Longe de mim querer insinuar algo, mas é curioso que essa notícia me chegue exatamente no dia em que aconteceu aquele espetáculo deprimente de ontem em Santiago. Acho difícil ter uma ilustração melhor para isso tudo. É preciso ter muita fé para acreditar que a arbitragem desastrosa do paraguaio Carlos Torres foi causada apenas por incompetência.
E a questão não passa apenas pelas apostas. A política também representa um papel importante nesse teatro. O juiz paraguaio, da mesma confederação à qual pertence Nicolás Leóz, o quase-eterno presidente da Concacaf, que se sustenta no poder com o apoio fiel de Ricardo Teixeira… Enfim, tudo deve ser apenas coincidência.
A gente precisa conseguir acreditar que é coincidência. Mesmo que seja difícil, é preciso ter fé. Porque, quando perdermos essa fé, vamos perder junto a paixão por um esporte que amamos. É complicado. “Nem sempre estamos prontos para a verdade”, como já foi dito no Cavaleiro das Trevas. Ou por Renato Russo.
Pelo menos, com o resultado de ontem, o jogo de quarta está salvo. Até ontem, os organizadores estavam preocupados, pois apenas oito mil ingressos haviam sido vendidos. Hoje, com a “vitória esmagadora dos penta campeões”, já temos praticamente lotação esgotada. Os negócios não podem parar.
Ontem, deu vergonha de ser brasileiro. Uma seleção de marginais, desleal, distribuindo pancadas para todos os lados, sob o olhar complacente de Torres. Faltas que só eram marcadas para um lado. Um jogador chileno expulso em um lance mil vezes mais leve do que vários brasileiros. O jogo amarrado, levado a pulso, conduzido o tempo inteiro na direção pretendida.
Vergonhoso.
Às vezes me perguntam porque eu me irrito tanto, afinal é “apenas futebol”. É esse o problema. Não é “apenas futebol”. É o reflexo da sociedade brasileira, e é isso que me atinge tanto. Cada brasileiro que comemora uma vitória como a de ontem é cúmplice da amoralidade cotidiana em que vivemos.
Afinal, dizem, o que importa é vencer. Seja como for. De que eu estou reclamando? Nós vencemos, não vencemos? Que cara chato.
Se o “inho” deu uma cotovelada e o juiz não viu, melhor pra nós. Se o outro “inho” fez um penalti, e o juiz não deu, o que vale é o resultado. Se mais um “inho” cospe na cara de um adversário e não é expulso, exalte-se a malandragem. O Brasil é o único país do mundo em que ser “malandro” é elogio. O único lugar em que narradores e torcedores enchem a boca para exaltar a “malandragem”, a “molecagem” do futebol brasileiro.
O importante é vencer, seja como for. E às vezes parece que se for “na malandragem”, melhor ainda. É mais gostoso.
Um jogador diz que os jornalistas não o podem criticar, porque “eu ganho mais do que eles todos juntos”. Outro sai do jogo de ontem dizendo que “esse é o Brasil, que passa por cima de qualquer um”. Um terceiro deixa uma pichação no vestiário chileno depois do jogo com uma mensagem debochada. E o povo aplaude, acha tudo muito bonitinho. Desde que ganhem, claro. Se perderem, aí sim, são uma cambada de vagabundos, que tem mais é que levar um pau. Isso, claro, até à proxima vitoria, até a próxima pedalada. Porque “isso aqui é Brasil, p*!.
E quem não solta foguetes a cada vitória da seleção é porque não é patriota, não “ama o seu país”. Eu faço questão de dizer que essa não é minha seleção. Esse time nao me representa. Esses jogadores me enchem de vergonha. Isso não é o “Brasil”. É o “Brazil”, no que ele tem de pior. Embora muita gente até hoje não entenda essa diferenciação que eu já faço há alguns anos.
Saber que a maioria dos brasileiros hoje está festejando “mais uma vitória” me envergonha mais ainda. Porque nao é “só futebol”. Nunca é. É a escala de valores de um povo, que se manifesta em horas como essa.
“O Brazil não merece o Brasil. O Brazil tá matando o Brasil.”