sustos contra adversários teoricamente mais fracos. Soderling chegava a final, vencendo três jogadores mais fortes que ele. Federer estava prestes a completar sua jornada triunfal. Soderling estava pronto para fazer uma campanha como a do primeiro título de Guga no saibro parisiense, a zebra que acabou campeã.

Federer e Soderling já haviam se encontrado nove vezes, com nove vitórias do suíço.

Para que lado os deuses da bolinha se inclinariam? Para a consagração do melhor do mundo ou para a apoteose do herói desconhecido? Qual seria o arquétipo triunfante? Teríamos a vitória do guerreiro que enfrentou dragões, passou por todas as provas de evolução, e agora estava pronto para a taça? Ou a superação do herói romântico, que não conhece o caminho, luta contra perigos maiores que a vida, e sai triunfante da última batalha?

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Letra e Música – O Pai e a Pátria

10 Junho 2009

As armas e os barões assinalados, que da ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana, e entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram, e também as memórias gloriosas daqueles reis, que foram dilatando a Fé, o Império, e as terras viciosas de África e de Ásia andaram devastando, e aqueles, que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando, cantando espalharei por toda parte, se a tanto me ajudar o engenho e arte.

(…)

“E porque, como vistes, têm passados na viagem tão ásperos perigos, tantos climas e céus experimentados, tanto furor de ventos inimigos, que sejam, determino, agasalhados nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, tornarão a seguir sua longa rota.”

Estas palavras Júpiter dizia, quando os Deuses por ordem respondendo, na sentença um do outro diferia, razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia no que Júpiter disse, conhecendo que esquecerão seus feitos no Oriente, se lá passar a Lusitana gente. (…) Teme agora que seja sepultado seu tão célebre nome em negro vaso d’água do esquecimento, se lá chegam os fortes Portugueses, que navegam.

Sustentava contra ele Vênus bela, afeiçoada à gente Lusitana, por quantas qualidades via nela da antiga tão amada sua Romana - nos fortes corações, na grande estrela, que mostraram na terra Tingitana, e na língua, na qual quando imagina, com pouca corrupção crê que é a Latina.

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura prisão (paixão) me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
(a)onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

(Assi a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima o pé que o sofre e sente!)

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mi(m) tenho ausente
por quem a vida, e bens dela, aventuro.


Um tigre sem listras?

9 Junho 2009

Deu no G1:

Americano acha aliança perdida há 42 anos e ‘cutuca’ a mulher

É sempre um momento difícil na vida de qualquer homem ter que explicar para a mulher que perdeu a aliança de casamento. Foi isso o que aconteceu com o norte-americano Paul Sawyer, que perdeu a sua em 1966, apenas um ano após se casar com Ruth Ann.

Ele disse para a mulher que perdeu o anel enquanto estava lavando o carro. Na época, Ruth se recusou a acreditar que ele tivesse acidentalmente perdido a aliança. “Você a jogou fora”, disse ela, pensando que o marido simplesmente não queria que outras jovens soubessem que ele era casado.

Sawyer, hoje com 63 anos, teve que esperar quase 43 anos para mostrar para a mulher que havia dito a verdade. Segundo reportagem publicada nesta quinta-feira pelo jornal “Virginian-Pilot”, o filho do casal, Paul Jr., encontrou o anel no quintal da casa da família em Virginia Beach (EUA).

E aí? Nome é destino? Será que dá pra confiar que Mr. Paul SAWYER está dizendo a verdade? Ou a Sra. Ruth Ann deveria ter um pouco mais de pé atrás? :)


Tommy and The Snake Eyes

5 Junho 2009

Quando a bola é pequena e amarela

3 Junho 2009

A frase da semana foi “a única coisa garantida é que a Lucy sempre vai tirar a bola”. Faz parte da sua natureza. Essa frase me ficou na cabeça o resto do fim de semana, por vários motivos. E no domingo, ela se fortaleceu ainda mais, porque ganhou um novo sentido. Oitavas de final de Roland Garros, Rafael Nadal enfrentava o sueco Robin Soderling. Jogo tranquilo para o espanhol, que jamais perdeu um jogo sequer no saibro, em torneios melhor de cinco sets. Por tudo isso, nem me esforcei em ver a partida inteira. Preferi me guardar para quando o carnaval, ou melhor, a final chegasse.

Estava no carro, quando ouvi no rádio a parcial: Soderling fechara o terceiro set e vencia por dois sets a um. Voltei pra casa, a tempo de pegar o segundo game do quarto set. O sueco, jogador apenas mediano, teve seu dia mágico, talvez impulsionado pela inimizade que tem com Nadal. Tudo deu certo para Soderling, e Nadal sentiu falta de um repertório mais variado. Eu até gosto do espanhol, aprecio sua raça, seu jogo de defesa, mas tecnicamente ele tem um defeito sério: só tem uma jogada. Geralmente, quase impossível de ser marcada. Mas, quando ela não entra, ele não varia, continua agindo como o touro. Marra, marra, marra, porque não sabe jogar de outra maneira.

Ontem foi o dia do toureiro. Final: Soderling 3×1 Nadal.

Se fico feliz com a derrota de Rafa? Não especialmente. Repito, não tenho nenhuma antipatia contra o espanhol. Ele é um bom jogador, uma força física e mental impressionante, um cara legal, non?, que não tem culpa dos fã-náticos que o colocam num estágio acima do que ele é. A diferença dele para o Federer é aquela que existe entre um ótimo jogador e um fora de série.

E acho engraçado quando alguns dos fãs dizem que Nadal “tem raça”, enquanto Federer “é frio”. Parece que, para muitos, a paixão só existe quando é demonstrada, exibida, exposta como um nervo. Só conta como paixão se a toalha fica manchada. Não entendem que, para um certo tipo de pessoas, um punho fechado que mexe dois milímetros é um gesto que significa muito. Parece que se você grita, balança, exibe, você tem raça, amor e paixão. Agora, se você é contido, discreto, reservado, é porque não sente. Mesmo que você quebre raquetes, chore, vibre calado com cada fibra do seu ser, sem para isso precisar chamar a atenção de todo mundo, gritando “vejam como eu sou emotivo, passional”.

Federer é assim, na personalidade e no estilo de jogo. O que Nadal tem de exagerado, Federer tem de preciso. Se o espanhol cativa pela maneira como se joga em bolas perdidas, defendendo algumas que parecem impossíveis, o suíço impressiona pela maneira como simplifica o difícil, fazendo jogadas lindas com um ar blasé, parecendo que jamais vai despentear um fio de cabelo. Nadal é cabelo rebelde, roupa colorida e faixa na cabeça. Federer é clássico, elegante. O que em Rafa é fogo, em Roger parece gelo – naquela fina camada superficial, a única que pessoas superficiais enxergam. Eu gosto dos dois, me identifico com os dois, sou capaz de vibrar com os dois. Mas prefiro, de longe, Federer. Como jogador e como pessoa. É o cara que diz que prefere ser lembrado para sempre como um jogador honesto, porque isso é mais importante do que ser um campeão. E ele é ambas as coisas. Um modelo de integridade, de discrição, de caráter. E o melhor tenista de sua geração.

Por isso, não, não festejo as derrotas do Nadal, como aconteceria em outros esportes. Eu fico feliz com as vitórias do Federer, isso sim. Ah, mas o Nadal perder, ainda mais em Roland Garros, não é bom para o Federer? Não facilita o seu caminho rumo ao career slam?

Pois é. E aí chegamos ao parágrafo que abre o post.

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Mais um ano de racismo nas universidades do Rio

2 Junho 2009

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro voltou atrás e suspendeu a liminar que havia concedido semana passada, acabando com o “sistema de cotas” aplicado pelas universidades do estado. A decisão do TJ, provocada por uma ação direta de inconstitucionalidade proposta pelo deputado Flávio Bolsonaro (PP), havia dado um alento aos que defendem a democracia e criticam o racismo implícito nesses sistemas ditos de “discriminação positiva”. Porém, as universidades fluminenses usaram a tese do “fato consumado”, e o TJ-RJ suspendeu a liminar, cedendo às ameaças de cancelamento do vestibular 2009.2. Agora, a hora é de prosseguir a luta e não deixar que o lobby cotista faça com que a decisão do tribunal seja engavetada.

É triste saber que no Brasil, no século XXI, ainda exista quem apóie esse tipo de lei racista, ainda haja quem pense ser correto a cor da pele de uma pessoa ser um critério válido para decidir alguma coisa. É revoltante ver na televisão “líderes do movimento negro” defendendo abertamente o direito ao “privilégio que a nossa raça conquistou”. É difícil compreender que pessoas esclarecidas achem normal (pior, “positivo”) carimbar na ficha de uma pessoa a sua raça, colocar junto ao seu nome uma estrela amarela, e a partir daí decidir se ela é digna de uma “discriminação positiva” ou não. É um desrespeito a todos aqueles, brancos, negros, indios, asiáticos, que lutaram pelo sonho da igualdade racial, que tanto fizeram para diminuir a discriminação, e que vêem agora essa mesma discriminação ser coroada como lei. Pior que isso, ser uma lei defendida até por  uma parte dos que tanto já s0freram antes com outros tipos de racismo.

Alguns negros (graças a Deus, pela minha experiência pessoal, são a minoria) defendem as cotas com uma justificativa “lei de Gérson”. Algo tipo “a gente já sofreu tanto, agora é hora de levar vantagem em alguma coisa”. Descontando a imoralidade do pensamento, descontando o fato de que dois erros não fazem um acerto, ainda sobra um detalhe importantíssimo. Eles não notam que as cotas, aparentemente um benefício para os negros, são na verdade mais um ato de racismo contra eles. O discurso implícito é “coitadinhos, eles são inferiores, não podem competir em igualdade de condições, nós temos que ajudar os pobrezinhos”. E quem se beneficia desse sistema aceita, pra levar vantagem, ficar nessa posição de coitadinho, de inferior. Eu não aceito que o negro seja inferior ao branco, ou vice versa, e por isso não posso aceitar como justo um sistema que pregue o contrário.

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