Homenagem atrasada

23 Junho 2008

“Morte de malandro a gente comemora assim, conta uma história sobre ele e toma uma gelada para lembrar de tudo de bom que ele fez.”
(Zeca Pagodinho)

Sem tristezas. Morreu o José Bispo. O Jamelão não morre nunca.

Mangueirense, vascaíno, e o maior intérprete de samba-enredo que o Brasil teve. Intérprete. Nunca puxador. “Puxador é quem puxa carro, é quem puxa droga. Eu canto samba.”

Não sou exatamente um apaixonado por samba, muito menos na época de carnaval. Mas ouvir a voz de Jamelão era sempre algo diferente. OK, cabeças maldosas, façam a piada fácil: não tinha como não se emocionar quando a Mangueira entrava, com a voz de Jamelão dando o tom.

Nos últimos anos em que participou no desfile, com a voz fraca, o mestre se poupava. Na hora do disco, e dos ensaios, os outros cantavam o samba. E na hora da Apoteose (trocadilho incluído) era ele que estava lá, dando outra vida à letra.

Em pelo menos dois anos eu fui enganado. Ouvia o tema da Mangueira no disco, na rádio, e dizia “que porcaria de samba”. E na hora da avenida, não dava outra: na voz de Jamelão, aquele samba chocho virava o melhor do ano. Impressionante.

Mas Jamelão era mais que intérprete, mais que sambista, mais que um decano do carnaval. Era uma voz completa. E, apesar de toda a Mangueira, a minha maior lembrança de Jamelão vem de uma gravação que ele fez há 40, 50 anos atrás, lá no tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça e os pintos ficavam felizes com qualquer lixo.

Poetas, seresteiros, namorados, se aproximai. Jamelão, o mal-humorado, o resmungão da verde-e-rosa, um dia foi popular e recordista de vendas de compactos e LPs, cantando as músicas agridoces de outro mestre, Lupicínio Rodrigues.

E foi uma dessas músicas que me acompanhou por algum tempo, e será sempre parte da trilha sonora do seriado. Não na versão linda do Jamelão, infelizmente. Essa me fez chorar na primeira vez que ouvi, de tão linda era aquela voz, e ainda me emociona sempre que a ouço. Mas a versão que ficou famosa foi o assassinato dessa música, cometido pelo coral e trio de cordas (enroladas) ”Um monte de bossa”, grupo de reconhecido insucesso que se arrastava pelos corredores de uma certa universidade carioca.

E, para me despedir do José Bispo, trago para cá o espírito da frase do Zeca Pagodinho, ergo meu copo, limpo a garganta e começo a cantar, inteiramente desafinado. Vai com Deus, Jamelão.

ELA DISSE-ME ASSIM
(Lupicínio Rodrigues)

Ela disse-me assim, tenha pena de mim, vá embora
Vais me prejudicar, ele pode chegar, está na hora
E eu não tinha motivo nenhum para me recusar
Mas aos beijos caí em seus braços e pedi pra ficar

Sabe o que se passou, ele nos encontrou e agora
Ela sofre somente porque foi fazer o que eu quis
E o remorso está me torturando
Por ter feito a loucura que fiz

Por um simples prazer
Fui fazer meu amor infeliz


Respondendo comentários antigos

22 Junho 2008

Eu sei, isso deve ser contra alguma regra de etiqueta bloguística. Mas, se eu não fizer assim, adio, adio, e não respondo nunca nada… Então vamos a uma sessão de bate-papo, dialogando com comentários escritos há quase um mês. :) Leia o resto deste post »


Em Pernambuco tem Leão

18 Junho 2008

“Eu nunca duvidei dos poderes desta Ilha…”

Ao contrário de anos anteriores, desta vez a Copa do Brasil não foi conquistada pelo time pequeno. Na final entre um time grande, da primeira divisão, e um desafiante da segundona, deu a lógica: o Sport Clube do Recife é campeão da Copa do Brasil, vinte e um anos depois de ser campeão brasileiro. Com este título, o Sport passa a ser o maior vencedor do futebol nordestino moderno, superando o Bahia, que tem “apenas” um brasileiro.

E, provocações à parte, foi talvez o título mais justo da história recente da Copa do Brasil. Depois de vários anos em que o campeão só pegava time grande na final, graças ao regulamento esdrúxulo do torneio brasileiro, dessa vez o Sport chegou ao título jogando como gente grande. E sempre usando o fator casa a seu favor.

 

“Ei, minha juba é natural! Quem pinta o cabelo é outro Leão…”

Primeiro, o Imperatriz (MA). Empate fora, vitória por 4×1 em casa. Veio o Brasiliense (DF). Duas vitórias, 2×1 em Brasília e um novo 4×1 na Ilha do Retiro. Nas oitavas, o Palmeiras (SP). Empate de 0×0 em São Paulo. E na Ilha? Que pergunta… 4×1, claro! Nas quartas-de-final, em Porto Alegre, o Sport perdeu a invencibilidade: 1×0 para o Internacional (RS). Na Ilha, a valentia rubro-negra reapareceu e o Leão sapecou 3×1 no Colorado.

Vieram as semi-finais, e o Vasco (RJ). O sorteio, pela primeira vez, inverteu a ordem dos jogos. A primeira partida foi na Ilha. O Sport “só” conseguiu fazer 2×0. A pergunta agora era: será que eles vão conseguir decidir fora? Será que o Sport aguenta o caldeirão de São Januário? Meu comentário você lê aqui. O resultado foi uma vitória do Vasco por 2×0 e a vitória do Leão nos penaltis, por 5×4.

“Ah, o Edmundo…”

Na final, o Sport enfrentou o Corinthians e toda a pressão da mídia, doida para contar a “história triunfal do gigante alvinegro e seus loucos torcedores”. O Sport estava ali apenas como coadjuvante. A festa tinha que ser do Timão. Afinal, havia uma lenda a caminho: “o Timão renasce das cinzas, e ganha um título nacional no ano em que caiu para a segunda divisão”. A redenção. Ano que vem, o Corinthians seria garantia de audiência televisiva nos jogos da Libertadores. Sport? Ah, sim, o vice tá bom pra você, não tá?

No primeiro jogo, o Corinthians abriu um, dois, três a zero. Parecia liquidar a fatura. No finalzinho, Enílton descontou. 3×1. E Carlinhos Bala profetizou: era o gol do título.

Difícil? Sim. Mas no Recife tem Leão. E se o Corinthians tem uma camisa roxa, o Sport tinha o resto.

“Meu amigo, eu estou acostumado a encarar urso polar… Gambá pra mim é tira-gosto!”

E a Ilha funcionou mais uma vez. Dois gols em três minutos decretaram a vitória e o título do Sport Clube do Recife. O resto é história.

Parabéns ao Sport, o único rubro-negro do mundo que merece a minha torcida. Sport e Vasco são clubes irmãos, e mesmo com algumas pilhas exageradas nessa semi-final, esse fato não mudou. Vocês só precisam aprender a cantar direito a música que copiaram da gente! É “casaca”, e não “cazá”! :-)

E parabéns também ao Corinthians. Afinal, apesar da choradeira do Mano e dus mano, não ouvi ninguém sugerindo tentar roubar o título do Leão no grito ou no tapetão. Já é mais do que o que aquele outro clube vem tentando fazer há 21 anos…

“Chora, Rede Globo, o sonho acabou. Libertadores, sou eu que vou!”


A benção, João de Deus

16 Junho 2008

GP do Canadá de 2007. Um gravíssimo acidente com a BMW do polonês Robert Kubica assusta quem assistia à prova. A pancada é assustadora. O carro fica reduzido praticamente à célula de sobrevivência. De acordo com a impressão geral, o jovem piloto, talvez o melhor surgido na F1 nos últimos anos, deveria estar gravemente ferido. Isso se sobrevivesse.

Kubica saiu do carro, inteiramente destruído, consciente. Uma prova depois, estava de volta às pistas, sem nenhuma seqüela.

Para muitos, um milagre. Para alguns, era fácil adivinhar o santo responsável: Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II, conterrâneo de Kubica, ambos nascidos na cidade de Cracóvia. Mais que isso: Kubica, católico devoto, carrega uma imagem do antigo Papa no capacete. O caso foi enviado ao Vaticano, e anexado ao processo de canonização de João Paulo II.

GP do Canadá de 2008. Um ano depois, Robert Kubica conquista sua primeira vitória na F1, também a primeira de sua equipe nessa nova “encarnação”. A vitória de Kubica andava madura, com bons resultados nas últimas provas. Mas parece que tudo conspirou para que ela acontecesse em Montreal.

“Filma eu, Galvão! Eu sou pequenina, mas sei dizer o nome do Kubica melhor que você!”

Um milagre? Não chega a tanto. Milagre foi ver Rubens Barrichello de novo na ponta, e segurando um sétimo lugar com o carro totalmente comprometido. Milagre foi ver David Coulthard de novo liderando uma prova, e chegando ao podium. Um prêmio merecido para dois ótimos pilotos, muito injustiçados por parte da imprensa.

Mas é inegável que a vitória de Kubica teve um toque de “tinha que ser hoje”. Na lambança de Hamilton, que tirou da prova ele próprio e Kimi Raikkonen. Na falha do equipamento de reabastecimento da Ferrari, que atrapalhou a corrida de Massa. Na falha do câmbio de Fernando Alonso, que fez uma prova excepcional, e parecia ser o único capaz de ameaçar a vitória de Kubica.

Tudo isso aconteceu, e o polonês fez sua parte, brilhantemente. Fazendo uma parada a mais que o companheiro Nick Heidfeld, fez doze voltas voadoras, onde abriu a diferença suficiente para voltar na ponta depois do segundo pit stop. Daí em diante, foi só administrar. Nenhum erro, uma corrida impecável.

“Não, eu não sou filho do Alain Prost, e nem irmão do Fábio Seixas.”

E assim, a F1 ouviu um novo hino. Pela primeira vez, o hino da Polônia tocou, a bandeira polonesa foi hasteada no lugar de honra. Temos um novo vencedor na categoria.

“There’s a new sheriff in town…”

A nota negativa da corrida vai para mais uma barbeiragem de Lewis Hamilton. O que o inglês fez, atropelando Kimi Raikkonen nos boxes, é algo difícil de engolir. Galvão Bueno, na hora da transmissão, disse que era “a maior besteira da carreira de Hamilton”. Não sei. Ele já fez tantas… “Nunca antes na história da F1″ um piloto de equipe grande fez tantas lambanças em tão pouco tempo de carreira.

O que Hamilton fez no GP do Canadá foi uma bela síntese do que é Lewis Hamilton. Atabalhoado e nervoso, não viu a luz vermelha. E, quando notou que não ia conseguir frear, apareceu o traço de mau-caratismo, escolhendo jogar o carro em cima de Raikkonen, pensando que, já que ele ia sair da prova, era melhor para o campeonato levar o finlandês junto. Muito triste. Se não fosse a boa vontade que a FIA sempre tem em relação ao inglês, era caso para uma suspensão de duas ou três corridas.

(Antes que alguém pergunte, ou insinue que “só eu digo essas coisas”, porque tenho “preconceito com o pobre Hamilton”, é bom dizer que, sim, eu notei isso logo na hora. Pra mim ficou óbvia a manobra de Hamilton, escolhendo atingir Raikkonen. Mas fiquei agradavelmente surpreso no dia seguinte, ao ver que boa parte da imprensa especializada, sempre pronta a defender o “fenômeno”, também tinha enxergado isso. É uma esperança.)

Mas eu devo um pedido de desculpas a Hamilton. Ao contrário do que eu sempre disse, ele acaba de me provar que realmente é um bom acertador de carros… Pelo menos o do Raikkonen ele soube acertar. Em cheio.

“E depois… hic… dizem que… hic… o bêbado sou eu. Pelo menos eu ainda sei reconhecer… hic… um sinal vermelho.”

Para fechar com chave de ouro, ficamos com mais um divertido “Marcatoons”, a animação do Jornal Marca. Impagável.


12 de junho

12 Junho 2008

Eu não gosto da data. Aliás, é mentira dizer que “não gosto”. Simplesmente não me diz nada. Quando solteiro, não me sinto nem um pouco incomodado com ela. Quando acompanhado, não me sinto nem um pouco empolgado com ela. Não preciso de uma data comercial (que, aliás, só no Brasil é nesse dia) para me lembrar de que é dia de fazer algo pra se mostrar que gosta de alguém.

Mas essa tirinha aqui merece fazer render um post de homenagem à data. Muito boa, para quem tem ao menos um nível dois no famoso teste geek (não pergunte, não pergunte). Parabéns ao autor. Sensacional. Estou aqui morrendo de inveja da idéia e  do resultado.

Além de tudo, é uma tira que me faz lembrar de um certo 12 de junho há alguns anos atrás, dos tempos em que eu fazia coisas como essa. :)

Feliz dia dos namorados, para quem gosta dessa data. Eu ainda prefiro aquelas em que nada se comemora.

PS1: “E a Mônica explicava pro Eduardo coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar.”. Esse trecho sempre foi o que mais me irritou na música inteira. Nesta versão, o verso se torna o meu favorito. Essa Mônica é pra casar! Além de tudo, ela é uma menina que sabe que a resposta da vida, do universo e tudo o mais é 42! :D

PS2: Um dia eu ainda escrevo sobre o porque de eu, um fã tão convicto de Legião, ter uma relação de amor e ódio com essa letra…

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Bunnies on a movie

10 Junho 2008

A Carol deixou este link nos comentários desse post. Já conhecia o site, mas não esse episódio. Foi muito bom ver, e rever outros.

Para quem não conhece, vale a visita. E para quem conhece também, já que sempre tem algo novo. O AngryAlien é um site que entrega logo a sua “reason why”, com um slogan explícito: movies in 30 seconds, re-enacted by bunnies. E é isso que você vai encontrar. Clássicos do cinema, reencenados por coelhos, em apenas trinta segundos cada.

Mais claro impossível. Até lembra o “Snakes on a plane”, de Samuel L. Jackson: “a motherfucking movie about motherfucking snakes on a motherfucker plane”. Aliás, “Snakes on a plane” está lá na versão coelhística também.

Vá com tempo, porque o site é meio “elma chips”. Depois de começar, impossível ver um só.

Se você realmente quer apenas um aperitivo, eu sugiro alguns apetitosos: o próprio CasablancaRocky, Kill BillO Iluminado, e, principalmente, Cães de Aluguel, que é arte no sentido mais puro do termo. Simplesmente perfeito, do primeiro ao último quadro – literalmente. E a voz do Joe Cabot é ótima.

*   *   *   *   *   *   *   *   *   *

“Bunnies on a movie” poderia ser o nome de um disco, não? Bem, de acordo com esse post do Marcos VP, poderia sim.

A brincadeira é a seguinte:

Primeiro, acesse http://en.wikipedia.org/wiki/Special:Random – O título da primeira página aleatória que aparecer será o nome da sua banda.

Depois, vá pra http://www.quotationspage.com/random.php3 – As últimas quatro palavras da última frase da página formarão o título do seu disco.

Por fim, acesse http://www.flickr.com/explore/interesting/7days/ – A terceira foto, não importa qual seja, será a capa do seu disco.

Minha banda: Broadway Journal
Meu disco: Spring is in my heart *
Minha capa:

* OK, eu sei, a regra dizia quatro palavras. Mas eu acabei de definir que, no caso de uma citação de Hugo, vale usar cinco. Quem discordar que vá ao STJD.


Ah, esse Edmundo…

3 Junho 2008

De todos os amores que eu tive és o mais antigo…
Vasco minha vida, minha história, meu primeiro amigo…
Quem não te conhece me pergunta porque te segui…
Eu levo a cruz de malta no meu peito desde que nasci…
E eu não páro, não páro não…
A cruz de malta… Meu coração…
Vasco da Gama, minha paixão…
Vasco da Gama, religião…

Foi bonita a festa, pá. Cinco minutos de fogos, lindos e ensurdecedores, como há anos não se via em São Januário. Uma cena que arrepiou qualquer vascaíno – e provavelmente também muitos que não o são. Minutos que pareceram horas, e mostraram ao Sport que eles tinham pela frente mais do que um time mais ou menos. Iam enfrentar um caldeirão, uma família, que tinha muita fé na vitória.

Vitória que começou a vir no gol de Edmundo, mal anulado pelo fraco Alício Pena Júnior. Não tem problema. A gente continua tentando. O sentimento não pode parar.

A entrada de Madson no lugar de Morais incendiou o time. Durante dez minutos, o baixinho fez o jogo da sua vida. O Vasco começou a sufocar o Sport, os pernambucanos se acovardaram, várias chances se sucederam, e o gol era questão de tempo. E não muito tempo. Leandro Bomfim cruzou, Leandro Amaral cumprimentou. 1×0. E vinte minutos pela frente.

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