Tantas voltas dá a vida…

29 Setembro 2008

O SOBRESCRITO
(João Monge/João Gil)

Bateram ao postigo. Era o carteiro
Trazia um sobrescrito de Lisboa
Não era engano: O nome estava inteiro
Era dirigido à minha pessoa

Abri-o logo ali: Era a respeito
De um pedido que em tempos eu fiz
Para qualquer ofício ganho o jeito
Mesmo que seja só como aprendiz

Tantas voltas dá a vida
Tantas voltas dá o Mundo
E depois volta não volta
Muda tudo num segundo

Nessa tarde já não saí de casa
Sentei-me frente ao lume a matutar
Enquanto dava a volta a uma brasa
Há dias de perder e de ganhar

Meti a tralha toda para um cesto
E mesmo ainda assim sobrava fundo
O que ficou tinha muito mais texto
Não cabe em nenhum verso deste mundo

Tantas voltas dá a vida
Tantas voltas dá o Mundo
E depois volta não volta
Muda tudo num segundo

Foi toda a minha gente a despedida
Ao Largo donde partiu a carreira
Abraços, beijos e até comida
Cada um exprime-se à sua maneira

E foi assim que a vida deu uma volta
A carta e os conselhos de um braseiro
O campo por onde eu andava à solta
Agora está no fundo de um estaleiro

Tantas voltas dá a vida
Tantas voltas dá o Mundo
E depois volta não volta
Muda tudo num segundo


Nada de novo sob o sol II – Notícias do Brazil

8 Setembro 2008

Longe de mim querer insinuar algo, mas é curioso que essa notícia me chegue exatamente no dia em que aconteceu aquele espetáculo deprimente de ontem em Santiago. Acho difícil ter uma ilustração melhor para isso tudo. É preciso ter muita fé para acreditar que a arbitragem desastrosa do paraguaio Carlos Torres foi causada apenas por incompetência.

E a questão não passa apenas pelas apostas. A política também representa um papel importante nesse teatro. O juiz paraguaio, da mesma confederação à qual pertence Nicolás Leóz, o quase-eterno presidente da Concacaf, que se sustenta no poder com o apoio fiel de Ricardo Teixeira… Enfim, tudo deve ser apenas coincidência.

A gente precisa conseguir acreditar que é coincidência. Mesmo que seja difícil, é preciso ter fé. Porque, quando perdermos essa fé, vamos perder junto a paixão por um esporte que amamos. É complicado. “Nem sempre estamos prontos para a verdade”, como já foi dito no Cavaleiro das Trevas. Ou por Renato Russo.

Pelo menos, com o resultado de ontem, o jogo de quarta está salvo. Até ontem, os organizadores estavam preocupados, pois apenas oito mil ingressos haviam sido vendidos. Hoje, com a “vitória esmagadora dos penta campeões”, já temos praticamente lotação esgotada. Os negócios não podem parar.

Ontem, deu vergonha de ser brasileiro. Uma seleção de marginais, desleal, distribuindo pancadas para todos os lados, sob o olhar complacente de Torres. Faltas que só eram marcadas para um lado. Um jogador chileno expulso em um lance mil vezes mais leve do que vários brasileiros. O jogo amarrado, levado a pulso, conduzido o tempo inteiro na direção pretendida.

Vergonhoso.

Às vezes me perguntam porque eu me irrito tanto, afinal é “apenas futebol”. É esse o problema. Não é “apenas futebol”. É o reflexo da sociedade brasileira, e é isso que me atinge tanto. Cada brasileiro que comemora uma vitória como a de ontem é cúmplice da amoralidade cotidiana em que vivemos.

Afinal, dizem, o que importa é vencer. Seja como for. De que eu estou reclamando? Nós vencemos, não vencemos? Que cara chato.

Se o “inho” deu uma cotovelada e o juiz não viu, melhor pra nós. Se o outro “inho” fez um penalti, e o juiz não deu, o que vale é o resultado. Se mais um “inho” cospe na cara de um adversário e não é expulso, exalte-se a malandragem. O Brasil é o único país do mundo em que ser “malandro” é elogio. O único lugar em que narradores e torcedores enchem a boca para exaltar a “malandragem”, a “molecagem” do futebol brasileiro.

O importante é vencer, seja como for. E às vezes parece que se for “na malandragem”, melhor ainda. É mais gostoso.

Um jogador diz que os jornalistas não o podem criticar, porque “eu ganho mais do que eles todos juntos”. Outro sai do jogo de ontem dizendo que “esse é o Brasil, que passa por cima de qualquer um”. Um terceiro deixa uma pichação no vestiário chileno depois do jogo com uma mensagem debochada. E o povo aplaude, acha tudo muito bonitinho. Desde que ganhem, claro. Se perderem, aí sim, são uma cambada de vagabundos, que tem mais é que levar um pau. Isso, claro, até à proxima vitoria, até a próxima pedalada. Porque “isso aqui é Brasil, p*!.

E quem não solta foguetes a cada vitória da seleção é porque não é patriota, não “ama o seu país”. Eu faço questão de dizer que essa não é minha seleção. Esse time nao me representa. Esses jogadores me enchem de vergonha. Isso não é o “Brasil”. É o “Brazil”, no que ele tem de pior. Embora muita gente até hoje não entenda essa diferenciação que eu já faço há alguns anos.

Saber que a maioria dos brasileiros hoje está festejando “mais uma vitória” me envergonha mais ainda. Porque nao é “só futebol”. Nunca é. É a escala de valores de um povo, que se manifesta em horas como essa.

“O Brazil não merece o Brasil. O Brazil tá matando o Brasil.”


Nada de novo sob o sol

8 Setembro 2008

Do Record, jornal esportivo português:

A revista semanal alemã Der Spiegel revela na edição que será publicada segunda-feira que o jogo dos oitavos-de-final do Mundial de futebol de 2006 entre o Brasil e o Gana foi objecto de manipulação instigada por apostadores asiáticos.
(…)
As informações do Der Spiegel provêm de um jornalista canadiano, Declan Hill, que publicou um livro, cuja edição alemã será lançada esta semana, sobre apostas no mundo do desporto.

Os leitores que me desculpem por usar o texto de um jornal português, mas é que eu procurei por algum jornal brasileiro que tivesse dado essa notícia, fui nos sites do Globo, da Folha, do Estadão, do Lance!, e não encontrei nada…

Mas podemos também ir direto à fonte, e ver o que Hill diz à própria Der Spiegel, na entrevista publicada na edição internacional:

The Ghanaians played as though they were putting their whole heart into it, but then there were a number of stupid mistakes: passes didn’t succeed, the defense was careless, the team collected three stupid goals. After the game I was in the stands in Dortmund with tears in my eyes because I was convinced, at least emotionally, that the match had been fixed.

Infelizmente, isso não é novidade para quem acompanha o futebol. São “erros” demais, quase sempre beneficiando os mesmos times, os mesmos países, de uma maneira que faz com que um “acaso” seja estatisticamente improvável.

Esse Brasil x Gana, por exemplo, foi um jogo estranho. Decisões polêmicas da arbitragem, gols bobos levados por Gana, o segundo gol brasileiro num impedimento clamoroso de Adriano. Já antes, na Copa de 2002, diversos jogos ficaram sob suspeita, como os dois Brasil x Turquia. E recentemente tivemos algumas denúncias do Johansson (ex-presidente da UEFA) sobre as influências de João Havelange na comissão de arbitragem da Fifa.

O jornalista canadense dá um belo panorama do submundo das apostas clandestinas no futebol. Ele diz que não é apenas em grandes competições que isso acontece, mas também em campeonatos nacionais. Hill não cita nominalmente o Brasil, mas é fato que já tivemos alguns casos registrados por aqui. O mais famoso, claro, é o “caso Edílson”, que deu o título de 2005 ao Corinthians. Mas não é preciso muito esforço para lembrar de outros casos “estranhos” nos últimos anos, que fazem todo o sentido quando os analisamos por esse lado. E aí dá pra entender porque tantas decisões “polêmicas” ajudando determinados clubes, dando títulos a um, carregando outro até à Libertadores, sequestrando juízes antes de finais de campeonato, etc, etc, etc.

É sujo, é podre, mas é o mundo em que vivemos. E infelizmente, ainda há idiotas como eu, como muitos de nós, que participamos desse circo, torcendo pelos nossos times, e fingindo que não sabemos que muitas vezes os resultados já estão arranjados muito antes do apito inicial. Cadê meu nariz de palhaço?