Uma canção para ti: a alma alentejana

31 Janeiro 2009

Uma canção para ti” foi o nome de um programa, exibido pela televisão portuguesa no ano passado. A premissa era simples: um concurso musical, onde crianças/adolescentes de 9 a 15 anos, do país inteiro, puderam se inscrever. Uma peneira rigorosa selecionou os 12 melhores, que se apresentaram nas três edições do programa. A regra de ouro: só músicas portuguesas. A primeira fase eliminou três. A segunda, mais dois. E, na grande final, os sete sobreviventes disputaram o prêmio de 25 mil euros.

O nível foi elevadíssimo. Esqueçam Famas, Ídolos, ou semelhantes. Ali, eram doze grandes cantores em potencial. Alguns deles, mais que isso, grandes cantores já agora. Mas, mesmo assim, foi fácil saber quais os três que eram apenas “bons”, e ficaram de fora na primeira noite. aí pra frente, entre os outros nove, havia os “muito bons” e os “ótimos”.

O programa parecia despretensioso, apenas mais um daqueles programas de crianças engraçadinhas cantando. Mas quando a primeira candidata, Beatriz Costa, 11 anos, iniciou o seu número… Inacreditável. Como podia se encaixar tanta voz em uma corpo tão pequeno? Bem, deve ter sido só ela, escolheram a única boa para abrir e ganhar a audiência. Mas depois veio um João, veio um Miguel, uma Diana. E os espectadores deixaram de se surpreender. Beatriz continuava sendo a melhor (ou pelo menos uma das duas melhores), mas estava longe de ser a única boa candidata.

O décimo candidato foi um rapaz chamado Luís Caeiro. Alto, magro, vestido de preto, com um nariz chamativo. Uma figura. Quando abriu a voz para a entrevista, deu pena. Uma voz estranha, um sotaque interiorano carregado, típico do Alentejo, uma das regiões mais rurais de Portugal. O rapaz não teria a menor chance. Quando ele anunciou a música que ia cantar, tive ainda mais pena. O “Fado do 31“, popularizado por Rodrigo, um fadista com voz e cara de marinheiro, decididamente não era a melhor escolha para alguém com aquele timbre de voz. Coitado.

Quando ele começou a cantar, quem ficou mudo fui eu.

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Tudo como dantes

27 Janeiro 2009

E começou a Taça Tabajara, o campeonato mais… zzz… charmoso… zzz… do Brasil. Haja paciência para esses estaduais e seus clássicos do tipo Arranca-Toco versus Macaxeirense. Mas tem gente que gosta, fazer o que?

E, dentre os estaduais, nada supera a Taça Tabajara, também conhecida como “Cariocão”. Logo na primeira rodada, o atual bicampeão, Petrobras FC, enfrentou um dos times pequenos do interior. Jogo duro, 0×0 teimoso, até que no segundo tempo… um gol dos visitantes.

“Como? Não pode ser! O poderoso Petrobras FC não pode levar gol! Como o melhor time do mundo, e quiçá do Brasil, pode passar uma vergonha dessas? Carioca é obrigação, p*!”, pensou o assustado bandeirinha. E correu para marcar alguma coisa. O que? Não sei, nem ele sabe, e nem isso importa. Importa era anular o gol. Que atrevimento desses caipiras da serra, vir aqui e achar que podem estragar a festa dos portadores do “manto sagrado”. Quem eles pensam que são?!

O video com o lance pode ser visto aqui. Reparem em dois detalhes. O primeiro, a expressão desalentada de Victor Hugo, autor do gol. E o segundo, o desespero do Wright tentando justificar o injustificável. É o retrato do futebol carioca. Flapito strikes again. Leia o resto deste post »


Esses bois pretos…

15 Janeiro 2009

O governo Lula pode ser acusado de muitas coisas. Mas se tem algo que não se pode dizer é que ele é “incoerente”. A coerência dos cumpanhero é algo admirável. Nesta semana, tivemos mais uma prova disso, com a vergonhosa concessão de “asilo político” ao assassino italiano Cesare Battisti.

Mas quem é Cesare Battisti, e porque seu caso é tão emblemático? Vamos a um pouco de história. Leia o resto deste post »


Onde estiveres, eu estarei lá

13 Janeiro 2009

“Por que caímos, Bruce?”, pergunta Alfred ao jovem Bruce Wayne. “Para aprendermos a nos levantar”, completa o velho mordomo. É essa a lição que Bruce aprende. Há um tempo para chorar a dor da queda. Há um tempo para compreender o que é necessário para que nunca mais tenhamos que passar por isso. Apenas entendendo porque caímos é possível nos fortalecermos, e recuperar o equilíbrio.

“Por que caímos, Bruce?”. E sem entender que caímos para aprendermos a nos levantar, jamais nos levantaremos de verdade. Ou, se nos levantarmos, será apenas para voltarmos a cair, de novo, de novo, e de novo. Até aprendermos.

“Por que caímos, Bruce?”. Caímos graças a diretorias incompetentes (para dizer o mínimo), jogadores fracos (idem) e árbitros azarados (ibidem). Mas foi só isso? Não. Foi também por isso. Caímos porque era a hora disso acontecer. Caímos porque tinha que ser assim. Caímos porque, para crescermos nessa nova fase, precisamos aprender a nos levantar.

Numa hora como essas, muitas hienas riem da nossa queda. Paciência. Faz parte da vida. Pelo menos, o Vasco caiu de pé, caiu com honra, e assim vai voltar. Não sequestrou juízes, não manipulou papeletas amarelas, não estourou champanhe, não ouviu miados durante a noite. Não vendeu a honra para evitar o tombo. As hienas não podem dizer o mesmo.

Um homem de moral não fica no chão. Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

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Algumas pessoas me perguntaram onde eu estava no dia 7 de dezembro. A resposta é simples. Eu estava onde sempre estive.

Eu estava com a camisa 10, vendo a vida passar diante dos meus olhos, sabendo que, ainda que me arraste em outros campos, estava jogando o último jogo da minha carreira. Talvez o mais importante de todos. Dramático. Melodramático. Fadista. Sabia que, para mim, não adiantava a lição do Alfred. Eu estava na queda. E não estarei, pelo menos dentro de campo, na hora de levantar. (Será mesmo que não?)

Eu estava no banco, sentado, impotente. Eu via meu time, não apenas meu emprego, mas meu time, aquele pelo qual sempre torci, numa situação daquelas, e eu sem poder ajudar. Graças a um churrasqueiro que tem as suas panelas, e não dá chance a quem não pertence a elas, por mais talentoso e dedicado que o jogador seja. Eu vi o filme passando, voltei a ver o menino que, com sete, oito anos, começou a jogar futebol de salão no Vasco. E chorei. Chorei por mim, por nós, por tudo.

Eu estava nas arquibancadas, eu estava nas cadeiras de São Januário. Éramos 30 mil sofrendo, esperando por um milagre. Eu estava ouvindo no radinho de pilha. Éramos milhões, atentos aos outros jogos que decidiam nosso futuro. Eu estava em casa, no sofá, tenso em frente à TV. Éramos dois, em silêncio, em gritos.

Eu estava com o meu time, onde quer que estivesse. E éramos um.

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Tudo isto existe, tudo isto (às vezes) é triste, tudo isto é Vasco. Eu escrevi isso há algum tempo, e repito. Uma letra de fado. E é Vasco ver Pedrinho chorando, ver Edmundo chorando. É Vasco ver a arquibancada, na hora mais triste da nossa história, gritando… o que gritavam? Xingamentos? Ofensas? Ameaças? Não. Gritando “Ah, é Edmundo!”, enquanto o próprio saía, chorando. Dizer que ele teve parte das culpas no rebaixamento é verdade. Dizer que, de novo, ele está prestes a fazer besteira e ir jogar em outro time, é verdade. Mas essa relação é algo que só um vascaíno pode entender por completo. São mistérios do fado. E é o fado que nos faz aquilo que somos.

Os meus parabéns ao Churrasqueiro. Ele fez de tudo pra rebaixar o Florminense esse ano. Depois de muito brincar no campeonato, os tricolores acordaram a tempo e se livraram da mala. Mas ele queria porque queria conquistar mais essa meta. E teve um clube otário para lhe dar essa chance. Detalhe: quando estava no Flunimed brincando, Renato ajudou times como Náutico e Santos a ganharem pontos que ajudariam esses times a ficar na frente do Vasco. Parabéns, Renato, de rebaixamento você entende: rebaixado como jogador, e agora como técnico. Vamos ver quem serão os próximos torcedores, coitados, que vão cair no papo do “eu ganho, nos empatamos, eles perdem”…

Os grandes reforços para o Vasco-2009 com certeza não são os que chegarem, mas os que saíram. Conseguimos nos livrar do Churrasqueiro, do Rodrigo Antonio (o polivalente: consegue não jogar nada em várias posições), do Jorge Luís (carinhosamente conhecido como ”jegue luiz”, que entregou sozinho dez pontos e ajudou a entregar outros vinte), do chinelinho Wagner Diniz e do traíra Leandro Amaral (ambos agora em times ideais para quem, como eles, não sabe ser homem).

O Vasco não morreu. Foi ao inferno, e logo logo está de volta. “Por que tu caiu, Bacalhau?”. Simples, meu amigo: caimos para irmos buscar o único título que nos falta, um troféu que carioca nenhum tem. O sentimento não pode parar.

Duque de Caxias, Campinas, Caxias do Sul, Brasília, Ipatinga. São Januário. Não importa. Onde estiveres, eu estarei lá. Sempre ao teu lado, do lado de cá.

Incondicional.


A outra margem

6 Janeiro 2009

DIA DE PASSEIO
(Rio Grande)
(Letra: João Monge / Música: João Gil)

Pinta os lábios de vermelho
Passa meia-hora ao espelho
Mostra-me do que és capaz
Hoje é dia de passeio
E enquanto eu me barbeio
Passa o pente no rapaz

A cidade é tão bonita
Quando vamos de visita
À saída da portagem
E mais tarde pela “linha”
Bebe-se a brisa marinha
E aprecia-se a paisagem

Quando acaba o casario
Onde não chega o Bugio
Vem a Boca-do-Inferno
O mar em contestação
Se isto é assim no Verão
O que fará no Inverno

Mandei vir o que pedias
Isto um dia não são dias
Na esplanada das muralhas
Para nos são limonadas
O rapaz pediu queijadas
- Cuidado com as migalhas!

O Sol já se quer deitar
Está na hora de abalar
Arrepia-me esta aragem
Fui onde Deus pôs a mão
Volto à minha condição
De regresso à outra margem