Diogo, o terrível

17 Fevereiro 2008

Lula –o meu Lula– é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.
(Diogo Mainardi)

Quando dois bons escritores se encontram, o resultado costuma ser, no mínimo, algo interessante de se ler. O português João Pereira Coutinho entrevistou o brasileiro Diogo Mainardi, e o resultado foi publicado na Folha de São Paulo, em uma coluna de JPC que levou o mesmo nome deste post. Só a introdução já abre o apetite:

É um dos meus desportos favoritos: chegar ao Brasil e falar, em tom blasé, de Diogo Mainardi. “Você leu a coluna dele na Veja? Muito boa”, digo eu. O meu interlocutor cai num silêncio sepulcral. As veias do pescoço vão inchando como em certos filmes de vampirismo. O sangue concentra-se todo na cabeça. Os olhos, vermelhos e irados, saem das órbitas. A boca espuma. Os queixos tremem. Alguns levam a mão ao braço esquerdo e pedem uma ambulância. Deus do céu, eu já perdi a conta dos infartos, ou das ameaças de infarto, que a minha perversidade provocou em São Paulo e no Rio. Diogo Mainardi não é um colunista. É uma assombração.

Curioso. Irônico. Paradoxal. As mesmas pessoas que desmaiam na minha frente com o nome de Mainardi não desmaiam com uma elite política corrupta que usa dinheiro público tradução: dinheiro dos brasileiros para suas negociatas. O mal não está em quem rouba. Está naqueles que denunciam o roubo. Em condições normais, um país estaria grato aos jornalistas que vigiam e criticam o poder. Mas o Brasil não é um país normal. Aliás, Portugal também não é e pressinto aqui uma cultura histórica comum: quando um colunista abre a boca para criticar o governo, ele não critica o governo. Ele é um demente, um invejoso, um fracassado. E, em caso de discórdia, os leitores, para não falar dos colegas de ofício, não estão dispostos a contra-argumentar. Mas a censurar. O ideal não é discutir. É silenciar. Na impossibilidade de fuzilar. Curiosas mentalidades.

Às vezes pergunto se vale a pena continuar. Como Diogo Mainardi pergunta em seu último livro, “Lula é Minha Anta” (Record, 240 págs.), relato da sua odisséia anti-lulista. No livro, conta Mainardi que dedicou cerca de 5 mil horas a Lula (antes do mensalão começar). Cinco mil. Uma vida. Uma barbaridade. E quando o colunista acredita que finalmente se libertou do presidente, o mensalão estoura e Lula, como nos filmes de Coppola, volta a arrastá-lo para a velha dança. Mais 5 mil horas. Mais dez. Mais quinze.

Eu não me perdoaria. Sério. Nas milhares de horas que Mainardi perdeu com Lula, teria sido possível ler todo o Balzac, todo o Flaubert. Mas também teria sido possível viajar. Dormir. Namorar. Vadiar. Milhares horas com Lula e o PT não inspiram indignação. Inspiram compaixão.

É sempre um privilégio poder ler JPC. E, nessa entrevista, ainda temos o bônus das respostas afiadas de Mainardi. Alguns trechos:

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O carnaval do Planalto em três tempos

10 Fevereiro 2008

1)

O Bloco Pacotão, um dos mais tradicionais de Brasília, desfilou este ano com o tema “Eles tão metendo a mão (no dinheiro da Nação)”. O video abaixo mostra uma espécie de “clip” da marchinha:

A letra completa do samba é a seguinte:

ELES TÃO METENDO A MÃO
(Rômulo Marinho / Gustavo Dourado)

Eles tão metendo a mão
No dinheiro da Nação
O Congresso-maravilha
É maloca de quadrilha
O rei da maracutaia
Vive de papo furado
Valeu aquela puta vaia
No Maracanã lotado

Tem muita gente sabida
Dilapidando o erário
Metendo a mão no Tesouro
Detonando o meu salário
E Ali Babá nada sabe
Ele pensa que nóis é otário! 

E Ali Bebum nada sabe…
Elle pensa que nóis é otário!

Eles tão metendo a mão…

2)

Roque Sponholz mostra o desfile do “bloco dos sujos” de Brasília:

3)

O site Pérolas Políticas fez uma versão da música do Chico Buarque, “Apesar de você”, que serve como encerramento do Carnaval 2008:

Hoje o Lula é quem manda/falou, tá comprado/não tem discussão, não./A classe média hoje anda/ falando de lado/ e olhando pro chão, viu ?/ Você que inventou esse Estado/ inventou de inventar/ todo apagão…./ Você que inventou o pecado/ esqueceu-se de inventar/ a correção.

Apesar de você/ do Dirceu e do PT/ outro dia…/ Eu pergunto a você/ onde vai se esconder/ em Cuba, dá euforia?/ Como vai proibir/ quando o povo insistir/ em vaiar?/ A propina rolando/ e a gente vaiando/ sem parar.

Quando chegar o momento/ esse meu sofrimento/ só me cobram juros. Juros!/ Todo esse povo demitido,/ o progresso contido,/essa gente no escuro./ Você que inventou o PT/ ora tenha a fineza/ de “desinventar”./ Você vai pagar, e é dobrado,/ cada lágrima rolada/ nesse meu penar.

Apesar de você/ do Fidel e do Hugo/ outro dia…/Ainda pago pra ver/a Polícia te prender/ qual você não queria./ Você vai se amargar/ vendo quadrado o sol raiar/ sem lhe pedir licença. E eu vou morrer de rir/ e esse dia há de vir/ antes do que você pensa…./Apesar de você…

Apesar de você/ e do PT há de haver/ outro dia…/ Você vai ter que ver/ amanhã renascer/ sem vermelho no dia./ Como vai se explicar/ vendo o céu clarear,/ de repente, Impunemente?/ Como vai abafar/ nosso coro a vaiar,/ na sua frente…/Apesar de você…

Apesar de você/ Amanhã há de ser outro dia./ Você vai se dar mal, etc e tal, Lula lá e eu cá /La, laiá, la laiá, la laiá…….


Apenas mais um João

8 Fevereiro 2008

Sete de fevereiro de 2007. Uma notícia choca todo o país. Um menino de seis anos é morto, arrastado pelas ruas de um subúrbio do Rio de Janeiro, preso a um carro roubado. Testemunhas contam que os bandidos festejavam, enquanto torturavam a criança. Um deles dizia que “esse é o nosso boneco de judas”.

Rios de tinta são publicados. Lágrimas de sangue choradas. Passeatas, protestos, choro e ranger de dentes. Autoridades prometendo veementemente ações mais ou menos drásticas.

Sete de fevereiro de 2008. Um ano depois, alguém lembra? Para quantas pessoas o nome de João Hélio significa mais do que uma vaga recordação?

Uma missa marcou a data. Não houve discursos inflamados. Não houve passeatas de ONGs atrás de exposição gratuita. Não houve, sequer, um minuto de silêncio no jogo do Botafogo, time de coração de João. Não houve nada, além da dor da família. E da revolta daqueles que ainda se lembram.

Há um ano, o povo brasileiro cobrou das autoridades um endurecimento da legislação. Ninguém aguenta mais monstros como os assassinos de João andando soltos por aí. Ninguém aguenta mais bandidos de 16, 17 anos sendo julgados como “pobres crianças inocentes”.

A resposta dos defensores de bandidos era unânime: “não podemos tomar decisões no calor da tragédia”. Quando acontece um caso midiático, nada deve ser feito, pois todos estão com a cabeça quente. Um ano depois, o calor passou, o assunto esfriou. E tudo continua na mesma. A lei não mudou. E, principalmente, a mentalidade não mudou. Aqueles que decidem continuam arranjando pretextos para deixar tudo como está. E o povo dá razão a eles: deixou o assunto esfriar.

Tempos depois, um policial foi morto na mesma rua onde João Hélio foi levado pelos seus assassinos. Os assaltos naquela região continuam frequentes. Naquela e em outras. Por toda a cidade, o crime impera. Bandidos “dimenor” continuam matando, roubando, traficando, impunemente. Bandidos “dimaior” continuam sendo soltos depois de meia dúzia de dias, debochando das leis e voltando a praticar crimes logo a seguir.

Os assassinos estão livres, nós não estamos.

No ano passado, dias depois da morte de João Hélio, Botafogo e Flamengo jogaram no Maracanã. Houve um minuto de silêncio, as torcidas levaram faixas alusivas ao caso. Todos se emocionaram ao ver duas torcidas rivais unidas por uma mesma revolta.

Neste ano, nada. O silêncio não esteve no minuto. O silêncio esteve nas almas daqueles que, hoje, têm outras coisas mais importantes para lembrar. Afinal, estamos no meio do carnaval. Skindô, skindô.

No ano passado, o carnaval aconteceu mais ou menos duas semanas depois de matarem o João. Muita gente, acreditem, sugeriu que a festa devia ser cancelada, devido à comoção popular. A Sapucaí teve um minuto de silêncio. Por toda a cidade, surdos se calaram, repiques não ecoaram, cuícas silenciaram, pois todos os blocos queriam mostrar sua revolta.

Neste ano, sobraram apenas os surdos. Surdos ao eco dos gritos de uma criança que já virou estatística.

Há um ano, muita gente disse “agora chega”. Muita gente disse “basta”. Ouvi de muitos otimistas a tese de que o caso do menino João Hélio era “o fundo do poço”. Era um caso tão sério, mas tão sério, que faria algo acontecer. A partir dele, sonhavam, o povo iniciaria uma reação que ia trazer o resgate do Rio de Janeiro.

Infelizmente, nunca consegui ter essa ilusão. A dor do povo dura uma semana. A revolta, duas. Depois, vem um novo caso, um novo escândalo, ou um novo Big Brother, e tudo passa. A vida continua.

A gente não chegou no fundo do poço quando um repórter foi torturado e queimado vivo no alto de um morro. A gente não chegou no fundo do poço quando um ônibus foi incendiado por traficantes, com os passageiros dentro. A gente não chegaria no fundo do poço só porque um menino de seis anos foi destroçado, arrastado pelas ruas de Cascadura, preso a um carro em alta velocidade.

A gente não chegou no fundo do poço, porque esse poço não tem fundo.


Coisas do futebol brasileiro

7 Fevereiro 2008
Vejam o vídeo abaixo, com o resumo do jogo entre o Londrina e o Engenheiro Beltrão, pelo Campeonato Paranaense deste ano:
 
 
O soprador de apito (ir)responsável pela arbitragem atende pelo nome de Evandro Rogério Roman.
 
Eu sei que muita gente vai dizer que essas coisas acontecem. Que o nível da arbitragem é ruim mesmo, que os erros, apesar de todos para o mesmo lado, são apenas coincidências.
 
Mas a verdade é que apesar de Alan Kardec continuar sem fazer gol, o acaso não existe. E Evandro Roman é um velho conhecido de quem acompanha o futebol brasileiro.
 
Por exemplo? Bem, foi de Evandro Roman a “bela” arbitragem no jogo Vasco 1×2 Petrobrás FC, no ano passado, onde o Vasco foi cuidadosamente “operado”, como comentamos aqui.
 
Coincidência, ainda? É possível. Então, vamos ver outros jogos que eu me lembro do Sr. Roman apitando no Brasileirão de 2007:
 
- Sport 2×2 Flamengo: os torcedores do campeão brasileiro de 1987 reclamam que a) não houve o penalti em Leonardo que ocasionou o primeiro gol do Flamengo, b) não houve o escanteio que originou o segundo, e c) Fumagalli foi expulso por reclamação, minutos depois de empatar o jogo e mandar uma bola na trave.
 
- São Paulo 2×0 Vasco – penalti não marcado a favor do Vasco, quando o jogo estava 0×0, e expulsão exagerada de Amaral, no lance que acabou ocasionando o primeiro gol do São Paulo.
 
- Palmeiras 3×2 Vasco – primeiro gol do Palmeiras irregular, com falta clamorosa em Perdigão, quando o Vasco vencia por 2×0, com um jogo tranquilo; penalti não marcado a favor do Vasco, quando estava 2×1.
 
- Flamengo 1×0 Santos – os santistas reclamam impedimento no gol rubro-negro.
 
Deve ter tido mais jogos, esses são os que me lembro de cabeça. Coincidências, coincidências. Eu diria que o Sr. Roman tem um bom imã para confusões. E uma maneira padronizada de lidar com elas.
 
Mas o Sr. Roman pode ficar tranquilo. A família CBF não deixa seus bambini na mão. Este ano, o Brasil indicou dois novos árbitros para o quadro da Fifa. Ganha um apito de chocolate quem adivinhar o nome de um deles. Exatamente. Evandro Rogério Roman foi premiado com a indicação. Deve ter sido uma recompensa pelos “serviços prestados”, não?
 
O leitor pergunta quem foi o outro árbitro que foi indicado à Fifa este ano? Pois não, o QsQ satisfaz a sua curiosidade. O outro árbitro que recebeu o prêmio pelos “serviços prestados” à CBF foi Marcelo de Lima Henrique. Isso mesmo. Aquele árbitro que foi sequestrado antes da final da Taça Guanabara, e saiu dando pulinhos de felicidade pela vitória do Flamengo, ao final da partida.
 
Como existem coincidências nesse futebol brasileiro, não é? Deve ser por isso que o Alan Kardec está quase sendo vendido para o Paris Saint Germain…

A (S)anta ceia

5 Fevereiro 2008

OK, OK. É notícia velha. Mas a culpa é da Telemar, que me deixou praticamente uma semana sem internet.

Luís LI, o Rei-Nu, soltou mais uma das suas pérolas, comparando uma reunião ministerial à Santa Ceia:

- Eu fico imaginando que muitas vezes nesta mesa aqui parece a Santa Ceia, todo mundo reunido, depois passamos um ano sem conversar.

Fica implícito que ele, Lula, é o Jesus Cristo revivido. A Brigada Petista já saiu tentando botar panos quentes, dizendo que isso é exagero, que foi apenas uma piada do presidsente, etc e tal. Além de tudo, os membros da Brigada são hereges, esqueceram o evangelho do profeta Luís LI. Lembrem do que o Voço Guia (Espiritual) disse, na campanha de 2006, comentando sobre os “meninos aloprados” que armaram um dossiê fajuto contra seu adversário:

“Não será o PT o único partido a ter companheiros que cometam erros. Numa mesa de 12, um traiu Jesus Cristo e, na mesa dos Inconfidentes, um traiu Tiradentes.”

OK, OK. Isso também pode ser visto apenas como uma metáfora. Mas tem mais. Essa foi de um comício em Goiânia, em setembro de 2006:

“Qual é o orgulho que eu tenho? É que hoje vocês têm consciência de que qualquer um de vocês está preparado para governar este país. Cada um de vocês é uma célula do meu corpo, cada um de vocês é uma gota do meu sangue.”

Mas, ainda que ele pense ser o novo Cristo, é bom que Lula saiba que existem algumas diferenças entre a Santa Ceia e a reunião do seu ministério.

1) A Santa Ceia teve 12 apóstolos. A reunião ministerial conta com Lula, 37 ministros, e os líderes do governo na Câmara e no Senado. O que dá um significativo total de 40 convidados. Quarenta são os que sentam à mesa do senhor Lula. Quarenta, como os quarenta mensaleiros.

2) Na Santa Ceia, havia apenas UM Judas. Apenas UM traidor. Apenas UMA pessoa na mesa que se vendia por “trinta dinheiros”.

3) Jesus, o original, dizia que Pedro o negaria três vezes. Luís LI nega os seus apóstolos o quanto for preciso, dizendo “eu não sabia de nada”.

(Um flagrante da reunião ministerial da corte de Luís LI. Embora o Cardoso jure que é apenas um inocente anúncio de inseticida.)

Essa história toda de Lula se comparando a Jesus me lembra uma antiga piada, adaptada para a situação:

Lula fazia um discurso, quando um bêbado subiu ao palco.

- Olhem bem para este homem! Não é verdade que ele tem a barba de Jesus?

- Siiiiim!

- Não é verdade que ele, como Jesus, diz que deu pão a quem tem fome?

- Siiiiiim!

- Não é verdade que ele, como Jesus, foi traído por seus apóstolos?

- Siiiiiim!

- Então o que vocês estão esperando pra crucificar o fdp?!